sábado, 10 de novembro de 2012

A MULHER QUE NUNCA...

Todos os dias aparecia no restaurante com um homem diferente. Os clientes mais assíduoas sabiam que alguns desses homens eram repetidos, que eram os mesmos mais do que um vez por mês, mas nunca por semana, que os homens cansam e mais vale variar do que estar sempre a aturar o mesmo. A razão mais óbvia que arranjara para si própria era não gostar de jantar sozinha. Era muito bem capaz de pagar o jantar a um homem só para ter companhia. E porque não a uma mulher? Por ser mais fácil lidar com os homens, por a maioria não pensar muito na vida e não recear as consequências de aceitar um convite para jantar. Alguns recrutava-os pela Net, com o pré-requisito de viverem na mesma cidade que ela, para não terem de se deslocar por causa de um simples jantar. Nunca havia mais nada para além disso, amizades reais e virtuais, troca de telefonemas, idas ao teatro e aos festivais de verão. Na verdade, não se sentia atraída pelos homens, nunca se sentira, a maioria são feios, brutos, demasiado desastrados e querem que as mulheres sejam também mães deles. Não tinha nascido com o instinto maternal e não queria tomar conta de ninguém, para varia até lhe ia saber bem se alguém tomasse conta dela!
Um dos dias em que se sentia demasiado preguiçosa para atender o telemóvel  telefonar a alguém ou recrutar um pacóvio na Net, resolveu que mesmo antes de entrar para o Restaurante encontraria um cromo para a acompanhar. E foi aí que deu de caras com o homem mais estranho que alguma vez conhecera, um misto de Monty Python com Obelix e Gerard Depardieu na Idade da Pedra (Rrrrrrr!). Ele perguntou-lhe, em francês, se sabia de algum restaurante razoável nas redondezas, ela disse-lhe para vir com ela, que lhe oferecia o jantar. O homem até corou, se calhar nunca nenhuma mulher se tinha oferecido para lhe pagar um jantar ou então só tinha saído sempre com homens e as mulheres intimidavam-no ao ponto de ficar com cor de indio. Seja como for, aceitou, depois de pigarrear um pouco, insistindo que se ela o convidava, então devia ser ele a pagar-lhe o jantar. Que mania os homens têm de pensar que controlam tudo, resmungou ela, não, desta vez sou eu a pagar-lhe, não insista mais. Posso tratá-lo por tu? É francês? Mesmo de França, não é emigrante nem filho de emigrantes? Bem, se é para falar francês, então tenho mesmo de beber mais do que o habitual, porque só consigo esse sotaque quando a bebida me amacia as cordas vocais!
Quando a viram entrar todos se calaram, era a primeira vez que vinha acompanhada de um latagão daquele tamanho, até as escassas moscas deixaram de voar, o silêncio só foi cortado pela voz suave do homem das cavernas: C'est bien ici? Ela assentiu, claro que sim, por mim pode ser em qualquer lugar, é este o meu restaurante preferido e sei-o decor, sinto-me bem em todo o lado. A minha sugestão é comermos bacalhau, já que não és de cá, assim ficas a conhecer os pratos típicos, posso escolher eu? Podemos optar por petiscar em vez de jantar de faca e garfo? Então vamos lá, duas choras, duas pataniscas, dois bolinhos de bacalhau, uma bola de bacalhau, uma punheta (ou salada de bacalhau), seis línguas e uma cara de bacalhau. Pedimos acompanhamento de arroz de feijão? Vinho da casa, pode ser? E depois, se ainda tivermos fome, podemos pedir o pão com bacalhau, mas o mais certo é não querermos mais e terminarmos tudo com aletria ou com o célebre arroz doce, que eu não como, prefiro leite creme! Tenho pena que aqui não façam iscas, à moda de Porto, com as fatias grossas de bacalhau envolvidas em farinha e ovo, adoro iscas de bacalhau!
A partir dessa noite nunca mais precisou de procurar companhia para o jantar, ele combinava logo com ela para o dia seguinte e lá estava à porta à mesma hora. Falava numa voz suave,  pagavam o jantar à vez, não a incomodava e nunca lhe pedia nada em troca. Ele decidiu vir viver para Portugal por causa dela, ou melhor, daqueles jantares com ela. Depois de pagarem saiam e ainda iam juntos até ao final da rua, desciam a avenida e depois cada um ia para seu lado, como dois amigos que sabiam que no dia seguinte se voltariam a reencontrar. Nunca sequer falaram em encontrar-se antes ou depois de jantar e só em Agosto se separavam para cada um ir de férias para longe do restaurante onde habitualmente jantavam. Estamos em Agosto, ela está em Espanha a passar férias, no Cabo da Gata, com uns amigos montanhistas, mas hoje apetece-lhe jantar num restaurante tipico em vez de comer no parque de campismo. Dá um passeio pela aldeia e fica parada em frente a um restaurante a ver a lista, ele pergunta-lhe: C´est bien ici? Ela sorri, estava à tua espera, ainda bem que não te atrasaste!
Guerreira Xue

