sexta-feira, 26 de outubro de 2012

PAULO PAULADA..conto partilhado



Sabem um sujeito chato, arrogante e metido a besta? Pois é, este era Paulo e nem me pergunte seu sobrenome porque só o chamávamos  "Paulo Paulada."
O moleque era era um "pé no saco" mesmo! E o pior é que nunca nos livrávamos dele.
Era nosso vizinho, isso deve explicar o motivo de não haver como ignora-lo.
Certa vez cogitamos até mesmo a possibilidade de nos mudar, só para não ter que toparmos com ele na escola ou no shopping ou no cinema enfim... O paulo era uma "paulada".

Tudo que nós fazíamos era só com o intuito de nos divertir e o Paulo,  este era sério até na diversão.
Nossas mães eram simples donas de casa já a do Paulo, uma renomada cientista especializada em biologia marinha. Nossos pais  eram funcionários públicos o do Paulo, um diplomata reconhecidamente internacional ou seja... Isso era tremenda deslealdade  para conosco, simples mortais.
Dizer que nossa irritação com o sujeitinho podia ser pura inveja de nossa parte era exagero...
Bem...Talvez um pouco sim, eu  admito, mas que ele era emproado demais isso ele era.
Espere, que já esclareço o  por que me referir sempre a "nós".
Eramos seis inseparáveis com a mesma idade, morávamos na mesma rua e estudávamos na mesma escola.
Somente o Paulo era de fora, chegara ao bairro quando já tinha três anos de idade.
Pensando nisso agora, eu tenho mesmo que rir, o cara era um estranho por não ter nascido ali, um verdadeiro E.T entre os mortais.
O bairro era estranho. Não aceitava qualquer um, nem mesmo uma criança. Todos os fins de semana havia foguetes, que o vizinho da casa cinzenta, que ganhara dinheiro a mais, na loteria em Portugal, resolvia atirar para encher o céu de cores.
A dona Estefânia, enlouquecida por ter sido abandonada pelo marido e pelos filhos, atravessava nua a praça todas as madrugadas, a chamar pelo António.
A Felismina, com os socos de madeira a baterem na calçada, acordava toda a gente quando ia deixar a saca do pão pesa na maçaneta da porta. O marido dela costumava ser o último a deitar-se podre de bebado, a cantar o operário em construção às seis da manhã, era um intelectual e por isso todos o respeitavam. Ao meio da manhã passava a peixeira, a apregoar a frescura do peixe, com os peitos escandalosamente expostos e o buço a brilhar ao sol. O Paulo tinha um fraquinho por ela, por isso sempre que podia escapulia-se para a esplanada para a ver passar. Era assim desde miúdo e como todos o gozávamos, ele amuava constantemente, até se tornar impossível dirigir-lhe a palavra.

