quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A NETA DO MERCADOR

Ola leitores/escritores
A maior vergonha do mundo é a fome, pois é dela que nascem os escravos.

O pedaço mais impressionante de nossa história moderna foi o movimento que surgiu em função da abolição da escravidão no mundo entre o século  XVIII e XIX na Inglaterra. E como tal, este "fenômeno cultural" acontece culminando com o Iluminismo, sob o lema de liberdade, igualdade e fraternidade e teve quatro pilares de sustentação na época.
-A igreja teve a primeira reação partindo dos radicais Quakers em 1768 e a seguir os Anglicanos que além das petições ao parlamento de Londres, estes boicotaram os produtos feitos por escravos, fazendo com que mais de 300 mil pessoas deixassem de comprar o açúcar produzido pelas Índias orientais em protesto contra a escravidão.
-As mulheres que mesmo sem direito a voto, tinha suas sociedades e comitês próprios. A abolicionista mais radical era Elisabeth Heyrick, que, em 1824, publicou o panfleto Abolição Imediata e não Gradual..
-Iniciativa popular que pressionando o parlamento os abolicionistas entram com petições na câmara dos comuns. E foram em média 170 petições por ano entre 1788 e 1800 e só em 1800 chegaram a 900 perfazendo um total até 1833, fim da escravidão, de mais cinco mil petições e cada petição com milhares de assinaturas. Dizia-se que só em Manchester, 90% dos homens adultos chegaram a participar dos abaixo-assinados.

-Propaganda. Eram publicadas as plantas de navios negreiros em panfletos abolicionistas, expondo publicamente as ferramentas usadas para prender os negros no interior dos mesmos, correntes e ferros no pescoço. “Fator essencial para a fácil adesão de uma população horrorizada”.

Em minha opinião, a mudança se deu por motivos estritamente econômicos, como tudo que acontece nas sociedades.

Aquela negra era altiva, esbelta e se destacava entre a maioria da população, uma vez que era delicada e fina, e neta do pastor da comunidade local.
O seu nome era Akanki no idioma da Nigéria, porém por ser de difícil pronuncia, chamavam-na Gladis.
Quando ela apareceu pela primeira vez na cidade, pensavam ser só mais uma escrava, mas logo foi esclarecido que era neta de um dos homens mais ricos da cidade. É verdade que ele agora era um pastor temente a Deus, mas outrora havia sido um dos mais famosos mercadores de escravos da Inglaterra.
A moça viera para estudar, e arrumar marido, era o que diziam as "línguas" da cidade.

Os homens comentavam e lamentavam tal beleza não ser vendida. "Bem que seu peso poderia deixar o velho mercador mais rico do que já era."
A moça estudava com os melhores mentores da Inglaterra, e ainda assim era ignorada pela comunidade. Mas o abastado avô tanto fez que conseguiu apresenta-la a sociedade inglesa, levando-a a presença da rainha Vitória. Trocando em miúdos, tiveram mesmo que engolir a "negrinha", fazendo com que a população tratasse com devido respeito a sua exótica neta Gladis.
-Dizem que ela é princesa na África. Falavam  alguns...
-Já a vi nas noites de lua cheia, dançando em cima do telhado.
-Como assim, tu a viu no telhado! Será que era algum ritual?
-Sim, no telhado. Estes africanos são bichos, e sobem em qualquer altura.
Claro que com toda aquela imaginação fértil, ninguém percebeu que a moça  tinha ido resgatar o pequeno felino que estava apavorado no alto da torre da mansão.
-E aquelas visitas ao doc todas as quartas feiras? Se a mulher dele não voltar logo de Paris, não sei não.
-Lá vai ela... Veja aquelas roupas tão colorida.  Aqueles panos de cabeça!
Tão negra, que só se vê o branco dos dentes!

