sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A DONA

Eu nasci no beco, e por pena, uma menina me pegou e me levou para esta casa onde moro agora. Gosto da minha dona, mas ela tem mania de banhos que só vendo, e eu me pelo de medo.
E fico tão desesperada que me agarro nela com força e pá! Perco uma unha.
É verdade que depois me paro cheirosa e com pelo de seda.
Depois da miséria, sou princesa agora, e não perco a hora do almoço ou do jantar. O dono me detesta, mas quem disse que eu ligo? Ainda bem que não preciso chama-lo de pai.

Guerreira Xue

ESTRELA

As vezes queria entender os gatos, mas deve ser pedir demais, uma vez que não entendo nem  a  minha espécie.
 Ganhei minha Estrela de uma amiga da minha filha, e cuidar dela é uma “mão de obra”.
 A cada banho é uma unha que ela deixa cravada em mim. Eu só não fico mais brava, porque ela fica sem unha mesmo. Bem feito!.
 A bicha tem dias que é puro amor, em outros parece possuída pelo demônio, valha-me Deus!
Hoje estou toda arranhada e mordida dela.  Quero ver quando ela ficar velha e desdentada. E eu amo esta felina maluca
Guerreira Xue

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Lembranças da Aldeia

Minha aldeia era quase abandonada, pois a maioria trabalhava nos grandes centros.
E quem ficava nas casas, eram os idosos.
Todo fim de semana visitávamos vovó, hábito adquirido desde a infância. Na chegada a primeira que me saltava aos braços era Diana, se eu não fosse forte ela derrubava-me no chão. Depois de recomposta das lambidas e fungadas vinha vovó me abraçar, e ela cheirava a alfazemas. Lembro-me ainda daquele cheiro tão familiar. É interessante como nossa vida é repleta de cheiros.
Nas férias de inverno vovó fazia bolo todas as tardes, isso infestava a casa de calor.
Sinto saudades!
Guerreira Xue/Hilda Milk

Imagem:Luis Crhistello

POR DO SOL

Ela passeava na beira do cais enquanto pensava na vida, em coisas que nos move, e não eram grandes pensamentos, pois até os sapos pensam, e da vida estes só sabem pular.
Sonia não podia ver uma beira de rio, ou um braço de mar sem se aproximar, parecia que a água chamava-lhe. Ao sentar num banco a mulher deixava-se ficar contemplando o horizonte, como quem espera algo acontecer, ou simplesmente apreciando o por do sol.
Diante daquela beleza toda não havia tristeza, e Sonia não era triste. Ao dar-se conta já estava atrasada, pois seus gatos esperavam-na para jantar.
Guerreira Xue
                                                                           Imagem Net

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O SEM ABRIGO/ THE HOMELESS

Todos os dias alguém mais fica na rua, fruto do desemprego, da miséria, do desprezo da família, da falta de coragem para enfrentar a fome dos filhos, de tantos e tantos males que assolam a nossa sociedade.
Cada um de nós já se terá deparado com algum sem-abrigo e nunca parámos para pensar sobre o quê ou quem estará por trás de tanta miséria, tanto sofrimento, tanta angustia. Recuamos, desviamo-nos como que fugindo sem saber de quê…

“Demos de caras ao virar da esquina e assustei-me sem saber se havia motivo. Era alto, magro e envelhecido pela pobreza visível nas mãos inchadas das frieiras e nos lábios gretados pelo cieiro. Olhou-me. Primeiro com cara de poucos amigos, mas ao ver-me assustado depressa mostrou um sorriso tranquilizador. Compreendi que a carantonha inicial com que me tinha brindado se destinava a afastar possíveis e inesperados inimigos. Reparei, olhando-o agora mais calmo, que nos braços e na cara as impigens abriam feridas, eram as feridas da pobreza que o marcavam e marcam muitos sem-abrigo nos Invernos rigorosos.

Perguntei-lhe sem grande convicção se precisava de ajuda. Ele tirando a boina suja e safada do muito uso, abanou a cabeça num movimento concordante. Arrependi-me de imediato ao ver-lhe grandes peladas na cabeça e a visão da dentadura negra e desfalcada com que me brindou. Ele avançou um passo e eu recuei um outro, ele então recuou mas eu não avancei, estava bem assim. Naquela confortável distância lancei-lhe algo contrariado a pergunta: - E precisas do quê? Ele olhou-me de novo sem falar e com a mão que antes tinha no bolso do casaco fez um gesto que entendi como um vai-te lixar.
Compreendi que o meu recuo anterior, embora instintivo e talvez por isso, lhe tinha transmitido a mensagem errada do que eu era. Eu, simplesmente, não esperava aquela situação, não estava preparado, tinha sido apanhado de surpresa. Quem se julgava aquele esfarrapado sujo e doente para me julgar a mim? Recuou nos passos mas um pouco de recuo nos gestos não lhe faria mal algum.
Dispus-me a sair dali e ataquei a intenção em passo rápido quando, ele num sinal de dedos me pediu um cigarro. Naquele momento e pela primeira vez tive pena de não ser fumador, não era, em consequência não tinha cigarros. Ele com novo gesto de mão despachou-me como se dissesse que não era ali desejado.

