sexta-feira, 28 de março de 2014

LIBERDADE NEGADA

Sara, onze anos, vive feliz com sua família, quando estoura o golpe militar de 1964. Aos dezessete anos, envolve-se com um militante da esquerda e comete um erro imperdoável aos olhos dos guardiões do regime, entre eles o seu pai, tenente-coronel do exército. Por conta disso, passa por uma situação em que é ferida no corpo e na alma, porém, nada de importante, confessa. Após alguns dias, percebe que, na escola, está sendo seguida por pessoas misteriosas. Às escondidas, a mãe e os tios enviam-na para outro país. Passam-se quatro anos e meio. Sara volta ao Brasil e conhece Fred. Numa ocasião em que conversam num bar, ela tem uma crise de choro ao ouvir pelo rádio a notícia do suicídio de um homem na prisão do DOPS. Fred incentiva-a a contar o motivo desta reação que lhe parece exagerada. Sara relata uma história em que se misturam um grande amor, conflitos familiares, violência e morte.

O SONHO DE SARA
"Meu sono era interrompido por pesadelos ameaçadores, dos quais não me lembrava ao acordar. Num dos poucos que não evaporaram como fumaça ao vento, eu subia uma encosta íngreme, tendo de fazer um esforço descomunal. Quando cheguei ao topo deparei-me com uma multidão mascarada. Tentava me comunicar, ninguém me dava atenção, agiam como se não me vissem. De repente, estava diante de um grandalhão de olhar cruel, o único sem máscara. Usava uma coroa de espinhos que não o feriam e segurava um cetro metálico. Exigia telepaticamente que me ajoelhasse a seus pés. Não o obedeci. Com os olhos fixos nele, andei de costas até perceber que atrás de mim havia um precipício. Teria de fazer uma escolha: submeter-me à ordem do gigante ou saltar no abismo. Saltei. Em vez de cair, voei".

Morgana Gazel do livro
LIBERDADE NEGADA, à venda na Livraria Cultura 
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=25034125&nm_origem=rec_produto_viu-comprou&nm_ranking_rec=1
                                          

«O VULTO DO PASSADO»

«O VULTO DO PASSADO»

Leonor acabou de dar banho à filha, a papa espalhada por todo o lado. Mudou-lhe a fralda, meteu-a no carrinho para a deixar no infantário, antes de seguir para as aulas, na Faculdade.
Toque estridente da campainha. Era a Dona Angelina, a vizinha do lado:
– Menina Leonor, tem o rádio ligado?
Não tinha. Não sabia de nada, não senhora.
– Está uma revolução na rua! Sabe-se lá o que virá aí!
– Pior do que já temos não pode vir! Olhe que não pode, não, Dona Angelina!
– Sabe-se lá, menina Leonor! Sabe-se lá! Ele há coisas…
A vizinha atravessou o patamar pouco confiante: - Estes estudantes são sempre contra o governo, sabe-se lá, se esta Leonor estudante e professora será também de confiança! Simpática ela é, sim senhora, e prestável, por mais de uma vez me ajudou a trazer os sacos das compras da loja ali em frente. Mas se for política, cruz credo, Deus me livre e guarde! E benzia-se, invocando Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Vêem-se caras, não se vêem corações, Dona Angelina franzia o sobrolho enquanto dava duas voltas à chave, não fosse o diabo tecê-las, e a revolução entrar-lhe de portas adentro. Sabe-se lá!
Leonor liga o rádio, “posto de comando das Forças Armadas”, e o coração enche-se de esperança. Chegou ao infantário e deu com o nariz na porta. Um letreiro dizia: «Encerrado por segurança.» Voltou para casa. Viu as imagens do Carmo na televisão, avistou o companheiro em cima de uma árvore, olha o pai, olha o pai… O pai à noite chegou cansado.
– Conta lá, conta lá, tive de ficar aqui em casa todo o santo dia, o infantário fechado, a menina a pedir colo num berreiro desatado!
Seis dias depois, Leonor embrulhou a filha num xaile traçado entre a cintura e os ombros, e levou-a à manifestação do 1º de Maio. Para se habituar à Liberdade, pensou. A criança não chorava nem tinha medo da vozearia dos altifalantes. Fixava os olhos muito abertos ora nas bandeiras vermelhas, agitadas pelo vento da esperança, ora nos cartazes que não podia ler: «O povo já não tem medo!», «Fascismo nunca mais!», «25 de Abril sempre!»

