segunda-feira, 20 de outubro de 2014

História de Ed & Lua

                                                         


Uma estrelinha me perguntou como conheci a Lua... Minha resposta naturalmente saiu acordando com as regras da escrita poética!

Estrela minha, minha menina, muitas vezes, conhecer não basta, é preciso reconhecer! E foi assim que reconheci a Lua:

Era início de maio, e minha “Dama do Outono” não falha em me trazer a renovação dos ciclos. Um sarau maravilhoso nos acolhia na Casa de Cultura Santa Tereza, a deusa Poetisa me abençoava, me fazia declamar "A Caixinha Mágica" e a mágica da minha caixa pulsante era a Lua, mas ainda não o sabia.
Lua era abençoada pela Música! Brilhava esplendidamente na minha frente, como se pedisse diretamente ao meu sentimento: "Não me abandone jamais!". Eu estava inclinado para o lado errado do meu ser e, cego de mágoas anteriores, iludia-me e cobiçava uma pedra preciosa aos valores terrenos e não reconheci de imediato a deusa celeste que guiaria minhas marés. De certo, porém, algo naquela mulher já havia me cativado. Seu sorriso, seu olhar, sua voz... O abraço quente durante as manifestações do inverno daquele ano.

Levou o tempo calmo, sim, de formamos uma bela amizade até que nos reconhecêssemos almas gêmeas. Ela foi me mostrando todas as suas fases e todos os sonhos que pintava das imagens que via em seu coração. A Lua era um anjo abrindo as asas e eu a guiei no primeiro vôo. O primeiro sinal veio diretamente de seu coração, uma lembrança de alguma vida interior, cheia de simplicidade e alegria, que tínhamos, sem saber, mas querendo muito, resgatado ao nos abraçar.

Lembro-me, como se tivesse sido hoje mesmo, do nosso primeiro encontro a dois. Aconteceu por força do destino, após uma reunião sobre a conferência municipal de cultura... Pedi a ela que ficasse comigo naquela tarde, ela ficou... Eu deitado em seu colo, no banco de uma praça, a conversa transcorria leve como “um sonho de uma noite de verão” sobre a espiritualidade da natureza. A própria rainha das fadas parecia estar presente para dar as primeiras bênçãos ao casal que se formava. As estrelas brilhando sob o sol de primavera e o céu azul de Agosto davam ao local uma certa magia peculiar que nos deixava muito à vontade. Era-me então impossível não a reconhecer minha mulher, minha companheira de vida e até, quem sabe; de outras vidas! Sua beleza refletia claramente a beleza de sua alma. Aqueles cabelos cacheados ao vento, a saia longa, o sorriso calmo, olhar doce que espalhava sua prata sobre meu corpo e o coração melódico e sem pressa.

Mesmo com tantas evidências, eu ainda relutava com a ideia de estar apaixonado pela musa de todos os outros poetas. Muitas outras almas se encantavam e dedicavam á ela a poesia que me era tão amiga e tão íntima travestida em outros estilos, que, aos meus olhos, eram menos suaves, mas igualmente sinceros, ternos, belos...      

A própria rainha das fadas teve de voltar e emprestar, por um instante, toda sua elegância e divindade, à minha sacerdotisa lunar, para que eu, trajado de rei dos elfos, no epílogo de um ensaio, pudesse a reconhecer novamente e dissipar qualquer dúvida que ainda pudesse enevoar a visão perfeita do meu coração. Aquela Lua setembrina era mesmo a rainha da minha natureza!

A partir de então, e de novo, foi a estrela-guia da arte que nos aproximou, mas, dessa vez, sob ares de pretextos. Organizações de eventos, os eventos em si, um novo grupo de teatro, ideais artísticos, poesias de rua, amigos valiosos, madrugadas viradas em versos, apresentações, percepções, muitos carinhos, mútuos caminhos trilhados conjuntamente... Momentos a sós! E “a loucura é”, de fato, “a cura, se o ventre que a concebe a entende por amor!”

