quarta-feira, 24 de julho de 2013

MALDITA ESPERANÇA!


De onde vem esta esperança
que parece não ter fim?
Mesmo o dia mais negro
A violência  mais cruel
A vida mais pobre
 E ela me segue
Tomando conta de mim

A fome mais dolorida
O coração dilacerado
O amargor do fel
A noite mal dormida
O órfão abandonado

A morte do filho
O barraco queimado
O frio mais gelado
Se todos morressem
Estaria então acabado

Era melhor tudo terminar
... E então...
Ela parece do nada
De volta a se instalar

E no nada vai brilhando
Maldita esperança...
O sol vai aquecendo
E a danada nos envolvendo...
Bem dita a esperança!
Guerreira Xue
                                                                     Imagem Net

A PEQUENA PROSTITUTA


A Pequena Prostituta         

Av. Robert Kennedy, a beira-mar da praia de Ponta Verde, Maceió – 1999. O último de meus quatro anos em Alagoas, onde assumi uma Secretaria de Agricultura. Paro meu carro num sinal. Uma mãozinha pequena bate no vidro, do meu lado.

Dou esmolas por princípio, sempre tenho notas no carro para isso (Desde 2011 faço isso aqui em Miami também, onde – sinal dos novos tempos – não é mais incomum encontrar pedintes nos sinais: os homeless, os desempregados e os veteranos de guerra, geralmente com sérios problemas mentais).

É uma menina pequena, franzina. Ela bate no vidro e me faz um sinal que decodifico como sendo para eu parar: a mãozinha aberta, mostrando todos os dedos estendidos. Baixo o vidro, dou-lhe uma nota de 2 reais. Ela faz sinal com a cabeça que não. Então escuto a frase que vai mudar minha vida para sempre:

 – Tio, me queira. Por favor! To com fome... Eu cobro só CINCO.

Então a brutalidade da compreensão me entra mente adentro: a mãozinha espalmada mostrava o preço do programa: cinco reais! Cinco reais para vender seu corpinho que, vim a saber pouco depois, tinha só DEZ anos de vida!

Fecho-lhe então a pequena mão, agora com uma nota de dez dentro, e lhe digo, disfarçando o nó na garganta:

– Se você está com fome, vá comer. E levanto o vidro, restaurando o ar condicionado, para que ela entenda que não quero o programa.

O sinal abre enfim e eu a observo pelos dois retrovisores. Ela corre, pula, grita algo para o rapaz que atendia na barraca de praia ao lado do sinal. Meu espírito de escritor me faz parar bruscamente. Desço, falo com o guarda ali perto, peço-lhe cinco minutos de carro mal estacionado, é uma emergência. Ele concede.

Sento na barraca seguinte à da menina, meio escondido por uma coluna de madeira. Observo-a. Vejo que ela pede comida e refrigerante, vejo-a comer avidamente, desesperadamente. É verdade que estava com fome! Mas noto algo estranho também. Ela tem uma bolsa sobre o colo e, a cada vez que o rapaz atendente lhe volta as costas, ela joga algo, que parece com a comida que tem no prato, dentro da bolsa.

Prato esvaziado, garrafa também, a menina dá ao rapaz a nota de dez e espera pelo troco. Sai outra vez pulando, agora num pé só, como uma criança. Mas volta ao “ponto”. Param outros carros no sinal, ela anda pelo calçadão junto a eles, bate nos vidros outra vez. O terceiro carro que ela aborda, com sua mãozinha espalmada, abre-lhe a porta de trás. E ela entra, vai mais uma vez fazer seu trabalho humilhante, desesperado, sofrido, cruel.

Vou ao guarda, excedi em muito meus cinco minutos, explico-lhe francamente o que quero. Ele me dá uma força, diz para eu ir em frente. Então vou à barraca onde a garota comeu e converso com o rapaz. Peço-lhe que me informe sobre a menina. Por sorte ele havia prestado atenção quando ela me abordou e lembrava bem de mim, foi solícito.

Assim fiquei sabendo que a criança tinha só dez anos e que se “virava” naquele sinal umas três vezes por semana. Então perguntei ao moço se ele havia notado que ela jogava comida na bolsa sobre o colo, enquanto comia. Ele fez sinal que sim. Apresentei-lhe minha brilhante conclusão:

– Ela leva comida para comer mais tarde, não é? Só não sei por que o faz escondida.

 – Mais tarde o que, seu moço! Eu me viro de costas a toda hora porque ela tem vergonha, faço que não vejo. Mas ela leva comida é pros IRMÃOZINHOS dela. Tem mais quatro em casa e só ela é que garante a bóia pra todos. A mãe é variada, lesa das idéias, num sabe? Some no mundo e as crianças... Vixe!

Eu não podia saber, mas naquele momento estavam nascendo meus romances sobre prostituição infantil. No livro “A Espera e a Noivinha”, coloquei as mesmas palavras da menina de Maceió na boca de outra criança da mesma idade, Ritinha, com a cena ambientada na cidade de Barbalha, no Ceará, localidade que conheci quando, consultor do SEBRAE no Nordeste, dei consultoria a engenhos de açúcar em várias áreas rurais da região.

Nunca mais soube da menina, embora tenha passado a prestar muita atenção àquele sinal da Ponta Verde. Por alguma razão, ela mudou de ‘ponto’. Pouco depois acabou meu mandato e voltei para o Sul, desta vez não para São Paulo, mas para Santa Catarina. E foi ali, na praia da Enseada, em São Francisco do Sul, e em Joinville, que nasceram meus livros sobre a saga das meninas prostitutas em Sergipe, Alagoas, Ceará e nos garimpos do Pará. Dentro do gaúcho da fronteira que retornava ao Sul, vinha inteiro o Nordeste, que aprendi a respeitar e amar profundamente.

