sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

EU ERA ÍNDIO

-Como assim era, não és mais?
-Não sei dizer direito porque minha história se perdeu, não tenho herança, mas uma coisa é certa. Eu era índio...
-Continue, faz favor. Se não sabe de sua história, como saber que era índio?
-Sou brasileiro, neto de alemão com índio por parte de pai e neto de italiano com índio por parte de mãe. Conheço as histórias de família (europeia) de meus pais desde muito antes do século XV, moro no Brasil que é também terra de meus ancestrais muito mais velhos que estes todos, porém minha história indígena foi apagada, como se apagam rastros de areia.
Como sei que era índio? Pela cor da minha pele, pelo meu aspecto físico, e também pela minha vontade de o ser.
Seu Fabio era um velho, que viúvo era solitário agora, gostava muito de conversar. E Ana como toda mulher moderna, tinha muitas coisas para fazer, mas quando seu Fabio queria, sabia muito bem deixa-la curiosa.
-Sente-se minha querida, vou te contar nossa história.
Desde o ano de 1500, com a descoberta do Brasil, o mundo vem tentando apagar da memória dos brasileiros sua origem, sua cultura e sua história. Pergunto-me as vezes se ninguém percebe que as aldeias sumiram, as crenças sumiram e a verdadeira origem desta terra vai sendo enterrada  lá no meio da floresta que também vai submergindo, e no lugar delas assumimos culturas dos conquistadores como se assim também fossemos. Não somos conquistadores, somos desta terra, e misturados aos nativos, nos tornamos também nativos. Nas civilizações nativas haviam vários povos, alguns de guerra e povos de paz e ambos foram sufocados por uma minoria branca que agora assola a terra como se fosse erva brava. Os índios à beira mar recebiam os estrangeiros com festas, e davam suas mulheres em deferência  como prova de hospitalidade. É verdade que se fosse hoje, eu não dava a minha nem morto. Risos...
-Eu nem sabia que o senhor se importava com sua parcela indígena.
-Nem me importava mesmo, mas não quer dizer que a situação não exista.  Negar ou ignorar, não sei o que é pior.
Fábio contempla a nora e pergunta:
- Seu marido já te contou qualquer coisa?
-Não seu Fabio. E Ana se senta...E o velhote continua...
-No idos de 1822 o Brasil promoveu uma imigração de alemães oferecendo algumas facilidades que incluíam  o custo de sua passagem, uma porção de terra, algumas vacas, porcos, galinhas, e um salário para cada colono nos primeiros dois anos. Tudo em troca de colonizarem o Rio Grande Do Sul. O que os livros não falam, é do assassinato dos nativos que povoavam a região toda. Os imigrantes matavam os selvagens sem restrição alguma... E foi assim que um antepassado meu, em uma caçada, pegou minha Bisavó. Ele matou o macho da família e carregou a fêmea com um bebezinho de colo.
-Sua bisavó era o bebe?
 -Sim. E Ana se espanta.
.-Seu filho nunca me contou isso!
 -Porque lhe diria, se ele mesmo já esqueceu. É verdade que nem fizemos questão de lembrar de algo que não é do agrado de ninguém saber.
Tem uma coisa curiosa nisso sabe. Apesar de querermos apagar nosso passado indígena, quando vamos a universidade ou em viagem ao exterior que seja, só o fato de nos saberem brasileiro, já nos imagina vivendo como se nativos ainda fossemos, e depois, nós é que somos ignorantes. Risos...
-O que não quer dizer que não há nativo também, claro.
A maioria já esqueceu de verdade que um dia foi índio. Eu também havia me esquecido, e só fui lembrar-me  há pouco tempo quando soube da situação da hidrelétrica de Belo Monte, e cada vez que lia o relatório técnico da usina, ia me dando uma tristeza imensa. Devo estar ficando velho e cansado querida, pois pareço estar revivendo uma história que minha vó me contava quando pequeno.
Percebendo a comoção do sogro a nora levanta-se e coloca uma água no fogo:
-Fique calmo seu Fábio, vou fazer um chá, e continuamos esta nossa prosa.
Que estranho isso! Nunca sogro havia lhe falado mais que meia dúzia de palavras e agora... Estavam os dois ali na cozinha, e ele contando-lhe aquelas coisas todas.
"Será que está senil! Meu Deus um homem tão importante e agora se preocupando com índios, que triste!"
A noite André escuta calado o relato da esposa sobre o que se passou...
-Ele está triste e solitário amor. Temos que fazer alguma coisa, do contrário seu pai vai deprimir.
-Não sei o que fazer querida. Papai sempre foi um forte e fechado. Acha que só você não tinha assunto com ele?
Sempre foi ótimo pai, mas só pai. Ensinou-me a respeita-lo com certa reserva, quero dizer que não temos intimidade. Sem a mamãe por perto está difícil para nós dois. André disse isso quase sem pensar, e quando se deu conta...
- Vou tentar alguma coisa querida, mas não prometo nada.
E Foi nesta noite que pai e filho se abriram intimamente, e falaram e falaram, um para o outro como jamais fizeram.
A compreensão do filho para com a solidão do pai foi comovente.
-Fiz fortuna só pensando no nosso próprio bem estar. Nunca pensei que eu podia ter demais enquanto outros, nem de menos conseguiam.
Fui criado dentro do capitalismo mais selvagem e impiedoso, e ficava desesperado dentro desta sociedade imediatista. Parei de pensar faz muito tempo e talvez fosse pela própria falta disto, de pensar que acabei por ficar insensível e obtuso.
Pois é... Agora estou com tempo filho e por isso, recomecei a pensar ou repensar, que seja.
O filho comovido abraça o pai.
-O que você decidir, eu te apoio pai.
-Obrigada meu filho, muito obrigada. E se eu nunca te disse, digo agora. Tenho muito orgulho de você.
No dia seguinte o sogro estava de malas prontas e se despedia...
-Posso fazer algo, para que o senhor mude de ideia?
O velho sorri mansamente...
-Que é isso menina?  Eu vou e volto... Só preciso saber o que se passa no Xingu e o que posso fazer para contornar esta burrada toda. Os índios precisam de todo reforço possível e farei o que for necessário.
Chega de pensar só em lucros financeiros.
Guerreira Xue