sábado, 31 de agosto de 2013

FRAPAU

FRAPAU
                                                               
Ele já foi índio
Já foi ave
Foi pequeno aprendiz
E também foi mestre
Já foi um anjo
Vagou em plena luz
Também foi amado
Foi odiado
Temido e abandonado
Virou um demônio
Rastejou pelas sombras
Era um Deus
Que num simples sopro
Virou um Diabo.
Ficou louco, e portanto
Internado.
Morreu
E outra vez foi ressuscitado
Depois de  recuperado
Dizemos bom dia
E damos boa noite
Hoje não é muita coisa
Talvez um sábio
Ou um condenado
Meu amigo de boa estatura.
Um ser humano, quem sabe...
Guerreira Xue
                                                                        Imagem  da Autora




quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A NETA DO MERCADOR

Ola leitores/escritores
A maior vergonha do mundo é a fome, pois é dela que nascem os escravos.

O pedaço mais impressionante de nossa história moderna foi o movimento que surgiu em função da abolição da escravidão no mundo entre o século  XVIII e XIX na Inglaterra. E como tal, este "fenômeno cultural" acontece culminando com o Iluminismo, sob o lema de liberdade, igualdade e fraternidade e teve quatro pilares de sustentação na época.
-A igreja teve a primeira reação partindo dos radicais Quakers em 1768 e a seguir os Anglicanos que além das petições ao parlamento de Londres, estes boicotaram os produtos feitos por escravos, fazendo com que mais de 300 mil pessoas deixassem de comprar o açúcar produzido pelas Índias orientais em protesto contra a escravidão.
-As mulheres que mesmo sem direito a voto, tinha suas sociedades e comitês próprios. A abolicionista mais radical era Elisabeth Heyrick, que, em 1824, publicou o panfleto Abolição Imediata e não Gradual..
-Iniciativa popular que pressionando o parlamento os abolicionistas entram com petições na câmara dos comuns. E foram em média 170 petições por ano entre 1788 e 1800 e só em 1800 chegaram a 900 perfazendo um total até 1833, fim da escravidão, de mais cinco mil petições e cada petição com milhares de assinaturas. Dizia-se que só em Manchester, 90% dos homens adultos chegaram a participar dos abaixo-assinados.

-Propaganda. Eram publicadas as plantas de navios negreiros em panfletos abolicionistas, expondo publicamente as ferramentas usadas para prender os negros no interior dos mesmos, correntes e ferros no pescoço. “Fator essencial para a fácil adesão de uma população horrorizada”.

Em minha opinião, a mudança se deu por motivos estritamente econômicos, como tudo que acontece nas sociedades.

Aquela negra era altiva, esbelta e se destacava entre a maioria da população, uma vez que era delicada e fina, e neta do pastor da comunidade local.
O seu nome era Akanki no idioma da Nigéria, porém por ser de difícil pronuncia, chamavam-na Gladis.
Quando ela apareceu pela primeira vez na cidade, pensavam ser só mais uma escrava, mas logo foi esclarecido que era neta de um dos homens mais ricos da cidade. É verdade que ele agora era um pastor temente a Deus, mas outrora havia sido um dos mais famosos mercadores de escravos da Inglaterra.
A moça viera para estudar, e arrumar marido, era o que diziam as "línguas" da cidade.

Os homens comentavam e lamentavam tal beleza não ser vendida. "Bem que seu peso poderia deixar o velho mercador mais rico do que já era."
A moça estudava com os melhores mentores da Inglaterra, e ainda assim era ignorada pela comunidade. Mas o abastado avô tanto fez que conseguiu apresenta-la a sociedade inglesa, levando-a a presença da rainha Vitória. Trocando em miúdos, tiveram mesmo que engolir a "negrinha", fazendo com que a população tratasse com devido respeito a sua exótica neta Gladis.
-Dizem que ela é princesa na África. Falavam  alguns...
-Já a vi nas noites de lua cheia, dançando em cima do telhado.
-Como assim, tu a viu no telhado! Será que era algum ritual?
-Sim, no telhado. Estes africanos são bichos, e sobem em qualquer altura.
Claro que com toda aquela imaginação fértil, ninguém percebeu que a moça  tinha ido resgatar o pequeno felino que estava apavorado no alto da torre da mansão.
-E aquelas visitas ao doc todas as quartas feiras? Se a mulher dele não voltar logo de Paris, não sei não.
-Lá vai ela... Veja aquelas roupas tão colorida.  Aqueles panos de cabeça!
Tão negra, que só se vê o branco dos dentes!

