terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Dom

Já que o que a vida me trás eu não recuso
A perda também faz parte do uso
Nada é mais eterno que as gentes
E durante o tempo necessário é presente
Tens o dom amiga, de sorrisos florescentes
Elemento que se sustenta permanentemente

Guerreira Xue

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

SENSO COMUM

Na rotina diária o homem respira, trabalha, come e dorme. Suas diversões são; futebol das quartas e a bebedeira das sextas, acompanhado de outros bêbados que chamam de hora feliz. Certo ou errado, cada um é que sabe de si. Algumas mulheres acompanham o ritmo, dando colorido ao evento. 
O trabalho, dívidas, casa, tudo sufoca. 
E vive-se assim, autômatos que fazem aquilo que rege a maioria. Lembrei uma velha frase batida; senso comum, tanto que sequer faz falta. Porque se morreres amanhã, nem o garçom, que sorridente atendia, terá tempo de lembrar-se do teu nome, tampouco da tua cara.
Guerreira Xue

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A ÁRVORE E O VENTO

De todo tempo que tenho
Eu sempre morei aqui
Com raízes pegadas ao chão
Espalhadas...
Sem que jamais saísse do lugar
Mudei tanto que quando percebi
Completei a magistral brotação
Mas eu vi e vivi tantas coisas
Que agora mal consigo lembrar
Ilusões e sonhos que eram meus
E viajando por mundos estranhos
Os bizarros eram os Eus
Por vezes eu me perdi, andei a esmo
Muito próxima
Ao alcance das mãos de mim mesmo
E para cada estação é um novo momento
Desde o início dos tempos tem sido assim
Os frutos já se foram
E as minhas folhas voaram com o vento
Enquanto o vento matreiro voou em mim
Enfim
Eu continuo aqui, buscando o meu lugar
Até o dia do fim.

Guerreira Xue




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

LOUCA

Se você vai falar de mim para alguém
Então diz que sou pirada
Louca de carteirinha assinada
Mas que isso no mundo não pega nada
Alguns malucos só almejam o bem.
Guerreira Xue


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CHOVIA

Hoje acordei pensando em ti, ao abrir a janela
O dia estava chuvoso, mas quem liga
Rindo atoa, eu peguei o meu casaco
Abri meu guarda chuva e fui te encontrar
Claro que fantasmas não existem
Invariavelmente eu também não
O dia chovia, e eu também.




quarta-feira, 16 de agosto de 2017

DESABAFO DE UM ZÉ

O Zé é um tipo irritado com a vida, um pai de família que trabalha muito, descansa pouco e nunca tem tempo para nada, que não seja o compromisso com seu patrão.
- Agora se chegar cinco minutos atrasados na empresa o funcionário vai receber advertência.- Como assim? O empregado está fodido, pois a reforma trabalhista está beneficiando mais ao patrão do que nunca.  reformas essas feitas as pressas, por uma corja de corruptos marginais, que nem a população tem noção do que realmente se trata. E eu tento me aposentar e não consigo, pois a 3 anos atras pedi uma contagem e faltavam 2 anos para isso, agora pedi nova contagem e faltam 1 ano e 3 meses. Ou o INSS não sabe fazer contas ou pensa que sou burro. A mulher do Zé nunca sabe se ri ou chora. - Como assim?! -Tu é descerebrada ou que mulher?  Zé se achava mesmo um miserável sem sorte, pois nem a esposa tinha pena dele. Ela até tinha, mas acabou por cansar.
As vezes ela também ficava triste e cansada, pois trabalhava em casa, fazia jornada dupla, cuidava dos filhos, etc, etc... O marido a muito tempo se auto elegeu a vítima da família, e não havia nada que ela ou qualquer um em casa fizesse para mudar a sua opinião a respeito. Portanto o Zé era mesmo um fodido.

Guerreira Xue




PENSAR E VIVER

Pare de pensar, e comece a viver
Porque o que quero nesse momento
É estar com você
Eu não sei explicar tamanho carinho
O que era ontem de repente morreu
Agora só existe nós dois aqui  nesse universo
O amanhã ainda sequer nasceu
Então deixe de fugir sozinho
De andar ao léo, disperso
Penso que eu não devia pensar, mas ainda penso
E estou a  cogitar
Pois apesar de tudo, a terra lá fora continua a girar
E ninguém liga se vivemos ou não
Portanto pare de chorar e me beija
Hoje o mundo já não tem salvação
E a esperança
É cada um que a leva no coração.

O tempo vai se esgotando...

Portanto pare de pensar e comece a viver
Antes que seja tarde, escute
O relógio da matriz anuncia a alvorada
E logo todos vão a igreja para rezar
Pedir o que não tem, se confessar
Eles estão perdidos, pois nunca entenderam nada
É chegado o fim da estrada e vamos desaparecer
Me dá a sua mão e confia
Porque se Deus existe, ele estará lá
Do contrário desapareceremos os dois, juntos.

Guerreira Xue




domingo, 30 de julho de 2017

LOUCOS COM ASAS

Não perguntes como cheguei
Só sei que cheguei e aqui estou
Mas eu não vim para ficar
Em seguida para o alto me vou
Porque os meus sonhos voam
E eles andam por todo lugar

Quem vive sabe
Mesmo que não possa compreender
Que no mundo é preciso sonhar
Ou não vale a pena viver
Somos os loucos com asas
Guerreira Xue










quinta-feira, 27 de julho de 2017

A DANÇA DA VIDA

Lembra de quando nos conhecemos, dizia a mulher embevecida, foi premeditado ou por acaso?
 O homem olhava para o teto; claro que lembro e mesmo que não lembrasse, você daria um jeito de me refrescar a memória. E ambos riram ...
E quando foi que ficamos tão bons companheiros? Deve ter sido quando você teve aquele câncer e teve que remover seu seio, ou quando tive aquele acidente vascular que levei mais de seis meses para recuperar meus movimentos plenos. 
Mas quase divorciamos, lembra? Se lembro, fiquei doido quando você me disse que não queria mais ficar casada comigo.  Pois, mas você estava tendo um caso com a sua secretária, e não me queria mais, então não havia razão para continuarmos. Sim e eu te contei na época queria experimentar e te deixei livre para isso também. E eu experimentei mesmo e nunca entendi se o fiz por vingança ou curiosidade... Sua franqueza comigo me deixou sem ação, pois se você tivesse encoberto eu ia me sentir enganada e ia mesmo te abandonar, mas você veio me contar e deixou-me livre para decidir. 
A maioria das mulheres apaixonadas tem uma visão da vida a dois muito surreal e quando cai no real puro e duro é um exercício mais complicado, e isso só prova que não sabemos nada, até vivermos nosso quinhão.
Natural querida, pois são duas pessoas que passam a dividir tudo, e muitos desses nem se conhecem direito. Não pense que os homens também não tem seu pré conceito disso também, e quando tem os pais ainda pensam; comigo e minha esposa será diferente, seremos muito mais felizes.
Mesmo estando juntos a tantas décadas ainda temos nossas diferenças; se temos, mas temos também um consenso, nos amamos e queremos estar juntos, como agora. 
A mulher levanta nua, põe uma música suave a tocar e o convida a dançar.

Guerreira Xue

     Pintura - A dança da vida, de Edvard Munch

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O QUE REALMENTE INQUIETA

O que realmente inquieta não é silêncio
E sim a falta de vontade de mudar
De não dizer o contrário, para não complicar
Como se o mundo fosse uma linha reta
Onde ninguém pensa fora do lugar
E quem pensa é pessoa indiscreta
Depois de tanto, os sentimentos sufocar

