quinta-feira, 20 de março de 2014

PALAVRAS DE AMOR


Amar...
Quatro letras a estar
Estar aqui e fazer calar
Calar a voz que grita...
Um olhar Ouvir...
Cinco letras a ferir
Ferir e depois rir
E então, nunca mais sair
Olhar...
Seus olhos belos...
Velhos
Por eles velo
Pelo sorriso, espero Sentir...
Suas mãos quentes, em mim
Sua voz calma, por mim
Seu amor...
Para mim Querer...
Seu toque em mim e tremer
Sua vida em mim e renascer
E nunca mais querer morrer
Suzana Thron do livro
VOZES DE UMA MULHER

ESCREVE MEU FILHO!

ESCREVE MEU FILHO!

Há pessoas que só têm areia na cabeça. Outras existem que para além da areia, possuem fantasmas. A areia entorpece o cérebro não lhe permitindo o raciocínio normal das coisas. Os fantasmas, pelo contrário, avivam o cérebro e para além dessa vivacidade possuem objetivos próprios e bem definidos. O indivíduo que medita assiduamente recolhe no cérebro infinitésimas mas regulares mutações e está sujeito a dores por vezes insuportáveis que daí advêm, ao contrário do homem vulgar que pensa apenas nas pequenas vaidades da existência e raciocina baseado no estômago e no sexo. Normalmente estes sujeitos vivem em paz com os seus pequenos nadas do dia-a-dia, contentes consigo mesmos e com a sua esperteza. Nasceram sob o signo dos bichos e, lamentavelmente, pensam apenas em comer e fornicar...

É na limpidez dos sentimentos, na verdade das palavras e na pureza dos actos que existe de facto algo de sublime, na realidade é aí que reside o princípio da felicidade. Ter tido o privilégio de ter estado no lugar certo e no momento exato em que determinadas circunstâncias físicas e psíquicas casualmente se reuniram para satisfazer a necessidade daquilo que temos por belo, tanto no seu aspeto físico, como no seu imaginário espiritual é, em verdade, algo de fantástico. A felicidade é um estado de alma que se divide por vários sentidos da existência material e psíquica. Infelizmente só as crianças e os loucos, em determinadas fases das suas existências atingem esta conjuntura de felicidade... Depois...

… … …

Foi no longínquo ano de 1775 e neste mesmo dia que aconteceu o sismo em Lisboa que, para além de ter destruído quase toda a cidade, ceifou milhares de vidas. Hoje é o dia de Todos os Santos, das Bruxas e dos Fiéis defuntos. Por isso esqueço que estou preso separado dos meus mais queridos e medito sobre os meus mortos. Certa ocasião, num agradável dia domingueiro e pouco antes da sua partida para o outro lado da vida, o meu querido e saudoso pai numa amena e agradável conversa a dois no interior do nosso quintal dissertava sobre o meu último livro publicado em Angola no ano 1974. Enquanto olhava com carinhosa satisfação as novidades da horta que com tanto amor semeara, numa voz calma e pausada, própria ao ancião rico dos conhecimentos adquiridos em experiências pessoais, em determinado instante disse: Escreve meu filho. Pois que se é um facto que a verdade traz deceção, lágrimas e sofrimento constante, também não deixa de ser real que o conhecimento trás sempre consigo a satisfação, o prazer e a esperança de uma nova luz, a esperança da existência de uma outra dimensão. Escreve meu filho. Existe sempre alguém com necessidade de aprender, e que - por esta ou aquela razão – interpreta melhor este ou aquele autor. Por isso, e por outras razões, escreve. Dos livros que editares algo há de ficar. Fica sempre alguma coisa. Por muitos desgostos que tenhas, por muito difícil que seja publicar um livro, insiste. Crê que o espírito é o sentido máximo, o círculo mágico da existência. Por isso, escreve!

