quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O GUARDIÃO DOS DIAS

-Estás ai menina?
Ela sorri ternamente dizendo-lhe:
-Já te disse que não sou menina, e se duvidar sou mais velha que voce. Diz lá o que queres porque já estou de saída.
-Vou ter alta amanhã, e provavelmente não vou te ver mais.

Fazia justamente seis meses que Irina estava naquela clínica, e era mais ou menos o tempo de internação Mickael.
A ala psiquiátrica era carente de profissionais e ela nem queria esta ali, mas um acontecimento a fez mudar de ideia, trazendo-a de volta e agora já acostumada, ela circula naturalmente no ambiente.
Uma amiga, a Marina, pediu-lhe há meses para cobrir sua folga, pois não podia faltar, mas tinha que buscar a filha que chegava de viagem.
-Só por dois dias Irina, estão com falta de pessoal aqui e não quero prejudicar ninguém. As fichas estão todas em ordem, e voce só tem que administrar as medicações, ajudar na rotina de banho, café da manhã e almoço. E também já avisei a diretora e ela autorizou, só pediu que voce levasse seu certificado de curso. Irina estava de recesso e não tinha quase nada para fazer, então aceitou.

O primeiro dia de trabalho transcorreu tranquilo, mas ao chegar ao segundo dia...
Havia muita movimentação por conta de um paciente recém chegado. Aquilo foi como se o mundo de tranquilidade tivesse desaparecido. O sujeito gritava de um jeito que era perturbador. Era em italiano ou um dialeto muito parecido.
Amarraram-no e o medicaram  levando-o para uma sala acústica branca.
Um dos enfermeiros que o trouxeram entregou-lhe uma prancheta.
-O "abacaxi" e seu agora, e não vá mata-lo, pois ele diz ser um anjo. E retirou-se dando risada.
Irina se atrasou com sua ronda diária neste dia, pois os demais pacientes ficaram nervosos com toda a agitação.
-Que houve mocinha, mais um louco caiu aqui? Perguntou-lhe uma paciente.
-Não senhora, é só um jovem perturbado que precisa de ajuda. Respondia suavemente.
Na hora do almoço Irina vai ate a sala branca verificar se esta tudo bem...
O rapaz está quieto, todo amarrado, parecia dormir, ia se retirando quando:
-Moça... Fala comigo. Sei que estás ai, sinto o seu coração bater. Diga qualquer coisa...
Calada ela se aproxima dele, devagar. E ele continua: - Queria pedir desculpas. Fiz tudo errado...
-Por que?
- Atrapalhei-me todo, não tinha ideia de que ser gente era tão confuso. Parecia ser tão fácil. Quase adormecendo o rapaz continua... -Tanto poder e não saber usar...
-Descanse, voce ainda esta muito confuso e cansado. Estás seguro agora.
-Eu sei, estou com você agora. Obrigado.
Irina não disse nada, e o rapaz pareceu voltar a dormir. Ela passou os olhos por seu prontuário.
"Homem encontrado totalmente alterado, em crise psicótica. Não porta documentos e disse se chamar Mickhael... Falava um outro idioma, possivelmente latim, ou  italiano arcaico."
Terminando o seu trabalho Irina se despede aliviada. O tal paciente não saia de sua cabeça, mas não era mais seu problema.

Corria tudo bem, quando uma semana depois a diretora da clinica liga.
-Irina você esta disponível? A Marina teve uma queda feia, foi hospitalizada e deve que ficar em casa por uns tempos...
Quando desliga o celular, Irina olha para Marina.
-A diretora chamando-me para substituí-la novamente amiga.
-Que bom Irina! Os pacientes não podiam estar em melhores mãos.
-Não me bajule faz favor. E ambas riram...
-Fiquei de dar resposta em uma hora. Quem vem para ficar com voce?  Só vou para a clínica se tiver uma companhia, pois não vou deixa-la sozinha aqui.
-Então pode ir tranquila! Janete tirou licença e vem ficar comigo.
-Espero um dia ter uma filha amorosa como a sua.
-E agora quem esta bajulando quem? Risos...
Marina era como uma irmã, mas Irina tinha receio de contar-lhe o que se passava ultimamente. Isso tinha qualquer coisa a ver com aquele paciente estranho, e agora que ia voltar a trabalhar lá, tinha tempo para desvendar esta coisa toda.
E Irina continuou na clinica desde então.

