sábado, 17 de novembro de 2012

"Premio Dardos"


Este prêmio me foi oferecido por Zé Loureiro do Blog Alma Mineira
O prêmio Dardos foi criado pelo escritor espanhol Alberto Zambadi em 2008.
Segundo seu criador, o Prêmio Dardos destina-se a "reconhecer o valor de cada blogueiro diariamente durante seu empenho na transmissão de valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc., demonstrando, em suma, a sua criatividade por meio de seu pensamento vivo que permanece inato entre suas palavras."
As regras do prêmio estabelecem que os indicados poderão exibir no seu blog/site o selo do prêmio e deverão indicar outros blogs ou sites que preencham os requisitos acima para receberem o prêmio. Agradeço à Zé Loureiro pelo seu carinho na indicação do meu blog, fato que me deixou muito lisonjeada , pois escrevo sempre pensando se irão ou não gostar do que posto. Foi uma honra ter sido escolhida por você amigo.
Obrigada por me considerar merecedora deste prêmio.

É difícil escolher entre tantos blogs que sigo, pois são todos de uma qualidade sem par. Então vamos lá:

Blog ORANGE SANDALWOOD http://orangesandalwood.blogspot.com.br/
Blog Nas Asas Da Poesia        http://fredynapoesia.blogspot.com.br/
Blog Alma Mineira                   http://zemarquesdasminas.blogspot.com.br
Blog da angolana                      http://angolana-a-verdadeira.blogspot.com.br/
Blog A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS COM DENISE ALMEIDA                                               http://denisepoetisa.blogspot.com.br/
Um beijo grande!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Sonho Azul...Conto Partilhado

O pior sonho da minha vida foi ter caído na panela da canja, logo eu que sempre detestei canja! Acordei a berrar, porque não conseguia chegar à berma da panela, apesar de me esticar toda e de ganhar balanço para conseguir alcançá-la! Acordei enojada com a massinha e o cheiro nauseabundo a provocar-me vômitos impossíveis de controlar. Não sei quem se lembrou de inventar sopas com restos de animais mortos a boiarem! Semelhante a isto só a açorda alentejana, aquela do bacalhau cozido numa água lamacenta, a dar vontade de fugir e não voltar a entrar em casa de alentejanos, dos que fazem arroz de açafrão com ovos ao jantar. Eu nasci no Alentejo, mas os meus pais vieram viver para Viana antes de eu ter consciência que detestava canja e açorda aguada.

Sou eu agora, levantou o dedo a Lólinha : - O pior sonho da minha vida foi ter sido interrompido pelo cabrão do meu cão a ladrar às 2 horas da madrugada, quando eu estava a sonhar com os objectivos que me foram impostos no trabalho. Acordei assustada e fiquei mal disposta para o resto do dia. Eu nasci no Norte de Portugal mas a aprendizagem que me deram, desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos mas lá encontrei só ervas e árvores. Depois vim para a terra dos poetas, tornei-me amante do Fernandito, o tal Pessoa que me faz sonhar acordada e que me incutiu o gosto pelas tabernas e pelas punhetas de bacalhau.
A Paulinha é uma garota estranhamente divertida. Hoje veio com a novidade do sonho pesadelo ou pesadelo sonho, sei lá. Algumas pessoas tem um carácter interessantíssimo, sabes? Paulinha é daquelas portuguesas que diz tudo com todas as letras, sem ofender ninguém, claro. Pois se trata de opiniões pessoais sobre generalidades. Penso, por vezes, que quando nós os humildes mortais temos nossas dúvidas , a mocinha tem certeza absoluta.

Já a Felismina! ... Valha-me Deus! ... Cada vez que abre a boca só diz disparates. Às vezes até podia ter graça, mas aquela pose de convencida e aquele olhar vindo de cima, como se estivesse no alto da torre de Monsaraz, não conquistam ninguém; pelo menos a mim, não.
Não sei a quem é que ela puxou, mas aos pais não foi! Coitados, terem uma filha assim...
Estamos as três numa acção de formação. A Lólinha era a minha vizinha mais próxima, eu adorava-a, imitava-a em tudo e o meu desejo mais profundo era ser igual a ela! Já adulta, continuo a sentir que não há ninguém que eu gostasse mais de ser do que como ela! A Felismina, a mais nova das três, é minha irmã, mas não fala com os meus pais há três ou quatro anos, desde que lhes disse que tinha a certeza que era filha do padeiro, por causa da cor dos olhos! Eu falo com a minha mãe todas as semanas, por telefone, mas não me atrevo a ir visitá-la, tenho medo de ser castigada por usar decotes demasiado evidentes!

