sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO

Um livro de José Eduardo de AGUALUSA que relata a incrível história de Ludovica em meio a uma guerra civil na Luanda.
O autor teve a brilhante ideia de conectar os acontecimentos, direta ou indiretamente, à uma portuguesa que vivia enclausurada, emparedada literalmente, por ela mesma, em seu apartamento por quase trinta anos.
Há uma sutileza na mulher, que em companhia de seu cão sobrevive ao caos externo que a cerca, e que em momentos de solidão escreve nas paredes criando um mundo repleto dos seus pensamentos.
Prisioneira de seus fantasmas, entre a imaginação e a realidade, Ludovica, a Ludo, vai vivendo...

" Ludo aproximou-se da porta.Viu o orifício aberto pela bala. Encostou o ouvido à madeira. Escutou o surdo arfar do ferido:
Água mamã. Me ajude...
Não posso. Não posso.
Por favor senhora. Estou a morrer.
A mulher abriu  a porta, tremendo muito, sem largar a pistola. O assaltante estava sentado no chão, apoiado à parede. Não fosse a espessa barba, muito negra, julga-lo-ia uma criança.
Rosto miúdo, suado, olhos grandes que a fitavam sem rancor:
Tanto azar, tanto azar, não vou ver a independência.
Desculpe,foi sem querer.
Água, tenho bué de sede.
Ludo lançou um olhar assustado para o corredor.
Entre, não posso deixa-lo aqui.
O homem arrastou-se para dentro, gemendo. A sombra dele continuou encostada à parede. Uma noite se desprendendo de outra. Ludo pisou aquela sombra com os pés nus e escorregou.
Meu Deus!
Desculpe avó, estou a sujar a casa.
Ludo fechou  a porta, Trancou-a. Dirigiu-se a cozinha, procurou água fresca na geladeira, encheu um copo  e regressou à sala .O homem bebeu com sofreguidão:
O que precisava mesmo era dum coito de ar fresco.
Eu devia chamar um médico.
Não vale a pena, me matavam igual.Canta uma  canção avó.
Como?
Canta.Canta para mim uma canção macia tipo sumaúma.
Ludo pensou no pai, trauteando velhas modinhas cariocas para adormecer. Pousou a pistola no soalho, ajoelhou-se, agarrou entre as suas, as minúsculas mãos do assaltante, aproximou a boca do ouvido dele e cantou.
Cantou durante muito tempo."
Página 23 Livro Teoria Geral Do Esquecimento
                                 
Um livro imperdível!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

ENTRELAÇADO BOREAL

ENTRELAÇADO BOREAL

Talvez Solidão???

Lábios secos de sono
Olhando pela janela madrugada, aparece!
Aparece o instante em cada respirar
Aparece o contar das estrelas
Aparece, uma vez, ou outra ao acaso
Anda um cão sem dono
Você sabe... E a solidão arrefece!
Em todo o silêncio por quebrar
Quebrar com humidade as folhas
E nada haveria se não fosse este seu escravo
Escravo do acaso sem sono de encantar
Escravo como um cão com dono
Escravo em silêncio onde aparece o instante
Escravo olhando seus olhos secos de Madrugada
Respirar não escraviza as estrelas
Mas sim as janelas!
Janelas não têm uma voz, mas sim a solidão!
Solidão não significa folhas
Mas talvez humidade!
Arrefeça, quebre, ande, saiba... Apareça!
Outra vez sem nada...
Mas nada haveria se não fosse estes seus lábios
Molhados de lágrimas!?
M.R. "Pensamentos a Avulso" 2012

 https://www.facebook.com/pages/Desabafos/570579689691384
                               Foto: Boa tarde a todos, um resto de dia feliz!

ENTRELAÇADO BOREAL

Talvez Solidão???

Lábios secos de sono
Olhando pela janela madrugada, aparece!
Aparece o instante em cada respirar
Aparece o contar das estrelas
Aparece, uma vez, ou outra ao acaso
Anda um cão sem dono
Você sabe... E a solidão arrefece!
Em todo o silêncio por quebrar
Quebrar com humidade as folhas
E nada haveria se não fosse este seu escravo
Escravo do acaso sem sono de encantar
Escravo como um cão com dono
Escravo em silêncio onde aparece o instante
Escravo olhando seus olhos secos de Madrugada
Respirar não escraviza as estrelas
Mas sim as janelas!
Janelas não têm uma voz, mas sim a solidão!
Solidão não significa folhas
Mas talvez humidade!
Arrefeça, quebre, ande, saiba... Apareça!
Outra vez sem nada...
Mas nada haveria se não fosse estes seus lábios
Molhados de lágrimas!?