 Subindo a ladeira que dava para o consultório do doutor John Smith ela pressentia os olhares e mexericos a suas costas. Akanki sabia que a achavam estranha, e entendia isso, pois ela própria se sentia deslocada. "Essa cidade é de gente muito branca e muito fria." E as vezes quietinha e sozinha em seu quarto escuro, ela chorava de saudades de seu povo. Lembrava-se da despedida da mãe. e aquele fora o último abraço amoroso que ganhara.
Prometera-lhe aos prantos, que assim que se formasse, ia voltar.
Chegando ao consultório médico.
-Bom dia Doc!
-Bom dia Akanki! Disse ele sem levantar os olhos. - Já te atendo, um minuto por favor.
-Sem pressa hoje.
Ela achava interessante o consultório de Jonh. Cheio de móveis e tudo muito limpo e branco, como se nunca ninguém entrasse lá.
Dava até pena sentar naquelas cadeiras tão brilhantes e de almofadas fofas.
Todos eram ricos neste lugar. Parecia mesmo outro mundo.
-Como está seu avô hoje?
-Está bem, só velho mesmo. Ele sente muito frio. Tiro-lhe para tomar sol todos os dias, estou lendo outro livro para ele esta semana. William Makepeace, já o leste?
-Sim. Foi uma leitura quase obrigatória, uma vez que todos o aplaudiam de pé, com o seu Vanity Fair. Risos...
- Achei estranho não haver herói como todo mundo gosta, sabe. Mas estou gostando...
-Vou trazer o preparado do seu avô só um momento, por favor. E lá ele pegava os preparados do vovô.
E era assim todas as quartas feiras... O único que era mais gentil com ela era Doc, então ela se arriscava a conversar um pouco mais, pois o considerava um amigo e ainda a tratava pelo seu nome de origem.
-Sua esposa volta quando?
- Não volta, se eu continuar a mandar-lhe dinheiro.
-Não sente falta dela Doc?
-Nenhuma, felizmente. Queria uma esposa que me gostasse, o que não é o caso dela. Casamos porque, eu queria o emprego aqui, e ela queria o dinheiro. Um acordo tácito que me pareceu ser o melhor para ambos.
Assim que assumi os trabalhos aqui, ela fez "cena" por uns meses e se foi para Paris, gozar a vida.
Eu precisava ser casado para o cargo sabe? Então unimos o útil ao agradável.
- Mas uma hora tu vai querer filhos, como vai fazer? Vai chama-la e negociar isso também? Os dois se riram juntos da ideia...
Isto estava ficando perigoso. Os dois se riam muito juntos... Dizem que nos apaixonamos por aqueles que nos fazem rir. Pois foi exatamente isso que houve com estes dois, e ambos não faziam absolutamente nada para mudar rumo da coisa.
E ela dizia.
-Nossa tu é tão branco! Risos... Ao que ele respondia.
-Nossa tu é tão negra! Mais risos...

Gladis ou Akanki como preferirem, viveu 10 anos na casa do avô, e já havia se formado até então, mas o avô necessitava de cuidados e ela resolveu ficar mais. E foi só quando o velho mercador veio a falecer, que a moça retornou a seu país de origem. Também não levou mais que seis meses e Doc se divorciou da tal esposa fantasma, e seguiu para trabalhar na Nigéria.
Como queria dizer que a união amorosa entre as raças resolve o problema de preconceitos raciais no mundo, eu que a mágica dos sentimentos é capaz ultrapassar barreiras milenares de uma cultura caduca que insiste em sobreviver em nossos dias. Mas que é preciso coragem para assumir isso, e provar que o sentimento não tem cor, tamanho ou valor monetário, isso é!

