sexta-feira, 23 de agosto de 2013

..NA HORA DA FOME

No mundo redondo e perfeito
O tempo vira na hora certa,
Todos livres de preconceito
Em união total e aberta

A natureza produz o sustento
O homem cuida da cria...
A fera espera o advento
E o sol ...
Esse nasce todo dia

O céu e a terra se misturam
O cão e gata estão juntos
O leão e a zebra conjuram
a paz reina por todos os cantos

A rata e o dragão são amantes
Tudo sugere uma harmonia
Tal qual anjos consonantes

Que só é rompida...
Na hora da fome
É quando tudo fica disforme
A raça é dividida
Numa destruição sem nome
Guerreira Xue

                                                                                    Imagem Net

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Tempestade

Era uma noite de lua
A casa estava vazia
Os corações estavam cheios
E a minha alma era tua

O sorriso era de alegria
Uma hora veio a tempestade
E arrastou voce para rua
Levando consigo a serenidade
que dentro de mim havia

E me perdi de voce...
Quando parou a ventania

... A noite amanheceu
E o mundo  inteiro se quebrou
E dos cacos,
que de mim se desprendeu
Um pedaço seu em mim ficou

E se acaso, não mais te encontrar
Minha alma por vezes
chora
Só não fico mais vazia
porque te guardo seguro agora
Onde vento algum pode arrancar


Guerreira Xue/Hilda Milk

A RATA E O DRAGÃO

Certa vez, quando os bichos falavam um idioma compreendido  na terra dos homens, havia um dragão enorme que protegia um pequeno povoado de toda sorte de perigos. Ele era valoroso e gentil, e em troca o povo lhe retribuía com todas suas vontades satisfeitas. É claro que por vezes o mesmo também era egoísta e intransigente, como a maior parte dos poderosos porém era sempre perdoado e em geral era quando aparecia um malvado, querendo escravizar a vila
-Já estamos acostumados com o nosso amo e senhor de estimação. Diziam os mais velhos da região.
Mesmo um dragão tem sentimentos e Sua Excelência, o Dragão Pintado, era particularmente sensível. Impertinências à parte, o dragão vivia comovido, pela reverência do seu povo e cada dia, se sentia mais responsável por aquelas pessoas, percebia-os pequenos e frágeis.
Bem, nenhuma história é perfeita, ou não havia história.. Por isso temos de falar do João Rapagão, inimigo do dragão!O falador canastrão...Risos
O João Rapagão nascera naquele povoado, já ninguém se lembrava quando, pois toda a gente preferia lembrar-se como!
-O João Rapagão não nascera, aparecera simplesmente no povoado.
Era dia de feira.
Às quartas feiras, para quebrar a monotonia das semanas em que não havia ameaças à aldeia, achava interessante este detalhe, este devia ser o dia de folga de todos malfeitores, então os habitantes vinham ao terreiro trazer o que produziam, vender, trocar, fazer festa, dançar e etc.
    Muita gente de longe convergia para o povoado. Essencialmente por causa de... etc.
Foi numa quarta feira discreta, ao final do dia, que toda a gente deu por ele, plantado no fontanário público, meio sentado meio deitado, impossível de ignorar, esquecido de se ir embora, gritando a todos que sempre ali vivera.
-Sou o maior matador de dragões de todas as terras!
-Impertinente! Diziam os demais ouvintes indignados
Sim, pois ninguém nunca se dera conta da existência de tal sujeito. E foi justamente neste dia que todos se aperceberam de Rapagão.
- Um atrevido isso sim! Diziam as senhoras de boa família.
Mas, voltemos ao nosso protetor e guardião. Ele andava triste e cabisbaixo.
Hoje era dia da feira e este sempre vinha para se exibir a todos, fazendo demonstrações com seu fogo.
-Que será que houve? O dragão não estava lá no lugar de costume, a observar o burburinho, como era de seu costume.
-Será que está doente?! Especulavam todos.
É verdade que ele andou enrabichado por uma bela dragoa que andou por aqui, quando esta vinha de passeio do norte. Eles conheceram-se por um destes acasos da vida. Ela machucara uma asa e teve de pousar, obrigatoriamente, no vilarejo. Foi um alarido só. Num primeiro momento ficamos preocupados, pensamos que era o nosso protetor que havia sido ferido. Ela era igualzinha a ele em tudo. Porém com atenção e cuidado sua asa melhorou e ela parecia nem lembrar mais que estava indo para algum lugar. Aí, ficamos preocupados de novo.
 O nosso vilarejo é pobre sabe. Dar de comer para um dragão ainda suportamos, mas a dois! A coisa ficava complicada.
E foi com grande alegria que um dia a vimos bater suas asas em direção ao norte, ela retornava para seu lugar de origem.
-Deve ser saudades da dragoa. Especulavam.
-Deixemos nosso dragão querido em paz então, que logo isso passa. Concordaram todos.
Mas os dias passavam e ele não vinha, nem pegar sua comida! Estava muito estranho.
Rapagão o moço exibido, tinha um bicho de estimação que carregava no ombro. Um camundongo, imaginem só! Coisa incomum, pois é. O diabo da ratinha não falava com ninguém, só com rapagão. Isso era o que dizia ele, o que nos fazia pensar que não era verdade.
Um dia estava o moço se pavoneando para uma jovem na vila, quando um dos anciões o manda chamar, e pede-lhe em publico que leve a comida do dragão.
O rapaz se prontifica logo, na esperança de impressionar a linda moça que o acompanhava e se vai, carregado de comida para o topo da montanha.
- Que massada isso!
Cansado pela subida, o moço se para a porta da caverna do dragão, e espera para tomar folego.
Quando de repente ele sente o bafo quente atrás do pescoço. Toma um verdadeiro susto, levanta-se num repente. O Dragão está lá com os olhos injetados de fogo a fixar-se nele. Apavorado o rapaz  não consegue pensar em nada melhor que correr, e correr muito!
Na carreira desembestada morro abaixo, João nem se deu conta que, deixou cair seu camundongo ao levantar-se.
Chegando a vila Rapagão avisa todos que o dragão está louco de raiva e vai matar a todos. Ficamos preocupadíssimos, claro. Com podia ser isso!?
Baixaram a ordem para que todos se refugiarem em suas casas imediatamente, deixassem comida e bebida suficiente para os dias de reclusão, até saberem ao certo o que se passava com o dragão.
Na caverna o dragão estava desesperado de dor. Era horrível aquilo. Nem sabia mais o que fazer, não dormia, nem comia há dias.
-Com licença. Uma voz feminina falou.
-Que foi? Onde estás? Diz o dragão olhando em volta sem conseguir ver nada.
-Estás com um espinho enterrado no pescoço amigo. Posso tirar, se quiser.
-Por favor. Respondeu o dragão.
-Acho que é isso que está me matando.
-Fique calmo e não se mexa, por favor. Vou tentar.
 Sem pensar duas vezes a ratinha pega aquela enorme farpa e puxa com toda força que pode.
 E vai sussurrando ao ouvido do dragão.
-Só mais um pouco amigo, só mais um pouco.
E tenta de novo e de novo. Enquanto o dragão vomitava fogo pelas ventas e boca clareando a  escuridão da caverna. A situação era tão calamitosa que até os morcegos que ali viviam,  evaporaram-se logo, e do povoado todos escutam seus grunhidos apavorados.