Minha filha, eu sei que errei ao ler o teu diário. Estavas particularmente embirrenta nesse dia e, depois de ires para a escola, li-o. Eu compreendo esse ódio de adolescente contra os pais. Mas tu também cometeste dois erros: o primeiro é o ódio contra os pais mas, ao mesmo tempo, confiar neles. Erro crasso. O segundo, foi o teu sonho transcrito para a realidade e vivido como tal. E este teve falsas consequências: é que nem mesmo depois de estarmos a viver em Viana a açorda foi essa mistela que descreves. Nunca levou bacalhau.


A sério mamãe! Disse a garota nem lembrando do aborrecimento por conta de sua mãe ler seu diário.
Aquilo fedorento não é bacalhau?! O que é então? Perguntou com um certo receio de saber a resposta.
Esse cheiro é o mundo a desfazer-se aos bocados! Cheira por todo o lado, não é só na açorda! Foi essa a resposta da mãe, e que a deixou estarrecida. Como podia ela ter uma mãe que nunca sentia o mesmo que ela e que parecia sempre estar num mundo diferente do de toda a gente? Era a açorda de bacalhau sem bacalhau, era o cheiro da açorda ser igual ao do mundo a desfazer-se, vá-se lá acreditar numa mãe destas!
Nessa noite sonhei que estava a comer açorda no céu, sentada nas nuvens, a olhar para a terra a desfazer-se cá em baixo. Mas uma açorda de camarão, acabadinha de fazer por uma mãe alentejana, que dizia a toda a gente ter nascido no Minho, numa aldeia recôndita de Castro Laboreiro.

Esses teus sonhos são as minhas açordas, filha querida. Tendo nascido em Castro Laboreiro, de uma mãe que me pariu no inverno no meio da neve, sempre desejei o calor. Por isso tenho mentido a todos dizendo que sou alentejana e nunca soube fazer uma verdadeira açorda de bacalhau. Mas penso em ti filha, tantos anos sem te ver. E agora que voltei à minha aldeia, e sem vergonha de o dizer, também te digo que agora até oiço música pop de um tal Edwyn Collins. E com o meu parco inglês acho que ele está a dizer "a garle laique iu". Quando me vens visitar filha?

Já não teve tempo de responder à mãe. Não que soubesse o que lhe responder, mas uma súbita tontura fê-la desequilibrar-se. Um tom azul celeste inundou-lhe todo o olhar, todo o pensamento, toda a acção.
O mundo ficou azul! E lá estava ela, sentada nas nuvens, com o sabor a açorda na boca, a olhar lá para baixo, a ver o mundo a desfazer-se! A música pop da mãe ainda nos ouvidos, vou ter contigo quando este sonho acabar, mas por favor não me voltes a falar de açorda! Sentiu-se flutuar, maravilhada com tantos tons de azul! Mais escuro, mais claro, finalmente estava a ter o grande sonho da sua vida, um sonho azul! Tinha de o anotar rapidamente para o contar na formação do dia seguinte! Se calhar até podia reflectir sobre ela na evidência sobre a acção de formação que tinha de colocar no relatório! É que nem todas têm sonhos azuis!


