sábado, 5 de novembro de 2016

Realidade

 A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
Alberto Caeiro(Heterónimo de Fernando Pessoa)

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O AMOR E JOGO

No jogo sentido das palavras
Sejam elas sussurradas
Ou gritadas,
O amor em geral aparece
Como explicação
Na lógica da humanidade
Culmina por definir a vida e a morte
E o mesmo, serve de resposta
Ou conclusão

Quando alguém é encarcerado
Diz que é por amor,
Esse sentimento que arrebata
Ou quando espanca, ou humilha
E até mata.

Poucos ou ninguém sabe o que é amor
Se ele é homem ou mulher
O amor é flor, porém rima com dor.
Pois o conceito é tão velho
Que talvez seja só bolor
Porque atualmente ninguém o quer.

No jogo sentido das palavras
O que será o amor?

Guerreira Xue