Afinal não tinha sido a dragoa a provocar-lhe tão grande dor, mas sim um espinho no pescoço, ainda por cima retirado por uma ratinha!
Quando odragão voltou ao povoado vinha enraivecido, como tinham sido capazes de o deixar a sofrer sozinho sem nenhum se atrever a tentar salvá-lo?! São estranhos os seres humanos, se puderem esquecem-se de quem veneram, não ajudam quem mais sofre e ficam felizes por não padecerem dos mesmos males!
Ainda por cima os dias que ficara a gemer não lhe permitiram arrumar o lar onde vivia, que se tinha infestado de pulgas, de modo que o seu bonito corpo de dragão luzidio estava cravejado de mordidelas de pulgas. Detesto pulgas, porque não vão elas apenas para os homens e deixam os bichos em paz?
Quando o dragão pousou no lugar de costume. Chamou a todos os residentes da aldeia e contou o que havia se passado.
- Quando ouvi aquela voz, vindo não sei de onde, pensei que estar morrendo mesmo.
Eu desmaiei de tanta dor. Quando acordei me sentia cansado ainda, porém a dor havia passado.  A única coisa que pensava era em comer. Foi quando eu vi um ratinho  pequeno, dormindo sobre mim. Nem pensei muito, peguei e ia levando a boca quando:
-Com que então eu te salvo, e tu me comes em agradecimento!
Fez-se um silencio onde eu imediatamente a larguei com toda a delicadeza possível a um dragão desajeitado.
-Peço desculpas pequena ratinha. Então foi você a me salvar da morte?
Incrédulo por uma criatura tão pequena e tão frágil ter tido a coragem de salva-lo, quando a maioria se escondera de medo.

