quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O Amor Tem Destas Coisas


Geni e Gustavo estão para se casar no dia seguinte, e mal se aguentavam de tanto nervoso.
A cerimonia simples será no civil em casa de amigos, e seguida de uma oração, pois o espiritismo não acredita em dogmas, sacramentos ou adoração de imagens.
Enquanto ambos bebericavam um vinho:
-Lembra quando nos conhecemos amor? Pergunta Geni sorrindo relaxada.
-Como se fosse ontem. Responde Gustavo. E Geni continua...
-Eu estava trabalhando e pedi dispensa mais cedo, pois ia receber o montador de móveis naquela tarde. Cheguei atrasada e o tal montador já estava de saída, ainda bem que Julinha estava em casa e o recebeu. Risos...
- A mocinha foi gentil, e até me ofereceu uma limonada enquanto eu trabalhava!
Geni comprara um roupeiro novo, pois o ex marido estava agora morando em casa novamente. O pai de Julinha viera do interior, para se tratar de doença. Ela então teve que improvisar acomodações.
Tanta coisa eles já tinham vivido até ali,..
Dizem que reviver o passado é sofrer duas vezes, talvez seja verdade, mas nega-lo é também violentar a memória.

Orfã do pai desde cedo, Geni, os irmãos e a mãe foram morar com a avó materna quando se viram praticamente na rua, sem comida ou um teto para dormir.
As vezes para alguns não basta ser só difícil a vida, pois a mãe de Geni era tão revoltada com seu destino que acabava por descontar suas frustrações nos filhos, espancava-os por, ou mesmo sem qualquer razão, Como não bastasse humilhação a mãe fazia-os sair a ruas para "pedir".  
Geni era a irmã mais velha e sofreu um bocado por todas as dificuldades que passaram e pelos maus tratos, e era a um tal ponto que, se qualquer um desse alguma atenção, ela se ia embora dali e esqueceria aquela vida miserável para sempre.
Outras vezes uma única tentativa ainda não é o suficiente, porque a Geni arrumou um sujeito, e com ele foi-se embora, esperando nunca mais regressar... Ledo engano. Não demorou muito e ela retornou a casa da mãe, só que desta vez com um filho nos braços.
Mais tristezas e humilhações a aguardavam...
Depois veio outro e a carregou com seu filho, rumo a outra chance de ser feliz.
Talvez a sabedoria esteja ligada a paciência, um certo equilíbrio entre busca e espera. Mas neste momento lembro-me de um slogan "Quem tem fome, tem pressa",  e assim era Geni, uma faminta de amor e alegria.
A vida foi seguindo e mais dois filhos vieram desta nova união...O marido era bom, não deixava faltar-lhe nada, não fosse pelas surras que Geni levava. Carlos detestava o filho mais velho de Geni, o que acabou por causar  desequilibro na criação dos filhos.
Um dia as coisa mudaram, e o certo é que as coisas sempre mudam... O filho mais velho cresceu e foi-se embora, e não porque alguém o carregou, e sim pelas próprias pernas e vontade... E Geni separou de Carlos.
Era uma mulher feita agora e tinha que ter juízo, e esquecer as ideias românticas de príncipe encantado, pois foi a duras penas que ela compreendeu que ninguém faz ninguém feliz.

Um dia ela soube que o ex marido andava doente e que estava tratando de um cancer.
"Traga as suas coisas e se acomode no quarto de  Júlia, ela dorme comigo. Afinal de contas voce é pai dela, e não se importara de cede-lo para voce". Ele veio ...
Geni trabalhava em casa de família, e tinha a vida muito sedentária, e numa tarde sentiu-se mal. A primeira recomendação medica:"Dieta e caminhada." Então Geni começou, todo sábado dava uma volta de duas horas pelos arredores da cidade, e passava justamente na frente da casa do tal montador de moveis, aquele...
Gustavo era viúvo e fazia tempo que não tinha companhia feminina, além das duas filhas em casa.
 Gustavo viu a moça passando na primeira vez estava varrendo a frente de sua casa, a cumprimentou casualmente, na segunda vez a cumprimentou novamente, e na terceira...
-Gastei uma vassoura todinha naquela calçada  mas valeu a pena. Risos...
-Te amo minha pequena, e quero que voce seja feliz, e se for comigo melhor ainda.
Geni achava aquela frase era maravilhosa.
- Eu aprendi que para ser feliz e preciso oportunidade de se gostar e eu tive esta oportunidade recentemente.

A palavra amor é de fácil pronuncia, mas a maioria a confunde com egoismo. Eu a confundi diversas vezes, querendo que alguém, me salvasse de minha própria tristeza.
Hoje já compreendo que só se partilha aquilo que se tem, e eu não tinha grande coisa, só uma certa amargura, raiva de um pai que morreu cedo, de uma mãe que não sabia demonstrar amor.
- Aprendi a amar com o tempo e com meus filhos, sabe. Te adoro também Gustavo, e admiro o homem que voce é, e pela preocupação em saber quem eu sou, quando nem eu mesmo sabia quem eu era.
Sabiam ambos, que teriam problemas pela frente, mas estavam juntos nesta jornada.
E os dois se beijaram.
Geni por vezes ainda perguntava : "
- Sera que estou agindo certo desta feita? Ao que Gustavo respondia bem humorado
- Se não estiver, logo nos dois saberemos.
Guerreira Xue/Hilda Milk

Imagem Net

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A História Do Zéca

Conhecia o Zeca sim sinhor
Nóis morava num barraquinho
Bem perto da praia seu doutor
Aquele era um irmão pra mim
Desde pequeno foi sozinho

Tinha um olhar daqueles
perdido
Então dei-lhe um lugarzinho
Podia ser doido o amigo meu
Não não, ele não era bandido
Era meio estranho, isso ele era
E também não tinha nada de seu

O Zeca andava sempre contente
As vezes eu ficava inté bravo
Por que diabo te ri vivente?
Ele respondia logo num repente,
Olha que dia mais bonito parente!

Uma vez, o Zeca saiu de noite
Pra voltar só de manhãzinha
Um sorriso mais grande ainda
Onde tu durmiu homem?

Conheci uma mulher,
uma flor, igual beleza
Nunca tinha visto
uma lindeza
E seu nome é...
Ai ela não disse

Agora toda terça o Zeca saia
Pra voltar só no outro dia
Com um sorriso abobalhado
Eu tava preocupado com aquilo
Ele podia ser morto, roubado,
mas que nada
O sujeito tava mesmo apaixonado

Num dia destes o Zeca não voltou
Era tardinha de quarta
e alguém avisou
Corre cá, que teu amigo passou mal
 desmaiou
Levei logo ao hospital

Morreu o pobre Zeca, não se aguentou
Ficava pensando que houve com a moça
A tal,
por quem Zeca se enfeitiçou

Depois do enterro dele, chegou a terça
Deu-me uma coisa na cabeça
Fui até o cemitério aquela noite
Eu sabia que era bobagem
Mas vi ali diante da sepultura a mulher
uma beldade

Ela também me viu e não me disse nada
Com os olhos marejados deixou cair uma flor
E se foi
Então era tudo verdade

O Zeca tinha mesmo um amor
O senhor me desculpe
Não sei dizer direito muita coisa
As vezes fico matutando...

Como pessoas que tem sorte
Podem muito e compram tudo
Sem nada ganhar
O Zeca não tinha nada nesta vida
Mas ganhou um tesouro assim
Sem querer, sem pedir ou comprar.

Guerreira Xue/Hilda Milk