Obs: O primeiro país a abolir a escravidão foi a Dinamarca, em 1792, mas a lei só entrou em vigor em 1802. E os últimos dois a abolir a mesma foram Cuba (1886), e o Brasil (1888). A escravidão foi adotada e abandonada várias vezes, desde as mais antigas civilizações, e ainda hoje, segundo militantes dos direitos humanos, existe cerca de 25 milhões de escravos no mundo, principalmente na África, onde apesar da servidão ter sido abolida três vezes na Mauritânia, a última em 1980, pois de acordo com grupos cristãos a prática se dá pelo domínio de uma elite muçulmana sobre os negros nativos.

Resumindo, a escravidão continua a existir, e é uma realidade.
Guerreira Xue/Hilda Milk
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                                                               Imagem Net

ps.
"Akanke" significa encontrando-a, é para ama-la. Nome Ioruba -Nigeria-Africa Ocidental.

TODOS OS DIAS, TUDO IGUAL

 ... Todos os dias no mesmo horário, ela atravessava as ruas da cidade, para chegar na estação e olhava sempre para a mesma janela, da mesma casa,
talvez esperando ver alguém. Nunca aparecia ninguém. Ela então continuava seu caminho pensativa, até que um dia...
 Sua bicicleta quebrou e a menina teve que voltar para casa, perdendo a hora da estação...Andava mesmo cansada daquela rotina.
Sua mae, uma senhora que adorava fritar bolinhos todas as tardes, disse-lhe de chegada, que tinha uma correspondencia para ela.
 Ao ler o telegrama a menina levou o maior susto. Precisou sentar-se na cama e colocou a mão no coração, como para acalmá-lo.
 Seu pai preocupado, sentou-se ao seu lado e, procurou apazigua-la.

Pegando o telegrama das mãos da filha o velhote quase engasga ao ler, pois sua filha estava sendo notificada que a madrinha,
que tinha falecido há quase seis meses, deixara seu legado todo para afilhada.
-Meu Deus, voce está rica filha!!!
 Mas Renata era, por natureza, desconfiada. Leu de novo o telegrama e pegou o telefone para ligar para o número que constava no texto.
Atendeu uma voz forte que disse-lhe haver um horário naquela mesma tarde para recebê-la. Seu pai ficou muito entusiasmado e a mãe, parando de fritar
os bolinhos, sorriu já imaginando o que fazer com a dinheirama. Renata arrumou-se com esmero e foi ao endereço indicado. Qual não foi sua surpresa ao se deparar com Ricardo.
 Ricardo era sobrinho da madrinha de Renata, que ao comprimenta-la foi extremamente rude.
-Então é voce que minha tia contemplou é? Se pensa que vai levar o que é meu por direito, voce está enganada mocinha!
Sem entender nada, Renata fica vermelha e calada.
Aquilo que parecia tão fácil antes, agora já se complicava.
Uma vez todos presentes na suntuosa sala dos advogados, começam a leitura do testamento da madrinha falecida. Depois de toda a leitura ,veio a divisão dos bens e uma clausula final.
"Para que meu sobrinho Ricardo e minha afilhada Renata recebam tudo que lhe foi destinado,
terão de ser casar e permanecer casados por pelo menos 5 anos. Se assim não acontecer, será aberto meu segundo testamento, onde relaciono as entidades sociais que se beneficiarão de meus bens patrimoniais."