Claro que as coisas foram evoluindo, crescemos  todos e, a chatisse do Paulo também, porém aconteceram coisas que foram aos poucos nos fazendo perceber o garoto solitário que simplesmente queria ser aceito pelos demais como um igual, o que acabou por ficarmos em dúvida sobre quem era de fato, desagradável  neste contexto.
Paulo paulada era filho único e seus pais viviam tão ocupados com seus trabalhos que o largavam em casa aos cuidados de uma governanta.
Acho que se contar direitinho o tempo, não chegavam a ficar juntos, ele e seus pais, dois messes em um ano. Então "ele" convivia mais conosco mesmo.
Se iamos as férias, em geral era para acampamentos, se iamos para a casa de verão da vovó, e eu levava o "praguedo" todo comigo.
Quando na casa de outro era igual. Se os pais de paulada vinham para casa nas ferias, eles viajavam para longe e ficávamos livres do emproado, sentiamos falta de ter com quem implicar. Risos...
Só Rosa não tinha casa de verão, em compensação sua mãe organizava finais de semana com pic-nics no parque com dias de sol fantásticos e muitas brincadeiras.
A vantagem de morar em cidade pequena é que todo mundo se conhece assim qualquer um podia "olhar" a garotada.
Aiiii a Rosinha era tão lindinha! Esta é minha prima.
Haviam duas meninas em nosso grupo.Uma era Rosa a outra era a Lucia, irmã caçula  do Valter.
Voltemos ao assunto em questão agora.O Paulo.
Era um sábado de chuva estávamos na casa de Toni jogando videogame, a mãe dele vem com uma bandeja enorme de bolo de fubá quetinho e umas canecas imensas de leite. Interessante  isso de adolecentes, nós parecíamos uns mortos de fome, sempre.
Incrível também e´não esquecermos o prazer que sentíamos em tudo,era muito bom aquilo. Parece que ainda sinto o gosto, até hoje.
 E bem no meio daquela comilança toda, ela entra na sala. Quando eu a vi, quase me engasguei.
Era a menina mais linda do mundo!
Todos nos apresentamos desajeitadamente, a boca ainda cheia de bolo porém, não deixei de notar que o Paulo estava mais composto que os demais e com toda a serenidade do mundo se dirigiu a ela com simpatia e elegância.
Por um instante tive a sensação que o Paulada cresceu ali, diante de nós. Ele era um adulto e nós, as crianças bobas.
Toni era o dono da casa e por isso fez aquela cara de quem estava em vantagem sobre todos os demais.
Nos apresentou a todos sua  prima recém-chegada do Brasil.
A minha surpresa foi tanta que balbuciei meu nome feito um retardado mental. Ninguém se riu de mim claro, porque todos estavam sob o mesmo impacto.  Quando me lembro do vermelho que tingiu minhas faces, me rio agora.
Na segunda -feira na escola estávamos todos eufóricos, queríamos saber mais da brasileira. Não sei porque, todos tiveram um cuidado mais que especial com a aparencia neste dia!
Toni disse que ela veio para ficar um ano, e que seus pais queriam que ela fizesse cursos preparatórios, enquanto estivesse com seus tios.
Marina, seu nome era Marina.Todos os dias inventávamos uma desculpa para irmos a casa de Toni.
Percebemos que  no entanto que o Paulo não nos acompanhava nestas excursões extraordinárias. Ela tinha cursos na segunda, quarta e sexta.
Demorou um pouco para compreendermos que o Paulada que também fazia cursos, e os tinha coicidentemente era nos mesmos dias que ela!
O desgraçado estava namorando com ela,e  bem de baixo de nossas fuças. Que raiva!?

Nos sentimos traídos afinal... Eramos amigos dele, talvez implicássemos um pouco com o garoto porém, não era para tanto, praticamente nos ignorar por causa de uma lambisgoia! Tínhamos que tomar uma atitude.E tomamos.
Fomos até a casa dele tirar-lhe uma satisfação.
Ele estava em curso. Guardamos nossa raiva misturada com mágoa para o momento apropriado.
Dois dias depois ele nos convida a todos para a sua casa, numa tarde de refresco e música.
Pensamos em não ir só por vingança, mas percebemos que a turma toda havia sido convidada e se não fossemos, íamos fazer papel de idiotas novamente.
O Paulo estava se despedindo de todos. Ficamos tão atônitos com a revelação que quase chorei.
Estávamos de mal dele, e agora...A coisa não tinha a menor importância, nem queríamos saber de ele ir embora.
Demorou para entendermos que não era por causa de Marina que ele se afastara da turma e sim por causa da mudança. Paulo já sabia que ia mudar-se  há tempos. Estava triste e não quis contar-nos.
Nos abraçamos todos, e prometemos escrever-lhe sempre.
Estamos adultos agora e cada um de nós seguiu um rumo na vida.
O Paulada na verdade, se chama Paulo de Oliveira Junior.
Aprendemos o seu nome de tanto lhe escrever cartas e ainda hoje, graças a tecnologia, pelo menos uma vez por ano nos falamos em conferencia, e de tempos em tempos  nos encontramos todos.
A amizade é um bem precioso. Então viva ela, com toda a sua intensidade

 GuerreiraX/ PaulaG.( amigas).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