                                   Imagem Net

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A DONA DOS MEDOS

_Me sinto murchar na escuridão.
_Por que?
_Não sei...Me ajude por favor. Sua tristeza era tão evidente...
Vivo assim tem muito tempo. Nunca  gostei de intromissões, pois todos tem tantas críticas, não conseguem compreender a diferença entre acrescentar algo ou diminuir o próximo. Tantas certezas de tudo, é como se o mundo realmente fosse único e so existisse um caminho bom. Isso presta, aquilo não é bom. Não ande com fulano, beltrano é vagabundo. Não saia sozinha, não chegue tarde.Passei parte da vida escutando  não isso, não aquilo.
_Quem dizia!
_Minha mãe...Ahahahahhh. Agora devo entender que meu "problema" começa com ela! Todos devem mesmo começar com ela, afinal saimos de dentro da mãe não!
Depois teve os outros também doutor...Todos entoando o mesmo refrão."Não"
Mesmo quando não nos conhecem direito, parecem teem opiniões críticas e destrutivas.Quer um exemplo simples?
Uma vez tive que preencher um formulário num curso e coloquei  que minha instrução religiosa era
Judia, pois saiba que passei quase tres meses ouvindo piadinhas desagradáveis por conta disso, e olhe que nem sou praticante...Hehehe
_Mas se cansaram e pararam,não foi?
_Não doutor, o curso acabou neste prazo. Mais risos...
Até o mais  evoluído dos doutores tinha que se rir, diante de tal criatura.
Esta moça era cheia de beleza interior, tinha inteligencia, senso de realidade e consciência da própria loucura. Um verdadeiro desafio para psicólogos que pensam que só consultar a cartilha  de bolso e já conseguem um prognóstico brilhante e preciso.
Daniel se sentia atraído por seu caso. Estão nestas conversas há três meses e ainda não consegue identificar ou diagnosticar esta paciente, quando pensa ter encontrado o "fio" do problema ela mesmo aponta novas informações ...Olha que este era reconhecidamente  um especialista no assunto.
Dia destes quando terminaram a consulta ela  disse-lhe sorrindo abertamente:
_Quando oficializamos nosso namoro?
O doutor Daniel ficou vermelho até a raiz dos cabelos com tal observação.
A primeira vez que esta apareceu em seu consultório, foi bem clara em dizer que só estava ali por força de sua melhor amiga.E era verdade, sua amiga Vania a trazia todas as vezes e esperava na saída.Isso aconteceu até sua quarta consulta...
_ Voce vai sim...Ou então nunca mais falo com voce.
_Como ve doutor, estou aqui por livre e espontânea pressão.
Margarida  começou a se isolar gradativamente depois da separação. O marido se foi, por causa de outra.
Isso parecia ser a causa mais relevante no seu prognóstico.Seu único contato externo era justamente Vania.
_ Não foi bem assim, se foi por que não gostava mais  de mim. Depois de dois anos de casamento, mal nos olhávamos.
Foi morar com outra azarada. Risos...
Parecia ter pouca autoestima porém, era engraçada e bem humorada.
Conversava tanto que por vezes chegava a me confundir.
_Pare Margarida.Estamos saindo do assunto.
_É que não há mais assunto.
Daniel ficava pensando e pensando.
_Esta mulher é um emaranhado de informação.Difícil encontrar o foco.
Consultava seus colegas.
_Estas doutoradas tem problemas de relacionamento por conta dos complexos dos outros, não delas em si Daniel.
_Pois engana-se, Margarida não é doutorada, nem formada é...Mas é bem culta.
_ A questão pode estar ai mesmo. Acompanhe meu raciocínio, as pessoas em geral gostam de estar com seus iguais.Vamos ao relatório desta moça...
Margarida é moça simples.Vive uma vida simples, casa com um homem simples. Porém quando a conhece melhor, ele nota que ela não é tão simples assim. Isso complica.
Quando o marido percebe que ela é inteligente a princípio fica muito orgulhoso de sua esposinha, mas isso pode confrontar com suas inseguranças com o passar do tempo, abalando a relação.
_Ele a deixou por ela ser inteligente!Opsss...
_Ele a deixou por se sentir inferiorizado.
_Ele foi viver com outra(igual) e ela, Margarida, se sentindo culpada se isolou.
Daniel ficava pensando demais nela...Parece forte, no entanto...
Um dia tomou iniciativa e decidiu.
_Hoje será nossa ultima consulta...
_Como! Estou boa já!?
_Voce nunca esteve doente.
_E o que faço com meus medos todos? Por que está me dispensando?
_Por que nossas conversas são ótimas e me sinto culpado de cobra-las.
Voce tem tanta coisa boa dentro da cabeça que isto está virando distração e não tratamento.
Vai fazer algo por quem precisa Margarida, tenho uma amiga que gostaria que conhecesse.
Ela trabalha com crianças carentes e precisa muito de voluntárias, quer?
Seu problema é solidão Margarida.E seu maior medo é magoar quem gosta e disso, todos corremos risco.
Não pode evitar ser quem é, como não pode também mudar os que a cerca.O isolamento não é boa opção acredite.Na melhor das hipóteses nos asseguramos todos de uma coisa, o respeito mútuo.
Há pessoas que precisam e podem gostar muito, tenho certeza, de voce.
A partir de hoje não sou mais seu médico, voce vai sobreviver.Boa sorte.Cumprimentando-a conduziu até a saída.
O tempo foi passando e Daniel não soube mais de Margarida, podia ter ligado para ela...Não, não podia. A ética não permitiria.
Certa vez  fazendo voluntariado numa ONG(organização não governamental), um destes lares, onde as crianças tem mães adotivas...Daniel teve a vaga impressão de ver  Margarida, claro que devia ser impressão esta parecia bem mais jovem  e corria com as crianças pelo gramado feito uma adolescente.
Estava atrasado, perdera tempo precioso no transito e a diretoria do abrigo o aguardava.
_Bom dia doutor Daniel.
A secretária anuncia sua chegada e o conduz a sala de reuniões.A surpresa do moço não podia ser maior.A sua frente estava..._ Margarida! Com um sorriso no olhos ela o cumprimenta e convida a sentar-se.
Tudo acertado então...O doutor terapeuta daria expediente na instituição infantil três vezes por semana.
Margarida estava bem recuperada e feliz fazendo algo por quem  realmente precisava dela._Acho que deve ser isso o que importa, fazer algo construtivo.
Quando lembrava das palavras desdenhosas do ex-marido, ficava triste mas, pensava agora  que o problema era dele e não dela.
_Quando acordo pela manhã e vejo o mundo cinza, não me importo mais pois tenho as crianças que me esperam aqui,pode que elas não saibam porém, aqui temos trocas incríveis, dou um pouco para elas e sou recompensada em muita satisfação .Por intermédio delas vamos reconstruindo as cores do mundo que pode ser melhor ou menos feio.
Rever Margarida foi bom...Daniel não entende direito as coincidências da vida mas, algo lhe diz que os dois vão estar juntos, por algum tempo ainda. E pensar nisso, traz sensação de bem estar.

Guerreira Xue


Pintura de Jean Jacques Henner

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Quando Sou Feliz

Tem  alguns anos e eu vi um documentário na televisão que  falava na existência de um homem feliz, de que se tinha notícia claro. Era em uma cidadezinha lá nos confins do Rio Grande Do Sul e o mesmo filme mostrava um senhorzinho de chapéu de palha debaixo do sol quente, tocando uma carroça cheia de feno. Dizia também que este mesmo se sustentava dos peixes que pescava, plantava sua própria comida e sua companhia era um radinho de pilhas, um cão, um burro velho, umas poucas galinhas  e os pássaros que habitavam seu pomar.
Ficava eu imaginando....
Que tipo de felicidade seria esta! Queria poder ir atrás do sujeito e lhe perguntar onde ele a achou?
Por que diabos, um pobre coitado, de pés descalços era feliz?
Isso era um enigma a ser desvendado. Sabidamente a felicidade esta ligada ao sucesso, fama e fortuna. Pessoas pagam rios de dinheiros, para serem felizes.
Sim! Elas pagam pelo prazer de ter momentos de alegria,e que se diga é uma felicidade momentânea e que apesar de custar caro, dura bem pouco.
Descrever misérias é poético e vende bem, comercialmente falando.
Se dissermos aqui:
_Existe um veio de ouro descoberto recentemente lá na beira do Tietê. Certamente uma multidão corre lá não só para verificar, como para se adonar-se do "dito", porque isso seria realmente pura felicidade!
Um desgraçado semianalfabeto era feliz, isso só pode ser piada!
Eu mesmo tenho dias de extrema alegria e tenho certeza que a satisfação nem sempre custa tanto, e no caso "dele", custava quase nada.
Viver com alegria parece ser fácil. Será!
Até que ponto nossa felicidade ou tristeza depende de outros?
_Existem certos encantamentos que funcionam. Dizia a minha vovó.
_ E Você só tem que variar na medida. Como assim, variar na medida?
_Me diz uma coisa. Quando tu acorda feliz sem motivo aparente é por que?
_Não sei vó. Será por causa do sol, da chuva, por eu estar bem...
Partiremos deste ponto então, tu ficou feliz sem interferência de ninguém, esta "coisa" feliz saiu de dentro de voce, e mesmo que aconteça algo que te faça encher os olhos de lágrimas, o que seria uma interferência externa, voce tendo energia forte, logo voltas para tua alegria habitual querida.
Ninguém nasce para ser triste ou feliz o tempo todo, pois vivemos em sociedade e em geral existem muitas pessoas doentes, e tristes em nossa volta, isso sem contar as guerras, o que não quer dizer que voce também um dia não possa ficar debilitada. A tendência do dia negro é chover, e a do ser triste é chorar. Olhe para o céu depois da chuva, as nuvens se vão e o sol que estava escondido, aparece. Então depois das lágrimas...
Mesmo que tu vivas de olhos fechados, ainda não poderá ignorar os outros e como consequência sofres também sua influência. É natural que fiques triste, ou por não se sentir bem ou por ver pessoas doentes e sem alegria, mas se viver de olhos muito abertos corres o risco de cair na tristeza alheia, o que pode te impedir de ver o sol ou a chuva ou o teu próprio bem estar.

