quinta-feira, 9 de março de 2017

O TIO QUER CASAR

Maria estava num dia difícil hoje, depois de dias seguidos de muitas chuvas havia muito a fazer em casa. Além do calor excessivo, a lavadora quebrou, era o que faltava, e ela ainda nem tinha providenciado o almoço. "Tudo bem Maria, fique calma que a vida é isso...  Chatices"!
Ligou para o técnico, que disse que tinha o dia cheio e que só podia vir no horário do almoço.
Fazer o que? Te espero então.
Estava ela nas panelas, quando o celular toca. Era a Filomena.
Oi Filó, tudo bem e você? Estou arrumando almoço, mas pode falar.

Filomena era uma portuguesa radicada no Brasil já tem tempo, e tinha uma casa de ferragens em São Paulo, desde que aqui chegou. Elas ficaram amigas não por acaso, pois Maria era uma de suas clientes, e essa frequência acabou estabelecer uma empatia entre ambas.
Era muito interessante como os costumes divergiam, e elas se divertiam muito com tal situação.
Maria era uma brasileira nata, proveniente de uma colonização de diversas culturas, e não conhecia realmente nenhum(a) português(a), até chegar a Filomena. 
A Filomena era do Alentejo, uma mistura de não sei que com árabe, a influencia que era-lhe mais evidente.
É estranho como nós, brasileiros, desconhecemos tanto a cultura portuguesa.

Olá Maria, estou bem, obrigada. Queria saber, tu podes fazer um bolo de tapioca para sábado? Vou receber visitas do Portugal e quero impressionar com uma sobremesa típica. Aliás, vou fazer uma feijoada também, com direito a caipirinha e tudo.
Muito bem. Faço o bolo de tapioca para você. Estou curiosa, conta logo quem vem.
Ah, vem o meu filho com a esposa, e o neto, e um tio que não vejo desde menina. O tio quer ficar no Brasil. Disse que quer arrumar esposa e já me perguntou se eu conhecia alguém.

Maria começa a rir e diz: porque ele quer esposa aqui, não tem mulher em Portugal?
Filomena ria também: claro que tem, mas acho que ele deve ser um chato, porque disse que só gosta de brasileiras. Mais risos...
Mas tem brasileira lá também, ou não? 
Tem sim, mas vai saber a fantasia do homem. 
Então ficamos assim, e venha almoçar conosco também! Eu gostava de te apresentar, e que visses meu o neto. E´um garoto lindo!
Até vou, mas terei de me conter, senão me rio de seu tio. 
Ora essa porque? E ambas riam ...
Sei lá, sujeito se abalar de lá do outro lado do mundo para achar esposa. Parece-me tão antiquado.
Olha que ninguém está livre, de encontrar outro alguém, que seja também livre claro.
Tens razão Filó. Mas é engraçado de qualquer jeito.  
Tocaram a campainha aqui, deve ser o técnico para ver a máquina de lavar. Vou para a vida Filomena. Te levo o bolo no sábado então. Beijos.
Maria desliga e corre fazer a salada que faltava para o almoço. O filho chega da escola e comem.
Chegou o sábado, e na hora marcada a Maria estava lá para ser apresentada a família de Filomena. E ela não riu ao cumprimentar o tal tio. 

Guerreira Xue


  



  
   

terça-feira, 7 de março de 2017

... E A VIDA SEGUE

Ele andava sempre ocupado com seus afazeres e não viu o tempo passar, não viu a vida passar.
Um dia passeando pela praia se sentia inquieto de tal maneira que não conseguia apreciar o cenário que tanto gostava... Não via os barcos lá no horizonte, nem as gaivotas que circulavam em busca de alimento. Hoje ele pensava qualquer coisa que o fazia sentir uma sutil comoção que não chegava a ser dramático, mas era triste.
Lembrava do filho caçula que estava se despedindo, para o doutorado na França. Agora ele estava só em casa, e não havia quem esperar para o jantar, ou partilhar o café da manhã. Será que a vida, daqui em diante seria como um deserto, povoado por velhas lembranças que animam o corpo cansado? 
Sempre fora muito seletivo com suas mulheres, e depois dos casamentos findos, agora não tinha nenhuma fazia tempo. Mudar esse estado de coisas, no momento parece bastante remoto.
E os pensamentos sucederam-se como uma enxurrada que arrasta o ser para a reflexão.
Talvez não existisse mais muita coisa para fazer ou viver.
E ele seguia pela trilha, onde outros andantes iam e vinham, e ninguém percebia suas lágrimas teimosas.
Ao chegar a grande pedra, ele senta-se, e deixa que a brisa suave se encarregue de secar seu rosto. 
Agora percebe o barco lá no Horizonte, as gaivotas voando ávidas por comida. 
...E a vida segue.

Guerreira Xue