FILHOS DE NINGUÉM

... E a pobreza enquanto se apresenta como "falta", tem qualquer coisa de cruel e imperdoável.
Lembrei-me de um caso que li certa vez, de um rapaz que tinha sido miserável  durante toda a sua infância.
Ele chorava muito, não conhecera seus pais, só lembrava de um velho a quem chamava de avô, por vezes pensava que devia ter feito alguma coisa para merecer aquilo, mas o quê? Ele apanhava dos arruaceiros, se escondia dos drogados, tinha medo da policia. Fazia pequenos serviços por uma refeição, e quando dava jeito ia até algum restaurante onde o dono lhe pedia para tirar o lixo em troca de comida.
Um dia ele foi adotado por uma bondosa senhora. Ela deu-lhe um teto, roupas, estudo, afeto e agora não faltava mais comida.
-Que pena o vô ter morrido - dizia para si.
Devagar, a boa senhora foi  lhe ensinando o significado da palavra dignidade, ensinou cuidados com o corpo, mandou para a escola. E Assim o moço foi crescendo, e por vezes ainda conseguia ensaiar um singelo sorriso em suas feições tão marcadas pela vida nas ruas.
Quando chegou na idade, o garoto agora homem feito, foi prestar o serviço militar, era obrigatório. e levado para uma guerra sem razão, ele não viveu sequer um mês.
Um dia qualquer a senhora recebeu seus pertences em mãos, e junto um telegrama com a notícia de sua morte em batalha e entre suas coisas tinha uma pequena carta dirigida a ela.
-Querida mãe. Porque me ensinaste tantas coisas boas? Não consigo matar, é mais certo que eu venha a morrer, e se eu não voltar quero que saiba que o tempo que passei com você, foi o melhor de tudo. Obrigado.
Dona Almerinda chorou como jamais havia chorado em toda a sua vida. Ficou sem comer e sem dormir, por algum tempo. Fez tratamento psicológico, porém parecia não querer mais viver, os amigos faziam o que podiam para tentar ajudá-la  a superar a dor daquela perda tão sofrida.
Ela era idosa já, e seu estado emocional a deixava fraca, suscetível as doenças. Um dia aconteceu um fato que mudou completamente  o curso de sua vida. Alguém bate a porta, e mal se aguentando em pé, Almerinda foi abrir achando ser a faxineira. Quem está na soleira da porta é uma menina miúda, de roupas rotas e olhos arregalados.
-Tem alguma coisa para eu fazer senhora? Preciso comer, por favor.
O que a senhora vislumbrava, ali bem na sua frente era o retrato da fome.
Sem qualquer gesto brusco ela abre a porta lentamente e dá passagem para a garota. Já dentro de casa, esta prepara e coloca um enorme sanduíche e um copo de leite em frente a pequena faminta. Em silêncio, ela se dirige para o quarto e vai dormir.
Quando acorda, muito tempo depois, sua amiga está lhe trazendo o jantar. E esta lhe pergunta da garota:
-Ela veio pedir o que comer e eu dei. Como é que voce sabe dela?
-Como sei?!  Ela lavou a louça, limpou a sua cozinha, varreu o quintal e quando cheguei ela estava aflita por voce ter dormido o dia todo.
Dona Almerinda ficou pensando. Aquela garota de rua podia ter ido embora depois de comer, e não foi. Podia ter-lhe carregado a casa inteira se assim o desejasse. No entanto ficou ali perto dela, uma velha que estava sozinha e parecia doente demais. E o que poderia ela fazer por mim? Nada. Porém. achou-se na obrigação de agradecer a comida oferecida.
Enquanto esperava, a menina foi lavando os pratos da pia e por vezes espiar no quarto para ver se a senhora respirava. Achou uma vassoura atrás da porta e seguiu varrendo...
-Não pode fazer isso Almerinda, abrir a porta para qualquer um, onde já se viu isso!
-Eu sei que é perigoso, mas o que é seguro nesta vida, me diga. E depois ela tinha fome e isso me deixa em vantagem sobre qualquer um que seja prisioneiro da fome.
