quinta-feira, 25 de outubro de 2012

FILHOS DE NINGUÉM

... E a pobreza enquanto se apresenta como "falta", tem qualquer coisa de cruel e imperdoável.
Lembrei-me de um caso que li certa vez, de um rapaz que tinha sido miserável  durante toda a sua infância.
Ele chorava muito, não conhecera seus pais, só lembrava de um velho a quem chamava de avô, por vezes pensava que devia ter feito alguma coisa para merecer aquilo, mas o quê? Ele apanhava dos arruaceiros, se escondia dos drogados, tinha medo da policia. Fazia pequenos serviços por uma refeição, e quando dava jeito ia até algum restaurante onde o dono lhe pedia para tirar o lixo em troca de comida.
Um dia ele foi adotado por uma bondosa senhora. Ela deu-lhe um teto, roupas, estudo, afeto e agora não faltava mais comida.
-Que pena o vô ter morrido - dizia para si.
Devagar, a boa senhora foi  lhe ensinando o significado da palavra dignidade, ensinou cuidados com o corpo, mandou para a escola. E Assim o moço foi crescendo, e por vezes ainda conseguia ensaiar um singelo sorriso em suas feições tão marcadas pela vida nas ruas.
Quando chegou na idade, o garoto agora homem feito, foi prestar o serviço militar, era obrigatório. e levado para uma guerra sem razão, ele não viveu sequer um mês.
Um dia qualquer a senhora recebeu seus pertences em mãos, e junto um telegrama com a notícia de sua morte em batalha e entre suas coisas tinha uma pequena carta dirigida a ela.
-Querida mãe. Porque me ensinaste tantas coisas boas? Não consigo matar, é mais certo que eu venha a morrer, e se eu não voltar quero que saiba que o tempo que passei com você, foi o melhor de tudo. Obrigado.
Dona Almerinda chorou como jamais havia chorado em toda a sua vida. Ficou sem comer e sem dormir, por algum tempo. Fez tratamento psicológico, porém parecia não querer mais viver, os amigos faziam o que podiam para tentar ajudá-la  a superar a dor daquela perda tão sofrida.
Ela era idosa já, e seu estado emocional a deixava fraca, suscetível as doenças. Um dia aconteceu um fato que mudou completamente  o curso de sua vida. Alguém bate a porta, e mal se aguentando em pé, Almerinda foi abrir achando ser a faxineira. Quem está na soleira da porta é uma menina miúda, de roupas rotas e olhos arregalados.
-Tem alguma coisa para eu fazer senhora? Preciso comer, por favor.
O que a senhora vislumbrava, ali bem na sua frente era o retrato da fome.
Sem qualquer gesto brusco ela abre a porta lentamente e dá passagem para a garota. Já dentro de casa, esta prepara e coloca um enorme sanduíche e um copo de leite em frente a pequena faminta. Em silêncio, ela se dirige para o quarto e vai dormir.
Quando acorda, muito tempo depois, sua amiga está lhe trazendo o jantar. E esta lhe pergunta da garota:
-Ela veio pedir o que comer e eu dei. Como é que voce sabe dela?
-Como sei?!  Ela lavou a louça, limpou a sua cozinha, varreu o quintal e quando cheguei ela estava aflita por voce ter dormido o dia todo.
Dona Almerinda ficou pensando. Aquela garota de rua podia ter ido embora depois de comer, e não foi. Podia ter-lhe carregado a casa inteira se assim o desejasse. No entanto ficou ali perto dela, uma velha que estava sozinha e parecia doente demais. E o que poderia ela fazer por mim? Nada. Porém. achou-se na obrigação de agradecer a comida oferecida.
Enquanto esperava, a menina foi lavando os pratos da pia e por vezes espiar no quarto para ver se a senhora respirava. Achou uma vassoura atrás da porta e seguiu varrendo...
-Não pode fazer isso Almerinda, abrir a porta para qualquer um, onde já se viu isso!
-Eu sei que é perigoso, mas o que é seguro nesta vida, me diga. E depois ela tinha fome e isso me deixa em vantagem sobre qualquer um que seja prisioneiro da fome.
