quinta-feira, 20 de março de 2014

ESCREVE MEU FILHO!

ESCREVE MEU FILHO!

Há pessoas que só têm areia na cabeça. Outras existem que para além da areia, possuem fantasmas. A areia entorpece o cérebro não lhe permitindo o raciocínio normal das coisas. Os fantasmas, pelo contrário, avivam o cérebro e para além dessa vivacidade possuem objetivos próprios e bem definidos. O indivíduo que medita assiduamente recolhe no cérebro infinitésimas mas regulares mutações e está sujeito a dores por vezes insuportáveis que daí advêm, ao contrário do homem vulgar que pensa apenas nas pequenas vaidades da existência e raciocina baseado no estômago e no sexo. Normalmente estes sujeitos vivem em paz com os seus pequenos nadas do dia-a-dia, contentes consigo mesmos e com a sua esperteza. Nasceram sob o signo dos bichos e, lamentavelmente, pensam apenas em comer e fornicar...

É na limpidez dos sentimentos, na verdade das palavras e na pureza dos actos que existe de facto algo de sublime, na realidade é aí que reside o princípio da felicidade. Ter tido o privilégio de ter estado no lugar certo e no momento exato em que determinadas circunstâncias físicas e psíquicas casualmente se reuniram para satisfazer a necessidade daquilo que temos por belo, tanto no seu aspeto físico, como no seu imaginário espiritual é, em verdade, algo de fantástico. A felicidade é um estado de alma que se divide por vários sentidos da existência material e psíquica. Infelizmente só as crianças e os loucos, em determinadas fases das suas existências atingem esta conjuntura de felicidade... Depois...

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Foi no longínquo ano de 1775 e neste mesmo dia que aconteceu o sismo em Lisboa que, para além de ter destruído quase toda a cidade, ceifou milhares de vidas. Hoje é o dia de Todos os Santos, das Bruxas e dos Fiéis defuntos. Por isso esqueço que estou preso separado dos meus mais queridos e medito sobre os meus mortos. Certa ocasião, num agradável dia domingueiro e pouco antes da sua partida para o outro lado da vida, o meu querido e saudoso pai numa amena e agradável conversa a dois no interior do nosso quintal dissertava sobre o meu último livro publicado em Angola no ano 1974. Enquanto olhava com carinhosa satisfação as novidades da horta que com tanto amor semeara, numa voz calma e pausada, própria ao ancião rico dos conhecimentos adquiridos em experiências pessoais, em determinado instante disse: Escreve meu filho. Pois que se é um facto que a verdade traz deceção, lágrimas e sofrimento constante, também não deixa de ser real que o conhecimento trás sempre consigo a satisfação, o prazer e a esperança de uma nova luz, a esperança da existência de uma outra dimensão. Escreve meu filho. Existe sempre alguém com necessidade de aprender, e que - por esta ou aquela razão – interpreta melhor este ou aquele autor. Por isso, e por outras razões, escreve. Dos livros que editares algo há de ficar. Fica sempre alguma coisa. Por muitos desgostos que tenhas, por muito difícil que seja publicar um livro, insiste. Crê que o espírito é o sentido máximo, o círculo mágico da existência. Por isso, escreve!

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Apareceu-me uma borbulha no lábio inferior, devo ter tido febre durante a noite. Ouço ruído num rádio qualquer. Parece haver futebol. Não sou grande adepto deste desporto, contudo, quando se trata das nossas equipas defrontarem as estrangeiras, não posso falhar uma emissão televisiva, e ao ver o jogo sofro quando os nossos estão a perder, é verdade, sofro mesmo sem querer. Este tipo de sentimento que comigo nasceu e em certas circunstâncias tanto me tem prejudicado, não arreda pé do meu organismo. Enfim, quem nasce burro e não o reconhece em devido tempo é justo que – com mais ou menos sofrimento, aguente a pedalada... Tenho o pressentimento que a minha prosa se está a desviar do seu rumo natural. Será algum efeito pernicioso do ambiente que me rodeia?

Este modo absurdo de viver, este labirinto de ideias enlouquecedoras, este desejo incompreensível que me persegue e incita a gritar com raiva até que os pulmões se espatifem desfeitos em sangue, este contínuo desejo de chorar como desabafo em busca de alívio e paz espiritual, este peso exaustivo que me magoa o peito e esta opressão contínua de raiva e desespero que estupidamente se apossou de mim... Eu sei que não tenho direito a nada. Mas esta sociedade egoísta que de mim tanto exige terá o direito de me magoar deste modo? Sou insignificante, reconheço-o. Que interesse pode ter a minha personalidade, o que fiz ou penso?

Que importa que estoire os miolos, corte as veias ou me enforque aqui e agora? Morrer... Deixar tudo e todos para sempre. Terminar o meu sofrimento e deixar uma vez por todas este absurdo labirinto de pensamentos que me oprimem e enlouquecem... Eles magoam. Torturam. Devoram o espírito e destroçam a alma dos mais puros! Eu sei que não sou esperto. Nunca o fui. Reconheço-o tardiamente mas agora plenamente convencido de estar a dizer e a sentir a triste e cruel realidade. Sinto que cheguei ao fim do caminho!
Bernardino Gomes De Oliveira
(Extracto in O Mendigo de Bruxelas)