sábado, 5 de abril de 2014

AQUELA FRESTA

AQUELA FRESTA
Do grupo das cem palavras

- Alguém faz favor de fechar a merda desta cortina!
Silencio 
Ela estava inerte no escuro, havia semanas. Perdera a vontade de viver, o seu companheiro de vida morreu, deixando-a para trás. Todos saíam para seu lavoro diário, e a nona ficava ali, vazia. 
O diabo daquela fresta incomodava agora... Era uma luz aquecendo a pele, e a senhora não queria sentir nada. Tentou fechar os olhos, tapar a cabeça, virar de costas e não adiantava. “Não quero, não quero.”
Num rompante de sentimentos ela salta da cama, ia fechando a maldita cortina quando, espia lá fora. Era o sol!
Guerreira Xue     

sexta-feira, 4 de abril de 2014

PALAVRAS E SENTIMENTOS

PALAVRAS E SENTIMENTOS

Alguns sentimentos nos deixam por vezes
sem palavras.
Entretanto algumas palavras
podem também nos deixar
sem sentimentos
E quando as palavras e os sentimentos
se encontram
há invariavelmente o choque de emocões
E estes conflitam entre ser
poder e viver.
Provocando dentro de nós
fortes revoluções
Por isso as variações climáticas oscilam
O tempo que é inconstante,
muda a todo instante
E as vontades que ha pouco eram tudo
arrefecem
E a vida segue...
E uma tristeza de não ter vivido
incomoda

Guerreira Xue      


quarta-feira, 2 de abril de 2014

CARTAS QUE NÃO TE ESCREVI

Olavo gostava de estar no Caribe agora, bebericando um drink, apreciando o por do sol, e de preferência cercado de belas mulheres.
A primeira vez que ele foi a Isla Verde tinha dezoito anos, era um campeonato mundial de Surf em 1968, e desde então sempre que podia ou tinha recursos, ia visitar aquelas ilhas paradisíacas.
A mente de Olavo viajava agora, lembrando-se daquelas águas límpidas, areias ondas incríveis. Parecia escutar o barulho delas, sentindo o frescor da espuma salgada.
Lembrar era o que o mantinha vivo naquela cama... E havia Tchitula, uma linda angolana da tribo Ovimbundu.  A bela tinha os olhos da cor do céu, e uma pele da cor da noite.  Era garçonete no bar do hotel de noite, e de dia levava os turistas a passeios, falava vários idiomas. Era uma incansável!

Discutir agora as desigualdades sociais seria cansativo, o fato é que Olavo tinha uma admiração tal, que caiu logo de amores pela moça.
Filho de rico empresário carioca, o jovem podia se dar ao luxo de sair pelo mundo, e assim que acabou a faculdade foi o que fez, levando a Tchitula consigo.

Seus olhos ficam embargados ao recordar-se daqueles tempos. "Como queria estar no Caribe agora."
Mesmo sabendo que Ela não estava mais lá... Talvez sentisse melhor a sua presença em meio aquele lugar onde foram felizes.
Ainda dói pensar na perda da mulher que amava. Quantas vezes ja se perguntou, se não tivesse a deixado retornar para a África, talvez fosse diferente agora. "Ela podia estar viva ainda".
_Preciso ir meu amor. Minha gente precisa de mim tem séculos que brigamos por independência agora é a chance de Angola. Os meus irmãos querem que eu vá e eu vou é importante.  Dizia a moça com convicção.
Pensando agora naqueles dias agora, Olavo percebe que era um egoísta só via o que queria e Tchitula não, ela tinha uma consciência forte da realidade crua que assolava a sua gente. Ela era franzina, mas tinha  força e persistencia. Costumava dizer-me que não eu tinha noção do que acontecia no mundo.
"Eu fiquei tão desesperado que faria qualquer coisa para que ela não fosse".
_Eu vou com voce então! Surpresa a moça retruca.
_Voce é doido, já viu esta sua cor de branquelo puro no espelho? Risos...
_Fazemos assim, além do meu contato telefônico, te deixo um endereço, se acaso não conseguir te atender, voce me escreve que mais cedo ou mais tarde eu recebo suas cartas.
Quando isso acabar eu volto meu amor.  Prometeu a moça com beijos e abraços.
A separação de Tchitula foi muito triste, e mais triste ainda foi saber de sua violenta morte na guerra civil de Angola.
Sem ter o que fazer mais, Olavo volta ao Brasil e assume os negócios do pai, se jogando no trabalho.
Seus pensamentos são interrompidos por uma suave voz feminina.
_Hora da hemodiálise Olavo. Vamos?
E Olavo que não fala, e nem anda sozinho, é levado para a sala de medicação.
“Que saudades de voce meu amor! Se existe mesmo isso de outras vidas Tchitula, um dia eu vou te encontrar e falar tudo que não te disse, nas cartas que não te escrevi."

 Guerreira Xue  

                                                                                                       Imagem net     

             TCHITULA – É alguém que nasceu numa aldeia nova.

terça-feira, 1 de abril de 2014

CAMINHO E ESTRADA

 CAMINHO E ESTRADA
Na beira da estrada tinha um caminho
Um caminho que levava para nada
Um nada que beirava a estrada
Numa estrada que sem atalho era tudo
Um tudo, que ainda era nada


Na beira do caminho tinha uma estrada
Não tinha nada, e ainda assim era tudo
E o caminho que não era estrada
Me lembra que tudo, é melhor que nada.

Estrada que carrega caminho
Caminho que transporta estrada
Esperanças malucas de um tudo
Lúcidas certezas de muitos nada.
Guerreira Xue                
                           Imagem Antonio Fazendeiro

segunda-feira, 31 de março de 2014

A LIVRARIA

Ele estava distraído folheando "Almas De Gente Negra" e não percebe a porta se abrir. 
-Ola boa tarde. Disse ela naturalmente. Vitor se levanta rapidamente e responde solícito;
-Ola. Posso ajudar?
-Sim, voce tem aquele livro Pablo Picasso- Mestre Das Artes?
-Sim claro, momento por favor.  Voce quer qual a versão?
 Neste instante um grandalhão entra armado ...
-Isso é um assalto! Quero o dinheiro e agora. Abra o caixa, agora!!!
Vitor era novato na rua, mas sabia que quando acontecia, não tinha jeito.
-Tudo bem, tudo bem cara. Não tem muito ainda pois acabei de abrir a loja, e abrindo a caixa registradora, o ladrão se serviu. Em seguida olhou em volta e viu a moça atrás de uma prateleira. Deu um sorriso de escárnio.
- Nem vi que esta bosta era uma livraria. Feche esta merda meu e abre um banco, pelo menos dá mais dinheiro. E saiu dando risada.
Sem pensar em nada Vitor se volta para a cliente:
-Voce esta bem? Ao percebe-la sem cor, corre pegar uma cadeira e copo d'água.
-Nem sei o que dizer para desculpar, ainda bem que foi rápido.
A moça continuava calada. Nervoso com a situação, o rapaz dispara:
-Fazemos o seguinte. Voce leva seu livro e é por conta da casa.
-Não quero seu livro! Entrei aqui para fugir do cara, e ele te roubou por minha causa, compreende?
Compreendo sim, então voce trouxe seu amiguinho para me roubar é? Disse ele irritado.
E ela virou as costas e saiu chorosa. Levando uma coisa que Vitor não conseguiu explicar, mas que deixou-lhe mais vazio que a sua caixa registradora.
 Guerreira Xue/Hilda Milk
                                                  Livraria Ouro Preto