sábado, 9 de abril de 2016

Um cinturão – Conto de Graciliano Ramos

As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.

Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.

Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé do turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.

Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.

Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.

Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.

O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.

Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.

A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal. Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos – e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás de caixões, livre do martírio.

Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que gogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.

Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.

Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me num desespero.

O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.

Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.

Pareceu-me que a figura imponente minguava – e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.

Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.

(RAMOS, Graciliano. Um Cinturão. In: Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Org. MORICONI, Ítalo. Rio de Janeiro: OBJETIVA, 2000, p.144-146)


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Abraço- por Ana'Carvalhosa

Abraça meu corpo...
como quem abraç o infinito
daqui até onde o univeros imenso alcance
abraça minha alma na tua barca me leve...
nas tuas velas me sopre o pó que há nelas
por uma gota de água perdida
nesse mundo inteiro e distante
húmidos olhos te vejam
no manso fogo do infinito do amor
onde te banhas ar puro de respirar
vulcão de na tua mão amar


https://www.facebook.com/carvalhosaana


Poema Infinito (293): A Flor do Desaparecimento

Imagino a graça mágica de semear versos, de tecer poemas, de adivinhar destinos, de libertar Sansão da sua força e das leis movediças da santidade. Procuro, no meio das colunas em pé, as linhas do teu corpo, o dia, a noite e o tempo mais breve com que se mede a eternidade. Alguém descreve a aparência da verdade e sorri conforme viu sorrir as estátuas sonolentas, fechadas na mudez da sua configuração de pedra. Pelos fios do luar descem duendes vestidos de melodias sombrias e param junto de um homem que se ilumina nas chamas da sua fogueira secreta. Os duendes enviam sinais que se perdem no espaço. Desta forma celebram a sua inutilidade. O poeta voa agora através da escuridão em busca da fonte de luz. O tempo por vezes para. Dentro dos templos a luz transforma-se em granito. Os deuses que erguem as mãos já não servem para nada, nem auxiliam ninguém. As almas ficam silenciosas, como os livros. A um canto, uma rosa desobediente amanhece. Dizem que é apenas um milagre vazio. A beleza é moldada em bronze. A César o que é de César. A salvação é quase eterna. A Deus o que é de Deus. Os judeus continuam a percorrer o destino das tribos perdidas. A explicação do mal de que são vítimas não tem fim. O seu rei faz os milagres com as mãos e com os pés e explica-lhes no fim o que é a verdade dividida. Toda a ilusão é trágica, a noite rouba-lhe sempre a luz. Desde que o primeiro homem desejou a primeira mulher, nasceu a lei da incerteza. Depois Deus lembrou-nos que éramos todos irmãos, mesmo aqueles que não o querem admitir. E matámo-nos uns aos outros. E lavámos as mãos. E o medo. E enfurecemo-nos. Deus disse então que toda a fúria era maldade. Que a castidade era um cinto. E que não mentia. Construiu o mundo como se fosse uma sinfonia. De boas intenções está o inferno cheio. A luz que nos guia tolda-nos a razão. Nasceu então a santidade dentro dos homens. E começaram as ressurreições. Os espíritos cobriram-se com mantos, os corpos foram possuídos por espasmos e clarões. As montanhas tocaram o céu. Os anjos ganharam asas. Os homens conquistaram o pecado. A vida ficou em silêncio, como os bichos. Apagou-se então a candeia da criação. As virgens adormeceram. Os amantes ganharam asas. Os anjos cortaram-nas. Deus colheu a luz da verdade e acendeu as estrelas na noite e incendiou os montes. E fez nascer o sol. E obrigou-nos a cantar hossanas. As dúvidas aumentaram. A realidade teceu os ciprestes no paraíso. Os homens cantaram as virtudes do seu Senhor e aceitaram a demonstração de que eram feitos de barro. Depois nasceu o mar e as ondas. A nossa angústia e as nossas emoções ficaram salgadas. O primeiro poeta morreu abraçando a primeira sombra do primeiro cipreste. Deus fechou-lhe os olhos. Iniciou-se a primeira aventura celeste. Ecce Homo botou corpo e figura. E aprendeu a ler, a escrever, a contar e a rezar. E a chorar. Fez da paciência a sua erudição. Deus transformou-se no anfitrião da sua própria ausência. O Criador criou a sua própria ilusão. Criou o tempo, o principal anjo da morte. A criação da Criação é o seu mistério mais sombrio. Nem a beleza de Deus resiste à eternidade. O movimento de tudo é o nada. O chão duro não consegue receber a semente. Os milagres apodrecem, mesmo que sejam amortalhados em véus brancos. O cântico da vida é o eterno cântico da aflição. Louvado seja o Senhor.