O que realmente inquieta não é o silêncio
É o medo de opinar, de falar alto
Não dizer o que sente, por temer
Que alguém escute e vá julgar
E julgando seja logo condenado
Sufocados pelos ricos e seus poderosos gritos
É que segue o mundo velho e tacanho a girar
E os covardes calados
Vão vivendo silenciosamente, na ponta do pés
Quase invisíveis, com medo de incomodar.
Guerreira xue





sábado, 22 de julho de 2017

GENTES COMO NÓS

Vivemos atualmente tempos difíceis resultantes das crises econômicas mundiais que vem sucessivamente assolando a sociedade vigente.
Eu diria que chegamos ao fundo do poço e que as mudanças se fazem urgentes.
A corrupção no Brasil tornou-se doença cronica, e não adianta partidos e ou ideais assumirem enquanto não mudarmos o estado das coisas.
A reformulação da política passa pela educação e a construção de uma sociedade mais igualitária com o todo. Não há sistema de governo perfeito, porque nós não somos perfeitos, não somos máquinas.
Ver as pessoas ao abandono nas ruas é uma coisa de cortar o coração, sim porque temos que ter um coração.  A maioria são drogados, e são de todas a idades, abandonados pela família que não os aguenta mais, são meninos e meninas que fugiram de casa, velhos que não tem para onde ir...
Os motivos são os mais variados para a condição de morar na rua, mas a carência é total. E eles são confundidos com lixos, mas são gentes como nós.
Quantas vezes nos perguntamos onde está a falha... Está em nós, é óbvio. Podemos ignorar quando não vemos, quando não sentimos. E quando vemos, sentimos e choramos, lamentamos, e depois...Vamos para casa mais leves, de volta para o nosso quentinho.
O prefeito quer uma cidade linda, e porque não!? Eu também quero, todos queremos uma cidade linda.
Não adianta dar-lhes cobertor e comida e deixa-los lá, no relento.  As ONGS  e as associações de bairro fazem isso tem muitas décadas. Isso é um paliativo, provisório. É preciso que busquemos novas alternativas e permanentes, pois são pessoas como nós.
Tanta coisa pode ser feita em prol de uma cidade linda, basta pensar e agir.
Acabar com as drogas ninguém vai... Diminuir até pode.
Tirar os moradores da rua até dá, se eles tiverem para onde ir, onde pegar comida, tomar banho, dormir... Ao descobrir que alguém se importa já faz uma pequena diferença, e se dois, três, dez se importam, já vamos um pouco mais além.
A união pelo social, quando franca, permite que quando um falhe o outro recomponha. O coletivo pode funcionar e todos ganham, e o prefeito certamente estaria reeleito nas próximas eleições  com o slogan "São Paulo cidade linda".

Se não houver salvação para os moradores de rua, não haverá salvação para nós.

Guerreira Xue



domingo, 16 de julho de 2017

ÁGUAS DO PENSAMENTO

Ao mergulhar nas águas do pensamento
Descubro agora, que eu não tenho paz
Não tenho pais e tampouco País
Eu que já me pensei um dia alguém
Continuo aqui, parada no mesmo lugar
Sozinha, triste e sem ninguém

Eu que um dia já fui patriota
Vi os jovens, que mal começavam a viver
Se perderem numa luta, que não era própria
Vi os velhos chorarem  pelas calçadas
E esses morriam, sem ter a quem recorrer

As crianças de olhos embaçados e mãos estendidas
Essas nem riam e nem choravam
Só esperavam, o que podiam do semelhante receber
E tantas vezes foram com o nada correspondidas
Crianças sem sonhos, sem presente e com fome de vida

Ao mergulhar nas águas do pensamento
Lembro agora de ti, a minha sobrevivência
Como se fora um segredo, uma poção
Do quanto serviu-me a tua provável existência
Porque dela eu fiz, sem pena, o meu alimento


Então sobrevivi na terra de ninguém
Sem paz, pais ou país.

Guerreira Xue




sábado, 1 de julho de 2017

MOÇO

Moço
Não insiste em olhar para trás
Pois tudo que você viveu até ontem
Agora já não existe mais
O teu pai, a mãe, os teus irmãos
E as mulheres da tua vida
Se foram também
Moço
Olha para sua frente
Algumas coisas, eu sei
Mudaram de verdade
Como as verdades
Essas também mudaram de lado
Está mesmo tudo muito diferente
Mas não importa nada
E não deixe que te doa a idade
Porque inda tens a mim
Guardada dentro de ti
Moço
Não chore pensando no passado
Sorria pensando no teu presente
Que sempre foi e serei eu.
Guerreira Xue

sábado, 24 de junho de 2017

MAMÃE EU SOU GAY

Otávio estava no trabalho, inspecionando uma obra lá para os lados do Catete quando no meio da reunião com os operários o celular toca; oi, desculpe não posso conversar agora, te ligo daqui a pouco. E o telefone tocou mais umas tantas vezes. Era sua ex esposa, e pelo jeito era muito importante, tanto que assim que acabou a  reunião Otávio retornou; que foi Julia, qual a emergência? A voz dela era angustiada; precisamos conversar urgentemente, é sobre nosso filho. pode ser hoje?
- Pode claro, jantamos juntos as 20:00. Beijos.
Julia era a segunda ex esposa de Otávio. Ela sempre fora muito séria e compenetrada, ambos tinha um filho, o Augusto que agora beirava aos 18 anos. Um menino calmo, tranquilo, estudioso e estava para cursar engenharia  na Universidade Federal. Otávio nunca tivera muito tempo para Augusto e a separação acabou por distancia-los ainda mais, e isso as vezes o incomodava um pouco. Agora não tinha ideia do que se passava, mas com certeza logo saberia.
Otávio fora criado no exterior por uma mãe adotiva e sempre tivera bom status econômico.Também tinha formação em engenharia civil ele tinha um bom cargo numa multinacional e uma vida confortável. Casou-se três vezes ... Com a primeira esposa nem chegou a ter filhos, com a Julia tinham Augusto e com a terceira, a atual, tinha um casal de gêmeos com cinco anos.
Ao jantar conversaram amenidades, e logo entraram no assunto, pois Julia estava muito ansiosa.
- O Augusto é gay Otávio - Otávio ficou mudo por instantes, como que a espera de mais; - E...
-  Como e... Você não entendeu o que eu disse? o nosso filho é gay!- tudo bem fique calma. Ele te disse ou você perguntou? - eu "peguei" ele no quarto com o colega Marcelo, e os dois estavam fazendo sexo na cama.
Otávio já recomposto contemporiza- olha querida deve ter sido um constrangimento para todos sim, mas ainda não o rotula como gay. - como não, se estavam fazendo sexo, e quando dois homens fazem sexo, são gays sabia? - Em primeiro lugar não são dois homens, são dois jovens de 17 anos. Em segundo lugar, pode ser só uma experiencia entre amigos. - Abre os ouvidos Otávio, o nosso filho é gay. Tivemos uma conversa hoje a tarde, e ele admitiu. Disse que ambos namoram tem 3 anos e se gostam muito e que vão morar juntos quando forem para a universidade.
Otávio pensava em como perdeu a intimidade com o filho com a separação, alias antes dela não tinha tempo também. "que merda". - Tudo bem fique calma - calma o que, Augusto é meu único filho, eu não terei netos e ainda terei de encarar as minhas amigas, quando souberem que meu filho é uma bichinha afrescalhada. Que vergonha!
-Estou muito surpreso com isso que acabas de dizer. Você sempre enchia a boca para dizer que não tinha preconceitos, e era liberal democrata e agora dizes essas asneiras todas! O que você quer afinal, se era me contar que Augusto é gay, agora já me contou, e o que vamos fazer? Nada. Estas surpresa, tudo bem eu também estou, mas pronto. Preste atenção Julia, ser gay não é uma doença contagiosa ou terminal. Ser gay é uma preferencia sexual pessoal e intransferível. Não venha com ideias de que não terás netos, pois os gays em geral tem filhos, e Augusto só não os terá se não quiser, e isso também é outra opção pessoal. O Augusto é nosso filho querida e queremos o melhor para ele, ou não?
A seguir ele percebe o quanto foi rude com Julia, pois ela tremia de nervosa e estava realmente apavorada e prossegue; - desculpe, fui pego totalmente de surpresa, tanto com a noticia como com a sua reação. E te peço encarecidamente que você não crucifique o nosso filho por causa disso. Repito, a opção sexual é dele, assim como a  minha foi e como a sua foi. - Ahhhh mas nós somos normais Otávio - Tome sentido no que estas dizendo agora, pois você é a mãe dele... É melhor você descansar agora Julia, refrescar as ideias, falamo-nos depois mais.
Otávio se despede e vai para casa pensando; "eita mundo doido. As pessoas dizem o que não são, só para serem aceitas socialmente, e quando são o que dizem são apedrejadas até pela família.