Ideia original de Paula Justiça e escrito por Paula, Betina, Augusto, Hilda e Fátima

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cardoso Na Itália...Conto Partilhado

Lembram de mim?
Sei que acontecem muitas histórias todos os dias por aqui.
Porém ,achei por bem voltar e narrar uma viagem que fiz com minha dona até Itália.
sou o Cardoso, o cão adotado por Cátia.
Ha lembrou então....Se sou feliz? Muito feliz e amado. Por vezes nem acredito que sou eu. Penso que morri e moro no céu agora. E Cátia é a melhor mãe do mundo. Não me falta nada. Ainda sou solteiro,acreditam?! Como pensar em casar, com minha Cátia sempre tão dependente. Não, melhor não abandona-la por enquanto.
É verdade que tentei algumas vezes arranjar-lhe um bom partido. Sempre que vamos ao parque eu namoro.
e por minha vez fico de olho a ver se tem algum macho disponível para ela. Já nos meti em cada confusão! de deitar no chão, e rir por algum tempo. Hehehe...
Lembro que uma vez vi na rua, um rapaz muito interessante. Digo isso, porque ele estava carregando três cadelas lindíssimas,quase surtei naquela hora.
Minha dona, distraída como sempre não se apercebeu do gajo. Eu sem demora, dei um puxão na corrente e me enrrosquei com aquelas cachorrinhas lindas. Foi hilário... Demoraram quase dez minutos para desenrolar as correntes todas. Aiii que coisa difícil estas fêmeas humanas, que custava dar uma chance ao moço! Não deu em nada. só rolou um pedido de desculpas e uma leve repreensão, e seguiram seus caminhos.
 Ave maria! se tivesse dado  certo, eu ia ficar muito bem com aquelas tres beldades.
Mas, voltando a nossa viagem turística. Cátia cogitara a ideia de me hospedar nalgum hotel enquanto fosse de férias. Porém, achou que ia ficar solitária e não seria tão divertido sem seu cachorro lindo do coração.
Hehehe!
Não sei o que lhe passa pela cabeça, mas de cada vez que saia sem mim trazia um homem diferente para a cama! No primeiro que ela trouxe dei-lhe uma ferradela no rabo, mesmo quando estava por cima da minha dona, que abuso! Ao segundo, comi-lhe a dentadura e depois enfiei-me debaixo do armário, onde ele nem me via nem me conseguia chegar, e ainda bem, senão tinha-me matado! Ao terceiro, mijei-lhe a roupa toda, mesmo antes de se vestir para ir embora! E o seguinte já nem o deixei entrar no quarto, agarrei-me ferozmente às calças dele e andei a balouçar no ar durante uns minutos até ele desistir da rapariga!
Eu adoro a fêmea que se apelida de minha dona. Mas a verdade é que ela não pensa em mim. Aproveita-se de qualquer macho, ou melhor, aproveitava-se porque eu não deixo mais, e sempre que vamos ao parque, não leva para o hotel macho que passeie cadelas. Eu tenho sentimentos, instintos, desejos. Até tenho um nome. Se não tenho cadela, tenho fêmea com quem durmo todas as noites.
E na realidade não preciso das cadelas para nada, sou muito sensual, só de as imaginar debaixo de mim já me venho! Primeiro começa o coração a bater rápido demais, depois os olhos saem-me das órbitas, todo o corpo palpita, parece que vou rebentar e então rebento mesmo! Mas como não sai tudo de uma vez demoro um quarto de hora, mais coisa menos coisa, para acabar de chapinhar o chão debaixo de mim. Depois fico sem força, as patas de trás escorregam mesmo todas para trás e tento erguer-me com as da frente, mas não vale a pena o esforço, não me movo mesmo! Ainda bem que isto só me acontece mais ao menos uma vez por mês, porque me transtorna tanto que ando o resto da semana completamente nas nuvens! É só por isso que a desculpo, porque ela não tem a minha imaginação e precisa mesmo dos homens debaixo dela para ficar tão aluada como eu fico nas semanas em que me excito só de imaginar a cadela dos meus sonhos!
Voltando novamente à nossa viagem turística, ainda bem que a minha caríssima dona me trouxe. Eu adoro a língua italiana! Já o ladrar italiano não me encanta por demais.
No dia da chegada, depois de aeroportos e mais transportes anexos para poisar no local que seria a nossa casa, fomos à Praça de Espanha. Cátia tinha aquela ideia metida na cabeça desde que vira aquelas coisas de moda passar na TV.
Depois de olhadelas no mapa e muitas perguntas aos transeuntes passantes pressentia-se já o lugar mítico. O coração dela era quase audível, até parecia o meu ao pensar nas cadelas. Depois de sairmos de uma das vias laterais, desembocamos junto a um pequeno chafariz e a minha dona, num ar de decepção, exclamou:
- Ah... mas é isto a Praça de Espanha?
-Sì signorina. Respondeu um jovem, que estava guiando um grupo próximo.
Cátia já havia estado aqui outras vezes em trabalho. Sempre pensava que um dia viria somente para passear. Sentir a magia que sempre se criava para os ensaios fotográficos.
Agora percebia tudo numa perspectiva diferente. Estávamos numa Babel de idiomas. Era bem confuso, com pessoas por todo lado. Sacando suas poderosas maquinas fotográficas.
-Ainda bem que manhã vamos para o campo pensava ela.