Passaram velozes quarenta anos na vida de Leonor. Traz ainda a pasta pesada de livros, mas já vazia de sonhos. Reformou-se de professora, mas continua a trabalhar graciosamente (estranha palavra!) no Centro de Investigação da Faculdade. Nada do que faz poderá ser remunerado. A legislação é clara para ela, bem menos clara para altos funcionários do governo. Dá-lhe um nó no estômago saber que prescreveu a coima do Banco de Portugal ao grupo de fiéis seguidores do beatífico Jardim Gonçalves, locupletado com a choruda reforma de cento e setenta e cinco mil euros, tenho de escrever por extenso, não vá alguém julgar que me enganei nos números. Quem confiou nele é que foi enganado. Um escândalo num país de pobreza galopante, mas de memória curta. Austeridade, antiga palavra de conventos, é agora a medida por onde se apertam os cintos. Avizinham-se mais cortes nas pensões, ouviu-se o veredicto a sair do sorriso Pepsodent, já algo embotado, daquele rapaz, primeiro-ministro que tinha dez anos no 25 de Abril e que não conheceu a miséria salazarenta. Leonor conhece o pai dele - médico, escritor, transmontano de boa cepa -, o filho não lhe herdou as qualidades. Hélas!
Vai agora apanhar o metro na Cidade Universitária; avista ao longe, os doze degraus da cantina. Esses continuam sólidos. Leonor fecha os olhos e vê o vulto do passado a rolar na escada.

Teresa Martins Marques, in POEIRA DO TEMPO (11)
                                         


quinta-feira, 27 de março de 2014

MEUS SONHOS?

MEUS SONHOS?

Eu os tenho guardados
Num pote de segredos.

Revelados, me revelariam
E me deixariam nu, a mercê
De salteadores de sentimentos.

Há sim os sonhos triviais,
Dando conta do dia a dia,
Os sonhos surreais,
De impossível decifração.

Sonhos eróticos, libidinosos,
Onde me revelo tarado que,
Quando acordado se abstém.

Sonhos tristes ou trágicos,
Os mais duradouros e reais,
Durando noite inteira
Para mais preocupar.

Há até os sonhos infantis,
Lotadinhos de fadas e gnomos
Esvoaçando o jardim em frente
Ou passeando na cabeceira.

Mas os sonhos mais queridos,
São os que não cabem no pote,
Nem na noite, nem em mim,
Porque grandes o bastante
Para virar os versos que declamo
Ou explodirem numa declaração:
Eu te amo!

Francisco Costa

http://francisccosta.blogspot.com.br/
Rio, 27/03/2014.