Meu Deus! - disseramos dois em uníssono. Ficaram atônitos. Mal acabaram de se conhecer e já teriam que se casar?
E ficar casados por cinco anos? O pai de Renata ficou estupefato e não conseguiu emitir sequer um som. Todos ficaram mudos olhando de um para o outro. Então Renata pediu para o tabelião ler novamente a cláusula e ele o fez. Ela então, olhando direto para os olhos de Ricardo, disse irritada:
 -Ficamos os dois então, sem porcaria de herança alguma ok! E feito aquelas damas de cinema antigo, ela levanta-se dando por encerrada a reunião.
-Boa tarde a todos! Vamos papai.
Muito a contra gosto, Ricardo podera:
-Espere, faz favor.
 A moça vira-se lentamente...
-Acho que começamos com o pé esquerdo. Peço desculpas pela minha grosseria de antes. Estava revoltado, pois tinha certeza que era seu único herdeiro.
E agora mais isso... Como vamos nos casar, se nem sequer sabiamos da existencia um do outro?

 - Olha, tem um jeito de tentarmos resolver isso. A gente tem um tempo e este tempo podemos utilizar para nos conhecermos melhor. O que você me diz?
- Digo que ainda estou muito distante de pensar em me tornar noiva, o que dirá casada!
 Mas tudo bem, a gente pode se conhecer melhor, mas sem compromisso, por enquanto, combinado?
- Combinado! - respondeu Ricardo com seu melhor e mais sedutor sorriso, já antevendo os prazeres daquela obrigação.
Então, o pai de Renata chegou perto do casal e disse:

- Voces são adultos e eu espero sinceramente, que sejam coerentes quanto a esta situação estapafurdia.
Amélia, sua madrinha, era uma romantica incorrigível, mas isso ultrapassou ao limite do bom senso. E dirigindo-se aos advogados:
-Este testamento pode ser contestado? Eles podem alegar a insanidade mental de Amélia?
-Podem sempre contestar sim, mas acho pouco provável que ganhe. Além do que, uma das testemunhas é seu médico, que pode atestar as plenas faculdades de sua paciente.
E perdendo o processo, os dois ainda vão perder tempo, pois o tempo estipulado para os dois resgatarem a herança é de 5 anos e meio.
Do contrário, tudo irá para a caridade.
-Tudo??
-Tudo. E uma vez casados vão morar na mansão e terão direito a uma quantia mensal, produto das empresas e mineradoras.
Ambos também vão, imediatamente ser adimitidos para aprender como estas funcionam... terão treinamento em todos os segmentos para quando assumirem, em cinco anos estejam preparados.

- Mas eu nem estou na faculdade ainda! - Renata não sabia nem em que pensar.
- Terá tempo para isso. - respondeu o tabelião.
- E eu posso ajudá-la. Estou no último ano da Faculdade de Economia. Retruca Ricardo.
- Bem, mas ainda tenho uma dúvida. Quem vai administrar a "nossa" fortuna enquanto não pudermos assumir? - perguntou Renata franzindo a testa.
- Um conselho de administração liderado pelo Dr. Alberto Cerqueira.
- E quem seria ele? - perguntou o pai de Renata.
- Eu... - respondeu um senhor altivo com cara de poucos amigos.
- E que ligação o senhor tem com a Amélia? Ou melhor dizendo, tinha?

-Além de seu tabelião, fui seu advogado por quase 20 anos e antes disso meu pai o foi. Portanto serei seu advogado até que esta questão esteja resolvida.
 Porém se quiser consultar a outros colegas, fiquem a vontade.
 O senhor Ricardo já é maior de idade, portanto pode assumir funções, mas ambos ainda terão de estagiar em todos os setores.
Não se preocupem, as empresas andam praticamente sózinha a quase 7 anos.
Dona Amélia sempre dirigiu tudo de forma muito inteligente e precisa. Se cercava de gente competente, e de dois em dois anos ela contratava uma empresa diferente para uma auditoria geral. Tem um conselho administrativo que faria inveja a um Rockefeller, portanto está tudo bem guarnecidos

