sexta-feira, 7 de abril de 2017

BONS TEMPOS AQUELES! - por Sonia Regina Potenza G. Pinheiro

       Quando escrevo sobre um tema, centenas de experiências agradáveis e desagradáveis passam pela minha mente.
A bola da vez é o apoio dos pais na vida escolar de seus filhos ou a falta dele. Vou mais além, o apoio dos pais nas decisões da escola e dos professores, sejam elas de acordo com suas ideias ou não.
Nós professores somos seres humanos e como tal erramos e muito. Em tempos não tão antigos, uma professora era uma figura ilustrada e estivesse certa ou errada em atitudes e decisões, os pais dos alunos estavam sempre dispostos a dizer amém a tudo o que derivasse de suas práticas. Fosse o que fosse.
Ontem recebi Dona Lucimara. Estava possessa! Veio reclamar que a professora havia gritado com sua filha. ” Onde já se viu? ”.  Dizia ela. “Minha filha não foi criada com gritos”.
Foi preciso muito diálogo, um rosário inteiro de desculpas, conversas com a professora, esclarecimentos mil, enfim, um ritual enorme para que ela fosse para casa, de braços dados com a filha, um pouquinho mais calma. Ao passar pelo portão da escola alguém ainda ouviu-a dizer que se isso se repetisse iria à Secretaria da Educação!
Bons tempos aqueles lá para as bandas do Grajaú muitos anos atrás. Uma colega, a Fátima, cometeu uma barbaridade. Ela tinha um aluno terrível, daqueles que conseguem tirar qualquer cristão do sério. Era uma terceira série e o dito cujo tinha uns nove anos. Todos os dias, na hora da merenda, o danado do Genilson corria fugindo da fila para ser o primeiro a comer. Todo dia ela ameaçava: ”. Não quero que saia da fila. Espere sua vez”. Mas qual! Ele era incorrigível.
Não deu outra, num belo dia o Genilson saiu correndo e foi se postar encostado na cozinha lambendo os beiços. A professora, de forma errada, pediu à merendeira um prato da sopa e disse para o garoto: ”. Você está com pressa de novo. Hoje eu vou te dar na boca”.
Porém na primeira colherada, estando a sopa muito quente, o Genilson saiu gritando com a mão na boca e pulou o muro da escola. Sumiu!
A professora ficou muito apreensiva! Arrependeu-se no ato. Enquanto pensava como iria fazer para ir atrás do menino, viu entre os pilares do muro uma senhora gorda com um porrete numa mão e o Genilson na outra vindo em direção da escola.
Não teve dúvidas. Trancou-se no banheiro e pediu à uma servente que tomasse conta de sua fila.
Minutos depois uma funcionária bateu na porta do banheiro dizendo que havia uma mãe querendo falar com ela. Fátima já havia rezado bem umas dez ave-marias e prometido jamais perder a calma com qualquer aluno que fosse.
Ela se demorou mais tempo ainda rezando para que a mãe desistisse e fosse embora. Que nada! Desistiu de fugir. “Vou enfrentar, pensou ela. ” Se eu apanhar será merecido! ”
Saiu do banheiro trêmula.
A mãe do Genilson balançava o porrete no ar com força. Parou ao ver a professora. Olhou-a bem nos olhos e disse:
“A senhora está vendo este porrete aqui? “Pois bem Eu trouxe pra senhora lascar na cabeça do Genilson se ele te desobedecer de novo! ”
Bons tempos aqueles!


Sonia Regina Potenza Guimarães Pinheiro
Nasceu em São Paulo, na capital.
Fez seus estudos no ensino fundamental e médio em escola pública.
Formada em Língua e Literatura Inglesa pela PUC São Paulo
Mestre e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC São Paulo
Professora aposentada pela Prefeitura Municipal de São Paulo
Diretora de escola particular de ensino infantil ao médio.
Apaixonada por idiomas, esportes e livros.
https://www.facebook.com/sonia.r.pinheiro.3?fref=ts