Dona Almerinda ficou pensando. Aquela garota de rua podia ter ido embora depois de comer e não foi. Podia ter-lhe carregado a casa inteira se assim o desejasse, e no entanto ficou ali perto dela, que parecia frágil e doente demais. Que poderia ela fazer por mim? Nada. Porém achou-se na obrigação de agradecer a comida oferecida.
Dona Almerinda nunca mandou aquela menina embora, e a menina também nunca se foi.
As amigas ficaram de "olho", apreensivas pela amiga, esta poderia ser alvo de má fé da garota de rua.
O inusitado é que a senhorinha teve uma melhora de saúde surpreendente. Ambas tinham afeição uma pela outra. A garota, Janaina era o seu nome, falava pouco, e levou muito tempo para contar sua história. Almerinda entendia e respeitava, porém, um dado novo traz mudanças irreversíveis outra vez em suas vidas.
 Uma noite, ouvindo as noticias enquanto tricotava um suéter, e Janaina que estava em seu quarto entra na sala para pegar um livro e vê na televisão a foto de um delinquente e começa a gritar.
A velha senhora sem entender, pensando que ela estava com dores, corre a acudir.
-Que foi meu bem? Sente-se mal?
-Não deixe ele me achar, por favor
-Calma, calma, está tudo bem. Ninguém vai te fazer mal. Depois  de acalentada. a menina começa sua narrativa
-Eu morei com aquele homem que apareceu na televisão.
Ele me usava de mulher dele e me dava para seus amigos fazerem o mesmo. Fugi várias vezes, mas ele me achava sempre. Dizia que se eu fugisse novamente me mataria desta vez e me fazia dizer a todos que era meu pai, mas imagino que não era mesmo, as famílias se cuidam e ele só ganhava dinheiro comigo. Não queria lhe dizer nada disso, me desculpe. É tudo tão feio que a senhora vai sentir nojo de mim agora. Eu fui encontrada no lixo quando criança e uma irmã dele me levou pra casa numa noite chuvosa. E isso é  tudo que sei do meu nascimento.
Dona Almerinda mal conseguia conter-se de emoção.
-E a tal irmã dele, onde está?
-Ela morreu  por causa de droga, faz muito tempo.
Se ele me descobrir aqui, terei de voltar para casa, pois é capaz de ameaçar sua vida também.
-Ai  minha filha querida! Vai longe o tempo que eu sentia medo - disse a senhora sorrindo de leve
- Bem... Acho que chega de emoções por hoje, vamos dormir agora, amanhã é outro dia. Vamos resolver isso tudo, prometo.
O homem a quem a menina se referia estava preso agora, ela não sabia e era por isso que seu rosto estava estampado em rede nacional.
No dia seguinte bem cedinho Dona Almerinda vai em busca de informações para adotar Janaina.
Não é fácil vencer a burocracia, mas foi com grande alegria que Janaina se descobriu filha de Almerinda.
-Esta é sua casa agora, e eu sou sua mãe.
Janaina chorou muito abraçada a sua mãe e quando conseguiu dizer qualquer coisa , murmurou um agradecimento.
Hoje em dia ela já é falecida, porém deixou Janaina crescida e médica formada.
Dizem suas amigas que antes de fechar seus olhos ela disse à filha adotiva:
-Quero-te dizer o quanto sou grata por ter você em minha vida. Acho mesmo que tive muita sorte. Vivi duas vidas. E foi por causa de você que eu ressuscitei.
Janaina emocionada também dizia:
-Eu também tive sorte e duas vidas.
As amigas estavam todas lá, juntas. E de fato nunca tinham visto uma pessoa morrer feliz.
Janaina não estava mais sozinha agora, pois eu filho nasceria logo, as amigas de Dona Almerinda esperavam sinceramente que ela e o marido fossem muito felizes.
Desta narrativa só uma coisa é certa, o mundo ficou mais vazio sem a presença de Almerinda.
 Era tão bom se todos os filhos de ninguém encontrassem alguém!
Guerreira Xue

