terça-feira, 16 de abril de 2013

O HOMEM ESTÁ NU

-Hoje não vou levantar.
A mulher fez-se de surda, ou ele não disse, só pensou, e ela caladinha foi para o banho, voltou, vestiu-se, tomou seu café, e saiu.
E Jamil ficou lá imóvel, e olhando para o nada. Dormiu, acordou, chorou até dormir novamente. Não pensava em nada, só dormia e acordava. Tinha uma vaga esperança de não despertar, mas despertava.
O telefone tocou, a campainha tocou. Ouvia-se o barulho lá fora e na cabeça de Jamil era puro silencio, estava tudo vazio. E quando Jamil lembrava, chorava.
E como quem estava cansado de ser, o Jamil agora era nada. E não havia dor ou culpa, arrependimento, ressentimento, nem calor, só o vazio. Ou podia ser cheio demais e por isso, é que estava a transbordar.
Sem pensar naquilo que sabe, no que viu, ou em tudo que tem e o que já construiu...Tudo vai desabando por enxurradas de lágrimas salgadas que encharcam seu olhar.
... E lá longe no infinito, o homem se deixou estar e não era sem roupas ou dinheiro, não era sem casa ou família era uma nudez de corpo. Uma sensação de total ausência.

Era o fim do dia quando a mulher voltou, olhou em volta e percebe que Jamil não levantou. Abriu a porta do quarto letamente e viu que Jamil dormia pesado agora.
Seu coração apertou-se a ver seu homem nesse estado de alma.Tornou a fechar a porta e foi para a cozinha, e enquanto preparava o jantar, pensava em tudo que se passara nos últimos dias.
O celular toca interrompendo seus pensamentos.
-Oi dona Ana. Está tudo bem sim, cheguei agora.
Ele ainda muito abatido, mas vai descansando. Acho que só precisa de tempo agora e muito carinho.
Foi uma tragédia horrível o incêndio e todos aqueles gritos, nem quero pensar. Os jornais só falam e falam...
A equipe fez o que pode, mas mesmo no hospital ainda tem gente morrendo por conta da fumaça tóxica.
Jamil desabou  de vez... Vida de bombeiro dona Ana, vida de bombeiro.
Tenho fé que vai melhorando aos poucos, caso contrário vou leva-lo ao hospital para avaliação e tratar. Hoje em dia a maior parte das pessoas pensa que sofrer é doença, e chorar não pode. Pode sim.
Jamil e a equipe serão homenageados pelo prefeito na próxima semana por bravura no exercício salvar vidas, porém ele lamenta as que não salva.
Te ligo para dar noticias sogra, fique tranquila que cuido bem dele. Beijos!
desligando o telefone ela vai no quarto chamar Jamil
-Boa noite preguiçoso!
Jamil abre os olhos e contempla a mulher...
-Fiz o picadinho que voce gosta, portanto espero que esteja com fome, porque eu estou faminta!
Quer ajuda para levantar?
Lentamente Jamil foi levantando e com a ajuda da mulher foram para o chuveiro.
-Amanhã é sábado. Vamos andar de bicicleta querido?
Sem resposta a mulher continua com um leve sorriso... -Quero passear no lago com voce, só nós dois como nos velhos tempos...
Lembra que foi voce que me ensinou a pedalar?
Ah Jamil querido, aprendi tanta coisa com voce! Meu amigo, meu amor amado.
O jantar transcorreu em silencio que só era quebrado com o barulho da louça e talheres.
Jamil queria falar, dizer qualquer coisa que fosse, mas as malditas palavras não saiam. Amava tanto aquela mulher que magoa-la seria como morrer mais um pedaço.
Ao som de Omar Akram ambos se recolheram para o quarto e Jamil se deita virado para o canto, e a mulher o enlaça como a protege-lo de sua própria solidão.
No meio da noite os gritos a acordam... Jamil sonhava com o incêndio e gritava com desespero...
-Acorde Jamil, é um sonho mal. Vou pegar água querido, fica calmo.
-Não era sonho, era tudo real meu Deus!
A mulher estacou ao ouvi-lo. Fazia exatamente sete dias que Jamil não pronunciava uma palavra sequer. Era a oportunidade que esperava para tira-lo do fundo do abismo.
-Vou trazer sua água...
Mais calmo Jamil desata:
-Aquilo ficou um inferno. E não havia água que fizesse parar de queimar, o cheiro era de morte por toda a parte. Meu Deus! Todas aquelas pessoas em desespero... Por um momento, mesmo estando lá tentando tirar aqueles escombros freneticamente, resgatando corpos meio mortos meio vivos eu pensava em desistir sabe fazer de conta que não aconteceu, correr para minha casa e ficar quietinho no meu canto, confortar-me no meu egoísmo.
Agora me lembro de tudo e foi muito absurdo, não existe treinamento que nos prepare para um cenário daqueles.
Depois meu pensamento mudava. "Não, tudo vai acabar logo, estou aqui para fazer isso, tenho que fazer rápido."
Sinto-me agora sem valor, por não ter morrido também. Tantos jovens que justamente quando começavam a vida se perderam, parece-me que tudo é tão sem sentido.
Emocionada com o relato do marido a mulher retruca:
-Nem diga isso, por favor! Voce acha que se tivesse morrido no incêndio faria sentido? Quem iria liderar a equipe com tanta competência? Foi muito triste ver tantos mortos, mas se voce tivesse salvado uma vítima que seja, ainda assim voce já merecia viver.
Voce ajudou as pessoas que podia e foram muitas, fez o máximo que é permitido a um ser humano, voce sabe e todos os que o conhecem entendem isso também. Não somos de ir a igreja, mas iremos nos juntar as todas as famílias que estiveram envolvidas nesta tragédia no domingo próximo. Temos fé a ponto de  creditarmos, nós dois, que o amor é a única opção que salva,  e mais ou menos que isso, não existe.
Ai Jamil  meu amor... Eles estão sofrendo muito por suas perdas, precisam de todo apoio possível agora.
-Está certo meu amor, mas morreram porque não as salvamos, compreende! Como vou encara-las? O que nos move ao salvar alguns e outros não?
-Ai aiii... Que confusão! A pergunta está mal colocada aqui.
Voce e os outros arriscaram suas vidas salvando outras vidas. Ninguém os prepara para cenas tão trágicas como estas. É preciso consenso e conscientização coletiva. Ninguém salva o mundo sozinho. Digamos que sempre vão precisar de mais cooperados. Campanhas de prevenção, fiscalização, etc. etc.
Jamil contemplou sua mulher como se a visse pela primeira vez em anos e abraçou-a dizendo calmamente.
-Coisa boa que tenho voce.
E os dois tornaram a dormir, e pela primeira vez em muitos dias o sono foi reparador.



