segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Natal Estapafúrdio De Zacarias Bento...Por CMaria


Natal Estapafúrdio De Zacarias Bento

Zacarias Bento deitou-se no sofá e, por momentos, conseguiu esquecer que era véspera de Natal. Depois, cedeu à tentação de ligar o velho televisor, encaixado numa estante a abarrotar de livros e fotografias, e a ilusão esfumou-se perante os noticiários televisivos da noite de vinte e quatro de Dezembro. Desligou o televisor, exasperado com aquilo que lhe pareceu ser um ataque pessoal, levantou-se e caminhou até à cozinha, do outro lado do corredor, impecavelmente limpa pela mulher-a-dias e pelo pouco uso que Zacarias lhe dava. Abriu e fechou alguns armários até encontrar a embalagem de Corn Flakes que comprara no dia anterior, abriu-a, comeu alguns flocos, e levou-a consigo no regresso à sala, pousando-a, aberta, na pequena mesa ao lado do sofá, que mal dava para o candeeiro de leitura. Inspirou profundamente e, com renovada intenção de ignorar o Natal, voltou a instalar-se no sofá.

Não chegou a deitar-se completamente: três toques de campainha, enérgicos e sincopados, fizeram-no saltar do sofá. «Mas que raio... Esta gente não sabe tocar para o andar certo?», pensou Zacarias Bento enquanto percorria o longo corredor, com intenção de abrir a janela da sala de jantar – a única que dava para a fachada do prédio; uma importante mais-valia num edifício muito anterior à invenção do vídeo-porteiro – antecipando já as palavras com as quais invectivaria o incauto visitante. Antes de chegar à sala, porém, ouviu uma voz feminina do outro lado da porta da escada: «Senhor Bento, está aí?» Zacarias reconheceu o timbre agudo da vizinha do rés-do-chão esquerdo, dona Etelvina, viúva mais experiente do que ele, a quem a sua saudosa Zélia costumava encomendar umas empadas de galinha «à moda de Estremoz» que até não eram nada más. O que se teria passado? Algum acidente na cozinha?

Abriu a porta e deparou-se com um insólito espectáculo: metro e meio de dona Etelvina a arfar de cansaço entre dois grandes cestos, cobertos por panos com horríveis motivos de Natal. «Boa noite, senhor Bento! Dê-me aqui uma ajuda que quase morri a acarretar isto tudo desde lá de baixo.» «Boa noite, dona Etelvina. Mas a senhora quer ajuda para fazer o quê, exactamente?» «Para levar isto para cozinha, claro. Senão, como é que fazemos o jantar?» «Cozinha, fazemos, jantar?» «Ó senhor Bento, não me vai dizer que se esqueceu que hoje é dia 24...» Sem esperar por uma resposta, a dona Etelvina levantou os cestos com grande esforço e fez menção de entrar. Perplexo, Zacarias Bento afastou-se e a pequena criatura lá passou, acabando por pousar os cestos no corredor. «Então, vou andando para a cozinha, está bem?»

Ainda quis impedi-la de avançar e tirar a limpo aquela história do jantar, mas a sua atenção foi desviada pela chegada de mais alguém: o senhor Matos, dono da pequena frutaria da rua, que acabara de subir os últimos degraus, trazendo vários sacos de plástico, através de um dos quais claramente despontava a rama de um ananás. O senhor Matos cumprimentou-o alegremente e, antes de entrar, fez questão de lhe dizer que não valia a pena fechar a porta, porque, quando estava a chegar ao prédio, vira o professor Dias a arrumar o carro. Aparentemente, o professor Dias tinha ido buscar um bolo-rei à Confeitaria Nacional, porque era «o melhor de Lisboa».

«O professor Dias, do terceiro esquerdo, também? Será uma conspiração?», perguntou-se Zacarias Bento.

Só podia ser uma conspiração: depois do professor Dias, que apareceu com o bolo-rei e a guitarra com a qual habitualmente andava, bateu à porta o senhor Gustavo da farmácia, sem medicamentos, mas com duas garrafas de um vinho tinto que assegurava ser «uma das melhores pomadas» que experimentara naquele ano e, por fim, a dona Isabel da papelaria, com enfeites de Natal e uma grande taça de sonhos, o único doce natalício que aprendera a fazer decentemente.

Zacarias Bento não se atreveu a perguntar se devia esperar mais alguém – com receio da resposta – mas a verdade é que a campainha permaneceu silenciosa e, assim, rendido à inesperada invasão, em parte por pura perplexidade, limitou-se a agir como espectador involuntário de uma improvisação teatral, respondendo apenas quando questionado sobre coisas tão simples como a localização de um tacho, dos talheres ou de uma toalha.

Já à mesa, decorada e enriquecida com as ofertas dos convidados, a dona Etelvina garantiu que o bacalhau era do bom, que «até falava sueco». «Norueguês, dona Etelvina», corrigiu o professor Dias, «o bacalhau vem da Noruega, logo, se falasse, seria norueguês.» «Norueguês, sueco, é tudo para aquelas bandas, não é verdade?» «Eu, se não se importam, prefiro que a comida se mantenha em silêncio», confessou Zacarias Bento; a gargalhada foi geral.

Depois do jantar, o professor Dias ainda reuniu coragem para pegar na guitarra e cantar algumas músicas de Natal, acompanhado pelas vozes desafinadas das senhoras. Zacarias Bento acabou por ir buscar uma velha garrafa de vinho do Porto, para «ajudar a empurrar o resto do bolo-rei e dos sonhos, já que ninguém vai conduzir».

Passava da uma da manhã quando a dona Isabel se levantou, dizendo que talvez fosse boa ideia ir andando para casa, porque mesmo sendo Natal tinha algum receio de regressar sozinha. De imediato, o senhor Matos e o professor Dias se ofereceram para a acompanhar a casa. A dona Etelvina insistia em ficar para lavar a loiça, mas Zacarias Bento recusou taxativamente: «Nesta casa, quem cozinha não lava a louça.» A vizinha sorriu agradecida e recolheu os cestos. Despediram-se todos agradecendo a generosidade dele. Zacarias Bento encolhia os ombros: «Mas qual generosidade? Vocês é que tiveram o trabalho todo!»

Finalmente só, apagou as luzes da sala de jantar, da cozinha, da sala de estar e percorreu o longo corredor até ao extremo da casa onde se encontrava o quarto. Deitou-se na cama sem se despir e enrolou-se no edredão. Estava muito cansado. Adormeceu agarrado à fotografia da sua Zélia. «Se ela tivesse visto isto... Foi o Natal mais estapafúrdio da minha vida!»

* * *
Dois andares abaixo, na cozinha do rés-do-chão esquerdo, Etelvina dos Santos pousou os cestos, agora mais leves, encheu de água e ligou a chaleira eléctrica, para um sacramental chá de cidreira, que lhe acalmasse a vesícula, desafiada pelos excessos da consoada, e lhe oferecesse algumas horas de sono reparador. Enquanto a água aquecia, o seu olhar deslizou para um papel preso à porta do frigorífico com um Pai Natal magnético. Numa letra bem desenhada, Zélia Bento escrevera um insólito convite para uma ceia de Natal, a realizar após a sua morte, que terminava com as seguintes palavras: «O meu marido não aceita convites para passar a consoada em casa de outras pessoas. Ainda assim, se Zacarias não vai ao Natal, talvez o Natal possa ir até Zacarias? Conto com a sua ajuda.»

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(c) 2011 C Maria Elias