domingo, 4 de novembro de 2012

A MENINA DA JANELA

Todo dia que o sol nasce, aparecendo ou não, temos nosso lavoro no campo.
O alarido naquela vila era tanto, que mesmo que quiséssemos ficar um pouco mais na cama, era impossível.
Tinha eu chegado há pouco de Itália, vim ficar em casa de meus tios no Brasil...
Nunca tinha visto dias tão claros na minha vida, depois de quase dois meses encerrado num navio, a minha primeira impressão foi esta, parecia um paraíso.
O trabalho no cafezal era árduo mas não nos queixávamos, pois a maioria dos trabalhadores, incluindo eu, era da região da Calábria para tentare la fortuna in america. E aqui estamos, numa fazenda de São Paulo, e eu jamais tinha visto tanto tanto pé de café junto. <è vero che abbiamo lavorato su questa bella terra, é anche vero che abbiamo avuto grande abbondanza sulla tavola>. E isso já era uma grande benção pois em Itália tudo era escasso.
Esse é seu Genaro contando aos netos sua história de vida. Todos os verões,estes vinham passar as férias na fazenda do "nono".
- Conte uma história nova vovô, por favor. Pediu Cecilia.
Estavam todos em volta de uma fogueira, com barraca montada, pipoca feita na hora e muito masshmallows assando na brasa.
Genaro adorava contar suas histórias. Sabia que se viesse dar-lhes boa noite, os meninos pediriam que narrasse alguma de suas aventuras .A curiosidade que vislumbrava naqueles olhinhos era uma coisa que o fazia  sentir-se vivo e importante. Fazia um pouco de suspense, como que estivesse a pensar se devia ou não revelar seus segredos.
- Deixe ver... Os garotos ansiosos retrucavam logo:
- Por favor, por favor vovô.
- Tudo bem, fiquem quietos que eu começo.
Continuando então:
Morava com meus tios por ser solteiro.Só teria direito a uma casa se tivesse esposa.
Todos trabalhavam no cafezais exceto minha prima mais nova que ficava na fazenda, fazendo os serviços domésticos para a casa grande.
Nos fins de semanas um, era escolhido para levar lenha para as casas da cidade e este ficava encarregado de trazer as compras do armazém para as familias, na maioria das vezes eu ia com Marcelino.
Marcelino era um negro enorme, de seus trinta anos já. Foi largado pela familia quando os negros abandonaram as senzalas.A mãe o tinha deixado aos cuidados da Casa Grande, por este ser filho do patrão.
Quando fui a primeira vez a cidade. Marcelino corria para fazer tudo que precisava, e me dizia:
- Ande logo com estas compras, vou distribuir a lenha porque não quero perder a história da moça da janela.
- Que moça? Perguntei. Marcelino logo responde.
- Se quer saber,corre com estas compras ítalo. Eu nunca perco suas histórias e não vai ser hoje a primeira vez.
Aquilo me deu uma curiosidade enorme. Que diabo era isso da moça da janela?
Aquelas compras eram as coisas que não se produziam na fazenda e cada família tinha sua relação, só um porém, as letras eram um verdadeiro martírio de serem decifradas.
Entendi logo, porque todos foram tão solícitos em me escalar para estas ditas compras.
Quando acabei finalmente, fui ao encontro de Marcelino todo satisfeito. E quem diz de eu encontra-lo agora?
Perguntando para um e outro se o haviam visto, eles me indicaram uma pequena rua. Lá eu encontraria o Marcelino e mais uma pequena multidão de meninos e meninas, todos sentados,muito caladitos, diante de uma janela.
Me aproximei lentamente. Foi quando escutei aquela voz  Parecia de um anjo. Me aproximei mais, me sentei, e calado fui absorvendo aquilo como se me tocasse fundo na alma.Me sentia transportado. E não era só eu o encantado ali.
Ela era uma contadora de histórias.
Uma história era sobre um esquimó que ofereceu a filha ao seu melhor amigo, mas ela não o aceitou e pediu aos cães para o levarem para longe, para o perderem no sitio onde nada mais há do que neve. Eles voltaram passado uma semana, sem o amigo do pai dela, que morreu congelado no polo norte.
Outra história era sobre o pagador de promessas, homem vivaço e esperto, que fazia as promessas pelos outros, nem que tivesse de caminhar trinta quilômetros por dia, mas que se fazia pagar ao minuto. Um dia um santo não gostou e castigou-o, pediu a Deus para lhe mandar um raio e ele foi direitinho para o Inferno.
E ainda outra história foi sobre a fazedora de milagres, a princesa da madrugada, que atendia os desejos de todos os desafortunados, mas só um por cada um. Como o primeiro desejo nem sempre era o mais desejado, os desejosos revoltaram-se e decidiram acabar com os milagres na terriola. Conseguiram que a milagreira fosse expulsa e emigrasse para a Amazônia  onde passou a curar todas as doenças e expulsou os demônios da floresta.
E por último apareceu a história da rainha que tinha cabelos de ouro e que todos os cabeleireiros do reino os queriam cortar. Ela arranjou uma cabeleireira particular, que transformava os cabelos em ovos de ouro e que os colocava nas galinhas dos mais pobres. Estes enriqueceram rapidamente e a rainha teve de fugir do seu reino, pois todos lhe queriam roubar os cabelos!
A contadora de histórias diz que é ela essa rainha, mas que conseguiu esconder os seus cabelos de ouro debaixo de uma farta cabeleira comprada no mercado da terriola. Ninguém se acreditou, a não ser as crianças, que são sempre mais inocentes do que os adultos e pensam que tudo pode acontecer, mesmo ter os cabelos de ouro!
Contar histórias qualquer um pode e sabe. Porém esta moça nos transportava para o mundo delas, tinha uma suavidade hipnótica a nos conduzir para ambientes mágicos
quando acabou e sessão, todos bateram palmas. Absorvido em meus pensamentos fui praticamente arrastado por Marcelino.
- Já chega de histórinhas por hoje. Andiamo Ítalo...Este negrinho parecia bem mais um patrãozinho, de bem mandão que era.  E confesso que eu queria mais, muito mais...
- Quem é a moça Marcelino?
- Sobrinha do patrão.Ela morava na fazenda antes, nasceu lá. Agora se quisermos ouvir-lhe, temos que vir a cidade.Todo sábado às dez horas da manhã ela começa a contar suas histórias encantadoras.
Sempre dou um jeito de vir vê-la. Disse Marcelino enigmático.
Percebendo que a conversa encerrava, Genaro guardou sua curiosidade. Eu mais cedo ou mais tarde eu desvendaria aquele mistério.
A partir disso, propus um combinado com as mulheres da fazenda. Pedi-lhes que nos reunissímos na sexta depois do lavoro para organizarmos naquela confusão de compras. Em vez de me darem cada família sua lista, elas me ditavam seus pedidos e eu mesmo fazia as anotações com minha letra. Assim, não perdia tempo desnecessário a decifrar aquela carranchada toda.
Não queria perder de ouvir a tal garota da janela. Aquela voz me perturbou muito. E não havia nada além disso... eu não a visualizei pois estava distante da janela e tinham outros na frente.
Desta vez serei o primeiro a chegar.
É claro que Marcelino ia junto também.Este era capaz de qualquer sacrifício para ouvir Elisa. E foi com sacrifício também que arranquei esta informação dele.
Elisa, nome suave, bonito.
Elisa tinha uma particularidade que todos conheciam, apesar de evitarem falar no assunto, era hermafrodita, tinha os dois sexos no mesmo corpo, o que pode embaralhar os outros, mas ainda embaralha muito mais, quem os vive! Foi educada como rapaz em criança, era o Eduardo, Edu para a família e amigos, mas na adolescência ficou com corpo de mulher, com feições femininas, começou a sentir como uma menina, a falar como uma donzela, a crescer como uma senhora. Sempre de saias, a esconder o que desejava não ter, passou a frequentar um psiquiatra e uma psicóloga, que tentavam descobrir a que sexo ela pertencia, apesar de ser evidente demais que a sua beleza não era máscula e que não deixava dúvidas seja a quem for, que era um pecado uma mulher como aquela, ter algo no corpo que a diminuía  Mas, como vim a concluir, a história de Elisa era bastante estranha e a própria rapariga sofria com o seu passado, não só com o seu corpo.