                                                            Imagem Net

O GNOMO TRISTE



                                 
Passeando por terras estranhas, ela era atenta a tudo que a cercava. E fazia isso por puro instinto, tinha sido educada para se proteger.
Diziam-lhe que carregasse seu amuleto sempre perto do peito, pois as criaturas do mundo externo, que eram por demais cruéis, poderiam sugar-lhe a energia toda até a morte.
_ E Porque fariam isso?! A pequena retrucava.
_ Se me sugarem toda, vou morrer, e onde vão buscar nova força?
_ Ai minha filha! Eles não pensam nisso na hora de alimentarem-se, estão sempre famintos. Portanto, tome cuidado.
Por alguma razão… Ou por razão alguma, ela fora a escolhida. E mesmo os seus iguais não entendiam isso, ela era só uma operária, nem tinha sangue nobre, e nem era a mais esperta do povo ou a mais sábia ou sequer a mais bonita...

_ Como aconteceu então? Perguntou o médico para Ivone.
_ Dizem que foi numa noite de tempestade. Todos se abrigaram na grande casa. Nas tempestades as casas eram, na maioria, carregadas pelo vento forte, por isso todos corriam se abrigar na grande casa, Esta era esculpida na rocha da montanha mais alta. E lá estavam todos dentro, sãos e salvos, menos ela.
Minha avó que contava esta história doutor... Dizia que a moça em questão era nossa ancestral, sonhei com ela esta noite, pensei em contar-lhe para que não seja esquecida. Eu própria não lembrava mais. Podia tê-la contado antes e não contei.
Fico-lhe imensamente grata por me ouvir também, querido amigo, pois sinto verdadeira necessidade de passar isso adiante.
O médico ficou a observar aquela senhora tão altiva e dona de si... Milionária e sózinha naquele leito de morte. Na folga que tinha, escapava até ao seu quarto para fazer-lhe companhia e não era por pena, ou era... Sabe-se lá!
_ Que é isso Ivone? É um prazer ouvi-la e para falar a verdade estou bem curioso com sua história. É um conto de fadas, me parece.
_ Sim ...Vovó gostava de dizer que éramos filhas de gnomos. Me sentia muito bem em ser.
_ Não quero perder nenhum detalhe então... Não é todo dia que conheço uma gnomo.
Doutor Di Valério despede-se sorrindo. Pensava nesta criatura estranha com bastante frequência.
Dona de um património considerável, ela trabalhara a vida inteira e era benfeitora de várias entidades carentes, incluindo este hospital. Recebia flores, com votos de melhoras de todas as partes, todos os dias. Porém, ninguém a visitava, com exceção de seus assessores, claro.
No dia seguinte disse-lhe ele:
_ Tive uma ideia Ivone. Voce quer contar esta história para as crianças?
A velha senhora, confusa, olhou-o estupefata. O seu bom amigo endoidou!
_ Pedi uma permissão especial e deixaram, que você contasse a sua histórinha pelo interfone da ala infantil, querida, que acha?
_ Posso tentar, mas fazemos uma primeira tentativa, e se as crianças gostarem eu continuo.
_ Vão gostar, tenho certeza!
E assim foi...
As crianças adoravam escutar aquela senhorinha de voz suave ...
E agora, por favor continue a contar a história do duende triste.
E ela continuou...

