sábado, 12 de janeiro de 2013

O ENCONTRO

Alberto impaciente entra em casa as pressas para atender a porcaria do telefone que não parava de tocar:
 -Será que ficaram todos surdos nesta casa é? E todos estavam ...
-Pronto!
Do outro lado da linha uma voz feminina
-Alberto!
-Alberto falando... Disse seco.
-É Deise Alberto. Como vai?.
Era Deise, e Alberto ficou sem palavras...O coração pareceu saltar do peito.
-Cheguei ontem a noite, acha que podemos ver, se não houver inconveniente para voce claro.
Se não houver incomodo! Alberto as vezes pensava que esta moça não tinha noção do significava para ele.
-Diz-me onde estás hospedada que vou ve-la.
-Estou em Oeiras, queria ver a praia bem de pertinho. Ver o mar salgado de "Pessoa",
Estou muito contente pela minha escolha, o lugar aqui é lindo mesmo!
Depois que desliga o telefone, Deise solta enfim a respiração...
Os dois que se encontrarão depois de quase três anos se falando pela net. Tantas dúvidas, tanta curiosidade e vontade junto. Parece loucura, pois nunca esperava que um dia chegassem a se conhecer pessoalmente.
Muita expectativa também e um sentimento que não fere nem obriga.
É uma força sem forçar, muito difícil colocar com palavras, pois não foram escolhidas e nem cogitadas antes.
Alberto estava em choque...Ia encontrar uma amiga distante hoje e não podia estar mais agitado.
A vida  ainda trazendo-lhe surpresas com toda a sua grandeza. Mal conseguia articular qualquer gesto...
-Que foi vovô, alguma noticia ruim?
-Não pequeno, só um encontro inesperado.
-Encontro bom ou ruim? Tu parece muito assustado
E Alberto estava mesmo apavorado.
-Vamos brincar um pouco enquanto o almoço não sai, está bem. Disse o avô para interromper a enxurrada de perguntas.

Deise estava andando pela praia desde cedo... Nunca o dia lhe pareceu tão claro e o vento trazia aqueles ondas até seus pés com delicadeza que parecia pedir licença para envolvê-la. O cheiro de maresia invadia seus sentidos como se ela fosse parte daquilo que a cercava, as gaivotas voavam por todo lado sem se importar com sua presença.  Parada para um pequeno lanche e ela segue sua trajetória...

-No Parque dos poetas em frente ao monumento de Fernando Pessoa. Espero-te lá as 18:00h
-Combinado!
E lá chegaram ambos, com quase meia hora de adiantamento.
-Ola.  Ela disse
-Olá Deise...Posso abraça-la? Ela sorri tremula e acena que sim...
Os dois se unem num abraço fraterno, um longo abraço, de quase tres anos.
Aquilo era um gesto mudo, despido de qualquer palavra e que compreendia tudo que já foi dito.
Só sentimentos a solta.
Guerreira Xue/Hilda Milk
https://www.facebook.com/GuerreiraXue/
                                                              







































