quinta-feira, 10 de abril de 2014

NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO


"Quem quer que nos tivesse precedido na subida não seguira o mesmo rumo que nós, optando por outras vistas.
─ O pôr-do-sol daqui deve ser lindíssimo. ─ calculei, observando o astro cada vez mais perto da linha do horizonte.
─ É magnífico. ─ concordou, observando o mesmo que eu. ─ Podemos ficar aqui a ver. ─ Olhou para mim e sorriu divertida. ─ Tubbs e Crockett a partilhar o momento tão romântico como o Sol a pôr-se no mar. ─ Ignorei o seu tom gozão e ela voltou a olhar para o mar. ─ Só espero que no fim não digas “que nojo”.
Percebi de imediato ao que se referia ela. Sónia recordava o momento, quando eramos crianças, em que me roubara um beijo nos lábios, curiosa com a sensação de beijar um rapaz, após ter visto um filme. Como já vos relatei, a minha reacção foi um “que nojo”.
─ Já não somos crianças. ─ disse eu, fotografando o horizonte. ─ E foi uma forma estupida de reagir ao teu beijo. ─ Baixei a máquina e olhei para ela. ─ Pensar que depois, fui eu que desejei beijar-te.
Sem tirar os olhos do horizonte, Sónia confessou:
─ Acredito. Eu própria voltei a ter esse desejo contigo. ─ Fiquei surpreso com a revelação. ─ Eras o meu melhor amigo. Por isso, talvez a melhor pessoa para testar um beijo. Tinha a certeza que se corresse mal, não me irias ridicularizar. ─ Sorriu com a lembrança. ─ Só que tu reagiste daquela forma… “Já viste o Crockett e o Tubbs aos beijos?”
─ Era um puto… ─ justifiquei, sem ter noção que a olhava atentamente. ─ Podias ter tentado roubar outro.
Ela dirigiu os seus olhos para os meus.
─ Nessa altura, não era um toque de lábios. Nessa altura, queria experimentar um daqueles beijos com língua. ─ Sorriu como se se sentisse ridícula por revelar aquilo. ─ Não podia roubar-te um beijo assim. Teria de ser dado de comum acordo. Era uma adolescente a começar a conhecer o meu corpo, os meus desejos… Era insegura e não suportaria ser recusada. Nem mesmo por ti.
─ Não te teria recusado.
─ Teria sido absurdo, Tubbs! ─ afirmou, desviando de novo o olhar para o horizonte. ─ Somos como irmãos.
Procurei calcular quanto tempo demoraria o Sol a tocar no mar, sentindo uma mistura de paixão com raiva por ela me comparar a um irmão e eu não ter coragem de lhe revelar os meus sentimentos. Agia como se tivesse treze anos.
─ Nós não somos irmãos!
─ És o meu melhor amigo. ─ corrigiu com naturalidade.
Como um puto apaixonado ao lado da amiguinha que adora, disse das coisas mais parvas que poderia dizer:
─ Há amigos que se cumprimentam assim.
Quase que parecia que estava a implorar o beijo.
Sónia pensou que eu estava a brincar, uma vez que justificara da mesma forma que ela fizera em criança. Não acredito que em momento algum, ela tivesse ponderado a hipótese de eu continuar a desejar aquele beijo.
─ Deixa lá. Não aconteceu porque não teve de acontecer.
Voltei a olhar para ela e retorqui:
─ O que não quer dizer que eu não o lamente.
Sónia abandonou a observação do horizonte para voltar a encarar-me. Notei que, de alguma forma, se sentiu confusa por eu dizer aquilo.
─ Não me digas que ao fim de vinte anos ainda pensas nisso. Ainda o sentes como uma falha entre nós?