A felicidade está em repartir, e isso serve para alegrias, tristezas, comida, espaço, etc etc...
Isso devia ser o único mandamento. Agradar Deus, fazendo pelo próximo. Se todos fizessem isso...
E variar a medida no caso aqui, é dar e receber. E quando voce ficar triste vem alguém e te dá conforto, alguém que tem alegria sobrando hoje. Veja que alegria também é subjetiva nestes casos, pois pode bem significar um pedaço e pão para matar a fome de outro, um gesto, uma palavra. Era bom se as pessoas fossem mais simples.

Ai que saudades da minha vó querida!
Queria ter conhecido o sujeito que era feliz.
Guerreira Xue/Hilda Milk

                            Ilustração do artista Gil Pery.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ACORDA CATARINA!

Era o que todos diziam.
Qual nada! Catarina nem ligava.
A moça ia todos os dias à estação para esperar, e quando lhe perguntavam:
-O que esperas Catarina? E ela de pronto respondia:
...-Uma coisa muito importante .Não sei o dia, só sei a hora.
E todos davam muita risada
Pobre Catarina! Era louca. Destrambelhada
Mas Catarina não dava grande importância ao que os outros pensavam de si ou pudessem dizer. Apenas tinha aquela intuição forte, sentia-o na pele, nas entranhas, sempre à mesma hora, todos os dias, tornava-se impossível, resistir a correr para a estação, dia após dia, sempre à mesma hora, para ver chegar os comboios. Era um frenesim... gostava de ficar na estação a ver chegar os comboios e o aglomerado de pessoas em grande rodopio. A gare enchia-se de vozes, de passos, de rostos fechados, de rostos risonhos, de gritos de crianças, da algazarra do alto-falante que anunciava uma partida ou chegada. Tudo isto, lhe enchia os sentidos como algo imperativo.
E ali Catarina ficava, desfiando o rosário dos minutos em horas, até que o corpo anunciasse cansaço. Então regressava a casa, sempre com uma ansiedade premente de que no outro dia, voltaria outra vez, à estação dos comboios. Sabia que algo, ou alguém, haveria de chegar naquela estação, num dia qualquer da sua vida.
Na cidade pacata, todos se conheciam.Viviam suas vidas numa mesmisse morna e confortável .Sem grande atribulações diárias.
Era comum Catarina ser motivo de chacota.Muito fácil rir da garota.
Quando passa correndo,só se ouve um murmurar:
-Lá vai ela, para a estação.
Quando volta sozinha e cabisbaixa.Alguém grita:
-Ainda não era hoje Catarina? Quem sabe amanhã!
Mais risos
Ao chegar a casa simples.Corria preparar o café, um pão com manteiga e geleia.
Arranjava numa bandeja para levar a mãe acamada.
-Onde andou menina!Estou morta de fome.
Era sempre a mesma coisa
-Pronto,pronto.Está do jeito que a senhora gosta mamãe.
Dizia a moça com paciencia
-Foste estação novamente, aposto.
A mãe dependia da filha para tudo.Amava -a e tinha medo de perde-la .
Se acaso um dia, alguém chegasse mesmo para a sua filha.
Ela seria abandonada.O marido se foi, faz muito tempo.
O filho se casou e só aparece no Natal.
Restavam agora somente as duas.
-Nao espere minha filha, por quem nunca vai chegar.
Dizia a mãe.
Catarina se calava.Ficava triste a pensar.
A mãe acabava seu café .Catarina recolhia a bandeja
Dava um beijo na mãe e murmurava
-Nunca vou te abandonar
Mas a vida é repleta de sonhos e ninguém deve deixar de os viver. Catarina sonhava, sonhava que um dia, um príncipe encantado chegaria. Não são os sonhos de todas as meninas até encontrarem um "sapo"? (...) e não importa que chamem louca a Catarina, porque a sua necessidade de mudar a sua monótona vida se tornara essencial.
Uma vez alguém disse que: -Realidade sem fantasia não é nada.
Pensar que vemos tudo, que só existe um caminho, que a diferença é feio.
Não é verdade.Alias,o que é mesmo a verdade?
A maioria de nós humanos, se ajusta tanto em "camisas de força",
que perdem a capacidade de imaginar.
As pessoas riam de Catarina sim porém, tinham uma vaga ideia da menina triste, que se refugiava na estação, involuntariamente em busca da mudança, tentando se aperceber do que move o mundo.
Talvez a Catarina louca fosse só ver o vai e vem de pessoas.Pessoas estas que, embora esbarrem umas das outras, nunca se olham ou se tocam.
Por mais que Catarina pensasse que todos estavam certos.
Todos os dias na mesma hora ela ia.Só para se certificar,pensava .
Em geral estava sempre atrasada.
E corria tanto que um dia ,ao atravessar a rua,foi atropelada.
Enquanto era socorrida ,Catarina só repetia: -Por favor,não me deixe morrer.Minha mãe não pode ser abandonada.
O tempo passou e Catarina não morreu,para a felicidade da mãe e do motorista que a atropelou.
A Catarina louca nunca mais foi à estação...Todos souberam do acontecido e muito comentavam
-Isso é incrível.Ela podia não saber o dia mas, com certeza sabia a hora.
E foi nesta hora em que corria para a estação , que sofreu o acidente.
Foi neste dia, que Catarina conheceu, o homem que esperava.
Se é loucura ou realidade! Não importa. É crucial que, cada um viva sua própria história.