Este sim, era lindo. Nunca vi tanto verde...
Mas não, o campo não era lindo, nem sequer assim tão verde, tivemos de ir mesmo para o Norte para começar a ver montanhas estranhas, a pique para o céu, e depois os Alpes, tanta imponência! Agora sim, isto parecia o Paraíso! Dormia aconchegado nela, tinha comida à descrição, logo que acordava, passeávamos o dia inteiro por caminhos e caminhecos, pegava em mim ao colo se aparecia outro cão, mimava-me e falava comigo como se eu fosse o maior amigo dela. E sou!
Um dia acordei a saber falar, disse o nome dela, como pensou que estava a sonhar não se apercebeu que tinha sido eu a dizê-lo. Fiquei espantado comigo próprio, eu, um cão, a falar?! O que seria de mim se descobrirem-me? Programas de televisão, cabeçalho dos jornais, entrevistas em todas as revistas, experiências em laboratório, o circo mais rico do mundo a comprar-me como artista principal, tudo isso me passou pela cabeça, não, não quero falar!
Mas não resisti. Tinha de confirmar se de facto estava a falar como os humanos. Saí da cama com cuidado para não acordar a fêmea que se julgava minha dona e fui à varanda. "Olá gente! Estão a ouvir-me?" gritei para os humanos que passavam na rua. Alguns viraram a cabeça para cima, tentando localizar de onde vinha a voz. -Ouviram-me, mas será que me entenderam?". Nesse momento Cátia acordou.
-Que foi vira-lata? Perguntou sua dona
Quer sair já seu danado. Se vestiu e saiu logo antes que o cão acordasse a vila inteira.
Cátia se perguntava da razão daquela agitação toda.
Quando saíram a rua Cardoso na sua euforia, fez Catia dar um tremendo encontrão num passante que quase caiu por cima dele.Muito contrafeita ela pediu desculpas. explicando que seu cão estava com alguma emergência.
O rapaz retruca logo.- Eu é que peço desculpas, nem vi de onde você apareceu. Espero não te-la machucado.
Porém Cátia já ia longe, quase que sendo arrastada.-Meu Deus será dor de barriga?!
Cachorro doido.
-Quero correr , quero correr até aquela montanha. Pensava Cardoso -Ande preguiçosa, dorminhoca. Preciso viver perigosamente hoje.
E Cátia só parou quando subiram a encosta toda. Agora sentada arquejante na sombra de uma oliveira aos poucos vai percebendo a visão do vale lá em baixo, curiosamente o cão sentou-se a seu lado apreciando o cenário também. E Cátia nem tinha penteado seus cabelos, nem tomado café da manhã.  Começou a rir daquela situação toda mas ria muito, agarrada ao cão. -Seu maluco querido!
E foi neste clima de alegria que fizeram o caminho de volta a vila.
O café da manhã havia acabado com certeza. Agora era se satisfazer com uma fruta e esperar o almoço.
-Ave Maria perdi minha chave vira-lata!
No caminho ela encontra o rapaz que esbarrou na saída  Ele se posta a sua frente e pergunta com bom humor. -Mais calma agora moça?
Ela risonha ainda responde sem pensar.
-Sim, me desculpe novamente por favor. Não sei o que deu em meu cão. Este danado praticamente me arrastou até aquele monte. Não lembro de um dia ter corrido tanto.
-Realmente, vocês pareciam dois maratonistas. Sorrindo também o rapaz tira do bolso umas chaves e diz -São suas estas chaves, suponho, você deixou cair quando esbarramos.
Cátia agradece aliviada. -Ainda bem que não perdi na floresta.
Cardoso se agita enrolando os dois na sua corrente.-Conheço este sujeito.Conheço este cheiro.
Pensava o cão matreiro.
Enquanto conversavam os dois achavam engraçado suas artimanhas caninas.
-Deixe olhar de perto esta "ferinha". Ele parece inquieto mesmo, eu também tenho uma vira-lata.
o rapaz se abaixou para observar o cão e um reconhecimento mútuo os identifica.-Custódio! E olhando para Cátia o rapaz pergunta:-Onde você o achou? Aiii... me desculpe, devo estar doido. Deixe apresentar-me formalmente. Sou Gustavo Correia.
A moça responde.
-Cátia Andrade, muito prazer. Agora explique, porque chama meu vira-lata de Custódio?
-Eu dei este nome a ele. Desde pequeno eu o alimentava todos os dias. Custódio sempre foi meu preferido.Um dia simplesmente ele desapareceu. Ainda o procurei pela cidade por vários dias, achei que podia estar doente ou coisa do tipo.
 -E como sabe que este é Custódio?
-Pela cicatriz que ele tem na virilha da pata direita dianteira E sem contar este olhar... é inconfundível. Heheheheh
 E Cátia insistia: _Porque não o adotou, se gostava tanto dele?
-Não podia .Quando abri meu restaurante, dormia num quartinho nos fundos e pelas normas da secretaria, não me permitiam ter animais no estabelecimento
E foi assim que a vida os colocou de novo frente a frente.
-Aquelas férias foram inesquecíveis. Conta Custodio, ou Cardoso
-O destino pode ter ajudado sim mas foi com um puxãozinho daqui, um empurrãozinho dali que eu juntei à minha volta, quem eu mais amava.
Cachorro bem esperto este.
Se se casaram, eu não sei dizer. Pergunte ao vira-lata, Custodio ou Cardoso.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O RETORNO

