quarta-feira, 2 de abril de 2014

CARTAS QUE NÃO TE ESCREVI

Olavo gostava de estar no Caribe agora, bebericando um drink, apreciando o por do sol, e de preferência cercado de belas mulheres.
A primeira vez que ele foi a Isla Verde tinha dezoito anos, era um campeonato mundial de Surf em 1968, e desde então sempre que podia ou tinha recursos, ia visitar aquelas ilhas paradisíacas.
A mente de Olavo viajava agora, lembrando-se daquelas águas límpidas, areias ondas incríveis. Parecia escutar o barulho delas, sentindo o frescor da espuma salgada.
Lembrar era o que o mantinha vivo naquela cama... E havia Tchitula, uma linda angolana da tribo Ovimbundu.  A bela tinha os olhos da cor do céu, e uma pele da cor da noite.  Era garçonete no bar do hotel de noite, e de dia levava os turistas a passeios, falava vários idiomas. Era uma incansável!

Discutir agora as desigualdades sociais seria cansativo, o fato é que Olavo tinha uma admiração tal, que caiu logo de amores pela moça.
Filho de rico empresário carioca, o jovem podia se dar ao luxo de sair pelo mundo, e assim que acabou a faculdade foi o que fez, levando a Tchitula consigo.

Seus olhos ficam embargados ao recordar-se daqueles tempos. "Como queria estar no Caribe agora."
Mesmo sabendo que Ela não estava mais lá... Talvez sentisse melhor a sua presença em meio aquele lugar onde foram felizes.
Ainda dói pensar na perda da mulher que amava. Quantas vezes ja se perguntou, se não tivesse a deixado retornar para a África, talvez fosse diferente agora. "Ela podia estar viva ainda".
_Preciso ir meu amor. Minha gente precisa de mim tem séculos que brigamos por independência agora é a chance de Angola. Os meus irmãos querem que eu vá e eu vou é importante.  Dizia a moça com convicção.
Pensando agora naqueles dias agora, Olavo percebe que era um egoísta só via o que queria e Tchitula não, ela tinha uma consciência forte da realidade crua que assolava a sua gente. Ela era franzina, mas tinha  força e persistencia. Costumava dizer-me que não eu tinha noção do que acontecia no mundo.
"Eu fiquei tão desesperado que faria qualquer coisa para que ela não fosse".
_Eu vou com voce então! Surpresa a moça retruca.
_Voce é doido, já viu esta sua cor de branquelo puro no espelho? Risos...
_Fazemos assim, além do meu contato telefônico, te deixo um endereço, se acaso não conseguir te atender, voce me escreve que mais cedo ou mais tarde eu recebo suas cartas.
Quando isso acabar eu volto meu amor.  Prometeu a moça com beijos e abraços.
A separação de Tchitula foi muito triste, e mais triste ainda foi saber de sua violenta morte na guerra civil de Angola.
Sem ter o que fazer mais, Olavo volta ao Brasil e assume os negócios do pai, se jogando no trabalho.
Seus pensamentos são interrompidos por uma suave voz feminina.
_Hora da hemodiálise Olavo. Vamos?
E Olavo que não fala, e nem anda sozinho, é levado para a sala de medicação.
“Que saudades de voce meu amor! Se existe mesmo isso de outras vidas Tchitula, um dia eu vou te encontrar e falar tudo que não te disse, nas cartas que não te escrevi."

 Guerreira Xue  

                                                                                                       Imagem net     

             TCHITULA – É alguém que nasceu numa aldeia nova.