 Imagem da Net        
                                                              

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

ARS VIVENDI - ARS MORIENDI

FRACISCO NIEBRO: ARS VIVENDI - ARS MORIENDI

O CONSOLO DA HORTA
    O último livro de poesia de Fracisco Niebro / Amadeu Ferreira   - Ars Vivendi Ars Moriendi (2012)- leva-me a adivinhar o homem por detrás das palavras ficcionadas. Homem e poeta de terra não pôde despir as experiências e as emoções que Trás-os-Montes lhe deixou... agarradas ao corpo. Porque são muitas e intensas as vivências que adivinhamos por entre as palavras que nos oferece, Amadeu Ferreira veste-se de outros nomes para dizer esta terra e esta gente de muitas e diversas formas. Inesgotável a fonte, procura beber de todas as maneiras.
    Construo o meu pequeno texto a partir de Ars Vivendi Ars Moriendi, acreditando que ao abeirar-me da poesia, espreito um pouco do homem também.
    Desde o primeiro poema, o poeta fala-nos da presença da horta como consolo, como margem para uma espécie de alegria, essa que poderá advir da certeza de que os seus mortos “estão vivos”, sendo eles “a pátria onde se ergue a sua casa”. A horta é “poema de terra e verde”, e “os sulcos certos” a exata medida do verso que o poeta nos convida a ler. A horta é o espaço onde este inscreve a sua história, e onde, à semelhança dos deuses, se torna imortal. Ironia: um deus a deambular pelo espaço simples e doméstico da horta em busca da imortalidade. Mas assim é. Como Ulisses, o poeta regressa a uma ilha de verde e de sementes para se encontrar com os seus antepassados, com o seu pai e a sua mãe. E se o passado do poeta se fez com a terra miúda da horta, mais se fez “por ter tido aquela gente”, mesmo que esse fosse um tempo em que não festejavam o dia dos seus anos.
    Na horta, Fracisco Niebro encontra, além do mais, a história das gentes de Trás-os-Montes, e o poeta esmera-se em nos fazer aproximar daqueles que combatem o tempo mortal com tarefas imortais: a enxertia, o amanho da horta, a limpeza das figueiras. Poeta de terra, aprende que “há espaço de sobra para a / difícil descoberta do que está perto”. É preciso estar sempre a descobrir. A notícia mais importante pode ser um pequeno nada: “avariou-se o motor e amanhã não sei como vou regar a horta”. Esta proximidade com “a humildade das coisas” leva o poeta a interrogar-se: “já viste o que seria se deixássemos de regar o mundo?”. Por isso a recomendação: “os bocadinhos de ser feliz podem durar sempre/na lembrança,/ ainda que não passem de uma dor:/ tem-nos sempre a mão, como quem tem de regar a /horta”.
    A horta é ainda o espaço onde o homem interroga o homem. Perante o vazio de certas horas, o único gesto: “lanças- te de enxada aos dias e à horta”. Por vezes, somos homens nús perante as agruras da vida, somos “horta viçosa e desprevenida para a secura”. É nas hortas que encontramos “remédio para estes financeiros dias” e é na horta que se apaga “o desespero do inverno” e se afugentam as dores, pois “o começo da horta” é também o recomeço, “a derrota sempre adiada/ para um outro dia qualquer”. Na horta combate-se a morte e celebra-se a vida; as sementes são promessa, milagre e futuro. Raramente falha a fé que nelas se deposita. E, numa conversa com um ‘tu’, alguém próximo da morte, o poeta manifesta -lhe “a secreta esperança/ de que haja hortas para onde vai[s]”, que possa sentir-lhes “a frescura, primavera acima”. Lugar da vulnerabilidade, a horta espelha a incerteza, o lugar para “entender como belo continuar/ pode o mundo ser depois de seres nada”.
    Construir um mundo é como construir uma horta e “para plantar uma horta nova há que limpar a velha,/ cavar bem fundo e arrancar até à última erva”. Para Fracisco Niebro, a horta é um espaço teofânico, de revelação, pois permite-lhe dialogar com o passado – um lugar onde “escola era aprender a cavar, a lavrar, a mondar,/ a ceifar, a cozer pão, a fiar, a fazer meia, ir em/ busca de lenha pelo monte onde a havia, ir buscar/ sardinhas ao comboio no Variz e depois levá-las/ por caminhos e ladeiras e conservá-las no gelo dos dias, tudo artes de aprender até a assar a manteiga/ no espeto”, mas também com o futuro, um lugar onde teremos de aprender a “esperar o verde da horta”. Mas esse espaço - geralmente pequeno, próximo da água e da casa -, é também o local de encontro com a língua, essa “que quase ninguém fala e muito poucos/ sabem que existe”, mas que “nem por isso deixa de ser um pilar/ do mundo”. Recebeu-a em herança e, tal como vinha ou oliveira, tem cuidado dela: “agarra-te ao que recebeste e ao que és,/ e palpa dentro de ti o mundo inteiro”. A pequena paisagem da horta é a sua casa; é ali que o poeta doba o seu saber do mundo e o casa com a voz do universo. Com água por perto, com o coração à beira das palavras. Daí a surpresa de certos versos:
    a boca dos figos
    assobia canções pela tarde:
    tentilhão na figueira.
Isabel Alves   (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)
                                           Imagem Amadeu Ferreira
       
  

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ANTONIO JOSÉ SANCHES

ANTONIO JOSÉ SANCHES

Um português, escritor e poeta, apaixonado por letrinhas e pelo Brasil.
Amassos
Nos abraços de fortes laços
onde me envolvem teus braços
amarrando-me feito cadarços
que prendem todos os meus passos
jamais sinto cansaços
pois me entranho em todos os teus traços.

Parei ao ver a Beleza
estampada no teu sorrir
e fiquei com a certeza
do que estava para vir.

Laço Divino
Todo o tempo marca passo
na caminhada do destino
e o amor arma seu laço
com um nó sempre divino.

Divino por ser verdadeiro
gostoso por ser sempre inesperado
ateando forte aquele braseiro
que se acende quando lado a lado.

Lado a lado no correr do dia
um só na noite banhada de lua
pois fundimos a energia
numa figura que não é minha nem tua.

Nem minha nem tua mas dos dois
amando, sonhando e realizando
sem nunca deixarmos para depois
o bom que a vida está ofertando.

Ofertando é o termo mais correto
pois não fomos nós que preparamos
e a Vida tudo transforma em concreto
se merecermos o que desejamos
Na Bahia

Na bela festa baiana
onde Orixás e Santos se reúnem
lá no Senhor do Bonfim
na véspera do fim de semana
promessas e obrigações se assumem
numa crença que se irmana

É Bahia dos sincretismos
onde Oxalá e Jesus se confundem
e cada Orixá se vê num Santo
sejam quais forem os idealismos
as preces logo se fundem
debaixo do mesmo manto.

Só a Bahia nos dá tanta ligação
num respeito tão belo de observar
numa união sem igual
onde uma católica oração
se confirma com arruda a cheirar
e um punhado de sal ativa o ritual.

