quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

ARS VIVENDI - ARS MORIENDI

FRACISCO NIEBRO: ARS VIVENDI - ARS MORIENDI

O CONSOLO DA HORTA
    O último livro de poesia de Fracisco Niebro / Amadeu Ferreira   - Ars Vivendi Ars Moriendi (2012)- leva-me a adivinhar o homem por detrás das palavras ficcionadas. Homem e poeta de terra não pôde despir as experiências e as emoções que Trás-os-Montes lhe deixou... agarradas ao corpo. Porque são muitas e intensas as vivências que adivinhamos por entre as palavras que nos oferece, Amadeu Ferreira veste-se de outros nomes para dizer esta terra e esta gente de muitas e diversas formas. Inesgotável a fonte, procura beber de todas as maneiras.
    Construo o meu pequeno texto a partir de Ars Vivendi Ars Moriendi, acreditando que ao abeirar-me da poesia, espreito um pouco do homem também.
    Desde o primeiro poema, o poeta fala-nos da presença da horta como consolo, como margem para uma espécie de alegria, essa que poderá advir da certeza de que os seus mortos “estão vivos”, sendo eles “a pátria onde se ergue a sua casa”. A horta é “poema de terra e verde”, e “os sulcos certos” a exata medida do verso que o poeta nos convida a ler. A horta é o espaço onde este inscreve a sua história, e onde, à semelhança dos deuses, se torna imortal. Ironia: um deus a deambular pelo espaço simples e doméstico da horta em busca da imortalidade. Mas assim é. Como Ulisses, o poeta regressa a uma ilha de verde e de sementes para se encontrar com os seus antepassados, com o seu pai e a sua mãe. E se o passado do poeta se fez com a terra miúda da horta, mais se fez “por ter tido aquela gente”, mesmo que esse fosse um tempo em que não festejavam o dia dos seus anos.
    Na horta, Fracisco Niebro encontra, além do mais, a história das gentes de Trás-os-Montes, e o poeta esmera-se em nos fazer aproximar daqueles que combatem o tempo mortal com tarefas imortais: a enxertia, o amanho da horta, a limpeza das figueiras. Poeta de terra, aprende que “há espaço de sobra para a / difícil descoberta do que está perto”. É preciso estar sempre a descobrir. A notícia mais importante pode ser um pequeno nada: “avariou-se o motor e amanhã não sei como vou regar a horta”. Esta proximidade com “a humildade das coisas” leva o poeta a interrogar-se: “já viste o que seria se deixássemos de regar o mundo?”. Por isso a recomendação: “os bocadinhos de ser feliz podem durar sempre/na lembrança,/ ainda que não passem de uma dor:/ tem-nos sempre a mão, como quem tem de regar a /horta”.
    A horta é ainda o espaço onde o homem interroga o homem. Perante o vazio de certas horas, o único gesto: “lanças- te de enxada aos dias e à horta”. Por vezes, somos homens nús perante as agruras da vida, somos “horta viçosa e desprevenida para a secura”. É nas hortas que encontramos “remédio para estes financeiros dias” e é na horta que se apaga “o desespero do inverno” e se afugentam as dores, pois “o começo da horta” é também o recomeço, “a derrota sempre adiada/ para um outro dia qualquer”. Na horta combate-se a morte e celebra-se a vida; as sementes são promessa, milagre e futuro. Raramente falha a fé que nelas se deposita. E, numa conversa com um ‘tu’, alguém próximo da morte, o poeta manifesta -lhe “a secreta esperança/ de que haja hortas para onde vai[s]”, que possa sentir-lhes “a frescura, primavera acima”. Lugar da vulnerabilidade, a horta espelha a incerteza, o lugar para “entender como belo continuar/ pode o mundo ser depois de seres nada”.
    Construir um mundo é como construir uma horta e “para plantar uma horta nova há que limpar a velha,/ cavar bem fundo e arrancar até à última erva”. Para Fracisco Niebro, a horta é um espaço teofânico, de revelação, pois permite-lhe dialogar com o passado – um lugar onde “escola era aprender a cavar, a lavrar, a mondar,/ a ceifar, a cozer pão, a fiar, a fazer meia, ir em/ busca de lenha pelo monte onde a havia, ir buscar/ sardinhas ao comboio no Variz e depois levá-las/ por caminhos e ladeiras e conservá-las no gelo dos dias, tudo artes de aprender até a assar a manteiga/ no espeto”, mas também com o futuro, um lugar onde teremos de aprender a “esperar o verde da horta”. Mas esse espaço - geralmente pequeno, próximo da água e da casa -, é também o local de encontro com a língua, essa “que quase ninguém fala e muito poucos/ sabem que existe”, mas que “nem por isso deixa de ser um pilar/ do mundo”. Recebeu-a em herança e, tal como vinha ou oliveira, tem cuidado dela: “agarra-te ao que recebeste e ao que és,/ e palpa dentro de ti o mundo inteiro”. A pequena paisagem da horta é a sua casa; é ali que o poeta doba o seu saber do mundo e o casa com a voz do universo. Com água por perto, com o coração à beira das palavras. Daí a surpresa de certos versos:
    a boca dos figos
    assobia canções pela tarde:
    tentilhão na figueira.
Isabel Alves   (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)
                                           Imagem Amadeu Ferreira