terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

PRESSÁGIO

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar

Fernando Pessoa

Os Fantasmas

Hoje eles, os fantasmas, 
vieram me visitar
E ao recordar fizeram-me rir, 
e fizeram-me chorar.
Em meio a tantas lembranças 
vieram os ciganos.
que na beira do arroio vinham 
todo verão acampar.
E na casa do passado 
ouvia-se o bando cantar
com suas grandes fogueiras 
e suas danças de encantar.
E junto também estava
a presença da ausencia
sempre a sombra dos eucaliptos.
E havia também o vento
que nem sempre parado, 
rebatia pela fresta da janela
da frente.
O cavalo a galope 
no dia de sol quente.
As noites de chuva, 
tamborilando no teto de zinco.
As frutas de época
que secavam nos telhados.
Hoje eles vieram me visitar,
depois de tanto tempo passado.
Os fantasmas me fizeram chorar.
Guerreira Xue
https://www.facebook.com/GuerreiraXue