Guerreira Xue








sexta-feira, 9 de junho de 2017

ELES VIERAM DE LONGE

Eles vieram de longe... E agora Não tinham mais como voltar Navegando em busca da esperança Ao encontro de um novo lar Eram muitas as vezes Que chorando olhavam para trás E um pensava na mãe Que perdera na infância Sim Porque até negro foi um dia criança Eles que separados pela distancia Pensavam nos irmãos Nas tardes de banhos no rio Na casa da avó No rancho beira chão Levados pela sobrevivência Atravessaram mares e oceanos Quando finalmente aportaram Era uma nova querência E ali findariam seus anos Tinha um senhor para servir No lugar que não havia guerra Para tanto o que se trabalhar Eles eram pobres negros, órfãos E não lhes cabia o direito à terra E ao chegar as noites de inverno Como que para aliviar seus fardos A dureza do inferno Punham-se os negros a dançar Lembrando da mãe África Daqueles dias ensolarados Em seus destinos haviam uma certeza Nunca mais retornariam além mar Aos negros restava a escravidão E aos brancos Ficou o trono da realeza E da senzala o ouvia-se os gritos Ora de cantoria, ora de tristeza Eles vieram de longe E agora Não tinham mais como voltar...
Guerreira Xue


quarta-feira, 24 de maio de 2017

ESSA É A MINHA ALDEIA

A paz que carrego dentro mim é um produto da minha imaginação que venho realizando com relativa facilidade até agora. É um reflexo daquilo que desejo aos demais, e o afeto que demonstro para com aqueles com quem convivo é alimentado diariamente por mim, e incentivado pelas reciprocidades. Essa é a minha aldeia, um lugar intocável, onde tentamos nos ajudar e compreender uns aos outros, com alguma solidariedade. Mas existe o resto do mundo também, e ele não consegue caber todo dentro de mim. Ou consegue?

Assistindo pela televisão os atentados terroristas, as chacinas, as pessoas morando nas ruas, a guerra. Confesso-me triste, e me vem a cabeça tanta coisa. Será mais fácil odiar, e ter medo?
É urgente entender as razões do que se passa para uma reconstrução de nossa própria espécie, isso se quisermos salva-la do monstro que se apossou da humanidade do ser.
A palavra tristeza virou clichê e o sentimento gastou, é natural, pois como as estações,os humanos também são sazonais.

Ontem vi os drogados da cracolândia, recém desmantelada a feira da droga, andando a esmo pelas ruas da cidade, e esses me lembravam os zumbis dos filmes. Pensei logo nos meus próprios filhos criados com conforto e segurança. Lembrei que em casa não faltaram brigas e nem reconciliações, nem comida e cama quente. Não faltaram cobranças e recompensas, e principalmente, não faltava a compreensão e beijos e abraços.
O que foi que faltou para esses coitados viciados, por que perderam a consciência, ou foi eu que perdi e não há mais salvação?
O amor, assim como o ódio, é ensinado com exemplos e nada como um dia após o outro para construir os sentimentos. As palavras até ajudam, mas são os atos que corroboram a veracidade delas.

Maior bem do homem, é ele mesmo. Não devia negocia-lo por trocados, ou escravizar-se em prol de coisas.
Nunca é tarde, até que seja. Mais aldeias de paz, por favor!

Guerreira Xue




terça-feira, 23 de maio de 2017

SE...

Se...
A corrupção não fosse generalizada
Não haveria fome no mundo
Nem as guerras
Ou crianças abandonadas


Os cientistas viajam para a lua
Grandes países enriquecem
Muitas pessoas moram na rua
E o comercio da moda
São as armas

Se...
Se não houvesse corrupção generalizada
A sociedade não se dividia  por classes
Nem se faria os muros
Criando as fronteiras do separatismo

E ninguém morria na fila de espera
E o remédio era de graça
Os idosos seriam mais cuidados
E as crianças brincavam nas praças

Se...
Os pais ensinassem o amor e o respeito
Ou as escolas aplicassem o conhecimento
Sem distinção
Todos saberiam qual era seu direito
Então seriamos uma grande nação

Se a corrupção não fosse generalizada
O mundo seria mais humano
E ser feliz bastava um nada.

Guerreira Xue/Hilda Milk

sábado, 13 de maio de 2017

MALDIÇÃO DICOTÔMICA

Na simbologia das coisas
A vida parece um raio
E a morte assemelha ao chão

O tempo representamos nós
Flutuantes
Porque sem ele não existimos
Sustentados pelo pão

E seguimos adiante
Remando pelo mar do infinito
E aquele que vê além do horizonte
Percebe o quanto é azul
E bonito

Se não fosse os gritos da guerra
Os murmúrios da fome
As lágrimas inundadas das mães
Seria um paraíso a terra

E as bombas atômicas
Continuam explodindo a eira
O ciclo tornou-se interminável
Uma constância que se repete

Uma maldição dicotômica

Na simbologia das coisas
A vida parece um raio
E a morte assemelha ao chão.

Guerreira Xue






quinta-feira, 11 de maio de 2017

LIVROS, O QUE LER E PORQUE DE LER...

Num apanhado geral, eu gosto de ler de tudo, desde que tal escrita faça algum sentido. O tema que menos me atrai é o terror. Sou uma aficionada da História, porque nela percebe-se todo o comportamento humano, o avanço político e econômico, a estagnação ou o retrocesso de nossa espécie. Admira-me muito capacidade que o ser humano tem para destruir a si mesmo e a seguir tornar a reconstruir-se.

Um dos escritores que mais me impressiona, pela riqueza da descrição da História, na atualidade, é o José Saramago. Gosto de toda a sua obra, mas ele realmente me cativou foi com “O Memorial Do Convento” porque no livro o autor retrata a miséria de seu país com uma precisão espetacular. O autor ambienta o romance entre Blimunda que ao ver a mãe ser queimada viva, é quando se conhecem, e o maneta Baltazar, um ex combatente do exército português. A partir disso a história intercala entre a construção do convento de Mafra, a miséria do povo, a da bastança do rei, e os sonhos do casal.

O único autor que que fez isso, com igual genialidade, foi Vitor Hugo em Os Miseráveis, que retratava com perfeição a vivencia da miséria em França nos idos de 1800, em pleno período de Bonaparte. O autor foi um ferrenho na crítica da sociedade Francesa e seu livro é a prova viva desse fato, pois denúncia todos os tipos de injustiça humana, narrando a emocionante história de Jean Valjean - o homem que, por ter roubado um pão, é condenado a dezenove anos de prisão.

Saramago no entanto, difere de Vitor Hugo no fato de que o segundo autor retratou o seu tempo atual, e o primeiro retrata a sociedade portuguesa de quase 200 anos antes “dele” nascer.
Vitor Hugo e José Saramago são escritores de época e culturas diferentes, marcantes, contundentes e humanistas.

Guerreira Xue

sábado, 6 de maio de 2017

SÓ O TEMPO

Só o tempo pode dizer
Todos os  mistérios que nos envolvem
Foram muito os caminhos que percorri
E sabes que não acredito em milagres
Só naqueles que eu mesmo consenti

Talvez dessa vez eu me permita
Mas é só o tempo que pode dizer
Somos reflexos do que projetamos
Na incansável busca do bem viver
Do amor que não tivemos
Da partilha do bem querer

Só o tempo...
Meu bem querer.

Guerreira Xue








terça-feira, 2 de maio de 2017

RETRATOS DA VIDA

Em boa parte da vida, não conseguimos entender o nosso verdadeiro propósito nela. Há quem diga que somos passageiros, outros já afirmam que temos uma missão na terra.

Nasci numa boa família que morava no interior e tínhamos o suficiente para comer, vestir, e calçar.
Eramos cinco e parecia tudo bem até que... Quando ainda eramos crianças a mamãe foi embora de casa, e ela talvez não soubesse mas levou um pedaço da nossa vida com ela.
O papai que não era bobo nem nada arrumou-se logo com outra moça, afinal como ia dar conta de cuidar tantos filhos e trabalhar.  O que não sabíamos era que ele já tinha outra família e o que fez  foi só  traze-la e juntar os rebentos todos numa casa só.
A partir disso ficamos com tantos traumas, que esquecemos de ser crianças, marcados pelo abandono de uma mãe e o desleixo de um pai que permitia que a maluca da nova esposa nos espancasse até ficarmos em carne viva.
Não raras vezes me perguntava muitas coisas e nunca encontrei qualquer resposta convincente, para certos comportamentos de ódio. A raiva era sentida de tal maneira que parecia respirar sobre nossas cabeças.
Meu pai morreu logo, e foi um alivio ver aquela madrasta sair de nossas vidas, e a única pena que eu tinha é de ver que os filhos legítimos dela não teriam essa sorte. E tivemos todos que nos separar, porque o avô materno não teria como nos sustentar. Fomos cada um para um canto qualquer, onde alguém generoso estava disposto a nos adotar.
Acho que os meus irmãos nunca superaram a infância triste, pois eram homens feitos e ainda choravam ao relembrar.
Era uma época diferente e uma "separada" era desconsiderada pela sociedade local. Mas mamãe estava bem, ela estava sempre bem. Na verdade eram seus filhos que sentiam-se humilhados e discriminados pela vizinhança.
Quando voltamos a rever mamãe novamente, conhecemos mais dois irmãos e o marido novo.
Quanto a mim! Fui revoltado também, e chorava muito, pois me sentia uma pária na família, sentia raiva de minha mãe por nos abandonar, raiva do meu pai por morrer, e da madrasta por nos maltratar.
Demorei a compreender, mas cheguei a conclusão que tanto faz, como tanto fez, por isso não choro mais por causa da infância.
Somos passageiros então, e mesmo que, alguém ou ninguém, se importem conosco ainda temos uma vida para passar. Da tal missão ainda não entendi, talvez seja o fato de que ao morrer viramos todos adubo para fertilizar a terra,