Um sábado depois, quando eu me preparava para ir às histórias de Elisa, Marcelino me diz para eu ir na estação buscar uma sobrinha do patrão que chegava de Paris. Surpreso coma novidade eu respondi de pronto.
- Mas nem sei onde fica a estação. Ao que o negro deu uma gostosa risada
- Não se faça de bobo ítalo. E ande logo que Elsa tem humor de cão, se ela esperar, não quero estar na sua pele.
Contrafeito  resmunguei
- Descreva-me a bruxa então. Como vou saber quem é?
- Vai saber quem é quando a vir, fique certo.
Louco de pressa fui correndo a estação.Que porcaria! Queria tanto ouvir Elisa.
Cheguei na estação junto com o trem. No meio daquela confusão toda eu não tinha menor ideia de quem procurar.
Porém, quando ela desceu do vagão fiquei estarrecido. Era Elisa que vinha ali.
Fui a seu encontro e me apresentei
Ela me fitou por uns momentos e disse-me que pegasse logo as malas pois estava muito cansada.
O jeito com que esta mulher me olhou me deixou profundamente irritado. Que arrogante!
E elas eram gémeas.
Fiz aquilo com uma rapidez que ela quase teve que correr para me acompanhar. Quando chegamos a casa de Elisa a recepção não podia ser mais calorosa, as irmãs emocionadas se abraçavam com carinho sincero.
Marcelino era apaixonado por Elisa, isso era mais que evidente. Parecia existir entre os dois uma espécie de aceitação do inevitável. Se adoravam desde tenra idade. Mesmo sem saber o que o destino lhes reservava estavam juntos. Sempre juntos.
- E você vovô?! Perguntou um dos netos,como se não soubesse
-  Neste dia começou a minha história com Elsa. Demorou um pouco mais para nos entendermos, pois ela tinha um gênio difícil mesmo.
- Gênio difícil eu?! Olhe quem fala! Surpresos eles olham para a direção da voz
- Vovó?!
E em meios a muitas risadas Elsa retruca. - Perdi o sono, então vim ver o que se passava. Não quis interrompe-los. Fiquei quietinha escutando.
Agora vamos para cama Ítalo querido. Disse carinhosamente ao marido. -E vocês tratem de ir dormir. pois amanhã vamos à pescaria.
Os garotos disseram em uníssono.
- E o final da história?!
- Que final? Não existe final meninos, vêem. Ainda vivemos nossas histórias.
Os meninos ainda insistiam. - O Marcelino e Elisa, a irmã de vovó,  eles se casaram vovô?
- Sim, viveram juntos a vida inteira. Não desafiavam as convenções abertamente pois não havia necessidade se imporem. Só queriam um ao outro. Não lembro de ter conhecido um sentimento mais puro entre duas pessoas tão diferentes.
Então todo sábado íamos à cidade, fazer compras e escutar a garota da janela. É claro, que agora havia Elsa, a irmã voluntariosa.
E todos caíram na risada.
Guerreira Xue /Paulaj

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