A decisão final ainda parecia distante, meus traumas me prendiam. No entanto, a Lua sempre soube desconsertar os muros de meu coração, demostrando com todas as suas atitudes, exatamente o que ela queria. Tão determinada e fortemente, que já me era impossível dizer não. E ainda, para completar as coisas, os ciúmes, às vezes, vêm para o bem... Não a queria roubar do mundo que ela parecia prezar, mas não podia deixá-la ir sem que soubesse dos meus mais sinceros sentimentos e fui forçado a admitir para mim mesmo e para ela que eu é que precisava desse amor! Que eu a "amo como quem espera pra nascer!"

Em resposta, outubro abriu-se com a graça um beijo de amor que me foi, verdadeiramente para mim, o primeiro! A "Cumplicidade" tão natural aos amantes, foi ainda mais natural para nós, que entendemos e apreciamos a natureza de ser natural! Com essa mesma naturalidade, nossas mãos se deram à chance de se mostrar e permanecem dadas até hoje.

Descobri, naquele instante, que é a minha missão maior refletir para a Lua a própria beleza e me tornei mar irrestritamente profundo e transparente para espelhá-la em meus olhos, em minha pele e essência.

De lá para cá, se derramaram pouco mais de 13 luas de amor na ampulheta da vida e elas acompanharam muitas escolhas, decisões, mudanças de pensamento, discussões, crises existenciais, continuidades, a confiança, a intimidade, viagens, trabalhos a dois, sucessos, medos, inovações, saudades crescentes, mandalas da Lua Cheia, chuvas de estrelas e agora a distancia está finalmente minguando...
                                                                                             
Não nos fora sequer necessária a formalidade de pedir, já estava tudo certo para a eternidade que agora começamos a viver! Toda a nossa história registrada pelas sábias mãos da arte! Nossa poesia, toda a poesia que se exala de nosso amor, é uma imensa Luz de Prata que nos cura a alma e nos faz reverberar a força de ser espelho luminoso do amor e de todos os seus obstáculos derrubados!

Amor, minha Lua, meu sentimento por você não para de crescer e já transbordou por todas as futuras páginas da minha história. Muitos livros ainda haveremos de escrever e ilustrar, muitas performances ainda estão por se apresentar, muitas obras-primas pra criar... Mas a arte se tornou mais bela e mais palpável quando se revelou "ESPELHO" da nossa realidade! Espero poder continuar re-conhecendo você dia após dia!    
 Edgar Izarelli de Oliveira
http://edluaartes.blogspot.com.br/
                                       

A VELHA E O CURUMI II

Sentado ao lado da rede da avó, o pequeno Curumim percebe que a velha deu seu último sorriso.
No silencio da taba, a índia se foi, deixando por testemunha o menino que estava encarregado de olha-la.
As lágrimas foram inevitáveis, e os protestos para que ela não o deixasse também.
Curumim não conhecera o pai, e a mãe foi arrumar trabalho na casa de brancos, e tornava a taba uma vez por mês, por dois dias, para retornar em seguida para a cidade.
Agora ele estava realmente só, sua anecê morreu, então o pequeno chorava alto abraçado na índia velha.
Guerreira Xue

domingo, 19 de outubro de 2014

A VELHA E O CURUMIM

_Corre Curumim, busca uma água para mim.
Tenho sede, eu não sei se de vida ou de morte, meu curumim.
A índia estava cega, e male male a velha se alimentava.
E o neto que dela se acercava, correu até a cacimba, trazendo-lhe água numa cabaça. 
_Bebe anacê, está fresquinha. Disse-lhe o pequeno.
Depois de sorver alguns goles, ela deixou-se cair exausta pelo movimento.
_Que silencio! Onde estão todos?
_Foram na festa da barragem. Os brancos convidaram as aldeias todas.
A velha vira-se para o pequeno num meigo sorriso.
_E meu curumim ficou só mais esta vez... Depois tu vais.
Guerreira Xue