CORAÇÕES RASGADOS

Angelo acordou cansado, seu filho pequeno estava com gripe forte e ele teve de leva-lo ao pronto socorro, ficando ambos a madrugada toda na rua. Mas hoje tinha que ir a repartição, pois o novo chefe empossava e se perder a apresentação geral, depois teria que passar pelo constrangimento pessoal em uma visita particular até o décimo segundo andar."Detesto isso!"
Antes de sair passa a mão no telefone e disca:
-Marina, o Lucas não está bem, e eu deixei que dormisse mais, mande a baba vir ficar com ele aqui, faz favor.
Após pausa.
-Está tudo bem agora, ele teve uma febre, mas foi medicado e só precisa dormir, tenho uma reunião importante daqui a pouco. Deixo a chave no lugar de sempre. Beijo
Sem esperar resposta o homem desliga, e bate a porta.
O pequeno Lucas ainda acordado escutava o pai ao telefone. Queria dizer que não ia mais embora dali, e que queria que os pais voltassem a morar juntos para serem felizes outra vez.
Agora a mãe estava de namorado novo e ia se casar. "Não quero mais morar com ela".
Suas lágrimas escorriam soltas pela face, até que adormece.
Marina vai pessoalmente com a babá no apartamento do ex marido. Achou estranho o "seu" pequeno ter aquela febre repentina e ficou preocupada. Ela sabia que o fato de se casar novamente estava afetando diretamente o filho, e vinha tentando conversar com ele sobre o assunto, mas o danadinho se esquivava o tempo todo.
O apartamento de Angelo era impecável, nem parecia que morava alguém ali... Marina riu-se da observação. Claro que estava limpo! Um divorciado que mora sozinho e que só vem a noite para dormir.
Enquanto a baba arrumava alguma coisa na cozinha, Marina liga para Angelo tranquilizando-o, vai espiar o filho..."Ele é tão pequeno ainda!" Ela sentou-se numa poltrona do lado da cama e abriu um livro. Hoje Marina ia esperar o Lucas acordar.
Chegando ao escritório Angelo, agora mais tranquilo estava otimista . "Mais chato que o chefe antigo este dificilmente será."
O filho queria morar com ele, estava ressentido porque mãe ia por outro homem em sua vida.
-Meu filho! O que voce acha disso? Ela tem o direito de fazer isso, eu tenho o direito de fazer isso. E não significa que ela vai te abandonar, ou eu deixarei de ser seu pai. Acredite que não existe ex pai, ou ex mãe, ou ex filho. Se quer morar comigo, eu falo com ela fica tranquilo, mas que não seja por ela se casar, porque mais dia menos dia, eu também farei isso.
"Até que seria bom Marina provar do próprio veneno, pois com a separação os privou do convívio diário. "
Ambos sabiam que a relação tinha acabado, mas a gota d'agua foi quando uma amiga intima de Angelo foi fazer uma visita surpresa . E foi mesmo um surpresa, pois Marina estava em casa neste dia. O que culminou com  com um impasse, ou terminavam aquele casamento, ou terminavam.
Dirigindo-se distraidamente até a sala de reuniões o rapaz dá um encontrão nela ... Foi papel voado por todo lado.
Profundamente irritado, ele mal consegue disfarçar.
- Desculpe a minha distração.
 A moça se abaixa para ajudar...
-Tudo bem, eu que vinha sem ver, estou atrasada. Voce sabe onde é a sala das reuniões?
Angelo a fita...
- Segue a direita, na terceira porta. Eu junto tudo aqui e logo vou também.
Disse Angelo sem reconhecer a própria vós, por alguma razão o sujeito estava sentindo-se um idiota.
- Ok. Obrigada e desculpe novamente.
E ela se foi...
Angelo juntou tudo e logo chegou atras.
O antigo diretor se despedia  e anunciava a nova direção ...
- ... Apresento-lhe sua nova diretora da folha da tarde,  senhorita Julia Barcellos.
E o coração do Angelo saltou.
Guerreira Xue /Hilda Milk                                              
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quarta-feira, 26 de março de 2014

ODE À PRIMAVERA

ODE À PRIMAVERA
A Madre Terra emprenhou,
numa divinal orgia,
um Deus Flor a fecundou,
com amor e fantasia,

e pariu a Primavera,
fruto divino e de amores
e, por graça da Quimera,
os seus filhos foram flores.

A Terra porque bondosa,
os seus filhos, logo amou
e, porque uma mãe vaidosa,
com eles se atapetou,

e, porque mãe diligente,
mui zelosa a procriar,
ao tapete deu semente,
p'ró Verão poder vingar.
Zé Loureiro
http://zemarquesdasminas.blogspot.com.br/
                       

O AMOR E O ÓDIO

O AMOR E O ÓDIO
Qual a distancia entre o amor e o ódio mesmo? Hoje conversando com um amigo, ele me disse que quem ama também odeia, será?!
Quem ama não se conforma, e acaba por destruir o sentimentos com a dominação, e o outro também o destrói pela submissão. Seria esta então uma tentativa de não mostrar fragilidade? 
Em minha modesta opinião, e é modesta mesmo, prefiro pensar que as pessoas não sabem amar. Acho menos triste, e algumas com o tempo até aprendem, sabe. Na maior parte do tempo são dois mundos construindo uma relação, e ou por excesso de orgulho de parte de um, ou por resignação por parte do outro cria-se o equivoco mais comum nas sociedades, a perda da identidade.
Na busca de nós mesmo, esbarramos nos outros e quase sempre são os nossos reflexos que nos empurram na direção contrária. Amor e ódio pode ser perto um do outro, mas entre um e o outro existe a amizade, o companheirismo, a fraternidade e o respeito .
Claro que a maioria segue acreditando em reencarnação, porque mesmo que viva um século inteiro ainda não descobriu o segredo do amor. E ai, a esperança é a próxima encarnação mesmo.
Guerreira Xue                           
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terça-feira, 25 de março de 2014

BOM DIA MEU AMOR...