Olhando em volta do castelo, Cátia percebe um cão a observa-la.
_Está tudo igual. Só eu, e este cão sarnento destoamos da paisagem aqui.
Concluiu a moça com um leve sorriso.
Cátia, tinha partido para a capital há tempos, em busca de fama e fortuna. E conseguiu.
Porém, uma força a induzia para voltar aquele lugar. Isso podia ser compreensível se tivesse alguém a espera-la, mas não, todos lhe eram estranhos agora, e tão ocupados estavam com suas vidinhas que nem a perceberam ...
Vinte anos se tinham passado e tudo realmente, era passado.
Acenou ao motorista, que prontamente abriu a porta da limousine, para que ela se acomodasse.
O cão não deixava, contudo, de fita-la, sentado sobre as duas patas traseiras, escanzelado e expectante.
_Espere. Diz a moça ao motorista. Andou na direção do cão, que ficou alerta pela  aproximação, porém não saía do lugar.Os dois, se olhavam por momentos que pareceram uma eternidade.
Como ela, este não devia ter ninguém, como que num impulso, ela tira seu casaco lentamente, enrola no animal mansamente, e o carrega para o carro.
Mais a frente, na mesma rua, param num veterinário. O cão faminto é examinado e alimentado.
Explicando que o achou abandonado e que ficara com pena do pobre coitado. Sem mencionar que achou-o parecido com ela.
A veterinária poderia ter dito que aquilo era só fome e falta de cuidados mesmo. Poderia também dizer  que , se ela estava a fim de dar-lhe comida, que desse e seguisse seu caminho, de volta para a sua confortável casa.

Mesmo sabendo que o cão não era dela, a veterinária recomendou:
_Por indicação, ele deve ficar internado até fazer todos os exames.