-Bem, acho que não nos resta outra saída a não ser aceitar as condições de minha tia. Disse Ricardo olhando sua "noiva". "Agora só falta saber o que farei com a Cíntia." . Pensou em sua namorada linda, charmosa e engraçada. "O que ela vai achar de se tornar minha amante?"
-Tenho quase dezoito anos e nenhuma experiência de vida. Nem sei se você é desimpedido ou o que faz na vida. Concordo em me casar com você, mas antes quero conhecer você, saber do que gosta, por onde anda... Enquanto isso, vamos preparando o casamento. Quero uma festa bonita, mas íntima.
E quero me casar na igreja, com tudo o que tenho direito. Como farei dezoito anos em agosto, daqui a quatro meses, proponho nos casarmos no dia do meu aniversário. Concorda?
-Bem, minha vida é um livro aberto e não tenho nada a esconder. Portanto concordo com tudo, inclusive com a data do nosso casamento.
- Outra coisa, tenho mais uma condição, mas só a direi a você. É uma condição pessoal.
- É algum problema, minha filha?
- Nenhum que eu queira compartilhar com tanta gente papai. Mas não se preocupe, ok?

Ao se despedirem todos, marcaram um novo encontro a sós, Ricardo e Renata.
Tinham que além de se conhecerem, forçarem uma intimidade que não tinham. "Realista, tenho que ser realista".
-Só dizer onde e quando. Respondeu Ricardo.
-No parque dos lagos as 16:00 amanhã, está bem para voce?
Claro que estava...Era melhor decidir aquilo e logo.
No dia seguinte.
-Comecemos então...Se vamos nos casar. Meu Deus!!! Vou casar por dinheiro.
- Não diga assim, faz favor. Voce tem namorado?
-Não tenho e tenho...Ai,  sei lá...Gosto de um garoto ai. As vezes saimos, mas nada sério. E voce?
Tenho Cintia estamos juntos tem dois anos... Sabe o curioso disso? Tia Amélia a conhecia. Contei-lhe tudo sobre o testamento ontem a noite.
-E ela concordou!?
-Ela disse que eu e voce que tinhamos que resolver isso. Perder este patrimonio todo seria, um verdadeiro desperdício.
-Ela vai concordar em ser sua amante então, se decidirmos casar.
Confuso com a franqueza de Renata e rapaz retruca.
-Concordaria voce, se casar comigo sabendo da existencia dela?
-Pensando assim, eu percebo que minha madrinha nos arranjou um bocado de dor de cabeça. Quero ser franca com voce e gostaria o mesmo de sua parte.
Viver sobre o mesmo teto pode ser difícil para quem se ama, e nós não nos amamos, mas se nos respeitarmos, quem sabe. Podemos ser amigos e seguiremos
algumas normas de boa convivência, e não quero me sentir obrigada a ser sua esposa de fato.
Casar e morar junto nem sempre significa sexo ou afeto. Não somos crianças e podemos firmar um acordo aqui. Voce fica com sua mulher, discretamente claro,
pois temos que convencer os "advogados",  e eu também vivo minha liberdade. Serão 5 anos e meio.
Desanimada ela emenda:
-Oxalá consigamos esta façanha.

-Sabe, você é uma mocinha encantadora. Estou muito admirado de sua maturidade. Vou pensar nisso e conversar com você depois, pode ser?
-Claro! Acho que agora somos amigos, não é?
-Sim, amigos...
E assim foi. Ricardo e Renata casaram-se em agosto, no dia do aniversário dela. Foi uma festa íntima, mas de muito bom gosto. Passaram a Lua de Mel em Paris,
já que nenhum do dois conhecia esta cidade. A viagem acabou sendo muito divertida para ambos. Enfim, as férias acabaram e eles retornaram à sua realidade e
à herança que os esperava. A amizade se solidificou e passaram a contar muito um com o outro. Intimidades? Bem... Só o futuro dirá.