Guerreira Xue

                        Imagem Net

terça-feira, 6 de novembro de 2012

CARVALHO

-Sabe aquele sem-vergonha? Pois é, este sou eu. Aquele safado que sempre está disposto a ajudar uma necessitada? Euuu! Assim tenho vivido e muito bem obrigado. Risos
Assim era meu amigo Carvalho. Até seu nome parecia contribuir bastante para a sua fama de sedutor de mulheres. É bem verdade que ninguém era vítima, todos adultos e que pareciam estar num mesmo consenso. E o que valia mesmo era a diversão.
Eu pessoalmente, achava-o gentil e inteligente e muito engraçado. Ele carregava uma certa ansiedade no olhar e  parecia que sempre estava à espreita, à espera de presa.
Quem o visse em sua aparência pacata nem imaginava. Um velho marujo cheio de histórias e aventuras, casado, e bem casado segundo ele, e que agora era involuntariamente reformado.
Sorrio quando falo de meu amigo querido...Por muito tempo eu ainda imaginava ouvir suas anedotas, e me ria sozinha.
Carvalho me lembrava aqueles cães famintos sabe, não importava que já estivesse comido, sempre estava alerta.Também fazia questão de dizer que era um amante das mulheres.
Certa vez que estávamos todos numa roda de conversa, próximo estava uma amiga comum que nos apresentou uma a outra, não lembro o nome agora. Pórem, depois que ela se retirou percebi o interesse de Carvalho e eu observei:- Ela é feia e tem pernas finas Carvalho.
Ele de pronto respondeu:- Olha, percebe-se que voce não entende disso, vou dizer logo. Não existe mulher feia, isso é tabú, também pensava isso uma vez.
Já tive mulheres lindas, e afirmo de certeza que só existem dois tipos delas: as que tem fantasias e as que não tem.
Sinceramente quero confessar que nunca tinha conhecido tão de perto alguém tão cara-de pau...Este era o Carvalho, hehhee !!
Eu observava este macho predador como se visse um espécime raro, aquela sua franqueza me encantava e me deixava deveras curiosa .
Lembro-me da primeira vez que nos falamos, por acaso o que mais me chamou a atenção foi ele dizer logo de cara seu estado civil. Eu fiquei ali pasma olhando para ele.
Que quer dizer? Perguntei contrafeita. Ele pareceu-me perder o prumo por um momento. Pediu desculpas mas sempre que tinha oportunidade dizia:
- Adoro mulher assim. Amo mulher assado. Risos...E eu  me divertia muito.
Neste dia fui embora pensando naquele sujeito tão prosaico.
Na verdade há muitos homens como ele, que apreciam todas as mulheres! Um dia a mulher com quem se casara descobriu que ele se metia com todas, e nem entedi direito como ela demorou tanto tempo para perceber, ouviu um grupo de raparigas a falar dele numa conversa de café, ficou tão danada quando se apercebeu de quem falavam, que ia tendo uma ataque cardíaco.
Cuspiu o café, verteu o sumo e ainda se engasgou com a trinca na metade da torrada biju que tinha acabado de colocar na boca. Pôs tudo em pantanas quando chegou a casa e disse-lhe olhos nos olhos que, ou deixava de se armar em parvo ou lhe punha as malas à porta! Ele preferiu deixar de se armar no que na realidade já era há muito tempo, por isso começou a vir directo do trabalho para casa, a vir ter com ela à hora de almoço e deixou de ir jantar com o grupo de amigos machões com quem só falavam de mulheres.
Depois de se ter conseguido comportar decentemente durante um mês começou a ficar em polvorosa, faltavam-lhe as outras mulheres!
 Foi aí que começou a ir para a net procurá-las, primeiro para sites pornográficos, depois para páginas de encontros virtuais, mas finalmente decidiu criar um avatar e tornar aqueles encontros mais corpóreos. Foi a Ana que o convenceu. Ana O., uma ilustre desconhecida que só falava com ele pelo facebook, mas que lhe disse que era no Second Life que tinha encontrado todas as suas verdadeiras paixões.
Enquanto a mulher com quem se casara trabalhava à noite no computador, ele punha-se em frente a ela, no seu portátil, a dar largas às parvoices de macho português.
- É verdade sim. Minha amada esposa me pegara no flagra há alguns anos. Contou-me o gajo uma vez.
Costumo sempre ouvir e acreditem, ouço coisas incríveis! Fazer julgamentos precipitados não é minha "praia". Alias, nem juíza sou, graças a Deus.
-Me senti um "farrapo ". Continuou ele...-Um vadio sem préstimo mesmo . Me policiei, me auto puni...quase me separei. Nosso sexo não era ruim, sabe. Mas por questões de ordem cristã talvez, sei lá, minha mulher tem muitos pudores. Respeito isso... Claro que respeita!
-Não nos separamos afinal e por fim acomodamos a nossa situação. Somos bons amigos. Dedicados um ao outro mas sexo nunca mais tivemos desde então. E se por acaso menciono qualquer coisa neste sentido ela é bem contundente. Diz para me satisfazer com minhas vadias.
Ele deu um leve sorriso e disse a seguir.
- É o que faço agora sou um sem vergonha assumido. Gozo o que posso sem culpa.Tento não magoa-la mais. O que os olhos não veem o coração não sente. Entende?
Olhando aquele homem ali, se mostrando de uma forma tão real, revelando-me uma coisa tão íntima, fiquei sem ação.
Depois fui embora pensando: O que faz um homem viver num casamento sem sexo?
Sejamos francos, um casamento sem sexo não é um casamento, é no mínimo uma sociedade talvez.
O que faz uma mulher se sujeitar a uma vida privada do prazer, do calor, do carinho, e do companheirismo e porque não dizer ,da alegria que há no sexo também? Caramba!
Isso mais me parece aquelas prisões, onde o condenado pode fazer quase tudo, menos sair.
Será o medo de enfrentar o futuro e os riscos que a vida oferece lá "fora"?
Estes dois parecem crianças. Não se querem porém, perdem qualquer oportunidade de encontrar alguém que os queira. Acorrentados por um suposto compromisso social. Bla, blá, bla´....
Esta história me intriga bastante.
Falávamos sempre que tínhamos oportunidade. Como disse antes, Carvalho era apreciador de boa conversa. Por vezes eu pensava: Nos divertimos tanto ontem. Não vou aborda-lo hoje, vai ser chato porém, quem abordava era ele. E não era chato.
Claro que, minhas amigas tinham uma curiosidade de saber que diabo de amizade era aquela.
- Qual é a sua? Matilda perguntou uma vez, estão namorando?
- Risos... Claro que não menina. O sujeito é casado, percebe. Amigos mesmo.
- Sei não, tem alguma coisa no ar, respondeu Matilda.
- Deixe de coisas garota. Só um bom amigo, e depois ambos temos compromisso.
- Ainda bem, respondeu a amiga aliviada. Digo isso por que conheço Carvalho de outros "carnavais". E demais a mais, voce e ele juntos seria quase que um "desastre ecológico"...Hehehe !!!
Surpresa com constatação, emendei logo.- Explique por favor.
- Sim. Qualquer tentativa de misturar azeite e vinagre...Agua e vinho. Mulher como voce, minha querida, Carvalho faz de tira-gosto.
Puxa vida!Quase que tive uma dor de barriga de tanto rir.
E sim, eramos só amigos, o problema foi quando ele me consegui convencer a criar um avatar e experimentar o Second Life! Deu-me a conhecer a noiva virtual, uma americana de cabelos que parecia acabada de sair de um salão de beleza, e as várias namoradas, que por acaso eram todas índias e inocentes, pois nem sabiam que ele estava noivo. Para além disso, ainda tinha amantes virtuais, daquelas que namoram com outros, mas que só vão para as bolinhas com os amantes. E isto só no Second Life, se aqui é assim nem imagino o que será na vida real! Mas como tem este homem tempo para tantas mulheres? Por esta altura ele dizia que fora do Second Life só tinha uma amante, de 80 anos, e eu fartava-me de rir com aquilo, até descobrir que eram duas, cada uma com quarenta anos!
As duas descobriram que ele era casado e que namorava com ambas, ainda por cima porque eram da mesma terra e ele andava a dar demasiado nas vistas! Encontraram-se uma com a outra para decidirem como resolver o assunto e uma noite, quando ele entrou no café da esquina para beber a sua cafézada com cheirinho, deu de caras com elas e com as respectivas familias. Tentou fugir, mas já estava cercado, levou uma coça tão grande que lhe serviu de emenda para se esquecer das mulheres na vida real!
A partir daí elas passaram a existir apenas no Second Life, mas mesmo assim a horas marcadas, porque a senhora que estava sentada no computador à sua frente não se acreditou na mentira de ter apanhado uma coça dos ciganos por ter roubado na feira uma carteira de marca para lhe oferecer!

