quinta-feira, 29 de agosto de 2013

TODOS OS DIAS, TUDO IGUAL

 ... Todos os dias no mesmo horário, ela atravessava as ruas da cidade, para chegar na estação e olhava sempre para a mesma janela, da mesma casa,
talvez esperando ver alguém. Nunca aparecia ninguém. Ela então continuava seu caminho pensativa, até que um dia...
 Sua bicicleta quebrou e a menina teve que voltar para casa, perdendo a hora da estação...Andava mesmo cansada daquela rotina.
Sua mae, uma senhora que adorava fritar bolinhos todas as tardes, disse-lhe de chegada, que tinha uma correspondencia para ela.
 Ao ler o telegrama a menina levou o maior susto. Precisou sentar-se na cama e colocou a mão no coração, como para acalmá-lo.
 Seu pai preocupado, sentou-se ao seu lado e, procurou apazigua-la.

Pegando o telegrama das mãos da filha o velhote quase engasga ao ler, pois sua filha estava sendo notificada que a madrinha,
que tinha falecido há quase seis meses, deixara seu legado todo para afilhada.
-Meu Deus, voce está rica filha!!!
 Mas Renata era, por natureza, desconfiada. Leu de novo o telegrama e pegou o telefone para ligar para o número que constava no texto.
Atendeu uma voz forte que disse-lhe haver um horário naquela mesma tarde para recebê-la. Seu pai ficou muito entusiasmado e a mãe, parando de fritar
os bolinhos, sorriu já imaginando o que fazer com a dinheirama. Renata arrumou-se com esmero e foi ao endereço indicado. Qual não foi sua surpresa ao se deparar com Ricardo.
 Ricardo era sobrinho da madrinha de Renata, que ao comprimenta-la foi extremamente rude.
-Então é voce que minha tia contemplou é? Se pensa que vai levar o que é meu por direito, voce está enganada mocinha!
Sem entender nada, Renata fica vermelha e calada.
Aquilo que parecia tão fácil antes, agora já se complicava.
Uma vez todos presentes na suntuosa sala dos advogados, começam a leitura do testamento da madrinha falecida. Depois de toda a leitura ,veio a divisão dos bens e uma clausula final.
"Para que meu sobrinho Ricardo e minha afilhada Renata recebam tudo que lhe foi destinado,
terão de ser casar e permanecer casados por pelo menos 5 anos. Se assim não acontecer, será aberto meu segundo testamento, onde relaciono as entidades sociais que se beneficiarão de meus bens patrimoniais."

Meu Deus! - disseramos dois em uníssono. Ficaram atônitos. Mal acabaram de se conhecer e já teriam que se casar?
E ficar casados por cinco anos? O pai de Renata ficou estupefato e não conseguiu emitir sequer um som. Todos ficaram mudos olhando de um para o outro. Então Renata pediu para o tabelião ler novamente a cláusula e ele o fez. Ela então, olhando direto para os olhos de Ricardo, disse irritada:
 -Ficamos os dois então, sem porcaria de herança alguma ok! E feito aquelas damas de cinema antigo, ela levanta-se dando por encerrada a reunião.
-Boa tarde a todos! Vamos papai.
Muito a contra gosto, Ricardo podera:
-Espere, faz favor.
 A moça vira-se lentamente...
-Acho que começamos com o pé esquerdo. Peço desculpas pela minha grosseria de antes. Estava revoltado, pois tinha certeza que era seu único herdeiro.
E agora mais isso... Como vamos nos casar, se nem sequer sabiamos da existencia um do outro?

 - Olha, tem um jeito de tentarmos resolver isso. A gente tem um tempo e este tempo podemos utilizar para nos conhecermos melhor. O que você me diz?
- Digo que ainda estou muito distante de pensar em me tornar noiva, o que dirá casada!
 Mas tudo bem, a gente pode se conhecer melhor, mas sem compromisso, por enquanto, combinado?
- Combinado! - respondeu Ricardo com seu melhor e mais sedutor sorriso, já antevendo os prazeres daquela obrigação.
Então, o pai de Renata chegou perto do casal e disse:

- Voces são adultos e eu espero sinceramente, que sejam coerentes quanto a esta situação estapafurdia.
Amélia, sua madrinha, era uma romantica incorrigível, mas isso ultrapassou ao limite do bom senso. E dirigindo-se aos advogados:
-Este testamento pode ser contestado? Eles podem alegar a insanidade mental de Amélia?
-Podem sempre contestar sim, mas acho pouco provável que ganhe. Além do que, uma das testemunhas é seu médico, que pode atestar as plenas faculdades de sua paciente.
E perdendo o processo, os dois ainda vão perder tempo, pois o tempo estipulado para os dois resgatarem a herança é de 5 anos e meio.
Do contrário, tudo irá para a caridade.
-Tudo??
-Tudo. E uma vez casados vão morar na mansão e terão direito a uma quantia mensal, produto das empresas e mineradoras.
Ambos também vão, imediatamente ser adimitidos para aprender como estas funcionam... terão treinamento em todos os segmentos para quando assumirem, em cinco anos estejam preparados.