Guerreira Xue



sábado, 29 de abril de 2017

A MONTANHA TEM FEITIÇO

É no alto da grande montanha
Que a velha  encarquilhada pelos anos
Mirando firme no horizonte
Se poe a meditar

Bem ali, onde o vento sopra mais forte
É que suas lembranças afloram
sem hesitar
Abuelita que há muito tempo é surda
E afirma com um sorriso no olhar
Que escuta a música do vento
Para ela assoviar
E ela diz que o som é familiar
A faz recordar, sentir alento

Eu sei e todos sabem
Que o tempo não vai voltar
Mas abuela
Ela diz que escuta tudo
As crianças passarem correndo
Lá embaixo em alvoroço a brincar
Ouve o chiado da chaleira anunciando
Com seu borbulhar

E num lampejo de felicidade
Vejo eu aquele rosto enrrugado
se iluminar
Essa montanha tem feitiço grande
Que faz a minha velha retroceder no tempo
E no passado querer ficar

O sol já está longe, temos que voltar
E a hora se faz bem adiantada
Quando nós dois, solitários
Descemos da grande montanha
Porque a avó só volta com a promessa
Que no dia seguinte iremos retornar.

Guerreira Xue




segunda-feira, 24 de abril de 2017

FLORES NA JANELA

Percebo as flores na janela
Depois de um longo inverno
Já anseiam pela primavera
E elas, as minha flores
Valentemente se repetem
Ano após ano
No mesmo interminável ciclo
Como eu
E aquele reflexo da luz no vidro
As faz pensarem que não estão só
E que o mundo lá fora floresce
Espalhando seu cheiro de polem
Concordo com elas em não desistir
O inverno foi bom
Também eu penso que não estou só
E o que vem com a primavera é ainda melhor
Porque as minhas flores na janela
Que antes muito tímidas
Alegremente estão a renascer
Como eu

Guerreira Xue






quarta-feira, 19 de abril de 2017

O PRIMEIRO BEIJO

Sonhei que te beijava de um jeito especial
diferente
E nosso beijo tinha um gosto de saudade 
uma angustia fremente

E tinha muita força o nosso abraço
Tanta que atravessou o tempo
e o espaço

Eu sonhei que te beijava
E não era um simples beijo

Porque no sonho você me chamava
Com a delicadeza de uma brisa
Sussurravas o quanto me amava

E com alma carregada de desejo
Damos enfim, no sonho
O nosso primeiro beijo.

Guerreira Xue/Hilda Milk

sábado, 15 de abril de 2017

SENTIMENTOS INEXPLICÁVEIS

Existem sentimentos inexplicáveis de convívio entre duas pessoas, que por mais que tentemos definir, ainda fica alguma coisa lá, grudada no intimo.
Paula não gosta muito de gente, diz que são difíceis de se lidar ou interagir, acho que é por isso ela tem a casa cheia de cães e gatos. O mais interessante é como ela conhece cada um pelo temperamento. E vive toda arranhada... Segundo ela os animais, de longe, mais autênticos que as pessoas.
Anita é a irmã de Paula, e visita-lhe uma vez por semana para ajudar na limpeza semanal do animais. Banhos, tosas e cortação de unhas.

_Precisamos de mais algum para nos ajudar aqui Paulinha. Não damos conta , pois a cada semana você tem mais um bichano, desse jeito vamos morrer enterradas em tanto pelo. _ Mas eu só tenho uma irmã!_respondeu a outra_ O que você sugere? _ Sei lá, só sei que fico muito cansada de passarmos o dia todo aqui, nem almoçamos, nem saímos para um cinema, e amanhã é domingo e ficamos mais exaustas que não sei que. É muito filho Paula, e cada vez você tem mais. Já ouviste falara em controle da natalidade? Ahahaahahah... _ Eu fico com pena de vê-los abandonados, olhe para eles, são tão indefesos.
_São sim querida _ diz a irmã comovida. Paula era uma daquelas criaturas que via o mundo dos bichos com afeto e não deixava nenhum passar a noite ao relento. Andava preocupada com a irmã, pois essa estava muito abatida e para ficar doente, isso era um pulo.
 _Na segunda feira vou te arrumar arrumar um ajudante. _ Veja lá isso hein! Você sabe que sou chata com gente, e os bichos também não gostam de qualquer um. _ Sei, deixe comigo.

Na semana seguinte, quando Anita chegou para a limpeza, qual não foi a surpresa quando depara com cheiro de café pela casa, mesa arrumada, casa limpa e os cães já prontos para começar a tosa.
Paula estava com a aparência descansada  e conversava tranquilamente com o seu novo ajudante.
_Bom dia Paula e Julho. Vejo que se entenderam perfeitamente bem. Disse sorrindo.
Paula estava calada como sempre, mas dessa vez era diferente. Encontrara alguém que apreciava os animais tanto quanto ela.

Guerreira Xue





























        Amapaense torna-se cuidadora de animais enquanto luta contra um câncer (Foto: Fabiana Figueiredo/G1)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

APENAS GENTE

_Oi mãe, cheguei! _Oi filho, mais cedo que o previsto, como foi a festa?
_Ai mãe foi uma chatice, o pessoal bebeu até vomitar, algumas meninas desmaiaram. Em principio achei engraçado vê-los cambaleantes e dizendo besteiras, mas logo percebi que alguns estavam muito mal, e fiquei assustado mesmo. A seguir foi um tal de dar água para um e refrigerante para outro. _Mas não havia nenhum adulto presente? _Nada, era uma casa alugada para a festa e a certa altura até a porta da entrada estava no chão, e era uma porta de ferro enorme. Eramos poucos os sóbrios e então acabamos por bancar babás do bebedores.
Foi chocante ver alguns colegas se esfregando nas meninas, também bêbadas, se prevalecendo da situação, deu vontade de ir lá e tirar, mandar sair. Muito triste mãe. Dei um tempo e vim embora logo.

 A mãe ficou olhando para o filho com pena. Ele está crescendo tão rápido. _ não havia mais o que ela fizesse para impedir que o filho encare essa faceta do mundo.
- Eu provei bebida mãe, mas não se preocupe que eu detestei. Fiquei chateado e decepcionado por perceber que a maioria acha que tem que beber para divertir-se, e não é nada divertido vê-los perder o controle. Qual é a graça em beber até cair, ou desmaiar?  Amanhã nem se lembram do que houve hoje. Boa merda isso sim. Tratam as meninas como se fossem objetos, e ainda se acham os tais. Tinha um que me dizia, já muito bêbado; queria pegar aquela mina que estava muito a fim, mas deu "pt" meu. Ela tinha desmaiado.

-Ah filho, que pena! Acho difícil te dizer qualquer coisa nesse momento. Todos temos que fazer nossas opções e isso acontece quase sem querer, mas presta atenção ao que voce faz ou diz. Porque sempre vai refletir em você mesmo. Esses garotos estão seguindo exemplos fortes e comuns, inclusive a falta de respeito para com as meninas. São produtos de uma sociedade jurássica e machista. Queria poder te dizer que o que aconteceu hoje na festinha de seu colega foi exceção, mas não é. Infelizmente.

A mulher e o homem tem direitos iguais, então a falta de juízo pode ser equiparada. Não penso que tudo é culpa dos pais  porque  há o livre arbítrio, a própria vontade. Não penso que tudo é culpa do homem, salvo quando é um cretino que subjuga alguém indefeso, ou estritamente culpa da mulher, porque se preservar é obrigação de todo ser humano.
Até que ponto o machismo é estritamente masculino? Afinal são elas que criam eles, e talvez por causa disso o sexismo vem sendo alimentado com tanto vigor nos tempos atuais. Chega de ser homem ou mulher então. Que tal sermos apenas gente!?

Guerreira Xue





domingo, 9 de abril de 2017

PARA ONDE FORAM TODOS?