Por vezes riamos juntos de todas as suas aventuras no universo feminino. Contávamos um ao outro o que diziam a respeito de nós dois. Eramos duas incógnitas sim. e chegávmaos a nos compar a bichos de goiaba. Ele curioso perguntava por quê.
O bicho de goiaba não acredita que existam bichos nas outras goiabas. Somos bichos de goiaba diferentes...Heheheh !!
Um dia tive de partir. Meu prazo em Portugal se esgotara. Foram dois anos de trabalho neste país tão parecido e tão diferente. Estudar costumes e pessoas no seu próprio ambiente nem sempre é fácil. Optar pela imparcialidade, relatar atitudes, buscar na fonte o que leva o sujeito a determinados caminhos.
Há quem diga que para saber precisamos viver. Pode ser. Eu pessoalmente vivo bem pouco minha própria história, bem pouco. Podia bem me classificar de "aventureira no mundo alheio".
Confesso que foi dificil me despedir de Carvalho. Ainda bem que estava indo embora.
Tinha noites que nem dormia pensando nele. Quantos momentos juntos!
A última vez que nos vimos ele disse-me emocionado:
- Se fosse outro momento, outro lugar. Não ia permitir que você partisse.
E fui embora com lágrimas no olhos...
A vida pode parecer igual para todos, e o que é certo é certo e ponto. E o que é errado é errado e ponto. Opssss...Não é bem assim.
Num mundo onde tudo deve ficar acomodado dentro de um contexto só se aceitam regras e jamais as excessões? Na arte da dissimulação muitos se escondem tão profundamente dentro de si, que quando vão a procura de seu "eu", não o encontram.
Por alguma razão que me é oculta agora, Carvalho se mostrava abertamente sem meias palavras. Se os demais viam o que eu via? Isso não sei.
Sempre que lembro de Carvalho, tenho emoções fortes. Vi um homem triste e solitário debaixo daquela aparência de garanhão das mulheres oferecendo uma troca a mulheres também tristes e solitárias.
E amor? Onde cabe isso?
Por um momento, encarei a minha própria solidão.

Guerreira Xue/ PaulaJ
Imagem Net



domingo, 4 de novembro de 2012

A MENINA DA JANELA

Todo dia que o sol nasce, aparecendo ou não, temos nosso lavoro no campo.
O alarido naquela vila era tanto, que mesmo que quiséssemos ficar um pouco mais na cama, era impossível.
Tinha eu chegado há pouco de Itália, vim ficar em casa de meus tios no Brasil...
Nunca tinha visto dias tão claros na minha vida, depois de quase dois meses encerrado num navio, a minha primeira impressão foi esta, parecia um paraíso.
O trabalho no cafezal era árduo mas não nos queixávamos, pois a maioria dos trabalhadores, incluindo eu, era da região da Calábria para tentare la fortuna in america. E aqui estamos, numa fazenda de São Paulo, e eu jamais tinha visto tanto tanto pé de café junto. <è vero che abbiamo lavorato su questa bella terra, é anche vero che abbiamo avuto grande abbondanza sulla tavola>. E isso já era uma grande benção pois em Itália tudo era escasso.
Esse é seu Genaro contando aos netos sua história de vida. Todos os verões,estes vinham passar as férias na fazenda do "nono".
- Conte uma história nova vovô, por favor. Pediu Cecilia.
Estavam todos em volta de uma fogueira, com barraca montada, pipoca feita na hora e muito masshmallows assando na brasa.
Genaro adorava contar suas histórias. Sabia que se viesse dar-lhes boa noite, os meninos pediriam que narrasse alguma de suas aventuras .A curiosidade que vislumbrava naqueles olhinhos era uma coisa que o fazia  sentir-se vivo e importante. Fazia um pouco de suspense, como que estivesse a pensar se devia ou não revelar seus segredos.
- Deixe ver... Os garotos ansiosos retrucavam logo:
- Por favor, por favor vovô.
- Tudo bem, fiquem quietos que eu começo.
Continuando então:
Morava com meus tios por ser solteiro.Só teria direito a uma casa se tivesse esposa.
Todos trabalhavam no cafezais exceto minha prima mais nova que ficava na fazenda, fazendo os serviços domésticos para a casa grande.
Nos fins de semanas um, era escolhido para levar lenha para as casas da cidade e este ficava encarregado de trazer as compras do armazém para as familias, na maioria das vezes eu ia com Marcelino.
Marcelino era um negro enorme, de seus trinta anos já. Foi largado pela familia quando os negros abandonaram as senzalas.A mãe o tinha deixado aos cuidados da Casa Grande, por este ser filho do patrão.
Quando fui a primeira vez a cidade. Marcelino corria para fazer tudo que precisava, e me dizia:
- Ande logo com estas compras, vou distribuir a lenha porque não quero perder a história da moça da janela.
- Que moça? Perguntei. Marcelino logo responde.
- Se quer saber,corre com estas compras ítalo. Eu nunca perco suas histórias e não vai ser hoje a primeira vez.
Aquilo me deu uma curiosidade enorme. Que diabo era isso da moça da janela?
Aquelas compras eram as coisas que não se produziam na fazenda e cada família tinha sua relação, só um porém, as letras eram um verdadeiro martírio de serem decifradas.
Entendi logo, porque todos foram tão solícitos em me escalar para estas ditas compras.
Quando acabei finalmente, fui ao encontro de Marcelino todo satisfeito. E quem diz de eu encontra-lo agora?
Perguntando para um e outro se o haviam visto, eles me indicaram uma pequena rua. Lá eu encontraria o Marcelino e mais uma pequena multidão de meninos e meninas, todos sentados,muito caladitos, diante de uma janela.
Me aproximei lentamente. Foi quando escutei aquela voz  Parecia de um anjo. Me aproximei mais, me sentei, e calado fui absorvendo aquilo como se me tocasse fundo na alma.Me sentia transportado. E não era só eu o encantado ali.
Ela era uma contadora de histórias.
Uma história era sobre um esquimó que ofereceu a filha ao seu melhor amigo, mas ela não o aceitou e pediu aos cães para o levarem para longe, para o perderem no sitio onde nada mais há do que neve. Eles voltaram passado uma semana, sem o amigo do pai dela, que morreu congelado no polo norte.
Outra história era sobre o pagador de promessas, homem vivaço e esperto, que fazia as promessas pelos outros, nem que tivesse de caminhar trinta quilômetros por dia, mas que se fazia pagar ao minuto. Um dia um santo não gostou e castigou-o, pediu a Deus para lhe mandar um raio e ele foi direitinho para o Inferno.
E ainda outra história foi sobre a fazedora de milagres, a princesa da madrugada, que atendia os desejos de todos os desafortunados, mas só um por cada um. Como o primeiro desejo nem sempre era o mais desejado, os desejosos revoltaram-se e decidiram acabar com os milagres na terriola. Conseguiram que a milagreira fosse expulsa e emigrasse para a Amazônia  onde passou a curar todas as doenças e expulsou os demônios da floresta.
E por último apareceu a história da rainha que tinha cabelos de ouro e que todos os cabeleireiros do reino os queriam cortar. Ela arranjou uma cabeleireira particular, que transformava os cabelos em ovos de ouro e que os colocava nas galinhas dos mais pobres. Estes enriqueceram rapidamente e a rainha teve de fugir do seu reino, pois todos lhe queriam roubar os cabelos!
A contadora de histórias diz que é ela essa rainha, mas que conseguiu esconder os seus cabelos de ouro debaixo de uma farta cabeleira comprada no mercado da terriola. Ninguém se acreditou, a não ser as crianças, que são sempre mais inocentes do que os adultos e pensam que tudo pode acontecer, mesmo ter os cabelos de ouro!
Contar histórias qualquer um pode e sabe. Porém esta moça nos transportava para o mundo delas, tinha uma suavidade hipnótica a nos conduzir para ambientes mágicos
quando acabou e sessão, todos bateram palmas. Absorvido em meus pensamentos fui praticamente arrastado por Marcelino.
- Já chega de histórinhas por hoje. Andiamo Ítalo...Este negrinho parecia bem mais um patrãozinho, de bem mandão que era.  E confesso que eu queria mais, muito mais...
- Quem é a moça Marcelino?
- Sobrinha do patrão.Ela morava na fazenda antes, nasceu lá. Agora se quisermos ouvir-lhe, temos que vir a cidade.Todo sábado às dez horas da manhã ela começa a contar suas histórias encantadoras.
Sempre dou um jeito de vir vê-la. Disse Marcelino enigmático.
Percebendo que a conversa encerrava, Genaro guardou sua curiosidade. Eu mais cedo ou mais tarde eu desvendaria aquele mistério.
A partir disso, propus um combinado com as mulheres da fazenda. Pedi-lhes que nos reunissímos na sexta depois do lavoro para organizarmos naquela confusão de compras. Em vez de me darem cada família sua lista, elas me ditavam seus pedidos e eu mesmo fazia as anotações com minha letra. Assim, não perdia tempo desnecessário a decifrar aquela carranchada toda.
Não queria perder de ouvir a tal garota da janela. Aquela voz me perturbou muito. E não havia nada além disso... eu não a visualizei pois estava distante da janela e tinham outros na frente.
Desta vez serei o primeiro a chegar.
É claro que Marcelino ia junto também.Este era capaz de qualquer sacrifício para ouvir Elisa. E foi com sacrifício também que arranquei esta informação dele.
Elisa, nome suave, bonito.
Elisa tinha uma particularidade que todos conheciam, apesar de evitarem falar no assunto, era hermafrodita, tinha os dois sexos no mesmo corpo, o que pode embaralhar os outros, mas ainda embaralha muito mais, quem os vive! Foi educada como rapaz em criança, era o Eduardo, Edu para a família e amigos, mas na adolescência ficou com corpo de mulher, com feições femininas, começou a sentir como uma menina, a falar como uma donzela, a crescer como uma senhora. Sempre de saias, a esconder o que desejava não ter, passou a frequentar um psiquiatra e uma psicóloga, que tentavam descobrir a que sexo ela pertencia, apesar de ser evidente demais que a sua beleza não era máscula e que não deixava dúvidas seja a quem for, que era um pecado uma mulher como aquela, ter algo no corpo que a diminuía  Mas, como vim a concluir, a história de Elisa era bastante estranha e a própria rapariga sofria com o seu passado, não só com o seu corpo.