Guerreira Xue /Suzana Palanti 

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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A ESCOLHIDA


Otavio estava desesperado... Ia perder a esposa por causa de uma vacilada, mais uma... "Merda"! E agora o que ia. "Justo agora, que a vida lhe parecia tão boa".
Separar à estas alturas, nem pensar! Quase trinta anos de casado. Sessenta e poucos anos... Sem emprego. "Agora fodi minha vida de vez, caralho”!
Eliana e Otavio estavam juntos mais de 3 anos e ela nunca o tinha visto tão transtornado.
-Me explica isso direito querido. Ao que o homem retruca:
-Ela nos viu juntos ontem. Claro que entendeu tudo. Vim para te dizer que a nossa história mudou a partir de hoje. Sem ter como ajuda-lo Eliana propõe:
 Está bem, vamos nos afastar, já que não posso te ajudar, não vou te atrapalhar. Não posso e nem tenho direito de interferir na sua vida.
-Seremos amigos está bem?
-Amigos! Como vamos ser amigos a estas alturas Otávio?
Otávio pareceu decepcionado num primeiro momento. "Mais isso agora!"
-Fique calmo e conte-me o que houve está bem?
Quando cheguei em casa ontem, ela tinha se ido, sabe Deus para onde, juntou umas roupas e se foi,  e agora ninguém me conta. Já a procurei por todo canto, deve star escondida na casa da mãe.
Eliana foi se encolhendo por dentro. Era chegada, ela sabia instintivamente, a hora da escolha.
-Ela deve estar precisando de tempo, precisando pensar. Diz a moça.  -Por favor, não se preocupe tanto, ela volta, e voces se entendem. "Como não tinha percebido antes, ele nunca vai me assumir”.  E Eliana o amava tanto. Despediram-se ...
Passou-se uma semana, passou duas...
Eliana nem dormia direito, tal a preocupação com Otávio.
Tentava ligar-lhe, e ele não tendia, mandava torpedo, SMS e nada de receber resposta.
Até que um dia encontram-se, e ele disse-lhe sem muitos preâmbulos:
 - Por favor, não me liga mais, e não me procura, porque não te quero mais. Na minha vida não tem mais lugar para voce.

Guerreira Xue/ Hilda Milk
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ANOS

Quantos verões já se passaram
Quantos amores nunca chegaram
Quantos invernos sem ter neve
 E tantas dores em nós marcaram

Quantas flores em sereno molhado
Quanto silencio na morte da mulher
Quantos suspiros do homem amado
E tanta saudade para remoer

Quantas crianças perdidas na terra
Quanto sol na roupa do varal
Quantos rumores em tiros de guerra
E tanta chuva no dia de temporal

São noites e são dias
Com incontáveis gostos e sabores,
São ristezas e são alegrias
Mesclando escuridão, luzes e cores
Guerreira Xue

                                                      Imagem Antonio Fazendeiro                                         

terça-feira, 27 de agosto de 2013

MARIALVA

Irritada com o frio, e sem muita alternativa Joana ia ter que encarar uma viagem de 18 horas dentro de um coletivo que seguia de São Paulo para o Rosário Do Sul. Então munida de muita roupa e um livro do Saramago, o dia da morte de Ricardo Reis, ela  não muito conformada dirigia-se a estação rodoviária. “Que porcaria”!
A tia estava doente e pediu que Joana fosse, e tinha como negar isso? Pois a tia Maria era idosa e Joana adorava aquela velhinha, alias Joana só tinha duas tias por parte de pai, ainda vivas. Estavam no meio do ano e sem muito dinheiro para custear avião e ônibus e mais taxi, teve mesmo é que ir de ônibus, porque pagava uma coisa só e chegava claro, só que demorava um bocado mais também.