M.R. "Pensamentos a Avulso" 2012

https://www.facebook.com/pages/Desabafos/570579689691384   

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O GOSTO DOS ANJOS

 O GOSTO DOS ANJOS
Quantas vezes fiquei parado a olhar-te junto ao lago, a admirar os teus movimentos lentos, a invocar a memória e a recordar-me de uma só vez como te conheci. Eras um anjo de cabelos longos e atados que espalhava o fogo do seu olhar e se sentava à mesa a falar de papoilas. Sim, os anjos sentam-se à mesa e repartem o pão e deitam-se na cama e escondem as armas de fogo nos armários e libertam os pássaros das gaiolas e têm insónias divinas e orgasmos como orações musicais. E amam aquilo que somos. E sabem estender-se no chão e esperar que os pisem com amor. E gostam que lhes acariciem a pele e de ter medo de terem medo e de revelar o caminho aos que se perdem e de estender uma escada aos que necessitam de subir e de acender luzes na escuridão e de revelar estrelas e de iluminar as palavras e de amaciar os espinhos das rosas e de perguntar o nome aos esquecidos e de apaziguar as certezas insofismáveis e de transformar a alegria das pequenas realidades numa coisa imensa e de transformar as horas em oferendas e de colocar madrepérolas no teu nome e de perder a cabeça por desfolhar malmequeres e de voar como abelhas e de nadar em grandes espaços. E os anjos gostam também de nascer todas as manhãs e de percorrer os desertos e de contemplar as luas a abrir-se e a colocar planetas aos teus pés e de colher amoras e de se esconder no nosso passado infantil e de dormir abraçados e de tocar os pequenos pontos azuis do nosso cérebro e de codificar o nome de deus e de por nome às crias das gatas e das cadelas e das vacas e das éguas e de serem mais assim e mais assado, conforme os apetites de cada um, e de fazer tiquetaque como os enormes relógios de sala e de desvendar aos escritores todos os enredos das vidas que não se cansam de inventar e de guardar segredo quando lhes pedem e de escrever romances onde as princesas dormem em berços de vento e de parar o sangramento quando as mães furam as orelhas às suas filhas e de gravar orações nos brinquedos e de tomar banho numa bacia junto à lareira e de encantar lagartos e de fazer milagres ao contrário e de guardar seixos nos bolsos largos dos seus uniformes e de desfazer promessas tolas e de decorar poemas e de juntar pedrinhas e pedrinhas e mais pedrinhas num canteiro de maçãs e de repetir as vogais três vezes e de soletrar todas as palavas esdrúxulas da bíblia. E os anjos gostam ainda de por vezes não sentir nada e outras vezes de sentir tudo e de tornar a não sentir nada e de tornar a sentir tudo e gostam de ser leves como penas de pintassilgo e tão pesados como chumbo e gostam de perder a consciência quando amam e quando odeiam, apesar de estarem proibidos de odiar, e gostam de escrever cartas de amor ainda mais ridículas do que as que escrevia fernando pessoa e de deixar pousar os pirilampos nos olhos da luzia e de beijar as feridas que não se veem mas se sentem e de responderem às perguntas pertinentes do vasco e de nunca se chatearem com a teimosa teimosia do axel. E os anjos gostam igualmente de falar com os mudos e de acompanhar a visão mental dos cegos e de dizerem as palavras mais cruas com uma leve consonância musical e de transformar os gritos dos desesperados em música erudita e de deixar que chova nos jardins da babilónia e de obrigar os homens da torre de babel a, pelo menos, lavarem a loiça do almoço e de assinarem as cartas que enviam por correio com um beijo escrito e, por fim, gostam infinitamente de escrever em bicos de pés deixando que os humanos lhes acariciem as asas.
 JOÃO MADUREIRA II  
   http://jmadureira.blogs.sapo.pt/poema-infinito-183-o-gosto-dos-anjos-1019263                               
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