quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O FANTASMA

Dizer que eles existem de certeza, seria um tanto quando prematuro já que vivemos  dentro de uma escala onde só a massa corpórea vale e ainda temos vidinha breve dentro da mesma.
As igrejas pregam o céu e o inferno então se almas existem...
Lembro-me uma casa antiga que havia no morro de Santa Teresa. Diziam que esta era datada do tempo do império e era casa de escravos, os moradores costumavam dizer que algumas noites quando se passava perto das ruínas abandonadas podia se ouvir o barulho das correntes sendo arrastadas. Aquilo me arrepiava... Existem também ruínas nas missões jesuítas no interior do Rio Grande Do Sul  e é comum as pessoas sentirem a presença mística do lugar. De minha parte só posso garantir que não estamos sós, agora quem anda conosco, isso eu não sei.
Este é seu Chico, um velhote esperto e muito bem quisto por todos na comunidade. Adora contar suas histórias e podíamos conversar com ele até altas horas e nunca faltava assunto.
Ele nos contava fatos incríveis.Quando cresci fui estudar na capital e me lembro que do Seu Chico eu sentia mesmo muita falta. Quando chegava as férias  encontrávamo-nos todos de volta na nossa vila e corríamos visitar seu Chico.
_Mas naquele ano, seu Chico não estava lá, e diziam, na vila, que virara fantasma, porque ninguém nunca mais vira seu corpo, mas a brisa da  noite trazia murmúrios que faziam lembrar a voz gasta do velho contando, em surdina, histórias do além.
_No dia do aniversario dele íamos em sua casa sem sermos convidados e quem ganhava presente éramos nós. A mulher, dona Mariana, fazia um pão de panela muito bom! Eles não tinham filhos acho que por isso gostavam tanto de nos reunir todos a sua volta.
_E desta vez não foi diferente: mau grado a tristeza em que dona Mariana andava, morrendo de saudade do velho companheiro, lá estava à nossa espera o pão de panela quentinho, tão apetitoso quanto a nossa memória nos permitia recordar.
E então quem começou a contar a história foi eu...
Depois que construiram a nova ponte que liga a ilha ao continente a balsa foi aposentada e com ela o balseiro Manuel, também foi dispensado.
Era um velho entrado em dias que tinha por companhia seu cão.Com o movimento de seu trabalho sempre tinha com quem conversar.Agora sem atividade o homem ficara solitário em sua casinha modesta ali mesmo, na velha balsa que ia e vinha todos os dias.
Não foi surpresa quando um dia por acaso ele foi encontrado morto em sua cama e segundo o médico legista, ele havia morrido há dias.
A casa da balsa virou ruínas e foi de vez abandonada.
passados ums seis meses, as coisas começaram a mudar gradativamente.
os pescadores que de vez enquando passavam por lá  foram percebendo barulhos estranhos.
pensavam que podiam ser um passante que resolveu se aboletar por lá  por um dia ou dois.
Era uma cidade pequena e todos se conheciam. Vadios apareciam, e se iam em seguida.
Uma tarde aquela senhora estranha  apareceu no armazém.Ninguém nunca havia visto ela por ali.
O dono da venda surpreso correu cumprimenta-la  e se prontificando a servi-la, fez  as perguntas de praxe:
_Precisa que entregue suas compras senhora?
Respondendo que não ela simplesmente pagou suas sacolas e se foi em direção ao rio.
Ia acompanhada de um cão.Era o cão do Manuel!
_Sim, era o cão do falecido Manuel.
Quando ficaram sabendo que havia alguém morando na balsa, ficaram curiosos e foram mais que depressa tirar satisfação com aquela invasora. Era interessante a atitude protetora daquele cão para com ela.
O cachorro tinha sido do Manuel desde que nascera e estava ali naquele momento, pronto para atacar se preciso fosse, para defender a estranha.