- Mas eu nem estou na faculdade ainda! - Renata não sabia nem em que pensar.
- Terá tempo para isso. - respondeu o tabelião.
- E eu posso ajudá-la. Estou no último ano da Faculdade de Economia. Retruca Ricardo.
- Bem, mas ainda tenho uma dúvida. Quem vai administrar a "nossa" fortuna enquanto não pudermos assumir? - perguntou Renata franzindo a testa.
- Um conselho de administração liderado pelo Dr. Alberto Cerqueira.
- E quem seria ele? - perguntou o pai de Renata.
- Eu... - respondeu um senhor altivo com cara de poucos amigos.
- E que ligação o senhor tem com a Amélia? Ou melhor dizendo, tinha?

-Além de seu tabelião, fui seu advogado por quase 20 anos e antes disso meu pai o foi. Portanto serei seu advogado até que esta questão esteja resolvida.
 Porém se quiser consultar a outros colegas, fiquem a vontade.
 O senhor Ricardo já é maior de idade, portanto pode assumir funções, mas ambos ainda terão de estagiar em todos os setores.
Não se preocupem, as empresas andam praticamente sózinha a quase 7 anos.
Dona Amélia sempre dirigiu tudo de forma muito inteligente e precisa. Se cercava de gente competente, e de dois em dois anos ela contratava uma empresa diferente para uma auditoria geral. Tem um conselho administrativo que faria inveja a um Rockefeller, portanto está tudo bem guarnecidos

-Bem, acho que não nos resta outra saída a não ser aceitar as condições de minha tia. Disse Ricardo olhando sua "noiva". "Agora só falta saber o que farei com a Cíntia." . Pensou em sua namorada linda, charmosa e engraçada. "O que ela vai achar de se tornar minha amante?"
-Tenho quase dezoito anos e nenhuma experiência de vida. Nem sei se você é desimpedido ou o que faz na vida. Concordo em me casar com você, mas antes quero conhecer você, saber do que gosta, por onde anda... Enquanto isso, vamos preparando o casamento. Quero uma festa bonita, mas íntima.
E quero me casar na igreja, com tudo o que tenho direito. Como farei dezoito anos em agosto, daqui a quatro meses, proponho nos casarmos no dia do meu aniversário. Concorda?
-Bem, minha vida é um livro aberto e não tenho nada a esconder. Portanto concordo com tudo, inclusive com a data do nosso casamento.
- Outra coisa, tenho mais uma condição, mas só a direi a você. É uma condição pessoal.
- É algum problema, minha filha?
- Nenhum que eu queira compartilhar com tanta gente papai. Mas não se preocupe, ok?

Ao se despedirem todos, marcaram um novo encontro a sós, Ricardo e Renata.
Tinham que além de se conhecerem, forçarem uma intimidade que não tinham. "Realista, tenho que ser realista".
-Só dizer onde e quando. Respondeu Ricardo.
-No parque dos lagos as 16:00 amanhã, está bem para voce?
Claro que estava...Era melhor decidir aquilo e logo.
No dia seguinte.
-Comecemos então...Se vamos nos casar. Meu Deus!!! Vou casar por dinheiro.
- Não diga assim, faz favor. Voce tem namorado?
-Não tenho e tenho...Ai,  sei lá...Gosto de um garoto ai. As vezes saimos, mas nada sério. E voce?
Tenho Cintia estamos juntos tem dois anos... Sabe o curioso disso? Tia Amélia a conhecia. Contei-lhe tudo sobre o testamento ontem a noite.
-E ela concordou!?
-Ela disse que eu e voce que tinhamos que resolver isso. Perder este patrimonio todo seria, um verdadeiro desperdício.
-Ela vai concordar em ser sua amante então, se decidirmos casar.
Confuso com a franqueza de Renata e rapaz retruca.
-Concordaria voce, se casar comigo sabendo da existencia dela?
-Pensando assim, eu percebo que minha madrinha nos arranjou um bocado de dor de cabeça. Quero ser franca com voce e gostaria o mesmo de sua parte.
Viver sobre o mesmo teto pode ser difícil para quem se ama, e nós não nos amamos, mas se nos respeitarmos, quem sabe. Podemos ser amigos e seguiremos
algumas normas de boa convivência, e não quero me sentir obrigada a ser sua esposa de fato.
Casar e morar junto nem sempre significa sexo ou afeto. Não somos crianças e podemos firmar um acordo aqui. Voce fica com sua mulher, discretamente claro,
pois temos que convencer os "advogados",  e eu também vivo minha liberdade. Serão 5 anos e meio.
Desanimada ela emenda:
-Oxalá consigamos esta façanha.

-Sabe, você é uma mocinha encantadora. Estou muito admirado de sua maturidade. Vou pensar nisso e conversar com você depois, pode ser?
-Claro! Acho que agora somos amigos, não é?
-Sim, amigos...
E assim foi. Ricardo e Renata casaram-se em agosto, no dia do aniversário dela. Foi uma festa íntima, mas de muito bom gosto. Passaram a Lua de Mel em Paris,
já que nenhum do dois conhecia esta cidade. A viagem acabou sendo muito divertida para ambos. Enfim, as férias acabaram e eles retornaram à sua realidade e
à herança que os esperava. A amizade se solidificou e passaram a contar muito um com o outro. Intimidades? Bem... Só o futuro dirá.

Guerreira Xue /Suzana Palanti 

                                                             Imagem Net