Dona Almerinda ficou pensando. Aquela garota de rua podia ter ido embora depois de comer e não foi. Podia ter-lhe carregado a casa inteira se assim o desejasse, e no entanto ficou ali perto dela, que parecia frágil e doente demais. Que poderia ela fazer por mim? Nada. Porém achou-se na obrigação de agradecer a comida oferecida.
Dona Almerinda nunca mandou aquela menina embora, e a menina também nunca se foi.
As amigas ficaram de "olho", apreensivas pela amiga, esta poderia ser alvo de má fé da garota de rua.
O inusitado é que a senhorinha teve uma melhora de saúde surpreendente. Ambas tinham afeição uma pela outra. A garota, Janaina era o seu nome, falava pouco, e levou muito tempo para contar sua história. Almerinda entendia e respeitava, porém, um dado novo traz mudanças irreversíveis outra vez em suas vidas.
 Uma noite, ouvindo as noticias enquanto tricotava um suéter, e Janaina que estava em seu quarto entra na sala para pegar um livro e vê na televisão a foto de um delinquente e começa a gritar.
A velha senhora sem entender, pensando que ela estava com dores, corre a acudir.
-Que foi meu bem? Sente-se mal?
-Não deixe ele me achar, por favor
-Calma, calma, está tudo bem. Ninguém vai te fazer mal. Depois  de acalentada. a menina começa sua narrativa
-Eu morei com aquele homem que apareceu na televisão.
Ele me usava de mulher dele e me dava para seus amigos fazerem o mesmo. Fugi várias vezes, mas ele me achava sempre. Dizia que se eu fugisse novamente me mataria desta vez e me fazia dizer a todos que era meu pai, mas imagino que não era mesmo, as famílias se cuidam e ele só ganhava dinheiro comigo. Não queria lhe dizer nada disso, me desculpe. É tudo tão feio que a senhora vai sentir nojo de mim agora. Eu fui encontrada no lixo quando criança e uma irmã dele me levou pra casa numa noite chuvosa. E isso é  tudo que sei do meu nascimento.
Dona Almerinda mal conseguia conter-se de emoção.
-E a tal irmã dele, onde está?
-Ela morreu  por causa de droga, faz muito tempo.
Se ele me descobrir aqui, terei de voltar para casa, pois é capaz de ameaçar sua vida também.
-Ai  minha filha querida! Vai longe o tempo que eu sentia medo - disse a senhora sorrindo de leve
- Bem... Acho que chega de emoções por hoje, vamos dormir agora, amanhã é outro dia. Vamos resolver isso tudo, prometo.
O homem a quem a menina se referia estava preso agora, ela não sabia e era por isso que seu rosto estava estampado em rede nacional.
No dia seguinte bem cedinho Dona Almerinda vai em busca de informações para adotar Janaina.
Não é fácil vencer a burocracia, mas foi com grande alegria que Janaina se descobriu filha de Almerinda.
-Esta é sua casa agora, e eu sou sua mãe.
Janaina chorou muito abraçada a sua mãe e quando conseguiu dizer qualquer coisa , murmurou um agradecimento.
Hoje em dia ela já é falecida, porém deixou Janaina crescida e médica formada.
Dizem suas amigas que antes de fechar seus olhos ela disse à filha adotiva:
-Quero-te dizer o quanto sou grata por ter você em minha vida. Acho mesmo que tive muita sorte. Vivi duas vidas. E foi por causa de você que eu ressuscitei.
Janaina emocionada também dizia:
-Eu também tive sorte e duas vidas.
As amigas estavam todas lá, juntas. E de fato nunca tinham visto uma pessoa morrer feliz.
Janaina não estava mais sozinha agora, pois eu filho nasceria logo, as amigas de Dona Almerinda esperavam sinceramente que ela e o marido fossem muito felizes.
Desta narrativa só uma coisa é certa, o mundo ficou mais vazio sem a presença de Almerinda.
 Era tão bom se todos os filhos de ninguém encontrassem alguém!
Guerreira Xue

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