quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Retrato Desbotado por Edgar Izarelli de Oliveira

Ao dizer que gostei e li por tres vezes já o livro "Porta Encostada, conversando com o autor, disse-lhe que ia postar aqui  “A caixinha mágica”, mas Edgar logo retorquiu que todos gostam muito desse poema. Então pensei melhor e resolvi escolher outro poema e sabe por quê? Todo o livro é muito bom!

“Retrato Desbotado”
Busco uma metáfora morna e mediana
E, em certas partes de certos termos, até falsa...
Busco uma metáfora que, mesmo em estado decadente,
Explique ou, ao menos, exponha a intimidade dessa poesia intimista,
Mas, sei, corro o risco de banalizar os acontecimentos
E usar uma comparação simplista para falar de coisas profundas...
 Meu coração não é peça de carne recém cortada
Nem perna de cadeira toda arranhada pela finalidade de afiar garras felinas;
Minha mente não é labirinto de paredes desconexas entre vagos paradoxos
Nem viajante condenada a encontrar o sentido na jogada do xadrez inconsciente;
Não sou um ursinho de pelúcia guardado numa estante distante
Nem me sinto esmagado pelo peso das várias acepções de verdades e mentiras...
Não choro e nem rio, apenas continuo, talvez um pouco mais só e sem cor...
Um pouco mais solitário e sem cor, meu sentimento é como foto antiga,
Daquelas que a gente tira e espera a imagem se formar no cartão branco...
Mas vem o tempo que, trazendo a corrosão dos traços e contrastes,
Rouba as cores e a nitidez e, por fim apaga o último esboço da imagem;
Deixando uma folha de filme vazio como recordação rasgada por si mesma...
Eu até podia implorar uma máquina digital, dessas modernas com lente retrátil,
Mas ser convertido em pequenos números não me parece felicidade...
E a máquina antiga – capaz de fazer a arte acontecer – se perdeu das mãos hábeis,
Assim como eu, num antiquário longíncuo de um avelha casa de quinquilharias.

Do livro Porta Encostada
Entre a Resiliencia e a Obsessão
https://www.facebook.com/edgar.izarellideoliveira





terça-feira, 4 de outubro de 2016

Inaldo Tenório de Moura Cavalcante e o livro História de Esquecimento

A História de esquecimento de Inaldo Tenório de Moura Cavalcante nos leva por caminhos vividos em momentos de perda, e os sentimentos são mastigados até a exaustão registrando com isso, a ausência. Porque para esquecer é preciso ter vivido.
Algumas narrativas são tão tristes que é um alívio esquecer, por outro lado, como esquecer aquilo que sangrou tanto? Como esquecer o pai, que amou e criou? Esquecer a filha que não veio? O Garoto que não cresceu?
O narrador é quase invisível ao descrever as angustias diárias de seus personagens, que são gente simples e os acontecimentos corriqueiros, mas refletem a dor do não contornável, do que não se pode mudar, e que será fatalmente fadados ao esquecimento.
E não existe uma saída, e nem precisa, pois o que o autor propõe é viver primeiro, como em o “Encarcerado”, depois é ver o que o leitor diz, ou como a vida segue.
O livro História de Esquecimento é para que não nos esqueçamos de quem somos de onde viemos e para onde vamos.
Inaldo é mestre na simplicidade, meticuloso na construção de seus personagens e especialista no humanismo de suas narrativas.

Comentário sobre “EU”
O conto EU traz a tona casais corriqueiros, que vivem décadas juntos e de repente descobre-se que existe mais lá fora, e que não conseguem mais sair à busca do “novo” junto. Ora porque cansaram e sair da zona de conforto não interessa mais. Ora porque perderam a vontade de estarem realmente juntos.
Que existe mais lá fora, todos sabem, então quem quiser que vá.
Assim sendo não era mais “Nós” e sim “Eu” simplesmente.
Quem terá a coragem de mudar e assumir a nova situação? A grande sacada do autor está em deixar a iniciativa para a mulher, que mesmo insegura propõe a mudança. Porque em geral poucos homens assumem essa responsabilidade, a da separação. Os homens preferem viver a hipocrisia de um casamento duradouro, buscando para si um alívio de suas frustrações noutras camas, do que assumir o término de uma relação, que teve seus momentos, mas desgastou.
O quadro, a pintura, é um pequeno detalhe no texto, mas que faz toda a diferença na conclusão da narrativa. O Homem, que tinha levado o quadro, enfim se apercebeu da importância do quadro, devolvendo, e da pessoa na mulher.
“EU” é uma oportunidade simples, de rever conceitos arcaicos.





O livro História de Esquecimento tem seu lançamento em Recife

Local  Memorial de Medicina de Pernambuco
Dia 08/10/ 2016 (sábado)
Hora 16:00

domingo, 2 de outubro de 2016

Sobre Elói Alves e seu Olhar de Lanceta

Hoje quero falar-vos de Elói Alves... Conheci esse jovem autor na Bienal internacional do livro em São Paulo em 2014, na época ele lançava seu livro “Sob um Céu Cinzento” pela LP Books.
Gostei de imediato da maneira franca com que o autor retrata a cidade e suas mazelas sociais. A poesia dentro do quotidiano caótico de São Paulo.
A seguir li também seus livros anteriores, o romance “As Pílulas do Santo Cristo” e “Contos Humanos”.
E em 2015 o Elói lançou ensaios críticos sobre literatura e sociedade “O Olhar de Lanceta”. Uma expressão Machadiana que diz muito. Eu pensei logo, o que será que o Elói vai dizer?
Num apanhado da história, o autor partiu do “descobrimento” ao comportamento do homem frente à vida moderna com suas misérias e avarezas, egocentrismo, cultos pseudorreligiosos, e a tentativa incessante de conquistar seu império pela força escravista.
Como explicar tanta atrocidade histórica quando ela é perfeitamente encaixada e aceita na sociedade vigente?  A exploração do homem pelo homem chega a raias da loucura, isso num tempo sem tempo para sentir remorsos, pois a dor do outro, jamais será sentida por quem nasceu branco, rico e senhor.
E o olhar “dele” é objetivo, sagaz e pontual, e o mais importante, uma analogia embasada em grandes referências intelectuais literárias e filosóficas.
E para quem não leu, vale ler.
O que eu penso?  Que Elói Alves traz agora um novo gênero para enriquecer a sua carreira. E fico a espera do próximo, porque de onde veio esse, com certeza virá mais.

Guerreira Xue
https://www.facebook.com/escritoreloialves