─ Não é uma falha. ─ corrigi. Olhei para o vazio, procurando as melhores palavras. ─ É daquelas coisas que recordas da juventude e lamentas não ter feito. ─ Sorri. ─ Acho que preferia ter a recordação de um estalo teu por te tentar beijar, a esta de nunca o ter feito.
─ Nunca te daria um estalo por me quereres beijar, tonto.
─ Pois… Acredito. Só que agora… Já não sou adolescente para te roubar um beijo.
Sónia virou-se para mim. Senti o seu olhar profundo nos meus olhos. Nesse instante, reparei como o meu coração batia descompassadamente. Num acto reflexo, virei-me para ela.
─ Não quero que isso seja uma lacuna entre nós. ─ disse ela num tom neutro que não me permitiu perceber se falava a sério ou não. ─ Estamos aqui os dois, cara a cara um com o outro. Vamos esquecer que passaram vinte anos. Podemos matar a curiosidade de saber como será beijarmo-nos.
─ Não me gozes!
─ Não estou a gozar, Ricardo! ─ exclamou, séria. ─ Queres beijar-me? Estou aqui.
─ E tu, Sónia? Queres beijar-me?
─ Não estaria a propô-lo, se fosse contra vontade.
O Sol quase tocava o mar e tudo aquilo parecia surreal. A mulher por quem me apaixonara na juventude e por quem continuava apaixonado ao fim de quinze anos distante, ali estava, perante mim, com os lábios prontos a receber os meus. Não parecia possível.
Não pensei nas consequências de sucumbir ao desejo. Sónia nunca imaginou nas consequências que teria aquela experiência. Sim, para ela era só uma experiência. A que saberiam os lábios do amigo de sempre? Como seria beijar o Ricardo? Era mera curiosidade. Se ela por algum momento, nos instantes que antecederam o beijo, ponderou como seria, deveria ter pensado num toque de lábios, um beijo carinhoso na boca um do outro, quase fraternal. O resultado? Bom…
Os nossos lábios tocaram-se e o sabor que senti nos dela foi mais doce que algum dia poderia imaginar. Sabia o quanto a amava da mesma forma que tinha a certeza que não era correspondido. Daí que a reacção esperada fosse quase um “toca e foge”. Porém, ela beijou-me com carinho, com o mesmo carinho com que agia comigo, fosse num abraço ou numa carícia. Beijou-me lentamente e, sem pensar, colocou os braços à volta do meu pescoço. Eu envolvi o seu tronco com os meus, mantendo a máquina fotográfica na mão.
Foi um beijo de olhos fechados, os sentimentos à flor da pele, cheio de atracção. Prolongou-se por alguns segundos até se tornar mais intenso, mais profundo. As nossas línguas tocaram-se, a saliva misturou-se, o abraço ficou mais apertado.
Sónia parou, abriu os olhos e os braços, afastando-se um passo. Olhou para mim, surpresa e sem saber o que dizer. Depois, olhou para o horizonte e alertou:
─ Se não aproveitares agora, vais perder o pôr-do-sol.
Encolhi os ombros.
─ Não existe nada mais bonito, para mim, que a pessoa que está agora na minha frente.
Sónia voltou a olhar para mim. Ia a falar, mas hesitou. Abanou a cabeça, confusa.
─ Que aconteceu aqui? ─ interrogou, fugindo aos meus olhos.
─ Demos um beijo.
─ Sim… Eu sei. Mas… 
Apaguei o passo que nos separava e voltei a beijá-la da mesma forma. E ela correspondeu da mesma maneira. Afinal, a paixão entre nós não existia só em mim.
Não sei quanto tempo demorou o beijo, ou os beijos. Sei que o Sol já se escondera no mar, quando ela interrompeu o momento de forma abrupta. Parecia arrependida."
 Nuno Tavares
Excerto de NUNCA NEVA NO MEU ANIVERSÁRIO
                                                          