-Acha que podemos conviver sem eu correr o risco de ser devorada por você grandalhão?
Ambos ficaram se mirando nos olhos por alguns momentos até que caíram na gargalhada.
-Vou tentar. Respondeu ele.
O dragão pegou a ratinha e a colocou no dorso.
-Segure-se, vamos voar.
A ratinha se sente humilde naquela imensidão toda. Lagrimas de emoção escorrem de seus olhos. Nunca vira paisagem mais exuberante. E quando pousaram, ele percebe a pequena sem palavras.
-Nunca voaste, ficou com medo? Gostou?
-Sim, nunca voei, e foi maravilhoso. Fico imensamente grata.

O povoado voltou à normalidade, e Rapagão perdeu sua ratinha, o moço "valente" havia ficado com tanto medo naquela noite que, só percebera no dia seguinte a sua ausência. Quando a viu com o dragão e soube que tinha sido sua salvadora, ficou orgulhoso dela.
E foi assim... Que aquele dragão enorme e uma ratinha insignificante se conheceram. Estes eram de mundos diverso, duas cabeças, duas almas que por alguma razão, queriam muito se conhecer, saber de tudo um do outro.
Ambos não entendiam direito, mas estavam ligados pela curiosidade ou pela vontade... Vai saber...
Guerreira/ Lena e PaulaJ

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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

CRIADOR E CRIATURA

Dedilhando suavemente a face feminina, ele percebe a cor da pele morena dourada.
Com o olhar frio e crítico, o homem avalia cada traço daquele rosto delicado. Este sabe com certeza, que é primeiro a toca-la, e provavelmente não será o último, uma vez que ela será muito admirada e desejada por sua beleza. E com suas mãos experientes, ele tem a sensação de poder total sobre aquela criatura... Por um breve momento seus olhos unem-se, e uma certa noção de grandeza invade o homem, sentindo-se um Deus, mas o instante logo passa e ele pensa: "Ainda não está bom isso! Amanhã recomeço novamente."
Exausto o artista solta o cinzel, vai despindo seu velho avental e a seguir cobre a escultura com uma estopa, lava suas ferramentas e fecha a porta saindo do ateliê.
Quem sabe que criar é um ato de amor pode bem imaginar o deslumbre de Deus ao criar o universo e nele, todas as coisas.
E Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, no silêncio do nada

No silencio do estúdio, debaixo da velha estopa."És meu criador, e me fizeste do melhor barro, sou moldada pelas tuas mãos habilidosas dia após dia. Fui tirada dos teus pensamentos, e enquanto você dormia, sonhavas comigo, e quando acordava me trazia para a vida. Eu não era nada, e agora tenho uma alma, uma consciência. Eu sou tudo. Me amastes antes de eu existir e agora, não podes mais me destruir. Criador pretensioso arrogante! Mostro-te quem manda neste momento".

Pela manhã quando o artista abre a porta e a cena que segue, o deixa sem fala. No chão, a sua frente, está sua melhor obra aos estilhaços, e caindo de joelhos ali mesmo, o amante chora a morte da musa.
E neste momento criador e criatura são a mesma coisa "nada".

Guerreira Xue
                                                   Escultura de Cícero D'avila

terça-feira, 20 de agosto de 2013

APAIXONADO POR UM OLHAR


A Brasileira

Todos os Sábados e durante anos fazia um percurso que me dava imenso prazer.
Depois de tomar o pequeno-almoço na Brasileira no Chiado, fazia uma ronda pelas livrarias. Primeiro visitava a Sá da Costa onde me extasiava com a profusão de livros empilhados em enormes mesas bem como nas vastas prateleiras. Depois de me inteirar das novidades literárias, seguia para a Bertrand. Aqui, detinha-me mais um pouco por via de um pequeno recanto onde ainda estão uma mesa e duas cadeiras envolvidas por prateleiras contendo livros somente de um escritor pelo qual tenho uma particular simpatia. Trata-se do Aquilino Ribeiro o homem que escreveu Grande Casa de Romarigães, Volfrâmio, Terras do Demo, Maria Benigna e de tantas outras obras que deliciam os amantes da boa escrita. Era neste recanto, que o escritor se sentava para ler, meditar ou conversar com algum amigo que aparecesse.
Quase sempre roçava com os dedos as lombadas daquelas fiadas de livros como sinal de respeito e admiração. Era para mim, aquele recanto, uma espécie de lugar de culto.
Retomava a minha peregrinação descendo a Rua Garrett virando depois para a Rua do Carmo. Entrava na Portugal e, finalmente na Lello onde permanecia mais tempo por virtude da amizade que me unia ao encarregado da livraria.
Porém, antes de transpor a porta, tinha como quase uma obrigação de parar defronte a uma velhinha que encostada a uma parede e sentada no passeio, estendia a sua mão trémula a quem passava. Por abrigo, somente um xale preto pela cabeça que usava quer no Verão como no Inverno. Mas, é nesta estação do ano que os deserdados da sorte mais sofrem. Aquela velhinha apanhava a chuva por vezes gélida impelida por vento agreste que fazia tremer de frio o mais agasalhado e, aquele ser frágil, no ocaso da vida, tinha só a cobri-la aquele frágil abafo que tantas vezes o vi ensopado. Tanto sacrifício, tão mal tratada, para no fim do dia levar umas escassas moedas a fim de fazer face à fome.
Condoía-me aquele ser em particular e, todos os Sábados, dava-lhe com alegria uma nota dobrada em quatro que lhe metia na mão esquálida e tremente. Nunca lhe ouvi uma palavra de agradecimento nem disso estava à espera. Agradecia-me de outra forma: levantava os seus olhos lindos cor do céu e olhavam-me tão ternamente que o agradecido era eu. Recebia em dobro.