Ao abrir os olhos, eu olhei para o lado e não vi  ninguém, e me vi deitada na cama, num quarto que me era totalmente estranho. Ainda confusa chamei pelo meu pai e logo a porta se abriu e dela surgiu um garoto que disse; voce está bem vovó? Não respondi de puro espanto. A seguir entrou um jovem alto que reconheci de imediato; papai o que houve, por que estou aqui, eu fiquei doente?
Ele aproximou-se e delicadamente disse; eu sou o Paulo e sou seu filho mamãe. Voce caiu da escada ontem a noite por isso está na cama, mas está tudo bem agora; ao contemplar o garotinho nervoso eu lembrei, era o Daniel que muito assustado não entendia o que se passava; como voce se parece com meu pai, e que sensação estranha meu filho. Por um momento, eu pensei ainda estar na casa de meu pai; deve ter sido da queda mamãe, ao cair você além de desmaiar, quebrou duas costelas e segundo o doutor terá de ficar em repouso por alguns dias. Essa confusão deve ser resultante do choque e da medicação forte, afinal foi um tombo e tanto. Sente-se melhor agora? Sim obrigada.
Passou os dias e eu ainda me via num emaranhado de lembranças entre o passado e o presente. Eu estava me esquecendo da adulta que eu era, e me sentia uma criança totalmente desorientada. Foi quando o medico diagnosticou "Alzheimer". Essa palavra caiu como um raio na cabeça de todos, uma vez que pouco sabíamos da doença. E foi preciso tempo para absorver toda a informação e entender que não há cura essa doença, e sim um  tratamento no sentido de suavizar a coisa toda.
 Desde então tenho tratado de maneira a retardar o avanço da dita e um melhor controle dos sintomas. Não tem sido fácil é verdade, mas procuro manter a calma e vivo um dia de cada vez com alegria e gratidão.
 Para onde foram todos? Ao que meu filho mesmo impotente, me responde; estamos aqui mamãe, e sempre estaremos. Assim são os meus lapsos, apagões que vão levando consigo as minhas memórias. E enquanto estou lúcida vou escrevendo, e fotografando a minha vida, a minha família e tudo que possa me reportar a mim própria.
Que seja infinito enquanto dure.

Guerreira Xue/Hilda Milk







O DESTINO

Por razões alheias a nossa vontade, a vida como ela é nos faz dar imensas voltas, até chegarmos ao mesmo ponto de partida. A frustração se dá pelo fato de não compreender a oportunidade que temos de fazer diferente, porque só assim poderemos seguir adiante.
Munir estava derrotado, pois perdera a casa, a esposa e todo o dinheiro da família e nesse momento, como todo o derrotado, se encontrava só.
Recomeçar do zero! Não, recomeçar somente, mas primeiro haveria o homem que amargar os fracassos, sofrer as dores das perdas morais e materiais. Não acredite que alguém saia impune dessa vida, porque não é verdade. E para tudo há um preço, portanto presta atenção com a razão, e com o coração.
A felicidade de cada um em geral é aquilo que mais satisfaz, um critério feito seja pela falta ou pela fartura que o sujeito teve em sua trajetória.
O Munir sofreu e sofreu. Tinha sido rico, e agora não mais.
Os anos passaram e "Ele" superou as perdas do dinheiro e da esposa. Os filhos cresceram, e se lembravam dos tempos de bastança não diziam nada, porque amavam o pai, e o amor tem um outro valor, pois é algo que o dinheiro não compra. E cada um vai trilhando seu destino.
Hoje o Munir está lá no ponto da partida novamente, e com coração acelerado começa a sussurrar; dessa vez será diferente.

Guerreira Xue/ Hilda Milk


sábado, 8 de abril de 2017

A CARTA

Hoje pensei em te escrever, e ao pensar já estou transcrevendo. É difícil encontrar as palavras para manifestar meus sentimentos para com você. As vezes penso em correr e bater na sua porta, só para perguntar como vai você, ou simplesmente dizer olá, como foi seu dia?
Ensaio muito qualquer princípio de diálogo entre nós dois, mas o fato é que me falta coragem. Acho que não tenho grande remédio para isso, devo ser daquelas que passam a vida de amores platônicos e a distância.
O meu gato morreu e eu fiquei muito triste, e quando nos vimos na semana passada voce me perguntou porque eu estava abatida, lembra? Depois de te contar o sucedido, voce me disse palavras gentis, e fiquei tão leve, tanto que passei o resto do dia com a sensação de conforto na alma.
  Eu sei tudo sobre voce. Sei o que voce come, porque sou eu que cozinho para voce. Sei o que veste porque sou quem lava e passa as suas roupas. Sou eu quem limpa a sua casa, engraxo seus sapatos, e por que? Eu sou a sua diarista meu amor.
Ao mesmo tempo que transcrevo essa mensagem, já penso logo em rasgar a missiva e jogar no lixo. Pode me chamar de covarde, talvez até eu seja, mas o que não quero é perder voce totalmente. Por que? Simples as faxineiras podem até criar doutores, mas elas não namoram com eles.

Guerreira Xue






JÁ É MADRUGADA

Aqui já é agora
Madrugada
E o sono que não chega
Escuto longe o galo cantar
Prenunciando
Mais uma alvorada
Avisando
Que é hora de levantar

Aqui já é madrugada
O sol desponta
Prestes a nascer
E ela
Ainda dorme sossegada
Nessa cena de enternecer
Imagino eu
Olhar a minha amada

Agora
Já não é madrugada
E a vida segue
Correndo de estarrecer
Selo a promessa com um beijo
Em minha distante amada
Porque retorno a ti
No momento que entardecer

Guerreira Xue/Hilda Milk









sexta-feira, 7 de abril de 2017

BONS TEMPOS AQUELES! - por Sonia Regina Potenza G. Pinheiro

       Quando escrevo sobre um tema, centenas de experiências agradáveis e desagradáveis passam pela minha mente.
A bola da vez é o apoio dos pais na vida escolar de seus filhos ou a falta dele. Vou mais além, o apoio dos pais nas decisões da escola e dos professores, sejam elas de acordo com suas ideias ou não.
Nós professores somos seres humanos e como tal erramos e muito. Em tempos não tão antigos, uma professora era uma figura ilustrada e estivesse certa ou errada em atitudes e decisões, os pais dos alunos estavam sempre dispostos a dizer amém a tudo o que derivasse de suas práticas. Fosse o que fosse.
Ontem recebi Dona Lucimara. Estava possessa! Veio reclamar que a professora havia gritado com sua filha. ” Onde já se viu? ”.  Dizia ela. “Minha filha não foi criada com gritos”.
Foi preciso muito diálogo, um rosário inteiro de desculpas, conversas com a professora, esclarecimentos mil, enfim, um ritual enorme para que ela fosse para casa, de braços dados com a filha, um pouquinho mais calma. Ao passar pelo portão da escola alguém ainda ouviu-a dizer que se isso se repetisse iria à Secretaria da Educação!
Bons tempos aqueles lá para as bandas do Grajaú muitos anos atrás. Uma colega, a Fátima, cometeu uma barbaridade. Ela tinha um aluno terrível, daqueles que conseguem tirar qualquer cristão do sério. Era uma terceira série e o dito cujo tinha uns nove anos. Todos os dias, na hora da merenda, o danado do Genilson corria fugindo da fila para ser o primeiro a comer. Todo dia ela ameaçava: ”. Não quero que saia da fila. Espere sua vez”. Mas qual! Ele era incorrigível.
Não deu outra, num belo dia o Genilson saiu correndo e foi se postar encostado na cozinha lambendo os beiços. A professora, de forma errada, pediu à merendeira um prato da sopa e disse para o garoto: ”. Você está com pressa de novo. Hoje eu vou te dar na boca”.
Porém na primeira colherada, estando a sopa muito quente, o Genilson saiu gritando com a mão na boca e pulou o muro da escola. Sumiu!
A professora ficou muito apreensiva! Arrependeu-se no ato. Enquanto pensava como iria fazer para ir atrás do menino, viu entre os pilares do muro uma senhora gorda com um porrete numa mão e o Genilson na outra vindo em direção da escola.
Não teve dúvidas. Trancou-se no banheiro e pediu à uma servente que tomasse conta de sua fila.
Minutos depois uma funcionária bateu na porta do banheiro dizendo que havia uma mãe querendo falar com ela. Fátima já havia rezado bem umas dez ave-marias e prometido jamais perder a calma com qualquer aluno que fosse.
Ela se demorou mais tempo ainda rezando para que a mãe desistisse e fosse embora. Que nada! Desistiu de fugir. “Vou enfrentar, pensou ela. ” Se eu apanhar será merecido! ”
Saiu do banheiro trêmula.
A mãe do Genilson balançava o porrete no ar com força. Parou ao ver a professora. Olhou-a bem nos olhos e disse:
“A senhora está vendo este porrete aqui? “Pois bem Eu trouxe pra senhora lascar na cabeça do Genilson se ele te desobedecer de novo! ”
Bons tempos aqueles!