Agora que estava a caminho a moça respirou aliviada. E já abrindo seu livro  quando ouviu a voz a seu lado.
-Ainda bem que o tempo está bonito, não?
Acenando positivamente Joana nem se dignou a olha-la, e continuou com a leitura. Sem se fazer de rogada a moça estendeu a mão para cumprimentá-la.
-Me chamo Marialva, muito prazer!
Beirando as lágrimas Joana pensou desconsolada: "Isso vai ser uma longa viagem". E forçando um sorriso, ela a cumprimentou também.
-Igualmente Marialva. Marialva esperava que ela dissesse seu nome e ela sabia disso, mas não disse. Continuando a olhar para o livro, e já com pouca esperança, Joana retoma a leitura, só para contrariar. Sua companheira de viagem era barulhenta, e logo estava mastigando biscoitos e bebendo ou suco ou água. Sem jeito para se concentrar na leitura Joana resolveu apreciar a paisagem enquanto ainda era dia. Marialva carregava uma mala térmica que, provavelmente era mais pesada que a bagagem de roupas. Risos...
Após rejeitar, agradecendo seu oferecimento de juntar-se a ela na comilança Joana liga os fones ao radio celular, e encerra de vez o contato imediato.Não demorou muito e ela cochilava ...Sabe aquela coisa mole e gostosa! Estava sonhando penso eu, e  adivinha? Dona coisinha a chamava, para perguntar-lhe se ia descer para jantar.
-Claro... Obrigada por me acordar!
Disse-lhe mal conseguindo se conter. Sentaram juntas no restaurante, e em dado momento Joana não se conteve, e perguntou-lhe:
-Onde tu vai descer Marialva?
-Vou até Uruguaiana e tu?
-Desço em Rosário Do Sul. Responde Joana desolada. Ia ter que atura-la então, pois Uruguaiana era depois de sua parada...
O bom é que Marialva conversava sozinha mesmo, Joana dava aquele sorrisinho "congelado", acenava positivamente quando conveniente ou negativamente, e a viagem foi indo... Quando finalmente as luzes se apagaram e todos pareciam dormir, a matraquenta silenciou e Joana também adormeceu.
Era madrugada ainda e o ônibus estava parado na rodovia. Um caminhão havia tombado na pista. Mais atrasos...
Depois de fazer sua higiene  Joana pega seu livro e começa a leitura deslizando mansamente para o mundo da literatura.
-Puxa vida ainda estamos aqui! Joana finge nem ser com ela o assunto. Nervosa, Marialva retruca.
- Tu deve gostar muito de ler hein! Prefere a companhia dos livros a das pessoas...
Joana se irrita visivelmente...
- Tu precisa de alguma coisa Marialva?
-Não, claro que não. Só esperava que fôssemos mais cordiais, uma vez que viajamos juntas tem mais de dez horas. Abismada Joana olha para a mulher como se a visse pela primeira vez.
-Que quer dizer? Já conversamos muito, e desde que entrei neste coletivo, nem deixa-me respirar, esta sempre querendo conversa e, sinto-me como se fosse obrigada a dar-lhe atenção
.-Áh muito obrigada por isso! Nem teu nome tu  se dignou a me dizer! Olhavam-se com raiva, até que... Explodiram em risadas...
-Ok ok. Talvez eu tenha sido descuidada quanto a isso, me desculpe. Chamo-me Joana, muito prazer. E ela estendeu a mão sorrindo abertamente, pela primeira vez.
Na cabeça de Marialva era impossível alguém preferir ler, do que conhecer pessoas. "moça estranha!”
-A posto que as histórias de pessoas reais são muito melhores que estas baboseiras dos livros.
-Não gosta de livros Marialva?
-Não gosto, nem desgosto. Só não os leio.
Joana não ficou surpresa, pois sabia que a maior parte dos brasileiros não tem habito de leitura.
-Olha eu não sou boa de conversa, mas sou boa ouvinte. E quero uma boa historia real agora, portanto capriche. Disse Joana em tom de desafio enquanto guardava seu livro.
Atarantada Marialva retruca:
- E por onde eu começo?
-Pelo principio. De onde tu é?
Nasci no município de Queimadas na Bahia. Vim morar em São Paulo já casada com o "estrupício" do meu ex marido...Tenho três filhos  e tenho netos também, que amo de paixão.
-Seus familiares ainda moram lá?
-Alguns, meus pais já morreram... Meu pai morreu primeiro, pois era muito mais velho que a minha mãe. Era um mestiço de português com árabe, raça ruim mesmo!