-Bom dia preguiçosa...Quase hora do café! Disse-lhe aquela moça simpática enquanto abria as cortinas.
Ela olha em volta desconfiada e insegura.
-Bom dia senhora. Onde estou, voce pode me dizer?
-Claro que posso. A senhora está segura em sua casa, não se preocupe. Responde a outra sorrindo.
-Quer que eu ligue a televisão?
E sem esperar pela resposta ela ativa o monitor, e avisa que vai buscar a bandeja.
A senhorinha fica olhando para tela onde aparece um rosto tão familiar...
"Bom dia meu amor.  Gravei este vídeo para que voce pudesse me ver todos os dias e não esquecer de mim, de voce e de tudo que vivemos juntos. Bem, comecemos aqui. Meu nome é Rangel e me casei com voce Mariana, e nos casamos num dia frio de julho em 1960. te mostro a nossa foto de casamento aqui , veja."
E ele mostrava...
"Nós tivemos três filhos lindos. O Alberto, a Joana e a Lavínia. temos cinco netos...Olhe a sua volta e voce verá sua fotos espalhadas pelas paredes.de seu quarto.
O que eu quero na verdade é te dizer algo importante aqui. Eu te amo,  sempre te amei e provavelmente sempre vou amar.
Voce tem uma coisa que chama Alzheimer, e te faz esquecer quem voce é, e o que viveu, mas se depender de mim , vou te lembrar todos os dias, todas as horas. És a Mariana, a minha Mariana. Agora eu quero que me faça um favor, de aquele sorriso que adoro...Força!"
E quando a moça vem com a bandeja a encontra sorrindo.
-Mocinha, por acaso eu me chamo Mariana?
-Sim senhora, acertou em cheio!
-Sabe...Mesmo que não me chamasse, eu queria ser a Mariana do moço da televisão.
-E a senhora é mamãe, com toda certeza.
E o cafe transcorria calmo e harmonioso.
No dia seguinte...
"Bom dia meu amor. Gravei este vídeo para que voce pudesse me ver todos os dias e não esquecer de mim...
"Estima-se que existam no mundo cerca de 35,6 milhões de pessoas com a Doença de Alzheimer. No Brasil, há cerca de 1,2 milhão de casos, a maior parte deles ainda sem diagnóstico".
Guerreira Xue/Hilda Milk
                                   
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domingo, 23 de março de 2014

EU ME LEMBRO...

EU ME LEMBRO...
Eu me lembro de quando li pela primeira vez uma frase inteira. Me senti descobrindo o mundo pelas palavras de uma maneira  tão especial, e eu francamente não conseguia parar de folhear. E eram livros, jornais, revistas, a bíblia. E quando a professora me pedia para escrever uma pequena composição, eu não sabia. Risos...
Lembro também que não sabia que a minha mãe estava viva até ve-la novamente com sete anos sã e saudável. Adultos piedosos, e suas mentiras deslavadas.
Eu queria muito escrever, mas a porcaria das palavras simplesmente não saiam. Eu não tinha argumentos, não sabia falar sem me repetir, dizia o que não sabia, então por alguma razão, tudo que eu escrevia me parecia soar falso.
Eu me lembro do primeiro livro... Me lembro também que depois que terminava a leitura, não tinha com quem conversar sobre o assunto.
Me lembro de quando li maravilhada a constituição dos Estados Unido Da América. Pensava que como vivíamos a censura do militarismo no Brasil, um dia seriamos livres como eles. Mais risos...
Lembro dos meu irmãos e das artes que aprontávamos... Dos livrinhos de bolso, Tex, Rex e outros nomes de Cowboy que me esqueci agora.
Lembro também, quase me esquecia, dos quadrinhos da Disney, do Mauricio De Souza, dos Super Herois e eram Batman, Super Homem, Capitão America, homem elástico. etc, etc...
Lembro das revistas Claudia, Contigo, Seleções, Capricho, Cruzeiro, Sétimo Céu, Amiga, Manchete...
.Lembro de como foi difícil concluir...Os estudos. Queria ter sido engenheira agrícola.
Lembro dos livros guardados no sótão da casa de minha vó, improprio para menores, que ia surrupiando bem discretamente, e escondendo debaixo da cama.
Lembro da escola, dos colegas...figuras distantes e indiferentes. Acho que por não ter ficado parada lá e fixado residencia, estes foram sumindo naquilo que chamamos de amizade. Não perdurou infelizmente.
Hoje em meios a lembranças eu penso...
Lembro do medo, da solidão, do esquecimento, e fico a perguntar-me.
Será que alguém lembra de mim? Acho que não, era insignificante demais para ser lembrada.
Guerreira Xue
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