sábado, 24 de junho de 2017

MAMÃE EU SOU GAY

Otávio estava no trabalho, inspecionando uma obra lá para os lados do Catete quando no meio da reunião com os operários o celular toca; oi, desculpe não posso conversar agora, te ligo daqui a pouco. E o telefone tocou mais umas tantas vezes. Era sua ex esposa, e pelo jeito era muito importante, tanto que assim que acabou a  reunião Otávio retornou; que foi Julia, qual a emergência? A voz dela era angustiada; precisamos conversar urgentemente, é sobre nosso filho. pode ser hoje?
- Pode claro, jantamos juntos as 20:00. Beijos.
Julia era a segunda ex esposa de Otávio. Ela sempre fora muito séria e compenetrada, ambos tinha um filho, o Augusto que agora beirava aos 18 anos. Um menino calmo, tranquilo, estudioso e estava para cursar engenharia  na Universidade Federal. Otávio nunca tivera muito tempo para Augusto e a separação acabou por distancia-los ainda mais, e isso as vezes o incomodava um pouco. Agora não tinha ideia do que se passava, mas com certeza logo saberia.
Otávio fora criado no exterior por uma mãe adotiva e sempre tivera bom status econômico.Também tinha formação em engenharia civil ele tinha um bom cargo numa multinacional e uma vida confortável. Casou-se três vezes ... Com a primeira esposa nem chegou a ter filhos, com a Julia tinham Augusto e com a terceira, a atual, tinha um casal de gêmeos com cinco anos.
Ao jantar conversaram amenidades, e logo entraram no assunto, pois Julia estava muito ansiosa.
- O Augusto é gay Otávio - Otávio ficou mudo por instantes, como que a espera de mais; - E...
-  Como e... Você não entendeu o que eu disse? o nosso filho é gay!- tudo bem fique calma. Ele te disse ou você perguntou? - eu "peguei" ele no quarto com o colega Marcelo, e os dois estavam fazendo sexo na cama.
Otávio já recomposto contemporiza- olha querida deve ter sido um constrangimento para todos sim, mas ainda não o rotula como gay. - como não, se estavam fazendo sexo, e quando dois homens fazem sexo, são gays sabia? - Em primeiro lugar não são dois homens, são dois jovens de 17 anos. Em segundo lugar, pode ser só uma experiencia entre amigos. - Abre os ouvidos Otávio, o nosso filho é gay. Tivemos uma conversa hoje a tarde, e ele admitiu. Disse que ambos namoram tem 3 anos e se gostam muito e que vão morar juntos quando forem para a universidade.
Otávio pensava em como perdeu a intimidade com o filho com a separação, alias antes dela não tinha tempo também. "que merda". - Tudo bem fique calma - calma o que, Augusto é meu único filho, eu não terei netos e ainda terei de encarar as minhas amigas, quando souberem que meu filho é uma bichinha afrescalhada. Que vergonha!
-Estou muito surpreso com isso que acabas de dizer. Você sempre enchia a boca para dizer que não tinha preconceitos, e era liberal democrata e agora dizes essas asneiras todas! O que você quer afinal, se era me contar que Augusto é gay, agora já me contou, e o que vamos fazer? Nada. Estas surpresa, tudo bem eu também estou, mas pronto. Preste atenção Julia, ser gay não é uma doença contagiosa ou terminal. Ser gay é uma preferencia sexual pessoal e intransferível. Não venha com ideias de que não terás netos, pois os gays em geral tem filhos, e Augusto só não os terá se não quiser, e isso também é outra opção pessoal. O Augusto é nosso filho querida e queremos o melhor para ele, ou não?
A seguir ele percebe o quanto foi rude com Julia, pois ela tremia de nervosa e estava realmente apavorada e prossegue; - desculpe, fui pego totalmente de surpresa, tanto com a noticia como com a sua reação. E te peço encarecidamente que você não crucifique o nosso filho por causa disso. Repito, a opção sexual é dele, assim como a  minha foi e como a sua foi. - Ahhhh mas nós somos normais Otávio - Tome sentido no que estas dizendo agora, pois você é a mãe dele... É melhor você descansar agora Julia, refrescar as ideias, falamo-nos depois mais.
Otávio se despede e vai para casa pensando; "eita mundo doido. As pessoas dizem o que não são, só para serem aceitas socialmente, e quando são o que dizem são apedrejadas até pela família.

Guerreira Xue








sexta-feira, 9 de junho de 2017

ELES VIERAM DE LONGE

Eles vieram de longe... E agora Não tinham mais como voltar Navegando em busca da esperança Ao encontro de um novo lar Eram muitas as vezes Que chorando olhavam para trás E um pensava na mãe Que perdera na infância Sim Porque até negro foi um dia criança Eles que separados pela distancia Pensavam nos irmãos Nas tardes de banhos no rio Na casa da avó No rancho beira chão Levados pela sobrevivência Atravessaram mares e oceanos Quando finalmente aportaram Era uma nova querência E ali findariam seus anos Tinha um senhor para servir No lugar que não havia guerra Para tanto o que se trabalhar Eles eram pobres negros, órfãos E não lhes cabia o direito à terra E ao chegar as noites de inverno Como que para aliviar seus fardos A dureza do inferno Punham-se os negros a dançar Lembrando da mãe África Daqueles dias ensolarados Em seus destinos haviam uma certeza Nunca mais retornariam além mar Aos negros restava a escravidão E aos brancos Ficou o trono da realeza E da senzala o ouvia-se os gritos Ora de cantoria, ora de tristeza Eles vieram de longe E agora Não tinham mais como voltar...
Guerreira Xue


quarta-feira, 24 de maio de 2017

ESSA É A MINHA ALDEIA

A paz que carrego dentro mim é um produto da minha imaginação que venho realizando com relativa facilidade até agora. É um reflexo daquilo que desejo aos demais, e o afeto que demonstro para com aqueles com quem convivo é alimentado diariamente por mim, e incentivado pelas reciprocidades. Essa é a minha aldeia, um lugar intocável, onde tentamos nos ajudar e compreender uns aos outros, com alguma solidariedade. Mas existe o resto do mundo também, e ele não consegue caber todo dentro de mim. Ou consegue?

Assistindo pela televisão os atentados terroristas, as chacinas, as pessoas morando nas ruas, a guerra. Confesso-me triste, e me vem a cabeça tanta coisa. Será mais fácil odiar, e ter medo?
É urgente entender as razões do que se passa para uma reconstrução de nossa própria espécie, isso se quisermos salva-la do monstro que se apossou da humanidade do ser.
A palavra tristeza virou clichê e o sentimento gastou, é natural, pois como as estações,os humanos também são sazonais.

Ontem vi os drogados da cracolândia, recém desmantelada a feira da droga, andando a esmo pelas ruas da cidade, e esses me lembravam os zumbis dos filmes. Pensei logo nos meus próprios filhos criados com conforto e segurança. Lembrei que em casa não faltaram brigas e nem reconciliações, nem comida e cama quente. Não faltaram cobranças e recompensas, e principalmente, não faltava a compreensão e beijos e abraços.
O que foi que faltou para esses coitados viciados, por que perderam a consciência, ou foi eu que perdi e não há mais salvação?
O amor, assim como o ódio, é ensinado com exemplos e nada como um dia após o outro para construir os sentimentos. As palavras até ajudam, mas são os atos que corroboram a veracidade delas.

Maior bem do homem, é ele mesmo. Não devia negocia-lo por trocados, ou escravizar-se em prol de coisas.
Nunca é tarde, até que seja. Mais aldeias de paz, por favor!

Guerreira Xue