Sonia Regina Potenza Guimarães Pinheiro
Nasceu em São Paulo, na capital.
Fez seus estudos no ensino fundamental e médio em escola pública.
Formada em Língua e Literatura Inglesa pela PUC São Paulo
Mestre e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC São Paulo
Professora aposentada pela Prefeitura Municipal de São Paulo
Diretora de escola particular de ensino infantil ao médio.
Apaixonada por idiomas, esportes e livros.
https://www.facebook.com/sonia.r.pinheiro.3?fref=ts



segunda-feira, 27 de março de 2017

AS DIVORCIADAS2

Nem todo os casais tem um divórcio amigável ,ou litigioso. Há quem diga que a separação deva ser uma atitude madura e consciente, ou seja, não deve ser tomada no calor de uma discussão. Mas relações conturbadas em geral, tem poucos os momentos de de diálogo pacífico.

Ana Q.
Eu me casei jovem e pela razão que gostava muito do meu namorado, e porque logo fiquei grávida também ,e porque queria muito ter uma família.
As vezes pensamos que o amor basta para solucionar todas as nossas carências, e que o companheiro será o amante amigo para todas as horas, e que ao constituir família seremos imediatamente promovidos a adultos e sensatos. O engano está em não prever as carências do outro.
Como alguém pode amar quando sequer conhece o senso do respeito?
A frustração do meu marido era tão evidente que logo ficou muito clara para mim. Nós casamos em um ano, de namoro e noivado, e o primeiro filho veio e a seguir, depois de 3 anos de casados, o segundo.
Fomos adaptando aqui e ali e então o centro de nossas atenções eram os filhos. Passamos por muitas fases, e nessa época específica ele me ligava todos os dias, isso porque em casa era um mutismo só, para perguntar dos filhos. Se tomaram café, se foram a escola, se estavam em casa, fizeram a lição, etc etc...
Eu fui me tornando uma paisagem sem vontade própria. Eu tentava conversar sobre algo diferente, outros assuntos mas em geral acabava por esbarrar em diferenças de opinião, o que dificultava mais a relação, mas então o assunto morria e voltávamos ao mesmo.

Ele vivia cansado, trabalhava demais, era bom demais, etc, etc...Vivemos por décadas juntos, e só desisti quando percebi que não conseguia mais ajudar. Eu nunca o faria feliz, alias, nem eu era feliz.

Muitas eram as vezes que eu chorava, me sentia uma inútil por tudo. E as palavras ásperas eram trocadas sem a menor cerimonia. Eramos pobres e tínhamos que estar juntos para ajudar os filhos a crescerem, e continuamos. Ele se comportava como vítima o tempo todo, então era eu a culpada de tudo. E sentia-me culpada por ele dizer que eu era. Então fui me recolhendo, me refugiando em pequenas porções de alegria. Um dia o meu marido percebeu que eu andava contente, e sentiu-se ultrajado por tal constatação. Como eu podia ser feliz se nem sequer saia de casa, se ele não estava?
Lembro da primeira vez que pedi-lhe o divórcio. Telefonei e disse simplesmente. Ele ficou estarrecido. De noite ao chegar em casa queria conversar... Agora queria conversar! E conversamos... Me disse que desse-lhe uma oportunidade, que ia mudar. Aquilo me deu uma esperança. Que boba! A mudança durou 15 dias, e o que veio a seguir foram mais acusações.
O divórcio propriamente dito era uma realidade que não queríamos admitir e a iniciativa de oficializar a separação partiu de mim portanto, eu continuo a culpada.
O ser humano é construído paulatinamente por uma história que vem sendo escrita na sua própria carne, desde o nascimento.
Guerreira Xue



terça-feira, 21 de março de 2017

AS DIVORCIADAS1

Nas questões de divórcio sempre há uma forte justificativa, porque do contrário o divórcio não aconteceria. Na maioria das vezes o amor já foi para o buraco faz tempo e o casal ainda tenta manter uma certa estabilidade, porque vai saber... Isso de repente pode melhorar. Ou piorar

O fantasma da separação atormenta pela razão que o casamento acontece para constituir uma família sólida, onde um pode sempre contar com o outro...Na alegria e na tristeza, até que...

Esta, vem a propósito de restaurantes e divórcio.

Izabela M 

Eu sou a protagonista e sinceramente não acho que seja um episódio que me favoreça, mesmo assim, se desse para voltar atrás faria tudo igual.

Deixei o marido pois com ele estava no inferno e entretanto também deixei o emprego, que por sinal gostava muito. Foram uns bons anos como telefonista recepcionista num hotel, mas com o horário das 16h à meia noite andava em contra-mão com a minha filhota de 5 aninhos. Precisava de estar mais tempo com ela e para isso tinha que ter outro horário.

Deixei o hotel, sem saber para onde iria trabalhar. Passados 15 dias surgiu um convite para ir trabalhar para um café/restaurante que era novo na zona. Um espaço enorme, com várias salas e uma grande esplanada.
Que loucura! Eu nunca tinha trabalhado num café e aquele estava sempre a abarrotar de gente, por ser novidade. Mas correu tudo bem, pois o nosso contrato foi apenas enquanto eu não arranjava outro emprego e assim ajudava na época alta, pois era verão.
Bom, fiquei então no balcão do café, com as mesas e esplanada.

Foi em setembro e estava um calor de rachar. Ele apareceu na esplanada, com um amigo que por acaso eu também conhecia. E lá estava ele sentado, com aquele ar fanfarrão, como se estivesse na própria casa sentado no sofá. Era o meu ex-marido e na altura o divórcio ainda decorria em litígio. E o que fazia ali aquela alma?! Escondi-me atrás do balcão do café e toda a gente, incluindo os patrões o queriam ir atender. Toda a gente menos eu!
Isto porque toda a gente nos conhecia.
Levantei-me, pego na bandeja (esta poderia ser-me útil), e lá vou eu. Não sou de fugir!
Caramba! Toda a gente olhava de lado para não perderem a cena. E lá dentro do café, nem precisavam olhar de lado, pois era como se estivessem no camarote.
Bolas este tipo podia poupar-me desta cena desagradável e ainda por cima o tempo parecia que tinha parado. Tudo andava em câmera lenta.
-Boa tarde! E o que vai ser?- pergunto eu.
-Duas imperiais, responde o amigo.
Bem, até aqui correu tudo bem e lá vou eu buscar as ditas imperiais, que são nada mais que cerveja, servida habitualmente em copos altos e finos.
Para o amigo, servi a tal imperial bem fresca. Para o ex, foi num copo igual, mas que estava em cima da máquina do café. Ora o copo, estava bem quente!
O amigo bebeu. O dito até tocou o copo, mas deixou ficar e não bebeu.
Isto não foi nada de mais. Ele tinha merecido ser um daqueles que morre envenenado. Credo e eu estragava a minha vida.

Quando pensamos que acabou, a vida traz outras possibilidades.
Guerreira Xue



domingo, 19 de março de 2017

AS DIVORCIADAS

Ela são amigas que se encontram para o chá da tarde, ou para happy hour. Os assuntos variam bastantes uma vez que a maioria são trabalhadoras, mães, filhas, e irmãs e são de todas as idades imagináveis. O que elas tem em comum? São todas divorciadas.

Bárbara era uma mulher que pouco saia de casa. Ela tinha estado casada por mais 30 anos e agora, estava divorciada. E de repente se viu jogada no mundo novamente como se estivesse acabado de nascer. Ah, de nascer era exagero dizer, mas ela estava bem confusa. Sentia-se "passada" de idade,
Se inserir no mercado de trabalho, buscar uma vida social que não se restrinja somente a família, pois agora era solteira ou divorciada, que seja.
Ser divorciada na verdade, não é ser solteira... É ser divorciada e é para essas corajosas que recomeçam a vida depois de um casamento que dedico esse livro.

Bárbara então teve uma ideia de reunir um grupo de mulheres que eram divorciadas e que tinham as mesmas dificuldades que ela para retomar a vida de um ponto meio indefinido, porque desde então ela só tinha vivido para a casa, o marido e os filhos. Parece estranho? Não, porque com os salários na atual conjuntura não comporta uma despesas com babás ou cuidadora.  Seria mais fácil ficar em casa choramingando, ou em autocomiseração? Não sei dizer porque não escolhi isso.