Na crença, no respeito e temor
decorre a vida na mistica Bahia
onde o maior e mais belo amor
tem pureza e também fantasia.


 O autor Antonio José Sanches publicou recentemente o livro O Contrato De Esperança






domingo, 6 de janeiro de 2013

VIVER OU MORRER... EIS A QUESTÃO

Era ainda cedinho e Carlos se preparava para mais um dia de trabalho na lavoura e já ia virar a chave do trator quando, apura seus ouvidos e escuta umas batidas de latas, mais um pouco e grita para a mulher.
_Ivone corre aqui, acho que aconteceu alguma coisa na casa de Dona Joana. E sem esperar resposta ele corre para o vizinho que fica quase meio quilometro de distância atravessando pelas cercas, mais perto que se fosse pela estrada.
Ao chegar ele vê seu Juca do lado de fora da casa, com uma panela na mão batendo muito e murmurando um pedido de ajuda.
-Calma seu Juca.Que houve?
-Minha Joana está morrendo Carlos...
Antes mesmo de entrar pela porta, seu trator encosta com um carroção e Ivone que estava ao volante pula logo e corre para dentro da velha casa.
-Vamos leva-la seu Juca, fique calmo que vamos para o hospital.
O velho consola a esposa que esgotada já nem ouvia mais, tal era a dor que sentia.
-Apendicite, vamos operar. Disse o médico.
Carlos ficou ali na sala de espera com seu velho amigo. O Juca tremia tanto que não sabia se era nervoso ou pelo exercício que fizera ao levantar da cama.
-Foi corajoso hoje meu amigo, conseguiu se levantar e graças a isso salvou Dona Joana do pior.
-Tenho sido um perfeito idiota isso sim. Disse o velho emocionado.
-Ela foi minha companheira e amiga durante tantos anos. Mesmo quando eu merecia que me largasse, ela não desistiu nunca.
-Não diga isso seu Juca, o senhor ficou doente por muito tempo. Ela não tinha muita opção e acho que mesmo que tivesse, faria da mesma forma.
-Eu desisti da vida Carlos, fui injusto, abandonei-a, e ela foi vivendo por mim.
Sabe o que é voce ter alguém que abre a tua janela todos os dias, mostra o sol, um café quente, um naco de pão e um beijo na testa antes de sair para a lida. E voltava no fim do dia, ela estava cansada claro, e caladinha fazia o serviços da casa, me dava banho, servia o jantar. Tinha dias que eu tinha raiva de sua energia, de sua vontade ferrenha de viver. Queria ficar em paz, morrer em paz, mas ela não deixava, era suave demais para comigo. E sempre me dizia boa noite com aquela voz doce. E as lágrimas jorravam...
-Que tolo fui!
-Ela vai ficar boa seu Juca, só fica uns dias somente e depois volta para casa.
Engraçado com alguns acontecimentos podem mudar completamente o rumo das vidas. Juca foi para casa e com muito esforço fez almoço, arrumou a casa, tomou seu banho e colheu flores no jardim da casa, para levar para a sua amada querida.
A surpresa de Joana não podia ser maior...Vê-lo ali de rosto barbeado, cabelo penteado e com flores!
-Voce seria capaz de me perdoar estes anos de penúria a que tenho te submetido? Disse o marido emocionado.
A senhorinha beija-lhe as mãos e diz
-Se prometer nunca mais desistir da vida, se me der flores uma vez por semana, se arrumar o balanço da beira do rio, e levar nossos netos para pescar todo o verão.
Com o rosto molhado de lágrimas ele força um sorriso -Só isso!
-Não meu querido..Tudo isso faz parte de ser feliz. Quero muito que o sejas.
-Temos um trato então...
E foi com os dois abraçados que Carlos e Ivone entraram no quarto contentes dizendo que se a Dona Joana continuasse reagindo bem, estaria de alta no dia seguinte.
No dia seguinte Juca já teria comunicado aos filhos que a esposa tinha sido hospitalizada mas que já estava de volta em casa. Queria combinar se podiam fazer-lhe uma surpresa e virem todos para um fim de semana.
Quando estava para ir deitar ouve batidas na porta. Era Carlos que muito nervoso dizia que era para irem ao hospital pois Joana estava com febre alta.
Juca passou a noite toda molhando sua boca seca e murmurando palavras de carinho nos ouvidos Joana... E foi num destes delírios que ela lhe sorriu e faleceu.
Carlos e Ivone foram testemunhas de quanto este homem sofreu para sobreviver aos dias que nasceram depois de Joana.
E ele se arrastava para fora da cama todos os dias, fazia suas refeições com dificuldades, ia para os campos com a alvorada e voltava a noite somente, consertou o balanço da beira do rio, levava flores para Joana toda a semana e levou naquele verão e em todos que se seguiram, os netos para pescar.
Claro que hoje já se passaram muitos anos e seu Juca é casado de novo e surpreendentemente feliz!
E quando lhe perguntam o motivo de sua alegria ele responde de pronto.
- Minha Joana me salvou.
Guerreira Xue
                                                        Imagem Net