Um sábado depois, quando eu me preparava para ir às histórias de Elisa, Marcelino me diz para eu ir na estação buscar uma sobrinha do patrão que chegava de Paris. Surpreso coma novidade eu respondi de pronto.
- Mas nem sei onde fica a estação. Ao que o negro deu uma gostosa risada
- Não se faça de bobo ítalo. E ande logo que Elsa tem humor de cão, se ela esperar, não quero estar na sua pele.
Contrafeito  resmunguei
- Descreva-me a bruxa então. Como vou saber quem é?
- Vai saber quem é quando a vir, fique certo.
Louco de pressa fui correndo a estação.Que porcaria! Queria tanto ouvir Elisa.
Cheguei na estação junto com o trem. No meio daquela confusão toda eu não tinha menor ideia de quem procurar.
Porém, quando ela desceu do vagão fiquei estarrecido. Era Elisa que vinha ali.
Fui a seu encontro e me apresentei
Ela me fitou por uns momentos e disse-me que pegasse logo as malas pois estava muito cansada.
O jeito com que esta mulher me olhou me deixou profundamente irritado. Que arrogante!
E elas eram gémeas.
Fiz aquilo com uma rapidez que ela quase teve que correr para me acompanhar. Quando chegamos a casa de Elisa a recepção não podia ser mais calorosa, as irmãs emocionadas se abraçavam com carinho sincero.
Marcelino era apaixonado por Elisa, isso era mais que evidente. Parecia existir entre os dois uma espécie de aceitação do inevitável. Se adoravam desde tenra idade. Mesmo sem saber o que o destino lhes reservava estavam juntos. Sempre juntos.
- E você vovô?! Perguntou um dos netos,como se não soubesse
-  Neste dia começou a minha história com Elsa. Demorou um pouco mais para nos entendermos, pois ela tinha um gênio difícil mesmo.
- Gênio difícil eu?! Olhe quem fala! Surpresos eles olham para a direção da voz
- Vovó?!
E em meios a muitas risadas Elsa retruca. - Perdi o sono, então vim ver o que se passava. Não quis interrompe-los. Fiquei quietinha escutando.
Agora vamos para cama Ítalo querido. Disse carinhosamente ao marido. -E vocês tratem de ir dormir. pois amanhã vamos à pescaria.
Os garotos disseram em uníssono.
- E o final da história?!
- Que final? Não existe final meninos, vêem. Ainda vivemos nossas histórias.
Os meninos ainda insistiam. - O Marcelino e Elisa, a irmã de vovó,  eles se casaram vovô?
- Sim, viveram juntos a vida inteira. Não desafiavam as convenções abertamente pois não havia necessidade se imporem. Só queriam um ao outro. Não lembro de ter conhecido um sentimento mais puro entre duas pessoas tão diferentes.
Então todo sábado íamos à cidade, fazer compras e escutar a garota da janela. É claro, que agora havia Elsa, a irmã voluntariosa.
E todos caíram na risada.
Guerreira Xue /Paulaj

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DESEJOS

Os dois estavam ainda na cama, no escuro, ofegantes e realizados. Ambos pareciam mesmo satisfeitos. Quando a mulher diz:
-Jesus, se eu pudesse pedir algo agora, pediria para ser feliz com você.
O Homem olha para ela por alguns momentos e responde com um sorriso:
-Não és feliz comigo?! Pois eu iria mais longe, pediria para continuar vivendo somente, esta felicidade vive comigo faz tempo.
Abraçam-se contentes. Sabem que tudo tem seu valor e aquilo que sentem ninguém lhes tira.
Guilherme e Janete são casados. Porém cada um é casado com outra pessoa. Vivem juntos há muito tempo e por razões expostas não podem ou não querem abandonar seus cônjuges.
Como narradora, não me cabe julgar, absolver ou condenar. Não sou juíza. O que me facilita um relato imparcial dos fatos. No entanto não me vou impedir de ir fazendo os meus comentários pessoais, nada de grande importância para o desenrolar da história.
Guilherme e Janete se conhecem há dois anos e pouco. Ele era professor de artes e ela é professora de idiomas. Ele perdeu o emprego. Ela tem múltiplas funções. Ele cuida do pai idoso e da esposa, que se esforça para se livrar de distúrbios da depressão. É estranho como se pode ser feliz com pouco. Eles não podem mudar muito suas vidas, não sem magoar ou abandonar os que têm  grande afeto e respeito por eles, então vão equilibrando-a de maneira muito útil. Quem disse que é fácil viver?
 Mas na realidade ainda é mais difícil morrer, pois a mulher que está casada com Guilherme tenta há anos suicidar-se, mas sem qualquer resultado, o que realmente lhe dificulta a vida e não torna nada fácil a convivência com o marido, que está apaixonado por outra mulher, apesar de saber que a sua missão é tomar conta daquela com quem se casou. É mais fácil sermos felizes quando temos missões na vida, quando pensamos que ela tem sentido só porque fazemos falta a alguém. Guilherme é feliz, Janete pelo contrário, nunca poderá ser feliz, é emocionalmente inconstante, não vislumbra nenhum sentido para a vida, sente-se desgastada pelo trabalho e deseja sempre estar onde não está. Não é ambiciosa, nem nada que se pareça, mas não consegue anular em si esta faceta da cultura ocidental que não a permite deixar de desejar. Neste momento gostava de poder ser feliz com Guilherme, o que para ela quer dizer sentir por mais tempo do que meia hora que só existem os dois no mundo e que não é necessário mais nada.
É claro que seria sempre necessário algo mais, mas podiam ser coisas banais, como caldo verde e broa de Avintes, cerejas e romãs, figos da índia e maracujás, para satisfazer as sensações e relaxar o corpo. Também poderia escolher um clima outonal para viver, nas matas do Gerês, num moinho de água minhoto, com o rio a dar-lhe energia para colorir de idiomas a vida dos dois. Neste momento, já nem para ensinar se sente capaz, e se pudesse colocava à porta do gabinete da universidade: fechado para remodelação até que passe o calor!