Que fazer agora? Cátia não queria o cão. Porque cargas d'agua foi juntar este vira-lata?
De novo, outro impulso.
_Tudo bem, no final do dia eu volto.
Ia prolongar um pouco mais sua estadia na cidade, e logo por causa de um cão sem dono!
Andando pelas ruas, Cátia entra num restaurante. Faz seu pedido e espera...
_ Porque peguei aquele cão? Se perguntava
_ Só vim dar uma passeada. e eu a logo embora. Agora sem coragem de devolve-lo à rua, a moça se obrigava a ficar o dia na cidade onde nasceu.
Cardoso (foi o nome que o cão deu a si próprio) estava feliz e ainda mal acreditando na sua sorte. Já tinha tentado este golpe várias vezes mas, finalmente, hoje tivera sucesso. Ele sabia que não tinha doença nenhuma, apenas fome. Se a sorte continuasse, talvez a busca de comida e de fêmea fosse coisa do passado.
Gustavo, o dono do restaurante, estava tendo um dia difícil. Além do calor infernal naquela cozinha, pois o sugador de ar deu defeito, dois de seus garçons resolveram tirar folga por conta própria, e agora, o salão estava lotado de clientes. E ele mesmo havia de se encarregar do atendimento as mesas.
Quando atende Cátia sente que a conhece -Caramba. pensa ele.-Que moça bonita!.
Sem se distrair muito, o dono de estabelecimento vai e vem, leva e busca. Precisava atender os demais.
_ Eu conheço esta mulher de onde!? Matutava o rapaz.
São interessantes os caminhos das pessoas. Motivações constantemente variam dentro da esfera diária de convívio dos seres. Há fatos que só um bom "olheiro" pode perceber.
Nem Gustavo, nem Cátia, nem a veterinária ou Cardoso têm ideia, mas já se cruzaram outras vezes.
O destino os coloca frente a frente, de uma tal forma, que só lhes resta um opção. A escolha.
Vejamos agora onde se "encaixam" os personagens em questão.
No caso do cãozinho, por exemplo: Este, e a veterinária já se haviam cruzado pelas ruas da cidade. E para tristeza de Cardoso,era sempre ignorado. A vida de vadio pode ter lá seus encantos, porém o vira-lata não achava de todo ruim ter um lar.Cardoso tentava com frequência este estratagema.Sempre que podia, preparava aquele"olhar". Se não der agora, quem sabe outra hora...Mas desta vez ele tinha a certeza que resultara. Era o seu dia de sorte, tinha de aproveitar! Um cão não precisa de pensar com palavras para ter a certeza de que será bem tratado por alguém que o acolhe, mas duvida sempre da sorte que tem, porque sabe que não se pode confiar nunca totalmente nos humanos. Ele confiou nela logo que ela pegou nele ao colo. Ela não me quer, foi por impulso que o fez, mas o que me interessa isso, se sei que nunca mais terá coragem de me abandonar! Era o que ele pensava enquanto esperava à porta do café pela sua recente dona. Cátia estava virada para ele, do outro lado do vidro, sempre a fixá-lo, como se tivesse medo que ele desaparecesse de repente. Isso não aconteceu.
Cátia termina seu almoço e paga o devido, agradece e se retira sem se aperceber do atendente.
Uma vez do lado fora, pega o cãozinho nos braços novamente, e se dirige para o carro e ao sentar
 pegou nele ao colo e beijou-o no focinho. O rabo dele abanava tanto, que sentiu vergonha de estar tão excitado, mas não podia evitar, estava mesmo fora de si, nunca nenhuma mulher lhe tinha beijado o focinho!
De repente, sem qualquer razão aparente a moça sente uma alegria imensa no coração.
 _ Que vira-lata lindo este!- Murmura mais para si mesma, que o motorista mal ouviu.
Beija-o como se finalmente o aceitasse como "seu".
Entra no carro e vai embora.
Hás-de pensar ,caro leitor. Só isso? Onde está a coincidência do sujeito do restaurante?
Pois eu lhe respondo de pronto, que sou destino, e não manipulador de vidas.
Tudo está a disposição de todos, neste mundo e ver, é questão crucial, para se aprender.
E no caso de Gustavo e Cátia ambos estavam por demais embrenhados em suas prioridades para repararem um no outro.
Foram colegas de escola na adolescência, e mal se cumprimentava na época.
Não foi hoje o "reconhecimento", pelo que se pode entender.
Em dois anos, eles se encontrarão de novo, na Itália. E mais uma vez, terão a opção da escolha...
Guerreira/ PaulaJ/AA/ BA

