domingo, 4 de janeiro de 2015

A CARTA DO POVO E A CARA DO BOBO

Meus caros seis leitores!!
Muitos estudiosos acham que a nossa Constituição deveria se ater a diretrizes e comandos gerais.
O legislador brasileiro, na histórica Constituinte de 88, logrou pensar diferente.
Quase tudo está lá. São mais de cento e quarenta páginas em papel A4.
Vira mexe, o legislador ordinário pespega-lhe mais um adendo.
Alguns acadêmicos juram que parte do custo Brasil tem origem na Carta do Povo.
Os economistas apregoam que as amarras do crescimento Brasil também estão lá, na Carta-Mãe.
Não sou jurista e nem legislador, mas um eterno palpiteiro e incomodado com algumas coisas.
O preâmbulo é majestoso. É para inflar qualquer peito raquítico e consumido pela fome que assola algumas partes deste portentoso país rico de gente miserável.
Atentem!
“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos...”
Só para atazanar vamos esmiuçar o preâmbulo, ou melhor, esquartejá-lo.
Primeiro; “Nós, representantes do povo brasileiro.”
Levante a mão quem se sente representado pela camarilha ali abrigada pelo voto popular.
O triste não é eles estarem lá como representantes do povo. O triste é saber que estão pela vontade desse povo.
Temos que admitir que neste caso estamos bem representados.
E ponto. Somos uma gentalha masoquista. Adoramos ver o que os nossos representantes aprontam e até aplaudimos aqueles que são espertos em angariar alguns trocados para continuarem na safadeza, desde que sobre algum para a gente. A grita só é geral quando o fulano representante resolve ser muquirana.
Aqui a culpa é toda nossa. Basta olharmos no espelho. Nós somos eles.
Vamos voltar ao preâmbulo da Carta Magna?
“reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático...”
Com os diversos comandos criminosos que campeiam a terra tupiniquim como podemos falar em estado democrático?
Agora que vem o melhor?
“destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos...”
Algumas perguntas.
Quem tem educação de qualidade de graça dê um passo à frente.
Quem tem saúde de primeiro mundo sem ônus que levante a mão.
Quem tem moradia decente subsidiada pelo Estado grite a plena força dos pulmões, desde que o médico lhe diga que você pode gritar.
Ah! você não pode gritar!!!
Quem disse que você pode comemorar a vitória do seu time sem o risco de alguém lhe mandar uma bala perdida?
Seus filhos disputam as mesmas vagas nas universidades em condições de igualdade?
Aliás, devo antes perguntar se ele teve uma educação que o habilite concorrer em igualdade com os demais.
Quem justiça é essa que faz com que pessoas deixem em testamento para os herdeiros o resultado da reparação que se busca durante décadas?
Que sociedade fraterna existe quando temos medo até de cumprimentar o vizinho?
Acho melhor nem falar em pluralismo e preconceitos.
Saindo do preâmbulo para o corpo da carta me deparo com uma visão de Shangrilá.
“Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem estar de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Quem já conseguiu entrar e sair livre de uma favela num certo estado levante os dedos que sobraram.
A nossa solidariedade surge apenas nos momentos de tragédias.
Nunca ninguém foi solidário para evitar a tragédia.
Entra ano, cai chuva e novamente temos o arrastão da solidariedade e só.
Aliás tem também a destinação nada republicana das ditas doações.
Desde a Carta de Caminha, onde começou a locupletação desvairada, são mais de quinhentos anos perdidos sem que reduzíssemos as nossas desigualdades regionais.
A seca não é um fenômeno não esperado. Ela tem dia e hora para aparecer.
Assim mesmo ficamos constritos momentaneamente com as imagens dos noticiários que já tem plantões fixos para veicularem o tema.
A promoção do bem geral passa pela contribuição geral.
Dai, tem gente que paga meio imposto, tem gente não paga imposto nenhum.
Até que as leis existem e são boas.
Mas o que preocupa a todos são os direitos.
O outro lado da moeda, os deveres e as obrigações ninguém quer ver, saber ou respeitar.
Assim, a equação não fecha.
E a gente continua olhando para o congresso, a justiça e para o executivo tentando achar culpados.
Para que gastar tanta energia?
Riqueza tão escassa aqui em Brasília, dia sim, dia não tem apagão.
Basta uma simples olhada para o espelho.
Eles, somos Nós?
E temos o que merecemos uma sociedade de desiguais.
Isso tudo porque não quero bosquejar nos capítulos que falam da economia, da riqueza etc.
Apenas o começo de uma carta vigorosa nas mãos de um povo fraco e indolente.
De uma coisa eu tenho certeza.
Não somos iguais, não somos fraternos, não somos solidários, não somos éticos, somos preconceituosos e avessos a pagar o tributo da cidadania.
Alguém grita: “É tudo culpa do Estado”.
Eu retruco: “Nós somos o Estado”.
E corro fechar a janela.
Alguém vai pagar a conta. Ah, vai!!!
Temo pelas gerações futuras.
A Carta pode até ser do povo, mas quem toma conta dela não tem a cara do povo. E todos nós temos cara de bobo.
Duvida??
Olhe no espelho.
Gilberto Carreiro