A mãe de Slavia percebeu sua ausência, mas devido ao grande volume de pessoas dentro do recinto pensou logo que a moça estava noutra parte da casa grande.
No dia seguinte todos retornaram as suas casas e afazeres, aquele vilarejo ficara uma verdadeira bagunça.
_ Alguém viu Slavia? Perguntava sua mãe para um e outro.
Chegando no vilarejo tiveram uma surpresa, todas as cabanas estavam derrubadas e o caos reinava por todo lado... Porém uma casa estava intacta e da chaminé da mesma vinha uma fumaça e havia também um cheiro de café no ar. A porta escancarou-se e dela saiu Slavia
_ Ai filha que preocupação me deu, onde diabo você se meteu?
_Estou bem mãe. Eu me escondi debaixo da cama, e quando tudo passou voltei a dormir.
Claro que ninguém acreditou naquilo mas por agora ficaram todos descansados.
Dois dias depois, quando a aldeia voltava à normalidade, o conselho resolveu chamar as duas, mãe e filha, para darem maiores explicações sobre o sucedido.
A mãe sabia que quando o conselho chamava, era melhor não deixar esperando muito. Porém nem ela entendia o que tinha se passado ainda.
_ Explique Slavia - disse em tom autoritário.
_ Não sei como mãe, mas quando fui sair do quarto ontem, na hora da ventania, abriu-se uma clareira na minha frente e era um lugar completamente estranho mas muito bonito. Fui andando até que achei uma criatura estranha caída no chão, ela parecia estar morrendo. Era de uma beleza incrível e tão frágil que não tive medo algum.  Então perguntei-lhe se precisava de ajuda e ela só me olhava. Olhei em volta a ver se havia alguém a quem pudesse pedir ajuda e não tinha ninguém. A floresta parecia vazia de tudo. Não havia ruído de pássaros, nem folhas caindo... nada.
Foi quando ouvi aquela voz musical...
"Pode me levar para casa?"
Me virei e olhei em direção da criatura no chão e ela parecia dormir...
"Por favor, só quero ir para casa."
_ Ela falava na minha cabeça...
Sem pensar duas vezes a peguei no colo e disse-lhe que apontasse a direção. Ela era tão leve que parecia uma pluma. Seguímos por um caminho de pedras, quando de repente um bicho horrivel salta em nossa frente. Um enorme sapo fedido... Um nojo!
Ele ainda fazia um ruído estranho dizendo:
_ Não estás cansada de carregar este peso menina?
A pequena criatura saltou do meu colo feito um raio. Mesmo assustada eu percebi o alívio que foi para meus braços. Muito estranho mesmo!
 E o bicho dizia-lhe coisas num dialeto que eu não compreendia, mas pareciam brigar, assustou a criatura, que saiu correndo...
Ele ficou me encarando por algum tempo e disse em seguida:
_ Então afinal você veio...
_ Não me diga que me esperava?!
Eu queria correr também, porém fiquei pregada no chão.
_ Eu não, mas eles sim, te esperam faz tempo. Por isso aquela lá estava na porta da entrada, espreitando.
_ Como poderiam saber que eu vinha?!
_  Não sabiam, tinham alguma esperança somente. E agora finalmente você veio. Agora cuide-se garota, ou vão devorá-la em dois tempos.
_ Ai ai... Não estou gostando disso.
Sentei-me no meio do caminho e falei logo:
_ Desembuche sapo feioso, que eu não tenho o dia todo.
Ele me fixando resmungou:
_Não está com medo de mim, está?
Engoli em seco. Estava morrendo de medo, mas aguentei firme.
_Porque estaria?! Na minha aldeia tem sapos de monte, se bem que estes são mais limpos e não tão fedidos.
Pelo amor de Deus! Que há com você, por acaso não gosta de água?
Ele deu uma gargalhada...
_ Você não pode ficar aqui ... volte para o lugar de onde veio. Aquele que você carregava até agora vai voltar e trará mais de sua espécie.
Perguntoe-lhe por quê.
_Não sentiste nada quando a criatura saiu de seus braços?
_Sim... Ela era muito leve quando a peguei porém, quando saiu, senti um alívio, ela estava bem mais pesado então...
_ Era você que era forte e foi ficando fraca, pois aquela criatura linda estava drenando suas forças, e se não estivesse eu aqui vigiando, ela teria te matado, sua tola!
_ Porque faria isso, por Deus?!
_Porque estão morrendo. Depende de energia para viver, esta que você carrega.
_ Espera, por favor. Conte do princípio.
O grande sapo acomodou-se numa pedra e começou...

_ Há muitos anos luz aqui vivia um povo pacato e gentil... Ajudavam os viajantes de todos os tempos, oferecendo hospedagem e comida, todos tratados com amizade e respeito.
Quando eles apareceram, eu era menino na época, foi uma comoção entre minha gente. Tinham esta variante de cor, nós os chamávamos filhos das estrelas. Tiveram seu o planeta despedaçado por uma chuva de meteoros.
Demos-lhes nossas casas, nossa comida. Mais ainda, demos-lhe confiança.
Não demorou muito para que começássemos a desaparecer. Eles nos sugavam até nos dissolvermos em fumaça.
Pasmada perguntei:
_ Mas ainda estás vivo, porquê?
_ Por causa justamente deste cheiro de sapo fedido, não conseguem chegar perto.
-disse dando um meio sorriso.
_ Antes de meus pais morrerem, me ensinaram este feitiço e enquanto for sapo, não me pegam.
Escute ... Ouve algum movimento?
_Nada
_ Tudo que havia aqui desapareceu... Eles se agrupam e escolhem um para ficar na porta dos mundos à espera. E qualquer um que chega, levam até o grupo, onde se alimentam todos.
_ E quando ninguém vem?
_Eles escolhem entre eles mesmo o mais forte , e o devoram.
_ E voce é o ultimo de sua espécie então... Lamento muito!
_ Vai agora, eles vão voltar logo. E por favor não entre mais na passagem.
Quieta, eu segui meu caminho até a entrada donde tinha vindo.