Janete beirava aos cinquenta anos. Criara junto com seu marido uma boa família judia, viviam com certa tranquilidade agora, mas deram bastante duro, os dois, para criar seus filhos. No final das contas alguma coisa ficou para trás, pois o marido passou a ficar amargo e ressentido. Com isso a gentileza esmoreceu e com ela a intimidade foi se dissolvendo, de forma gradativa e constante. A mulher até que tentava resgatar a cumplicidade, era bem mais confortáveis continuarem juntos pois chegaram até aqui, quase trinta anos de vida comum... que pena, pensava ela. Era uma solidão a dois agora. Às vezes era bom, tudo parecia como nos velhos tempos, mas os altos e baixos do marido foram acabando com suas esperanças e qualquer tentativa de buscar ajuda psicológica era rejeitada com vigor.
Guilherme parecia um sonho, sabe aquela fantasia que a mulher tem? Alguém com quem repartir, sentir alegria, partilhar coisas simples, sem cobranças ou grandes responsabilidades? Ser movidos pela vontade somente, vontade de estar junta.  Claro que aqui ninguém é criança. Amores são eternos enquanto duram, e uma hora um ou outro desperta.
Um dia destes Janete disse a Guilherme que ia tirar licença para cuidar da mãe, ela estava doente e moravano no interior, mas ela não sabia por quanto tempo se demoraria por lá.
Se despediram os dois já com sabor de saudade, trocaram emails e foram cada um cuidar de seus afazeres.  No princípio trocavam mensagens quase todo o dia e  falavam-se mais do que quando estavam juntos. O tempo foi passando e as mensagens foram diminuindo. Havia coisas que Guilherme lhe omitia e outras coisas  também Janete não lhe dizia.  Guilherme tivera que internar sua esposa num hospital psiquiátrico, por ordens médicas e a pedido dela própria, que estava cansada de se sentir infeliz.  Ficava mortificado pelo estado de sua companheira e amiga de tantos anos. Ficava o máximo que podia a seu lado, levava-lhe seus docinhos preferidos um dia, no outro um CD com suas músicas predilectas, flores, etc... Janete, por sua vez, também tinha seu quinhão. Estava doente e seu afastamento foi por sua própria causa, câncer, disse-lhe o médico. Tinha de fazer quimioterapia para diminuir o tamanho do nódulo e depois extirpá-lo. Ela pensava que não tinha cabimento contar isso a Guilherme, que já tinha tantas preocupações.
Passaram-se vários meses, quase um ano,  Guilherme estava mais sereno agora. A sua querida esposa estava muito melhor, voltara para casa, porém com frequência voltava ao hospital, para controlo somente. O pai estava tranquilo também. Às vezes ele mandava emails para Janete, a que ela nem se dignava a responder. Procurava compreendê-la, na medida em que ele também andara ocupado demais com sua própria família, mas as saudades atormentavam-no. Será que ela ainda me ama? Será que a paixão se esvaiu? Será que não tem acesso à Net e não lê os meus mails? Será que sua mãe recuperou? Ele se perguntava.
Uma manhã, Guilherme recebe um telefonema dizendo que surgiu uma vaga para leccionar numa universidade do centro.  Todo contente, ele pensa: só faltava isso, meu Deus, coisa boa! No primeiro dia de trabalho, na sala dos professores é apresentado a todos cordialmente. Formalidades à parte, ele olha em volta, se dirige à máquina de café. O ambiente é acolhedor e sóbrio. As paredes estão repletas das fotografias de professores.  Guilherme vê uma foto em especial, era Janete.Com voz vacilante pergunta:
- São fotos actuais estas?
-Foram tiradas têm dois anos. Há professores que nem estão mais aqui - responde um colega
Sem pensar muito, Guilherme aponta para a foto de Janete:
-Esta moça trabalha aqui?
-Não, infelizmente esta faleceu tem uns seis meses. Coitada!
Guilherme fica pálido, sente. Se desfalecer, apoia-se no sofá, deixa passar uns minutos até recuperar a voz:
-Foi acidente?
-Nada, foi câncer mesmo. Quando ela soube se licenciou para tratamento e não voltou mais. Ficamos sabendo de seu falecimento pela sobrinha, que trabalha aqui perto. Tenho que ir Guilherme. Um bom dia para você!
Guilherme ficou ali olhando aquela foto por algum tempo ainda, e as lágrimas escorriam de seus olhos.

Não conseguia entender como poderia ela ter morrido sem ele ter sentido que ela estava em sofrimento. Nos dias seguintes perdeu os sorrisos, a fome, o sono, a vontade de viver. Compreendeu que fora a paixão por ela e o amor que os ligava que o tinha motivado a continuar. Tudo deixou de fazer sentido, a mulher com depressão, o pai senil, a casa desarrumada, o trabalho. Quando foi visitar a campa dela, pediu-lhe mil vezes perdão por não a ter acompanhado até ao final dos seus dias, afinal nunca amara tanto nenhuma outra mulher como a ela!
Foi nesse ano que se converteu ao budismo, que aceitou as suas nobres verdades: que o apego provoca sofrimento, que os desejos provocam sofrimento, que para este acabar é necessário parar de querer, quando isso acontece as nossas atitudes passam a ser correctas, estamos prontos para atingir o nirvana. Não foi o que aconteceu, mas pelo menos conseguiu libertar-se dos pesadelos que o atormentavam e da culpa que sentia sempre que pensava nela. Passou a recordar apenas o que de bom acontecera entre ambos e deixou de se penalizar constantemente por não a ter raptado, por não terem fugido juntos para o Gerês, onde ela sonhava vir um dia a viver com ele.
Guilherme tornou-se um professor exemplar, porque todas as suas energias se concentraram no trabalho. Tentou ensinar a todos os seus alunos a importância de nos deixarmos levar pelas paixões e pelo amor, de não deixarmos escapar os momentos e as pessoas que nos são mais queridas, de não desejarmos mal a ninguém e de fazermos tudo o que pudermos pelo bem dos outros em geral. Passado uns anos a mulher com quem se casara acabou finalmente por se conseguir suicidar, encharcada de comprimidos num hospital psiquiátrico, o pai morreu de velhinho, Guilherme vendeu as casas, onde nascera e onde vivera, viajou para o Butão, lugar que escolhera para ficar a viver o resto dos seus dias. Imagina-se muitas vezes a conversar com ela antes de adormecer, mas agora já consegue dormir sossegado e sente-se o homem mais apaziguado do mundo.
Guerreira Xue/Paulaj