Gostava muito daquela velhinha que durante anos me habituara a receber dela a esmola daquele olhar doce.
Num Sábado de Verão, não a encontrei no lugar habitual. Estranhei a sua ausência sem que no entanto tivesse pensado no pior. Na vez seguinte, a pessoa de olhar meigo continuava ausente. Entrei na livraria e mal tinha pegado num livro, oiço nas minhas costas a voz de alguém chamando: - senhor! Quando me voltei vi um homem magro de cor macilenta mostrando querer falar comigo. A um empregado zeloso que vinha pronto a evitar que eu fosse incomodado fiz-lhe sinal para que não se intrometesse. Virei-me para o homem e perguntei o que desejava. Este ser visivelmente abatido de aspecto doentio começou por falar de cabeça baixa e titubeante. ─ O senhor não me conhece mas, eu habituei-me a vê-lo todos os Sábados dar esmola à minha mãe. Também eu sou um pobre e pedia no passeio oposto. Prevendo o que tinha acontecido, mesmo assim, perguntei por ela. A resposta veio numa só palavra: ─ morreu! Fiquei momentaneamente em silêncio. O homem prosseguiu: ─ A esmola que o senhor dava, servia para pagarmos o aluguer da nossa humilde casa e para mais alguma coisa. A minha mãe era muda mas soube dizer-me que era o senhor o nosso benfeitor. Um nó na garganta impedia que eu mantivesse o diálogo. A minha velhinha de olhar meigo era muda. Nunca suspeitara.
Ainda mal recomposto perguntei se não podia trabalhar. Baixou o olhar e confessou: ─ Trabalhei na construção civil até que a tuberculose me apanhou. Estive internado num sanatório durante muito tempo. Quando saí, fui ao meu antigo trabalho mas não me aceitaram. Percorri tudo pedindo por favor qualquer trabalho que fosse, a fim de fazer face ao meu sustento e ao da minha mãe mas nada consegui. A única coisa que restava era pedir esmola e é o que faço.
Com o coração oprimido e revoltado com a sociedade ignóbil onde nos inseri-mos, voltei-me ligeiramente de lado, dobrei a nota como sempre fazia com a mãe e ofereci-lha dizendo: ─ Obrigado por ter contado a vossa história. È uma história de vida que me comoveu e, mais, por nunca ter abandonado a sua mãe, pessoa que me prendeu desde o primeiro dia que a vi. Não fazia ideia que era muda mas, essa falta, era suprimida pelo seu olhar lindo que me fascinava. Em memória dela pode contar igualmente com o mesmo contributo para que de algum modo, possa tornar menos pesado as suas carências.
Despediu-se de mim com os olhos marejados e um pouco à pressa como que envergonhado. Dei graças por poder assim continuar a ajudar um ser que foi gerado por alguém que jamais esquecerei.
Já de regresso, sobraçando uma data de livros, ocorreu-me este pensamento: Quem sabe se Deus não se serviu de mim para minorar um pouco a pobreza daquelas suas duas criaturas?
Victor Serra

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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

HORAS INQUIETAS


O relógio da matriz bate suavemente 
Anuncia o passar das horas
Não espero pelo tempo que escorre
Hoje sou um homem
Mas um dia, já fui menino

A pedra rola com o temporal
Arvores balançam ao sabor da brisa
A sorte chega a quem esta a frente
Os pés me levam além
Não reviram montanhas
São prisioneiros de minha vontade

O caçador persegue a presa
Ando pelo mundo
Não tenho parada
Um dia, ainda roubo a Teresa
Hoje quero as outras 
O que é leve só flutua
Eu quero tudo, sou volúvel
Correndo o risco de ficar sem nada

O que passou eu não lamento
Ha inquietudes na alma 
Inquietudes no olhar
Coisa que borbulham
Me vem através do vento
Estes não reviram montanhas
Não quebram barreiras
Mas movem a mim mesmo
            Guerreira Xue