Ao perceber a história da mulher no contexto social, percebo que a união pode trazer algum benefício. E é por isso que a partir daqui começamos a trajetória da mulher atual.

Guerreira Xue



  

quinta-feira, 16 de março de 2017

A PARTEIRA por Adenildo Lima


CONFUSÃO

CAÇADORES DA COLHEITA por Anne Lieri

Conheci recentemente o trabalho de Anne Lieri e foi por acaso, conversando com um amiga. Ela percebendo minha curiosidade, emprestou-me prontamente o livro "Caçadores da Colheita".
A autora trás em sua obra uma forte influencia de Agatha Christie, a escritora britânica que muito embalou nossa imaginação na mais tenra juventude.
Caçadores da Colheita é um romance de suspense que revela personagens com traumas da guerra, com perseguições e torturas, física e psicológica. São pessoas presas ao passado, buscando a vingança no presente.
A narrativa começa em Charleston EUA, 1963, e como ela vem parar no Brasil? Descobre!

"_Uma mulher morta, asfixiada por um cinto, encontrada num quarto totalmente fechado por dentro e que só abre com a chave do hospede ou a chave mestra do hotel que se encontra com as camareiras para que façam a limpeza. Quem a encontrou foi a funcionária Natalina que derrubou uma cadeira e algumas caixas e bibelôs, acordando alguns hospedes que estavam por perto inclusive a mim, que vim imediatamente ao corredor para ver o que estava acontecendo. Sua irmã única, Amália Martina poderia ter cometido o crime, mas não tem motivos aparentes.Tudo que Rose tem é um apartamento no Rio de Janeiro. Não tinha mais nada. As duas se davam muito bem".

Quem matou a Rose? É simples, faz como eu, lê o livro.  Eu gostei muito!

https://www.facebook.com/anne.lieri?fref=ts

http://www.asabeca.com.br/detalhes.php?prod=7659&friurl=_-CACADORES-DE-COLHEITAS--Anne-Lieri-_&kb=686#.WMqmz4HyuUk





terça-feira, 14 de março de 2017

A TERRA ENFEITIÇADA

Quando o mundo que conhecemos terminou, as pessoas todas morreram, não havia mais nada, só areia, porque nem a terra fértil foi poupada.
Então recomeçou uma brotação, diferente dos verdes áureos, era uma coisa muito estranha porque os troncos surgiam sem folhas e com figuras incrustadas grotescamente, das gentes mortas,justamente por causa da extinção do planeta natural. E tais imagens debatiam-se para sair do tronco principal. E quem conseguia se livrar imediatamente, corria para o mar. Ninguém sabe se conseguiram sobreviver fora das árvores
Foi castigo? Talvez consequência, porque o homem foi vítima de sua própria vaidade.
A terra enfeitiçada existe, portanto cuidado.
Guerreira Xue























MARIA VIDA FRIA

Maria não era dessas que se deixavam impressionar facilmente por alguém ou algo, achava que as pessoas perdiam tempo demais esperando coisas da vida, em vez de correr atras do que realmente importa.
Era mulher feita agora, e não tinha nada que se queixar, porque há o que pode ser contornado e o que não. Ela perdeu os pais ainda pequena e teve que crescer rapidamente, porque como ela haviam outros no orfanato, que eram menores e precisavam de cuidados.
Havia alguns parentes que as vezes apareciam para visita-la, mas cada um tinha sua própria vida para se preocupar. Demorou um pouco, e então Maria cresceu sem que ela ou qualquer um pudesse evitar.
Agora estava divorciada. O caso é que Maria se cansou de ouvir tantas lamurias: como estou cansado, como trabalho muito, como sou bom, que bagunça.
O marido de Maria pensava que era bom demais, inclusive para ela, e dizer que ela discordava era mentira, mas dai a achar-se menos que o bonzão vai alguma distancia.  O marido não era considerado ruim, só quando ficava fora de si e dizia-lhe absurdos humilhantes, mas ficou tão bom depois do divórcio.
Guerreira Xue


AS MULHERES

Tanta cultura para no fim das contas sermos, nós humanos, reduzidos a feras incontroláveis que matam pela comida, pelo sexo, pelo território e pelo status.
O interessante é que apesar de sermos literalmente filhos da mãe, menosprezamos nela, na mulher, o poder da criação.O Mundo é machista e preconceituoso e por causa dos egos inflados, os filhos crescem e vão contra os princípios ensinados pela própria mãe.

As mulheres lutam desde os primórdios para criar e sustentar a família como se essa fosse uma instituição, tornando-se o pilar da sociedade. Contudo isso não é tudo, pois há diversidade dentro própria família, como os casais homossexuais, e esses também seguem dando continuidade constituindo uniões estáveis, provando que tudo pode e deve ser respeitado. São afetos que tornam os laços familiares fortes.

Somos um amontoados de informações, desde a hora que nascemos até morrer. Talvez nesse percurso percamos o nosso próprio prumo, pois o animal social ainda é um individuo, e tem que conviver frequentemente consigo mesmo.
Quando não há respostas, o bom senso é que devia prevalecer.
Guerreira Xue


quinta-feira, 9 de março de 2017

O TIO QUER CASAR

Maria estava num dia difícil hoje, depois de dias seguidos de muitas chuvas havia muito a fazer em casa. Além do calor excessivo, a lavadora quebrou, era o que faltava, e ela ainda nem tinha providenciado o almoço. "Tudo bem Maria, fique calma que a vida é isso...  Chatices"!
Ligou para o técnico, que disse que tinha o dia cheio e que só podia vir no horário do almoço.
Fazer o que? Te espero então.
Estava ela nas panelas, quando o celular toca. Era a Filomena.
Oi Filó, tudo bem e você? Estou arrumando almoço, mas pode falar.

Filomena era uma portuguesa radicada no Brasil já tem tempo, e tinha uma casa de ferragens em São Paulo, desde que aqui chegou. Elas ficaram amigas não por acaso, pois Maria era uma de suas clientes, e essa frequência acabou estabelecer uma empatia entre ambas.
Era muito interessante como os costumes divergiam, e elas se divertiam muito com tal situação.
Maria era uma brasileira nata, proveniente de uma colonização de diversas culturas, e não conhecia realmente nenhum(a) português(a), até chegar a Filomena. 
A Filomena era do Alentejo, uma mistura de não sei que com árabe, a influencia que era-lhe mais evidente.
É estranho como nós, brasileiros, desconhecemos tanto a cultura portuguesa.

Olá Maria, estou bem, obrigada. Queria saber, tu podes fazer um bolo de tapioca para sábado? Vou receber visitas do Portugal e quero impressionar com uma sobremesa típica. Aliás, vou fazer uma feijoada também, com direito a caipirinha e tudo.
Muito bem. Faço o bolo de tapioca para você. Estou curiosa, conta logo quem vem.
Ah, vem o meu filho com a esposa, e o neto, e um tio que não vejo desde menina. O tio quer ficar no Brasil. Disse que quer arrumar esposa e já me perguntou se eu conhecia alguém.

Maria começa a rir e diz: porque ele quer esposa aqui, não tem mulher em Portugal?
Filomena ria também: claro que tem, mas acho que ele deve ser um chato, porque disse que só gosta de brasileiras. Mais risos...
Mas tem brasileira lá também, ou não? 
Tem sim, mas vai saber a fantasia do homem. 
Então ficamos assim, e venha almoçar conosco também! Eu gostava de te apresentar, e que visses meu o neto. E´um garoto lindo!
Até vou, mas terei de me conter, senão me rio de seu tio. 
Ora essa porque? E ambas riam ...
Sei lá, sujeito se abalar de lá do outro lado do mundo para achar esposa. Parece-me tão antiquado.
Olha que ninguém está livre, de encontrar outro alguém, que seja também livre claro.
Tens razão Filó. Mas é engraçado de qualquer jeito.  
Tocaram a campainha aqui, deve ser o técnico para ver a máquina de lavar. Vou para a vida Filomena. Te levo o bolo no sábado então. Beijos.
Maria desliga e corre fazer a salada que faltava para o almoço. O filho chega da escola e comem.
Chegou o sábado, e na hora marcada a Maria estava lá para ser apresentada a família de Filomena. E ela não riu ao cumprimentar o tal tio. 