João Augusto Madureira Ferreira
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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Não Sei Quantas Almas Tenho - Fernando Pessoa

"Trago-vos esse poema do Fernando Pessoa, um homem que encontra no interior de si, os tantos paralelos de sua própria alma. Talvez uma reflexão sem conclusão, pois cada um é uma legião".

Não Sei Quantas Almas Tenho 

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Onde Estás?

Eu te vejo, não te olho
Eu te ouço de longe
Eu te sinto, não te toco
Pareces tão perto...

Não sei como és
Não sabes como sou
Mas sou como a chuva
E tu és como meu sol

Quentes são tuas palavras
Frias estão minhas mãos
Minha pele arrepiada fica
Ao som querido da tua voz

Um dia tu me virás
E eu estarei aqui...
Neste dia eu te verei
Saberei estão quem és

Tocarás meu corpo com gosto
E eu tocarei o teu como poucos
Falarei as palavras que quiseres
E tu me dirás as que eu quero

Então não estarei mais só
E tu não estarás mais só
Minha vida poderei te oferecer
E tu me oferecerás a tua

Ainda não sei como és
não sei de onde vens
Tu não sabes como sou
Mas saberás como me achar

Então te verei e te olharei
E te ouvirei... perto
E te sentirei, te tocarei
E estarás finalmente em mim.

Suzana Palanti
https://www.facebook.com/suzana.palanti
http://vozesdeumaescritora.blogspot.com.br/
Foto: Mappelthorpe

terça-feira, 5 de abril de 2016

Aurora


A liberdade do crepúsculo tremula.
Escuto o alarido dos pássaros do Sertão.

Debruço-me no ninho do Cosmo.
Minhas mãos trabalham no vazio.

Minhas mãos trabalham na imensidão.
Longa batalha em busca da beleza.

Da boca dos pássaros, os violões do Sol.
Rezo benditos e grito os nomes da Terra.

Contemplo a mansidão do silêncio que voa.
As minhas sandálias são feitas de aurora.

De meus dedos esplendem labirintos.
Meu caminho é o strip-tease da solidão.

José Inácio Vieira de Melo

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A Construção do Humanismo- part2

Passar pela desconstrução humana é natural no tempo, pela razão que vivemos em sociedade e são inúmeras as vezes que controvérsias confrontam-se de maneira tal que é inevitável o choque.
Quanto a reconstrução do Ser que ergue-se novamente, o interessante seria saber que altura da antiga construção deu a ruptura para causar tamanho estrago, pois não repetir a falha é um considerável progresso da humanidade.
Esse ciclo interminável segue adiante até que atingiremos a perfeição?
Não saberia responder-vos. O que sei é que os ventos vieram e se foram, e vieram novamente. Pode que tivessem a mesma força, ou não.

 Guerreira Xue/Hilda Milk
https://www.facebook.com/GuerreiraXue

A Construção do Humanismo

 Por que a fé é cega, se nossos ouvidos escutam o barulho das bombas, se o nariz sente o cheiro da carne queimando?
Por que ter esperança escondendo-nos de nossa gente, e prostrados esperamos um super-herói que brotará do chão ou cairá do céu?
 Porque fazer a guerra em nome da paz já foi testado, desde os primórdios até os dias atuais. 
Então o que falta para acabar com a matança, se o ato de matar não torna-nos melhores?