Seria ela alguma parenta do velho Manuel!Pouco provável pois ele vivera anos ali e nunca ninguém de fora o visitava.
_Ola senhora.Que fazes na casa da balsa? A mulher olha calmamente para os curiosos e diz:
Entrem que explico tudo com calma para todos...Entraram e sentaram onde dava naquela simplória choupana...A mulher tinha uma água quente e serviu-lhes chá e foi contando...
Sou de uma cidadezinha do norte e perdi tudo que tinha numa grande enchente há seis meses e como sou sozinha no mundo o governo achou que não era prioridade me ajudar a recosntruir minha casa. A opção que eu tinha era ir para casa de algum familiar estranho ou ir para um abrigo destes de gente triste e solitária.Então pensei...Já que não tenho mais casa, posso viver em qualquer lugar.Peguei o que me restava de bens e sai a andar pelo mundo...E foi andando que cheguei aqui.
Abismados eles percebem que a mulher não é tão jovem quanto parecia e um pergunta-lhe
_Como a senhora chegou a esta balsa!
_Foi curioso isso...Eu parei no meio daquela ponte a ver os raios de sol da tardinha refletindo na água,era muito bonito,sabe. Por um momento eu senti uma tontura, e sem ter onde me segurar direito eu cai no rio e ia me afogando mesmo quando senti algo me puxando já era noite quando me vi na margem e tinha este cachorro me lambendo a cara.
Ele latia muito e era tão insistente que me obriguei, com dificuldade, a levantar e segui-lo e viemos parar aqui nesta casa e quando entrei tinha um senhor que nos esperava com fogo e uma caneca de chá quente..Me lembro que ele me ajudou a despir a roupa molhada e me fez beber o chá e cobriu-me com cobertores que me pareciam mais um amor de mãe. Podia mesmo estar morta aquela hora que não me importava. Dormi muito e quando acordei não o vi mais por vários dias, só não pensava mais que havia sido um sonho porque estava ali onde me vi, na casa da balsa.
Eu fui ficando porque  ninguém veio reclamar propriedade e por ser tranquilo.E o tal senhor de vez em quando aparece.Ele fica pescando calado lá na ponta da balsa. Eu faço chá, levo e faço-lhe companhia
Os ouvintes atentos perguntaram:_A senhora sabe o nome do tal homem?
_Ele não disse alias, ele nem fala...Só vem pescar e acaba deixando o peixe que pesca para mim.
Que diabo é isso!!! Pensavam. Quem seria o tal sujeito?
-Esta balsa  minha senhora, está abandonada faz tempo e o dono morreu aqui esquecido pelo mundo.Quando o encontramos mal conseguimos juntar-lhe a carcaça para dar-lhe um enterro decente.
_Olha que este senhor não está morto, disto tenho certeza! Um dia quando ele vier eu peço para irmos até a cidade e voces o verão.
Permitiram que ela ficasse na cabana pois estava limpa e cheirosa. O velho Manuel devia ter arrumado mulher em vida, teria tido vida muito melhor que de ermitão.
Aquela senhora morou muitos anos ali...Até fez um jardim em volta da prainha onde estacionava a balsa.
A mulher nunca  levou o tal sujeito a cidade para vermos. Alguns diziam que era mentira aquela história, outros porém diziam que ela descreveu direitinho o velho Manuel.Tantos mistérios cercam-nos que sempre pairam dúvidas, vai saber.
Dona Mariana deu um leve riso e disse:
_Aprendeste com Chico a contar estas histórias garoto!
Emocionado, acenei que sim.
_Fantasma ou não, ele sempre estará conosco...É por isso que os fantasmas existem. Porque os amamos e não queremos que sejam esquecidos. Muito obrigada por vir festejar comigo o aniversario do meu Chico.
Depois de trocas de comprimentos e abraços fraternos fomos todos para nossas respectivas casas.E antes de dormir eu pensei:
_Danado do seu Chico, não é que ele estava lá o tempo todo!
Guerreira/Dreanstime Bia
                 Ilustração do pintor  Gil Pery