Guerreira Xue


  



  
   

terça-feira, 7 de março de 2017

... E A VIDA SEGUE

Ele andava sempre ocupado com seus afazeres e não viu o tempo passar, não viu a vida passar.
Um dia passeando pela praia se sentia inquieto de tal maneira que não conseguia apreciar o cenário que tanto gostava... Não via os barcos lá no horizonte, nem as gaivotas que circulavam em busca de alimento. Hoje ele pensava qualquer coisa que o fazia sentir uma sutil comoção que não chegava a ser dramático, mas era triste.
Lembrava do filho caçula que estava se despedindo, para o doutorado na França. Agora ele estava só em casa, e não havia quem esperar para o jantar, ou partilhar o café da manhã. Será que a vida, daqui em diante seria como um deserto, povoado por velhas lembranças que animam o corpo cansado? 
Sempre fora muito seletivo com suas mulheres, e depois dos casamentos findos, agora não tinha nenhuma fazia tempo. Mudar esse estado de coisas, no momento parece bastante remoto.
E os pensamentos sucederam-se como uma enxurrada que arrasta o ser para a reflexão.
Talvez não existisse mais muita coisa para fazer ou viver.
E ele seguia pela trilha, onde outros andantes iam e vinham, e ninguém percebia suas lágrimas teimosas.
Ao chegar a grande pedra, ele senta-se, e deixa que a brisa suave se encarregue de secar seu rosto. 
Agora percebe o barco lá no Horizonte, as gaivotas voando ávidas por comida. 
...E a vida segue.

Guerreira Xue






sábado, 25 de fevereiro de 2017

Contadores de Histórias

Os contadores de histórias reuniam-se na noite de natal para contar as crianças sobre seus dias de infância. Era uma tradição, contar aos netos tudo que pudessem se lembrar, e fazendo isso iam perpetuando a própria memória. Além de relembrarem a vida passada na vila, os velhotes propagavam as história delegando assim uma espécie de hereditariedade. Por que? Porque as crianças não esqueceriam daquela história e noites, para o resto de suas vidas.

Era natal como hoje, e todos estávamos brincando nas ruas da vila... E vinham os garotos da rua de cima, o Marcão e o Zeca que sempre implicavam conosco, mas no natal havia trégua. A mamãe tinha feito um bolo de milho e era tão bom aquele bolo, que até hoje não me esqueci do cheiro ou do gosto.  E embora não fosse toda aquela festa e circunstância, as mães faziam sempre alguma coisa especial, que apesar de simples era divertida, a confraternização na favela.
Eu era garoto e via na televisão aquele o quebra- nozes, e gostava da neve que para nós seria refrescante, enquanto aqui mal conseguíamos nos manter dentro de casa, tal o calor do verão brasileiro.
A comunidade recebia presentes de doações de associações e ONGs, organização não governamental, e se fazia uma grande arvore de Natal, e vinha um papai noel com uma carrocinha puxada pelo burrico que de tão manso trazia pregado na cabeça  um par de chifres, risos, para imitar as renas suponho. Mas esse ano aconteceu uma grande enchente, que nos marcou muito, e a arrumação se estragou toda. Foi uma tragédia para as crianças que perderam seus presentes, sujaram suas roupas e cancelaram as brincadeiras. Então tivemos que subir, as pressas, o morro e nos abrigar no pavilhão da associação.
Dormimos muito tristes ... E eu sonhei...

Guerreira Xue


domingo, 19 de fevereiro de 2017

O SILÊNCIO

O silêncio o que é?

É um mel
Um fel
Um corcel
Cruel
E infiel

O silêncio é paisagem
É o ar
O mar
É Amar
E acalmar

Ah o silêncio...

É longe
É perto
E logo ali
Num lugar
Sem lugar

Porque o silêncio

É a ausência
Da essência
E abstinência
Sem consciência

O silêncio resseca

E umedece
Encharca
Alaga
Depois deságua

O silêncio manifesta-se

Ele sussurra
Também grita
E se agita
Revolta-se
E regurgita

O silêncio é consorte

Terra forte
E traz sorte
Ele vem do sul
Ou do norte
É céu azul

O silêncio
Também é morte.

Guerreira Xue


sábado, 18 de fevereiro de 2017

LUZES E SOMBRAS

Entre as luzes e as sombras
Ando em busca de meus caminhos
Entre o meio fio e a rua 
A floresta e a montanha
Por entre flores e espinhos
Ora sob a luz da lua
Entre carros e gentes
Permeio por aves e cobras
Ora sob a luz do sol
Vou tramando...
E tecendo a vida feito um linho
São tantos erros e poucos acertos
Que vou tropeçando ao desalinho
Entre as alegrias e tristezas
E vou crescendo lentamente
Nas pegadas do mundo
Sigo arrastada pelas correntezas
Tem dias que me persegue a dor
Entre o céu e a terra existe de tudo
Existo eu e existe você
E entre inseguranças e certezas
Entre você e eu, há o amor...


Guerreira Xue

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

QUEM SABE SE...

Quem sabe se
Um grande amor me acontecer
Não que estivesse eu a buscar
Tampouco saberia direito o que fazer
Restando-me o simples amar

E ele, o meu grande amor
Viria assim
Navegando em velas ao mar
Trazendo consigo na viagem
Muitos dos meus sonhos
Que sequer ele possa imaginar

Quem sabe se
Um grande amor me acontecer
Assim, como um convite para voar
E percebendo asas em mim crescer
Consiga das correntes me libertar

E na mira de um olhar
Subo eu ao mais alto monte
Desse me atiro a rasgar os céus
Sorvo no rosto o vento da cordilheira
E voou, me perdendo na imensidão
do meu próprio horizonte


É com a alma enlevada
Que sigo plainando
Sobre brancas nuvens em véus
E a montanha se faz majestosa

Quem sabe se
Um grande amor me acontecer...

Guerreira Xue





terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O QUE É SENTIR /por Celso Freire

O que é sentir?
Seria perceber as vibrações e os movimentos?
Seria admirar uma libélula em zig-zagues,
Às margens de algum riacho?
Seria contemplar uma gota d'água que se forma?
E que dentro em pouco não estará mais ali?

Afinal de contas, o que é sentir?
Seria penetrar em um olho e trocar confidencias?
seria tocar o lábio da pessoa amada
E experimentar um doce contentamento?
Seria criar asas e voar
No rumo das nossa esperanças?

sentir, sentir, sentir...
Seria a sensação do espinho que fica
E faz brotar o sangue do espinho da flor?
Seria o vermelho do sangue, o vermelho da flor?
Seria o alívio de esvaziar-se da dor?
seria apreciar o perfume do vermelho da flor?

O que é sentir
seria o rescaldo da carga que carregas?
seria a leveza por não levar peso algum?
seria o eco da bomba de Hiroxima?
seria o amarelo do canto de um colibri?
Seria o ruído do vento nos campos de Renoir?

O que é que sentir é?
Seria perceber o aroma da música de Mozart?
Seria admirar a cor do pincel natural?
seria o refugo na beira do rio?
O frio da travessia? O imã da margem de lá?
Seria a pressão do tempo sobre a vida?

Sentir!...
Seria submeter-se ao tripallium de cada dia?
Seria engolir a sopa de Potekin Encouraçado?
Seria levantar-se contra os que lhe tiram a pele?
Seria cuspir na cara de seu carrasco?
Seria, mansamente , oferecer a outra face?

O que é sentir?
Seria a dor do exílio entre Marília e Dirceu?
Seria procurar a sua agulha no palheira?
E se voce não encontra-la ? Vale a busca?
Seria viver no mundo de Sofia?
Seria viver imensamente todo dia?

Mas o que é mesmo sentir?
Seria ouvir a fome catando migalhas?
Seria ligar-se no pulsar de toda a essência?
Seria viajar por dentro de mim?
Seria o refluxo a resposta não?
Seria a espera da palavra sim?

Sentir...
Seria o peso de um beijo de trinta dinheiros?
Seria o rubro da cara que cora?
Seria o amargo na sua memória?
Seria voce o espelho e voce?
Seria olhar-se e ter medo de ver?

O que é sentir
Seria a alegria do meu corpo colado ao seu?
Seria a lira do instante agora?
Seria o doce da fruta amora?
Seria o canto do clarão da aurora?
Seria o fogo do dia que vai embora?

Sentir o que é?
Seria a picada anestésica do pensamento?
Seria a serena expressão da lucidez?
Seria amar sem o antes e sem o depois?
Seria intensidade de luz no meu jardim?
Seria eu cuidando bem de mim?

Sentir...
Seria o tentar esconder-se da morte?
Seria o pleno significado da vida?
Seria o calafrio do medo que congela?
Seria a tensão da força que enfrenta?
Seria emfim um poema sem fim?

Celso Freire em "Um Silva de A a Z"
https://www.facebook.com/jcelsofreire