E na hora do julgamento quem estará no banco dos réus, senão eu? E serei eu o carrasco de mim mesmo.

Guerreira Xue/Hilda Milk
https://www.facebook.com/GuerreiraXue/


domingo, 3 de abril de 2016

Casa de Fazenda - do Livro Maldito Sertão

             Apoiado na espingarda, o velho já não tinha mais a força de antes: sentia como um bacurim deitado em cima do peito. Um punhado de areia soprando em seus olhos cada vez mais pesados. 
             Até que o relógio grande na cozinha badalou meia – noite. E ele deu um pulo, aconchegando a espingarda no peito como quem aninha uma criança. 
               Mas aconteceu foi nada. 
               Deu outro empurrão na cadeira e aguçou os ouvidos.
            Só ouviu a lua grande, do lado de cima, reluzindo na arma e começou a sentir, devagarinho, a esperança indo embora. 
               Agoniado, sacudiu pra bem longe aquela idéia.
               Podia pensar que tava derrotado era de jeito nenhum.
             Lembra não, da vez que a seca comeu seis meses de plantação? Que foi emboscado pelo adversário político? 
               Pois então.
              Era a voz da mulher passeando pelo vento até o seu juízo.
           Só que agora não tinha mais mulher, não tinha mais filha; nem Deus tinha mais. 
          Só a espingarda. E se quisesse ficar vivo, tinha que se valer era dela mesmo.
           Porque era velho sim senhor, mas ainda acabava com a raça daquele filho do demo. Daquela besta fera.
              Suspirou pesado. Ainda tinha tempo. 
             Se levantou da cadeira e quis tomar um café. 
            Mas se virou de repente prum uivo desesperado que rasgou o céu daquela noite tão clara. 
            O bicho. Parado em frente à varanda. 
             Apareceu em um piscar de olhos, uma cochilada de nada.
         Tava certo, finalmente. Era bicho não. Se tava em pé? Um cão ou uma raposa, ainda que fosse, não ia conseguir ficar em pé de jeito nenhum. E o uivo. Quase como uma fala de gente.  
            O velho apontou a espingarda. 
        Num deu tempo nem de piscar os olhos quando o danado correu pra escadaria da varanda, e o velho viu aquele olho vermelho tirando um fino da cara dele, sentiu o cheiro da baba prateada, escorrendo faminta no peito daquela criatura. 
            Agoniado, teve foi vontade de partir pra cima e morrer matando. De rasgar também, morder e sufocar, com mão e dente.
            Foi tanta raiva que quase não acertou o dedo no gatilho.
            Quase.
           Porque a espingarda, tinhosa que só ela, cuspiu no peito do bicho as balas derretidas no tacho de rapadura. Feitas na noite passada, com toda a baixelada da cozinha; do jeitinho que a mulher, em sonho, mandou.
          Rapazinho de novo, o velho recarregou com firmeza a arma. E disparou de novo. E de novo. 
          Com o peso das balas, o bicho voou de costas e caiu ciscando no chão, dando um uivo gemido.
          Até que se calou.
          E novamente, naquela noite de lua, só se ouvia a zuada das cigarras e o chiado das folhas do juazeiro lambendo a cancela do portão.
           Foi sentindo nas suas pernas o peso todinho da idade, que o velho desceu as escadas. 
           Agarrado no terço bento que trazia no pescoço, fez as pazes com Deus.
           E chegou perto. 
            No que sobrou do galinheiro, o galo cantou. 
        Cada uma das cruzes do quintal, agora vingadas, empurravam-se em sombras pra ver a morte do carrasco.
Márcio Benjamin in Maldito Sertão
https://www.facebook.com/malditosertao/?fref=ts
  

A Valsa - Casimiro de Abreu

A VALSA

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...

Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!
Casimiro de Abreu