                                 
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terça-feira, 8 de abril de 2014

FLORES DE OUTONO.- Uma carta de amor

Escrevo-te essas cartas
Descrevo-te minhas lindas flores
Delineando-te minha fundas marcas
Envio-te  mais que letras mágicas
Sigo desfolhando grandes amores

Recebo de volta, os teus vastos sorrisos
Percebo aqui também
 as suas dores
Leio nas entrelinhas
as tuas sutís promessas
E recebo também...
Tuas cheirosas flores

Tão clara é nossa primavera
Uma revoada de novos pássaros
Tudo é especialmente...
Tão raro
É tempo, de uma inesperada quimera.
E assim,
seguimos nossos passos

Porque o outono um dia chega...
Não há  mais o belo jardim
Hoje sequer existe uma flor
O que foi  um dia, já era...
Bonito, mas acabou
E o que era cheio de cor
Agora de momento, esvaziou...

Espero eu aqui, as flores
de novo voltarem
Para novamente tornar a te escrever
Aquelas morreram, ambos sabemos
Mas outras com certeza, em seu lugar
haverão de renascer.
Guerreira Xue
08/1994                             

                      Imagem Net

domingo, 6 de abril de 2014

POSSIBILIDADE IMPOSSÍVEl


Pesadas correntes assombram minha mente
Com lembranças de longas noites escuras
Sem esperança alguma do amanhecer 
Feito flores feias, estas relegadas à secura
Enterradas bem fundo na consciencia
Deixadas de propósito por morrer
E que mesmo assim, sangram
Não ficam esquecidas
Velhas ferídas pútridas disfarçadas
e escondidas
As lágrimas vertem sem consolo agora
Quase todos já sentiram a mesma dor
O cego sabe que a aparencianão é tudo
E a evidencia é quase um nada
E quem vai nos perdoar, senão nós mesmo?
Paciencia
Pois na possibilidade da impossibilidade
e apesar da dor
O mundo vai morrendo...
Sem saber de verdade, o que é o amor.


Guerreira Xue/Hilda Milk

O Estranho Miserioso

 De onde ele veio, ninguem sabe. Chegou  simplesmente.Trazia consigo uma mochila, uma bicicleta velha  que de tanto rodar tinha os pneus gastos da estrada.  Ele mesmo parecia envelhecido pelo tempo. Parou no posto de abastecimento, pediu um concerto de seu transporte, pegou um quarto no hotel, tomou banho e dormiu.
Sonhou que era  um arqueiro perdido na floresta, e enquanto procurava a saida outros seguiam-no,  se ele achasse o inicio, eles também achariam.
Foi quando a terra abriu-se e todos morreram. Ele acordou assustado, depois voltou a dormir...
Pela manhã tinha resolvido :  “Vou ficar mais um bocado neste lugar.”
Guerreira Xue/Hilda Milk
https://www.facebook.com/GuerreiraXue/                                        

O JARDIM SEM COR

...Tudo estava triste e vazio, era como tivessem esquecido de acender a luz.
Elise não tinha braços, mas tinha olhos, e sabia compreender que isso não era o bastante.
“como vou fazer"? Sim, como ela ia fazer se não tinha braços? “Vou gritar.”
Ela podia gritar, mas ainda não resolvia.
Andou até a janela, abriu-a com o pé e a luz entrou.
“Ainda sem cor”.
Elise pegou no pincel com a boca, aproximou-se da tela e começou a pintar.
Chamou sua mãe para olhar, que com orgulho disse:
-Agora sim, a primavera vai voltar.
E Elise não parava de pintar.
Guerreira Xue /Hilda Milk
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O Mar De Todos Nós

A deriva em alto mar, perdido e sem poder voltar, João tentava retornar. Uma tempestade o apanhara de surpresa e agora João esperava a guarda costeira, do contrário. “Nem quero pensar"! Mas ele pensava na mãe, a professora da vila, no pai também pescador, que se perdera no mar, pensava em Rita a moça que amava e queria casar.
O sol ia alto, e nada de alguém chegar. João sem noção do tempo dormiu imaginando-se perecer no mar.
Não sabia se era sonho ou o que, mas no dia seguinte João estava lá, pedindo a "sua" Rita para casar. -Sim!

Guerreira Xue/Hilda Milk                    

DE CAMINHO (primavera)

Enquanto seguia pela alameda florida, ele sentia seu ego nas alturas. E um passava e cumprimentava-o sorrindo, e outro elogiava-o.
-Ola bom dia Raimundo!
-Que jardim maravilhoso Raimundo! E Raimundo respondia com um amplo sorriso, e seguia...
Claro que ninguém esperava que ele respondesse, mas o sorriso encantava.
Aquele jardim era público e não era, pois todos diziam ser do Raimundo.
As flores brotaram do dia para a noite, os pássaros vieram do nada, e a fonte voltara a vida.
E mesmo que dissessem que o milagre chamava-se primavera, outros sussurram que era Raimundo, e para Raimundo isso pouco importava.
Guerreira Xue