Agora Mickael estava pronto para ter alta.
- Para onde vais Mikhael? Nunca veio ninguém sequer visita-lo nestes meses que estas aqui.
 -Tenho um irmão que virá me buscar pela manhã.
Irina gostava do rapaz e conversavam muito... Alguns dos internos diziam não entender quase nada do que ele dizia, o que era bem estranho, pois ela o compreendia tudo perfeitamente.
-Fico contente que não estejas na rua, e desejo-te boa sorte e que não precises mais voltar aqui. Queria também dizer-te nestes meses que estou aqui, você me ajudou a cuidar melhor dos pacientes. Eles adoram ouvir minhas histórias, ficam tão mais calmos.
Me sentia insegura e medrosa, e você me deu confiança... Me sinto bem e os pacientes também, e você tem grande participação nisso. Estou triste que você se vai, de verdade.
Mikhael imóvel estava de costas para Irina olhando pela janela, como se escutasse o vento.
-Sabe quem sou eu menina?
Com os olhos marejados ela acena que sim. -Eu venho escutando seus mantras todas as noites.
- E você quem é? -Sou Irina, uma Enfermeira qualquer que um dia por acaso, veio aqui parar.
-Não é por acaso que estás aqui. E eu vim por voce que é igual a mim. Escutava-me rezando meus mantras de sua casa, achas isso comum?
-Não sou igual a você, eu nasci de família, tive irmãos, infância. Não posso ser uma igual a voce Mikhael.
- Sim você perdeu a família, acabou sozinha, os irmãos foram adotados por outras famílias e você também. Eu sempre falei com você, lembra-se? Um dia você chorou tanto que se fechou, ficou surda e nunca mais ouviu minha voz. Eu podia recitar meus mantras todos, mas voce não ouvia. Agora isso mudou e eu quero que tentes hoje a noite. Recite seu mantra depois de ouvir o meu.
-Eu tenho meu próprio mantra?
-Sim e tem muitas noites eu espero voce recitar, depois de mim. Isso sempre foi  assim, desde o principio...
Sem saber se acredita ou não, Irina dispara:
-Por que nascemos aqui? Lembro-me que voce disse quando chegou aqui que tinha feito tudo errado. Que ser gente era confuso... Explique faz favor.
-Nascemos aqui para aprender, sentir, entender as pessoas. "Nós" não temos sentimentos, somos soldados e obedecemos ordens, normas que não são difíceis de seguir, e por vezes não compreendemos os humanos com seu enorme poder, eles podiam fazer tanta coisa, pois tem uma coisa muito maior, o livre arbítrio. Então de tempos em tempos ganhamos o privilegio de nascer gente. E Mikhael transborda em lágrimas...
-Mas algo que não conhecíamos acontece no humano, é um misto de dor e fome, raiva e alegria, medo e solidão. Você sabe o que digo, eu sei que sabe. Era para estarmos juntos, nos dois, mas eu te perdi, justamente quando você se perdeu. A nossa comunicação  foi interrompida pela sua dor.
E os dois se abraçam...
-Hoje a noite voce recita seu mantra depois de mim?
-Fica comigo Mikhael.
-Não posso ficar por enquanto, mas um dia...
E naquela noite Irina proferiu o seu mantra, e lembrou de cada palavra.
Guerreira Xue
                                                imagem net

FARRAPOS DE ALMA

Ele morou na rua, ficou doente, ficou sozinho, sentiu  solidão, sentiu frio, sentiu medo, sentiu saudade.
Ele sentiu o descaso, sentiu a solidariedade, ganhou forças e continuou na rua ajudando, e ajudando-se.

SAUDADE

"Hoje tirei a palavra SAUDADE  do meu vocabulário.
Deitei-a fora.
Ignorei-a,
Esqueci-a.
Recusei-me a aceitá-la!
Mas ela existe.
E por mais que não queira,
É pronunciada,
É sentida,
Tanta vez!
Vezes demais!
Fico com um travo amargo,
Um nó na garganta,
Um aperto!
Fico mal, mesmo...!"

Daniel Horta Nova in Farrapos de Alma  
 https://www.youtube.com/watch?v=zqNZdTXRAFA               
                                 

                                                   O  POETA DA RUA, IMPERDIVEL.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

PROPOSTA

PROPOSTA
Queria poder ser feliz todos os dias, pois se a felicidade não tem preço, a tristeza por vezes também é incalculável. Queria uma permanente temperatura amena, porque calor demais, ou  frio demais mata, queria eu não me preocupar tanto com pequenas coisas, e que no  final das contas, resultam em absolutamente nada. Queria eu, dizer que está tudo bem, e que tudo sempre dá certo, e que tudo só acaba quando termina, e que o fim, só chega no fim mesmo. O último a sair faça o favor de apagar a luz, porque o vazio enxerga no escuro. Mas sou humana como a maioria, e como tal sou instável como o tempo, sou também neurótica e perfeccionista como alguns. Se não tomo meu cafe da manha, imaginem só que nem isso tem, nem gente sou. Proponho encher a vida com pensamentos de solidariedade, palavras de afeto, ações de edificação. Despir de bandeiras, grupos, crenças ou estereótipos. Proponho sermos simplesmente pessoas.
Guerreira Xue
                        Imagem da autora

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O QUE SOMOS

Somos seres complexos e distorcidos
Nascemos de forma abstrata sem sentidos
Nossos ramos fortalecem a pouco e pouco
Neste mundo que tem tudo o que é louco
E nos mantém presos a conceitos definidos.

Somos raízes secas na nascente sem água
Acumulamos ao longo do tempo sabedoria
Uns mais que outros vão guardando mágoa
De tudo que a vida nos fornece a cada dia
Como se fossemos uma árida e dura frágua.

Somos seres mesquinhos que ao nascer
Nada sabemos do que a vida nos reserva
Aprendemos com exemplos sem querer
Acreditar nos destino que nos preserva
Para uma vida inóspita sem nada prever.

Somos e seremos sempre uma sombra
Daquilo que nossos sonhos nos ditam
Cada movimento do globo nos assombra
E ainda tem os que em tudo acreditam
Como se a paz dependesse de uma pomba.

Se não se trabalhar em prol do bem geral
Nunca haverá paz nesta terra combatida
Tem mais gente a trabalhar para o mal
Sabendo que tudo o que existe nesta vida
É o que somos e seremos até ao juizo final.
Arlete Anjos