Mas eu estava inteiramente impregnado, indelevelmente marcado por uma mãozinha espalmada, sinalizando um preço absurdo em todos os sentidos. E por uma vozinha suave, tímida, quase sussurrada, inesquecível, que me disse:

 – Tio, me queira. Por favor! To com fome... Eu cobro só CINCO.
Bendita hora em que eu aprendi, anos antes, que devia dar esmolas! (MM)
                                             Imagem da Net

MILTON MACIEL
Miami, Fev 10 2012
http://miltonmaciel.blogspot.com.br/

PEQUENO HERÓI


Eu queria ser policial desde menino para ajudar as pessoas e um  exemplo para ser seguido pelas crianças. Queria que meu pai se orgulhasse de mim também. Confesso que tem sido bem difícil esta tarefa...Depois de dois anos, se o sujeito não tem Deus no coração, fica perdido no meio de tanta violencia droga e desolação. É como se o mundo estivesse em plena guerra, numa decomposição total da humanidade. E por vezes eu me pergunto ainda. Por que?
Uma vez fui fazer uma ocorrencia numa favela para os lados da zona Leste.Chegando lá, o "cara" cheio de crack na cabeça  espancava a mulher grávida de oito meses, como se ela fosse a escória do mundo e fazia isso na frente dos outros tres filhos. Aí eu não me aguentei, sabe. Peguei o sujeito pelas orelhas e tirei para a rua. Não me lembrava de ter ficado tão possesso antes em toda a minha vida. Os vizinhos logo vieram para cima de mim dizendo, que eu estava sendo um covarde, batendo num drogado que nem tinha como se defender.
Dirigi meu olhar para  a multidão que rapidamente se juntava ali, e respondi em seguida:
-E o maldito pode bater na mulher grávida, e dar exemplo de crueldade a seus filhos, porque isso não é covardia? Todos ficaram calados e eu tive tempo de me recompor...
Um colega mais antigo disse-me certa vez que para o bom exercício do ofício, temos que ser imparciais. Pois como policiais não temos que tirar partido e sim fazer cumprir a lei.
Tantos colegas de farda já enlouqueceram nesta vida de policia.
Um dia um superior nosso foi para a frente das cameras em rede nacional e disse que a corporação está cheia de falhas e corrupção. Eu pensei logo, todos querem ser mocinhos e posar de heróis, não é verdade?

Quero ver sair para as ruas com carros sucateados, arriscando levar um tiro por não ter coletes adequados e o prejuizo que causarmos, mesmo que seja em serviço, é descontado de nossos salários.
Agora, dentro da corporação percebo que nossos direitos são mínimos e a lei, está do lado do bandido sempre. O mesmo sujeito "superior" que podia dizer que o sistema é falho e que os homens que estão designados para proteção e ordem do cidadaõ, são sozinhos nesta parada e sem condições de eficácia.
Pensava que ser militar me faria especial e no entanto, precebo agora que tenho que ter cautela em dizer meu endereço de residencia, ser discreto quanto a minha familia e o que devia ser motivo de grande orgulho pessoal, virou uma paranóia coletiva.
Aos poucos estou mudando...O garoto que fui, cheio de certezas e conceitos está desaparecendo dentro de mim. Tento me segurar, para não chorar, afinal isso não é coisa de homem e eu sou um homem.Que boa porcaria!
Em minhas últimas considerações sobre este assunto eu digo que imparcialidade não existe quando se trata de humanos, pois tudo tem uma razão de ser, e não importa que carreira vamos seguir, mudar o mundo é uma questão de tempo, união e vontade. E sozinho também podemos semear qualquer coisinha aqui ou alí..Só depende de cada um....Ajudar o próximo faz bem a nós mesmos e nos faz pensar que somos úteis e afinal teriamos algum propósito.
Guerreira Xue

segunda-feira, 22 de julho de 2013

MORAR NA ALMA


Tem dias que fico quieta e presa,
que não consigo sair.
Tem dias que lambendo as feridas,
Então fico no silencio
Há momentos de destempero,
 que choro um pouco
Outros que surpreendentemente,
me ponho a sorrir

Tem dias que alegremente,
 me sinto tudo
E topo qualquer parada
Encaro com fé o mundo

Acho que posso de alguma forma,
compreender de tudo
Mas, tem dias que tristemente
 me sinto nada

Estranhos são os humanos,
andando na dualidade
Vivenciando dias de mentiras reais
E caindo em complexos
sentimentos virtuais
Equilibrando-se ora no sonho,
ora na realidade.

Guerreira Xue
Antonio  Fazendeiro "Melancolia de uma maré vazia."


domingo, 21 de julho de 2013

PARA ONDE IR

                                                                       
Para Onde Ir
O homem encontra a mulher no meio do caminho e pergunta
-Para onde você vai?
A mulher olha então para um lado, e vê
Uma criança abandonada chorando,
Olha para outro lado
Há uma guerra em curso,
Em outro, uma festa começando
A mulher então responde...
-Não sei
São tantos caminhos para seguir.
E o homem fixando-a retruca com entusiasmo
-Vamos para a festa
Lá poderemos dançar e rir,
Comer e beber a vontade.
E falaremos sobre coisas agradáveis.
A mulher pensa um pouco e diz em seguida...
-Só vou se, for para sempre.
Guerreira Xue
Imagem Net