 Subindo a ladeira que dava para o consultório do doutor John Smith ela pressentia os olhares e mexericos a suas costas. Akanki sabia que a achavam estranha, e entendia isso, pois ela própria se sentia deslocada. "Essa cidade é de gente muito branca e muito fria." E as vezes quietinha e sozinha em seu quarto escuro, ela chorava de saudades de seu povo. Lembrava-se da despedida da mãe. e aquele fora o último abraço amoroso que ganhara.
Prometera-lhe aos prantos, que assim que se formasse, ia voltar.
Chegando ao consultório médico.
-Bom dia Doc!
-Bom dia Akanki! Disse ele sem levantar os olhos. - Já te atendo, um minuto por favor.
-Sem pressa hoje.
Ela achava interessante o consultório de Jonh. Cheio de móveis e tudo muito limpo e branco, como se nunca ninguém entrasse lá.
Dava até pena sentar naquelas cadeiras tão brilhantes e de almofadas fofas.
Todos eram ricos neste lugar. Parecia mesmo outro mundo.
-Como está seu avô hoje?
-Está bem, só velho mesmo. Ele sente muito frio. Tiro-lhe para tomar sol todos os dias, estou lendo outro livro para ele esta semana. William Makepeace, já o leste?
-Sim. Foi uma leitura quase obrigatória, uma vez que todos o aplaudiam de pé, com o seu Vanity Fair. Risos...
- Achei estranho não haver herói como todo mundo gosta, sabe. Mas estou gostando...
-Vou trazer o preparado do seu avô só um momento, por favor. E lá ele pegava os preparados do vovô.
E era assim todas as quartas feiras... O único que era mais gentil com ela era Doc, então ela se arriscava a conversar um pouco mais, pois o considerava um amigo e ainda a tratava pelo seu nome de origem.
-Sua esposa volta quando?
- Não volta, se eu continuar a mandar-lhe dinheiro.
-Não sente falta dela Doc?
-Nenhuma, felizmente. Queria uma esposa que me gostasse, o que não é o caso dela. Casamos porque, eu queria o emprego aqui, e ela queria o dinheiro. Um acordo tácito que me pareceu ser o melhor para ambos.
Assim que assumi os trabalhos aqui, ela fez "cena" por uns meses e se foi para Paris, gozar a vida.
Eu precisava ser casado para o cargo sabe? Então unimos o útil ao agradável.
- Mas uma hora tu vai querer filhos, como vai fazer? Vai chama-la e negociar isso também? Os dois se riram juntos da ideia...
Isto estava ficando perigoso. Os dois se riam muito juntos... Dizem que nos apaixonamos por aqueles que nos fazem rir. Pois foi exatamente isso que houve com estes dois, e ambos não faziam absolutamente nada para mudar rumo da coisa.
E ela dizia.
-Nossa tu é tão branco! Risos... Ao que ele respondia.
-Nossa tu é tão negra! Mais risos...

Gladis ou Akanki como preferirem, viveu 10 anos na casa do avô, e já havia se formado até então, mas o avô necessitava de cuidados e ela resolveu ficar mais. E foi só quando o velho mercador veio a falecer, que a moça retornou a seu país de origem. Também não levou mais que seis meses e Doc se divorciou da tal esposa fantasma, e seguiu para trabalhar na Nigéria.
Como queria dizer que a união amorosa entre as raças resolve o problema de preconceitos raciais no mundo, eu que a mágica dos sentimentos é capaz ultrapassar barreiras milenares de uma cultura caduca que insiste em sobreviver em nossos dias. Mas que é preciso coragem para assumir isso, e provar que o sentimento não tem cor, tamanho ou valor monetário, isso é!

Obs: O primeiro país a abolir a escravidão foi a Dinamarca, em 1792, mas a lei só entrou em vigor em 1802. E os últimos dois a abolir a mesma foram Cuba (1886), e o Brasil (1888). A escravidão foi adotada e abandonada várias vezes, desde as mais antigas civilizações, e ainda hoje, segundo militantes dos direitos humanos, existe cerca de 25 milhões de escravos no mundo, principalmente na África, onde apesar da servidão ter sido abolida três vezes na Mauritânia, a última em 1980, pois de acordo com grupos cristãos a prática se dá pelo domínio de uma elite muçulmana sobre os negros nativos.

Resumindo, a escravidão continua a existir, e é uma realidade.
Guerreira Xue/Hilda Milk
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                                                               Imagem Net

ps.
"Akanke" significa encontrando-a, é para ama-la. Nome Ioruba -Nigeria-Africa Ocidental.