No dia seguinte voltei. Vinha preparado com um maço de Marlboro no bolso e estava desejoso de ver a cara dele quando lho mostrasse. Agora que já lhe podia dar alguma coisa queria ver se me mandava lixar.
Procurei-o sem resultado, vi nas ruas por perto se lhe encontrava sinal mas nada, devia andar por outros sítios, pensei. Convenci-me que voltaria por ali e nos três dias seguintes voltei com o maço de cigarros no bolso, mas tinha desaparecido.

Finalmente, ao quarto dia, avistei-o ainda ao longe. Estuguei o passo sempre com o olhar a vigiá-lo não fosse ele desaparecer mais uma vez e aproximei-me. Quando se virou vi que não era o mesmo, este era mais novo e sem os sinais de doença do outro, era também mais forte e mais agradável. Olhou-me e sorriu de imediato dando as boas-noites. Aproximei-me ensaiando um sorriso e sempre preocupado em não demonstrar receio. Então, quando estávamos à distância de um braço, cumprimentei-o e estendi-lhe a mão com os cigarros. Ele com o gesto de os aceitar, agarrou-me o braço e desferiu-me um violento soco bem no meio da cara.

A pancada foi tal que fiquei um bom bocado atordoado, devia ter-me partido o nariz, pensei meio zonzo e com dores enquanto o agressor aproveitava para me aliviar da carteira e outros pertences. Felizmente um grupo de Skin Heads que descia do Bairro Alto, ao verem o que se passava, puseram o agressor em fuga seguindo-o em grande correria na direcção do Cais do Sodré. Após os ver desaparecer e ter recuperado a serenidade necessária, desloquei-me com alguma dificuldade à esquadra da zona com o propósito de receber os primeiros socorros e, principalmente, para apresentar queixa devido aos documentos que o agressor levara consigo. Um dos agentes quis vir comigo ao local e apercebi-me que se passava mais alguma coisa quando me pediu para no dia seguinte me apresentar na Judiciária.
Depois de uma longa conversa com o agente destacado para o caso, fiquei a saber que o larápio agressor do dia anterior era suspeito de ter morto um sem-abrigo. Os indícios apontavam para a possibilidade de ser o mesmo que procurei.

Ao ver que a informação me abalara disse-me que os familiares do homem vinham a caminho para a identificação, mas era necessária também a minha confirmação de que era aquele homem que eu procurara e que tinha visto naquela noite. Movido pela curiosidade, acedi deslocar-me com um agente à morgue para a necessária identificação.

Acabados de chegar fomos informados que o irmão do sem-abrigo já o tinha identificado. Dirigimo-nos à sala onde estava o cadáver e ao transpor a porta dou de caras com o meu pai que, lavado em lágrimas, me olhou surpreendido. Atónito, instantes depois e pela sua boca, fiquei a saber que aquele sem abrigo era seu irmão, portanto meu tio. O tio mudo desaparecido e de quem eu ouvia falar desde que me lembrava.

Fazia dezoito anos que nunca mais soubéramos dele, agora, devido a um papel encontrado no bolso do casaco onde alguém tinha escrito que ele era o José Emanuel Laranjeira e que procurava o irmão António Leonardo Laranjeira tinha sido identificado.

Quando interiorizei a informação, já sabia que era essa a ajuda que ele queria. Ao avançar para mim preparava-se para me mostrar o papel, e eu, seu sobrinho, tinha recuado com medo.
Instantes depois compreendi finalmente que não era medo. Era algo pior, mais profundo e enraizado, era um mal de alma.”


De José Pires F.


Lutamos todos os dias para mudar o Mundo. Lutamos todos os dias para ajudar os Laranjeiras deste mundo injusto e infame. Lutamos todos os dias para que possamos garantir um futuro melhor para todos.
Change Mind Global Aid. Let’s make some changes!!!
In Jornal GAZETA LUSOFONA, Setembro 2015

domingo, 13 de setembro de 2015

ELES CHEGARAM/ THEY ARRIVED

Eles chegaram,
E junto trouxeram suas armas
se fosse o caso de matar
Um preço razoável pela conquista
da bela terra, do ar, das matas
e do mar.

Eles chegaram
Trazendo suas roupas, presentes
sua doenças e os sermões
E veio junto um Deus
com o livro das receitas
que continha as suas crenças
fé e outras ilusões.

Eles chegaram
Usurpando eles saquearam
e mataram em toda eira
Trouxeram consigo seu paraiso
como se aqui não houvesse
Marcaram o território com nosso sangue
impondo ao mundo sua nova fronteira

Eles chegaram
E de tudo, os selvagens se apossaram
Menos de minha alma guerreira

Porque é no silencio da noite
que os sonhos se acordam
Escuto ainda o crepidar da fogueira

O mar balançando suas ondas
o estalar da grande mãe floresta
e das águas doce da corredeira

Ouço a amiga kururu a corujar
o vento a ssussurrar suas estórias
e nossas canções de embalar

Eles chegaram
eram brutos com alma errante
portando a escória e corrupção
Vieram do além mar para  ficar
Isso num tempo já distante

Eles chegaram
A pedra e o ferro mediram forças
E na terra fizeram-se ocupantes
mataram os nossos filhos
tombaram as nossas florestas
nossa cultura, nossa ciencia
roubaram o ouro, a madeira
e aquelas pedras brilhantes

Os nossos sonhos não extirparam
esses eu sei
eles não puderam levar.

Eles chegaram
E o chão que não tinha dono
agora tem
Eles ficaram
e daqueles que restaram
a minha gente desapareceu
escondendo-se nas entranhas
da terra
E talvez um dia possam voltar.
Guerreira Xue