_ E Isso foi tudo mamãe, acordei em minha cama hoje pela manhã. Até achei que havia sonhado, sabe.
A Mãe ficou pensativa. Como iriam contar esta história absurda para o conselho? Era uma coisa que a atormentava.
 _Acredito em você filha. O que me impressiona aqui é este lugar ainda existir...
Aquele sapo que viste é um duende e esta história é muito velha, porque minha avó me contava quando criança. Nunca contei para você, pois esqueci-me por completo dela.
Espere, que eu tenho algo que ela me deu nessa ocasião.
A senhora correu a um baú, que havia no alçapão e vasculhando nas velharias, achou uma pequena pedra com um barbante amarrado e pôs em volta do pescoço de sua filha, dizendo:
_Este é um amuleto que vai-te salvar. Com ele só poderás doar o que te sobra, nunca o que te falta... Ou coisa parecida, "palavras de minha vó", acho que ela pensava que talvez um dia eu fosse neste lugar

No dia seguinte, na hora marcada, as duas compareceram perante o conselho.
Por mais incrível que a história fosse, as duas resolveram contá-la tin tin por tin tin.
No final os conselheiros estavam espantados:
_ Isso deve ter sido sonho, não é possível!
O mais velho, que estava calado até então...
_ O que acabaram de ouvir é tudo verdade e só os velhos se lembram. Então o gnomo ainda guarda a passagem, que coisa! Deixe-me pensar... Ele deve estar por volta dos 300 anos agora.
_ Ele está vivo sim senhor - diz Slávia sorrindo
_ É um sapo feio e fedido... Disse-me que foi o jeito que encontrou de sobreviver, pois as criaturas não suportam seu cheiro.
_Você foi escolhida para entrar lá menina, agora deve cumprir seu legado com sabedoria. Serás rainha deles. És uma portadora de luz paz e calor.
Slávia estava confusa ainda, mas perguntou:
_Por quê eu senhor?
_ Também eu gostaria muito de saber... Quem sabe o tempo trará esta resposta.
_ Qual o papel daquele triste gnomo sem nome nisso? Se ele guardava a entrada, por que me deixou entrar?
O ancião deu um sorriso conciliador
_ Ele não impede que entrem querida. Ele impede que as bestas saiam.
_Por quê??
_Porque são famintos insanos, e devoram tudo em volta. Quando eles chegaram naquela dimensão eram menos de uma dúzia, como havia muito "alimento", se multiplicaram a tal ponto que esgotaram as reservas de energia, prejudicando assim sua própria existência. Agora eles se consomem a si mesmos quando estão ameaçados de morte imediata e vão fazendo isso, enquanto esperam um salvador. Neste caso, uma salvadora, que é você .
Tens compreensão de sua responsabilidade agora? Toda vez que entrar terá alguém a sua espera.
Dê somente o necessário e este distribuirá aos demais.
_O gnomo é imortal? Porque ele mesmo não distribui o alimento mestre?
_ Porque ele é naturalmente luz pura.
A falta de entendimento da moça a fez calar.
_Vá vivendo e aprendendo menina. No momento, o mais importante é ter conhecimento de seu poder. Sem ele, poderias ser manipulada por seres que parecem mansos e bonitos, mas que só querem viver, a qualquer custo.