                                                 Imagem Net

domingo, 11 de novembro de 2012

MEMORIAL DOS ESQUECIDOS

Betinho andava sempre tropeçando pelas calçadas. Quando não era bêbado era drogado ou vice versa, e não ligava para nada...Todos o conheciam, pois morava em minha rua havia mais de trinta anos.
Pois é hoje o Betinho caiu no meio do quintal de sua casa e morreu ali mesmo o coitado...A  ambulância chegou e logo foi embora dizendo que o IML(instituto médico legal) viria mais tarde, buscar o corpo. Este fato aconteceu as cinco horas da tarde e o Betinho ficou estendido ali, até pelo menos as duas horas da madrugada.
Fiquei sabendo de seu falecimento quase que na "hora" mesmo.
O dia seguinte nos encarregamos de narrar tudo que podiamos lembrar da vivência de Betinho e cada um relembrava o fato corriqueiro ou engraçado compartilhado com amigos e vizinhos...
Sabia-se instintivamente que hoje era o dia de Betinho.
A filha e o filho estavam chorosos mas Elvira, a esposa, não. Se alguém de fora achava aquilo estranho, não dizia nada. Elvira era mulher madura, com seus quarenta e poucos ainda conservava alguma beleza da juventude.Tinha qualquer coisa no olhar, parecia vazia e não triste, só vazia.
Quantas vezes ela tentou abandonar este homem...Uma vez ela voltou por que ele ficou em coma internado por muito tempo, tinha tomado uma surra do irmão de uma amante.
Outra vez que ela teve de voltar por não conseguir dar conta do aluguel dos comodos que vivia com os meninos ainda pequenos.
Se já era difícil aguentar o sujeito bêbado ,imagine aturar também a mãe que vivia no mesmo quintal e era também uma alcoólica em tempo integral!
A morte é mesmo inevitável, viva bem ou viva mal, um dia voce morre e nem adianta fugir, se esconder ou precipitar as coisas.
Há pessoas que chegam até a dizer de que jeito querem morrer.
_Eu quero morrer dormindo.
_Gostaria de morrer sem dor.
_Quero morrer de surpresa.
Adianto que os muitos que sofrem,não é por pedirem para morrer sofrendo.
Lembro-me de quando criança tínhamos medo dos velhos...Alias do que me lembro, parecíamos ter medo de tudo e todos nós,crianças, não queríamos ser velhos nunca!
Mas voltando ao falecido Betinho...
Sua filha, que está grávida,passou mal e teve de ser atendida as pressas no hospital.
A mãe dele, que está internada num abrigo de idosos agora, milagrosamente estava sóbria neste dia.
A única irmã do morto, triste e infeliz também tentava parecer calma e administrar a situação toda.Desde que levara a mãe para morar com ela nunca mais soube o que era sorrir
Elvira que não aguentou mais a sogra, praticamente obrigou a irmã do marido fazer alguma coisa a respeito.A velha senhora ficou uns seis meses morando com a filha e finalmente  foi parar no abrigo de idosos.Contam que uma noite ela surrupiara uma garrafa de wisque e bebeu toda de uma vez e foi para o jardim gritar para quem quisesse ouvir que a filha, uma senhora respeitável, havia sido "puta" quando era solteira. É claro que omitira um pequeno detalhe, ela mesmo aliciara a filha para a prostituição.Tal revelação causou uma grande comoção, abalando a família.De fato que agora, a filha só vai ao abrigo para pagar a estadia da senhora.
Era um dia frio e cinzento este e o corpo do Betinho só foi liberado pelo IML as quatorze horas do dia.
Todos estavam agora muito silenciosos e contidos, cumprindo sua obrigação. Enterraram o Betinho e foram todos para as suas casas quase correndo enquanto o mundo desabava em chuva.
Mais um  que vai condenado, para o memorial dos esquecidos.
Guerreira Xue

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