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

NATAL COM JESUS

Quando Jesus entrou para aquela família maluca, nunca esperava que fosse ser tão surpreendentemente feliz.
A menina Serena adorava passear pela margem do rio e num dia  de sol, quando tudo aconteceu. andava  ela a cruzar a ponte   quando se distraiu vendo a função das formigas e  sem perceber pisou numa tabua solta, se desequilibrando e xuaaaaaá... cai n'água. E por causa do susto ou da água pesada, não se sabe, pois era exímia nadadeira, ela ia morrendo afogada, não fosse "ele" á socorre-la . O que se passou a seguir foi interessante porque, ele era um vadio mesmo...Vivia pelas vielas, se alimentava quando alguém se dispunha a doar-lhe  algum alimento, pois do contrário era no lixo mesmo que ele se mantinha. Uma tristeza!
Neste dia em questão e por acaso estava "ele" também passeando pela margem do rio, pressente quando a pequena caiu, seu ato foi um reflexo, sabia que precisava ser rápido e foi... Fez um barulho tão grande que a maior parte das pessoas das redondezas correu para ver o que se passava. A cena era impressionante, ele arrastara a pequena para margem e  tentava chamar a atenção para alguém auxilia-lo, nem sabia nadar direito e foi por uma daquelas coisas do destino que também não se afogou, tentando resgatar a menina.
Levada para o pronto socorro, Serena precisou ficar dois dias internada, havia bebido muita água suja, e milagrosamente tinha sido salvo por Jesus, o vagabundo.
_Jesus! Quem é este papai? Perguntou ela  quando acordou. Mas  não esperou a resposta e dormiu profundamente de novo....
Quando Jesus saiu do rio, se feriu com um galho seco, mas estava muito cansado para perceber, e todos acudiram a menina até tiraram fotos dela junto com seu salvador, e quando a levaram para o hospital Jesus ainda estava lá, tentando se recuperar, até que se foi  embora mancando.
Dois dias depois era 24 véspera de natal, e Jesus ainda não estava bem, perambulava pela cidade quase sem sentir, queria calor. Fogo precisava encontrar um fogo e rápido. Mal se aguentando em pé entrou por uma porta onde haviam vozes e tinha luz porque de resto, a cidade parecia vazia e estava nevando muito esta noite.
Todas as famílias da cidade, incluindo Serena e seus pais, encontravam-se a igreja era noite de natal e haveria missa com direito a cerimonia de "lava-pés" e tudo. Aquela coisa de pregar humildade sabe.
As vezes pensamos que a vida é muito previsível porém algumas surpresas podem acontecer, ainda bem!
No meio do "sermão da montanha" ele entra lentamente  pela porta principal e caminhando direto para o altar,  perto do presépio montado, ele se deita nas palhas do lado pequeno cristo.
Definitivamente Jesus morreria ali. O padre então diz a um dos coroinhas:
-Tire-o pra fora Carlos ele vai enlamear tudo.
-Mas padre, este é o Jesus! E todos na igreja se voltam para o presépio e se faz um burburinho de reconhecimento. Era Jesus.
Serena que estava distraída, ao ouvir tais palavras se volta e pergunta ao pai:
- É ele papai? Com a resposta afirmativa do pai, Serena vai se aproximando discretamente do altar e o cobre com seu xale, o pega delicadamente no colo e sai.
Se a missa do Galo continuou Serena não sabe, mas hoje bem mais velha ela compreende que aconteceu o inusitado naquela noite...Ela salvou seu Jesus que a havia salvo também.
Acreditem se quiser, o Jesus de Serena ficou manco por que seu ferimento foi grave. Era conhecido por este nome por causa de um velho pescador que o encontrara numa cesta de vime boiando no rio e a primeira coisa que o tal pescador disse quando o pegou foi: -Jesus!
-Meu Jesus é perneta, cheio de cicatriz, tem um olho vazado e é feio pra burro, mas é meu amor, meu cão.
 E toda vez que alguém prega o amor incondicional, Serena compreende e acredita em sua existência  Todos temos ou somos, um Jesus.
                     
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