O médico  sabia que o tempo de Ivone se esgotava e toda a vez que se encontravam ele percebia a felicidade estampada no seu rosto, e ficava deveras espantado por ela não sentir as dores tão comuns nestes casos.
Seria fantasia sua dizer que o fato de ela se entender como descendente de gnomos a fizesse resistir a dor! Sem os analgésicos ela passava mais tempo lúcida e por conseguinte, contando suas histórias, e estas pareciam jorrar de dentro de sua cabeça.
Ela intercalava suas histórias, interrompia a maior e ia contando as menores, para os pequenos da ala infantil, e o bom doutor gravava todas.

_E Slavia chegou a compreender tudo isso Ivone?
_ Sim, acho que se não compreendeu , pelo menos ela aceitou seu destino. Como eu aqui doutor, aceito que vou morrer e não demora muito - disse Ivone com seu sorriso habitual.
_ É bem interessante a visão que tens de vida e morte amiga. Alguns ficam demasiado deprimidos com a eminencia da morte, outros revoltados e frustrados. Para uma agnóstica, você acredita em muitas coisas...
_ Que somos eternos, por exemplo - diz a senhorinha sorridente.
_Somos?
_ Sim e vamos vivendo, até descobrirmos o segredo da evolução do humanismo. Sabe que penso, doutor? Agora tenho tido tempo para isso. Risos...
Entramos dentro de um ciclo tão vicioso, que qualquer coisa fora do padrão é imediatamente desconsiderada. Qualquer tentativa de mudança de comportamento, causa verdadeiro pavor.
O mundo mata-se, para defender uma religião e proteger suas fronteiras, como se estas fossem absolutas. Como pode a igreja pregar igualdade, construir templos com estruturas riquíssimas, com engenharia de última geração, quando ignoram muitos que não tem sequer um simples teto para cobrir suas cabeças? Há ricos que pagam verdadeiras fortunas para emagrecer, quando o que podiam fazer era simplesmente dividir seu pão de vez em quando.
Veja bem, meu caro, não sou a dona da verdade, então diz quem é, por favor?
 Ninguém quer responsabilidade com a miséria e todos querem colher os louros do triunfo.
_Nesta sua história, eu percebo que a "fome" é determinante e cega.
Ivone estava lutando contra o tempo. Dizia ser importante contar tudo que lembrava sobre o outro mundo.

Slávia entrava agora com frequência no mundo exterior. E cada vez que voltava todos queriam saber de tudo que se passava.
 _ Se você pode entrar e sair, eles certamente também podem - diziam os mais velhos.
Slávia contava que antes, quando as criaturas viviam em seu mundo de origem, eram regidas por um Deus que lhes proporcionava tudo, uma espécie de sol talvez. Houve uma grande mudança devido a uma forte explosão e estes caíram nesta terra, onde agora estão.

A menina Slavia foi crescendo rapidamente... pois a cada viagem ao mundo exterior ela demorava anos, ficava velha lá e quando voltava, ficava jovem de novo, só as lembranças é que ficavam.
Slavia se casou, teve um filho e por quase trinta anos não foi mais ao mundo exterior. Um dia ela contou toda a história para sua neta Zelenka, deixando também seu amuleto, e desapareceu.
Nunca mais ninguém ouviu falar dela.

_Porquê!? - perguntavam-lhe as crianças.
_Vou saber! - disse a boa senhora -
_ Talvez fosse fazer companhia ao sapo gnomo, ou virar ela mesma a carcereira das criaturas ou mesmo se sacrificar de vez...
O que sei é que, desde então, nunca mais ninguém de nossa linhagem foi ao mundo exterior. Os mais velhos diziam que ela trouxera consigo no ventre a linhagem dos gnomos. Outros diziam que os que nasciam na aldeia, eram os próprios que haviam desaparecido na fumaça do mundo exterior.

_Acha que ninguém morre então, senhora? Perguntou-lhe um garotinho.
_ Tenho certeza - respondeu Ivone.
E todos que puderam, bateram muitas palmas para Ivone neste dia...
Ela faleceu naquela noite e quando os enfermeiros vieram recolher seu corpo, curiosamente encontraram em seu pescoço uma pequena pedra amarrada num barbante, que servia de corrente.
Guerreira Xue