… … …

Apareceu-me uma borbulha no lábio inferior, devo ter tido febre durante a noite. Ouço ruído num rádio qualquer. Parece haver futebol. Não sou grande adepto deste desporto, contudo, quando se trata das nossas equipas defrontarem as estrangeiras, não posso falhar uma emissão televisiva, e ao ver o jogo sofro quando os nossos estão a perder, é verdade, sofro mesmo sem querer. Este tipo de sentimento que comigo nasceu e em certas circunstâncias tanto me tem prejudicado, não arreda pé do meu organismo. Enfim, quem nasce burro e não o reconhece em devido tempo é justo que – com mais ou menos sofrimento, aguente a pedalada... Tenho o pressentimento que a minha prosa se está a desviar do seu rumo natural. Será algum efeito pernicioso do ambiente que me rodeia?

Este modo absurdo de viver, este labirinto de ideias enlouquecedoras, este desejo incompreensível que me persegue e incita a gritar com raiva até que os pulmões se espatifem desfeitos em sangue, este contínuo desejo de chorar como desabafo em busca de alívio e paz espiritual, este peso exaustivo que me magoa o peito e esta opressão contínua de raiva e desespero que estupidamente se apossou de mim... Eu sei que não tenho direito a nada. Mas esta sociedade egoísta que de mim tanto exige terá o direito de me magoar deste modo? Sou insignificante, reconheço-o. Que interesse pode ter a minha personalidade, o que fiz ou penso?

Que importa que estoire os miolos, corte as veias ou me enforque aqui e agora? Morrer... Deixar tudo e todos para sempre. Terminar o meu sofrimento e deixar uma vez por todas este absurdo labirinto de pensamentos que me oprimem e enlouquecem... Eles magoam. Torturam. Devoram o espírito e destroçam a alma dos mais puros! Eu sei que não sou esperto. Nunca o fui. Reconheço-o tardiamente mas agora plenamente convencido de estar a dizer e a sentir a triste e cruel realidade. Sinto que cheguei ao fim do caminho!
Bernardino Gomes De Oliveira
(Extracto in O Mendigo de Bruxelas)


segunda-feira, 17 de março de 2014

VIM PARA AQUI NU


Eu hoje vim para aqui nu.
Mas preparado para me vestir
e vestir mais alguém
com toda esta essência
que as palavras transmitem
para que eu me sinta alguém ou ninguém.
Vim e estou por aqui e está certamente muito longe
de ser o que pretendo ser,
talvez ninguém , ou talvez eu
para que algumas pessoas entendam
que ser ninguém para um poeta
é ser e ter um mundo de nada
mas com muito para dar
o que certamente alguém não tem.
Talvez eu¬ ou eu é que sou mais um poeta
que diz não saber o que quer
ou sou eu que me sinto mais um lanceta
e lá no fundo e por fim
até sabe o que não quer.
Raios partam os jogos desta vida
e mais a loucura que me leva a ser.
Raios partam tantas as loucuras que se fazem
e não sou só eu mas eu certamente tenho as minhas
e não são assim tão poucas as loucuras que a vida provoca
e me provoca a vontade de as fazer.
Vim para aqui nu
e está muito longe
de pensar o que queira
estará eminente mais longe de ser
o que não seja
porque pensam demasiado por mim, se sou ou não sou,
eu só sei o que penso e quando não penso, escrevo
e quando não escrevo só leio o meu pensamento,
quando choro é porque realmente sinto e quando sorrio,
francamente é porque não minto.
Aliás são muitas as vezes
que quando sorrio ,lacrimejo por dentro.
Mas mesmo assim, eu sou sempre alguém ou ninguém
e continuo a ser alguém para outro alguém
mesmo que não me veja, eu sei lá, sou o que sou,
o porquê de ser ainda não sei,
por isso vim para aqui nu,
para verem com os vossos ouvidos o que quiserem que eu seja.

Poeta do silencio/Jose Lopes 
Livro  O MEU SILENCIO
   http://www.wook.pt/ficha/o-meu-silencio/a/id/15345796