Sabe que o povo de lá, era na maioria miserável. Então quem tinha muitos filhos e não podia cria, distribuía para quem tinha condições. E às vezes nem eram aquelas "condições". Se tiverem comida para alimentar o pequeno, já bastava para ser presenteado com um "enjeitadinho".
-Isso aconteceu com sua mãe?
-Sim e ela ainda foi criada por um casal e quando ela cresceu um pouco, o homem não queria que ela pedisse-lhe a benção, e sim que deitasse com ele.
E assim foi... Minha mãe teve quatro filhos, e todos os quatros foram distribuídos, incluindo eu.
-Por quê?
-Vou saber? Meu pai era velho, não podia sustentar todos, era um preguiçoso, e minha mãe coitada, não podia dizer nada, não tinha trabalho, e ela também não sabia fazer nada. Eram outros tempos aqueles...
Joana ficou muda, escutando aquela história que mais parecia um dos personagens de vidas secas.
-E minha mãe cuidou da mulher dele, do meu pai, até ela ficar velhinha e morrer, pensa isso!
O meu pai era um vendedor de porta em porta sabe, e minha mãe sempre o acompanhava. E eu me lembro como se fosse hoje,  quando eles passavam na frente da casa da mulher onde eu fui criada. Eu gritava e chorava, implorava para me levarem com eles. Até hoje não consigo esquecer aquele sentimento de abandono.
Como para interromper a comoção de Marialva, Joana pergunta:
-Então voce já grandinha quando eles te "deram"?
-Eu tinha cinco anos. Minha sorte que a mulher que me criou, foi muito boa e me ensinou dignidade, me fazia trabalhar desde pequena.
Tanto que nunca deixei faltar nada para os meus filhos.
Voltando aos meus pais... Quando a minha mãe teve sua ultima filha, ela achava que o velho ia criar este, ele prometera, pois só havia os dois em casa agora.
Pois o infeliz deu um jeito, e desapareceu com a pequena sem ela saber. Foi ai que ela perdeu o juízo de vez. Os olhos de Marialva brilhavam...
 Éramos todos grandes já quando ela morreu. Uma história triste, não? Pois tem aos montes destas, espalhadas pelo sertão mocinha, todas muito reias e a maioria sem finais felizes.
Todos nós carregamos marcas de um passado, pesado, doido e dilacerado.
Por isso que tive que largar o cretino do meu marido, acredita! Ele sabia de minha história,  só  achava que podia usar isso para me diminuir na sua presença. A gota d'agua foi quando pensou que podia me bater.
Como tu vê Joana, temos passado e não negamos, mas temos presente também. E hoje não somos mais crianças.
-É verdade Marialva. E os teus irmãos mantém contato então?
-Sim... Falamo-nos e visitamo-nos com frequência. Respondeu sorrindo.
-Que coisa essa tua vida mulher! Que bom que superaram tudo e tocaram em frente. E quer saber, fico admirada mesmo, pois juntar pedaços de vida espalhados é muito difícil no entanto vocês parecem ter conseguido quando parecia mais fácil não fazer e continuar sofrendo por coisas do passado.
Quando criança não há muita opção pois dependem dos adultos, mas todos crescem e viram adultos...
Joana realmente não pegou mais o livro durante aquela viagem. E quando chegaram a Rosário ambas trocaram telefones, emails e despediram-se como se fossem velhas amigas.
- Na próxima vez, quero ouvir a "sua história" Jô!
- A minha é muito sem graça Marialva!
E Marialva tornou-se inesquecível.
Guerreria Xue/Hilda Milk


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

NOTURNO

Noturno                                                                          

Um dia quando se achar
Vamos nos encontrar...

Toda noite ele vagueia,
Numa profunda solidão
Até que alguém o descubra.
Ou roube o seu coração

Será isso o barulho do vento?
Ou será a brisa?
É o triste corvo negro
Que agora jaz no esquecimento

E quando o sol que nasce
O agorento maldito se esconde
Tem medo da luz
E não existe quem o abrace

E para aliviar sua escura alma
Terá de tirar a pintura de guerra
E vestir-se da cor da paz.
Mostrar a sua palma

É hora de mudar
Buscar o calor e o aconchego
E no afeto fraterno repousar

Guerreira Xue


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