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UM NATAL SEM BOLAS

O que vou narrar aqui é deveras estranho para ser real e confesso que fiquei em dúvida se podia mesmo revelar-lhes, e espero não prejudicar ninguém com isso.
Era dezembro de mil novecentos e bolinha e como sempre, todos numa correria doida na cidade.
Não entendo direito isso, todos andam sem menor pressa durante o ano todo e, quando chega no dezembro as pessoas parecem ter de repente lembrado que, ou esqueceram a panela no fogo, ou tem que tirar o pai da forca, ou comprar o carro novo, comprar os presentes, e acima de tudo, lembram do coitado do peru. Oh  que dó!
Letícia não ligava muito para isso de festas, porém fora criada dentro do judaísmo e algumas comemorações são de cunho cultural na vida de toda judia.
Roberto era um cara  bem humorado e inteligente, sempre foi de viajar e trabalhava com construção civil e foi numa destas convenções importantíssima que conheceu Letícia. Foi amor a primeira segunda e terceira... Vista. Quando se deram conta, não queriam mais morar separados.
E quem diz que a vida é redonda? Os dois tinha ainda que contar suas histórias de família...
Leticia era judia e seu pai era um ribbí(rabino) e Roberto era de família católica praticante, tão praticante que até tinha dois irmãos padres.Resumindo, mais confuso isso não poderia ser...
Pois é, os dois enamorados  combinaram o seguinte, como os pais dos dois  eram radicados em Connecticut a familia de  Roberto era de Fairfield Condado/Dambury, e  no mesmo estado os pais de Letícia moravam em  West Hartford. Sabiam ambos que se quisessem viver bem, e terem tempo calmo para conhecerem-se, precisariam ficar longe da duas famílias, pelo menos por enquanto, uma vez que em qualquer religião que se preze, eram unanimes em afirmar que a família é um vínculo mais forte na existência do ser humano.
E assim foi... Foram morar na cidade onde Letícia estava fazendo seu mestrado.
Os dois se revezavam com suas respectivas famílias...  Casaram-se então segundo as tradições judaicas cumprindo todas as etapas que o cerimonial exigia. E quando questionado sobre a ausência de sua família, Roberto mencionava qualquer desculpa, e se causava alguma curiosidade a seu respeito, os demais não falavam nada. Afinal eram mesmo apaixonados os dois.
Se casaram dentro da igreja católica seis meses depois com a cerimonia realizada pelos dois irmãos padres de Roberto, e Letícia também alegou qualquer coisa a respeito da ausência de seu progenitores.
Quando  os dois cumpriram as obrigações matrimoniais, foram pra seu cantinho viver a vida...
Milagrosamente conseguiram viver seus quatro anos de casados, os  dois e uma gata chamada Star, até "aquele" famoso natal.
Os pais de Roberto vinham passar o natal com eles ,então montavam tudo de acordo, com direito a árvore, presentes, peru e que mais fosse preciso.Tinham novidades também, iam ter um bebê e ambos não cabiam em si de tanta alegria, combinariam de dar a noticia  no natal como um presente, pois seus pais andavam ansiosos por boas notícias.
Estava tudo correndo conforme o previsto porém, por intervenção do destino as coisas se precipitaram um pouco desta vez...
No dia 24 de  natal a campainha toca e quem era?
Ali bem na porta, estavam os pais de Letícia ...
_Surpresa!!!
Quase que Leticia desmaia de susto , sua mãe tinha um pequeno cão no colo que imediatamente se solta e corre pela casa feito doido atras de Star que estava tranquila em cima da lareira... Aquilo foi um corre corre, e Star não tinha tinha por onde escapar, derrubaram tudo que havia naquela sala, incluindo a árvore de natal.
Seus pais vieram porque construiriam uma sinagoga bem próximo dali, e estavam presentes para conduzir a construção da mesma.
Agora era hora de  falarem a verdade, não havia como fugir mesmo porque, em poucos minutos e em meio aquela bagunça toda, apareceram os pais de Roberto.
_Então vocês não são católicos?!
_Então vocês não são judeus?!
_Sim, somos  judeus e somos católicos. Respondeu Roberto
_Somos as duas coisas e somos também arquiteto e professora, marido e esposa, e somos também filhos de vocês e em breve, seremos pais...
 Embora estupefatos os pais não conseguiram conter sua alegriaa a tal ponto que ninguém se importou com mais nada.Claro que os festejos além de ser pelo nascimento de cristo era também, pela chegada de um neto que seria meio católico e meio judeu.
Foi um natal fantástico onde a crença de qualquer um era inspirada no amor e na fraternidade, no respeito e principalmente na vontade de serem felizes. Estes dois fizeram e fariam qualquer coisa para ficarem juntos.
E assim... Com a árvore completamente destruída pelo cãozinho que perseguia a gata, aconteceu aquele inesquecível e maravilhoso natal sem bolas.
Guerreira Xue

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Caminhada...Conto Partilhado



É a primeira vez que me sucede ser convidada para escrever a sério, sem palavras brejeiras...não quero valorizar o facto...ao aceitar escrever estas linhas apenas pretendo honrar um gesto de amizade...o quanto gosto dos meus amigos...e a caminhada que tenho pela frente para lhes mostrar gratidão e dizer-lhes olhos nos olhos o quanto os adoro. não podia deixar de escrever estas singulares linhas a um Homem que conheci e que, passadas que foram 48 horas sentia a certeza de já o haver conhecido há muitos anos. fiquei mais rica, ganhei um amigo...

Já o conhecia do jardim. Tal como eu, com a idade eles vêm sempre ao mesmo sítio. O meu amigo não sei idade tem, mas é parecido comigo : cinzento, a caminhar para o branco, já pouco preto....Vejo-o no jardim ao meio-dia, depois da missa. Falo um pouco com ele, e sei ele anda de olho numa pombinha que é um mimo!Depois do almoço na instituição volto para uma partida de xadrez com o sr.Alberto, o antigo farmacêutico...
Amanhã de manhã, se Deus quiser, lá estarei com o meu amigo no jardim...vou dar-lhe o melhor milho que houver, ele é engraçado. Até amanhã, Enfermeira Maria.

Acontece ás vezes eu ser interrompida nos meus pensamentos literários...o mundo virtual tem destas coisas...mas vou acompanhar o João na evocação da memória camiliana - Camilo adorava pombinhas brancas. Por proximidade e por acréscimo, atrevo-me a alargar a minha intervenção escrita a quem gosta da boémia salutar...a quem tem o sentido de humor mais requintado do jardim. Sim, a casa apalaçada dele, cheia de livros, tem um grande jardim onde ele costuma sentar-se a ler...muito provavelmente já leu a Bíblia Sagrada. A este nível apenas posso reivindicar a partilha de um apelido comum - Romântico -. Fica-me pois, nesta relação de amizade com o amigo romântico e não cinzento, a enorme admiração pela escrita, a sintonia com o seu olhar sobre o mundo e o respeito pelas mulheres. Não vou estar com ele no Natal, na missa do galo...mas mto provavelmente no fim do ano lá estarei com o meu amigo no jardim.

O Tâmega corre manso, por enquanto, as águas estão turvas mas dá para ver os peixes a fazer longas correrias como que brincando às escondidas, ou dando largas às cerimonias nupciais.
Já não há barqueiras na travessia do rio, as poldras estão cobertas de musgo, só as pontes se continuam a olhar numa troca permanente de sonhos e realidades.
A última caminhada que dei, foi precisamente hoje, na hora de almoço, para visitar e apreciar as as lojas decoradas de fantasias. É Natal !


*******************************FIM********************
Este Maria De Fatima teve participação especial de João M.B.Nobre.:-)