Guerreira Xue
10/04/2013

domingo, 14 de abril de 2013

PAREDÃO PARA OS GAROTOS

Paredão Para Os Garotos
Contaram-me que no reino de insensatil
o penúltimo em nível de educação no mundo,
elevaram a idade de alfabetização,
nas escolas públicas, para oito anos de idade,
enquanto se manteve em seis anos
nas escolas particulares, em sórdida gestação
de ampliar as diferenças econômicas e sociais
na próxima geração, ao mesmo tempo
em que reduzirão a maioridade penal
para dezesseis anos.

Disseram-me também que lá a corrupção
narcotraficante sustenta políticos, juízes,
todo o aparato policial e de segurança,
e que reduzirão a maioridade penal
para dezesseis anos.

Disseram-me mais, que neste estranho reino
um homofóbico racista preside os direitos humanos
e três condenados pela justiça presidem a justiça,
e reduzirão a maioridade penal para dezesseis anos.

Estranho, surreal essa praga de insensatos,
praga que se abate sobre o povo os aplaudindo:
é a sexta economia do mundo, reduzindo
quase todos a coadjuvantes econômicos,
e no entanto estatísticas outras envergonham:
octogésimo quarto (84º) no índice de desenvolvimento
humano (IDH); octogésimo oitavo (88º) no nível
de educação; centésimo quarto (104º) no índice
de qualidade na infraestrutura; dezesseis milhões
de habitantes na miséria; centésimo décimo quinto
(115º) na qualidade do sistema educacional...
E reduzirão a maioridade penal para dezesseis anos.

Mas não só a economia caminha lá em cima, há a mídia,
a imprensa, as emissoras de rádio e televisão
alimentando-se de propinas na forma de anúncios
proclamando as benesses proporcionadas ao povo,
com impostos vencidos e refinanciados, sonegados,
engordando o coro das futuras vítimas: maioridade
Penal aos dezesseis anos, agora, já, urgente.

Com atores, figurantes, coadjuvantes... Brancos, ricos,
do sul-sudeste do país, que é para os nordestinos,
os negros, os índios saberem exatamente os seus lugares,
anunciam produtos que as crianças jamais consumirão,
brinquedos com os quais jamais brincarão, ficando claro
que não são humanos, e só o serão quando nos carros,
nos resort, nas jóias, nas viagens internacionais,
nas mansões, fazendas... Induzindo-os às drogas, como fuga,
ou ao plágio do que se mostra nos filmes, seriados, novelas,
anúncios... À violência e a esperteza, como formas lícitas
na obtenção das necessidades artificialmente criadas...
Para liderarem e orientarem o coro dos criminosos clamando:
maioridade penal aos dezesseis anos.

Estranho os habitantes de insensatil:
querem acabar com os ratos
mantendo intacta a fábrica de ratos.

Agora dezesseis anos, mais adiante catorze anos, depois doze,
até chegarem à idade mental dos que exigem e esperam
redução da maioridade penal aos dezesseis anos.
Francisco Costa.
Rio De Janeiro, 13/04/2013.