quarta-feira, 21 de agosto de 2013

CRIADOR E CRIATURA

Dedilhando suavemente a face feminina, ele percebe a cor da pele morena dourada.
Com o olhar frio e crítico, o homem avalia cada traço daquele rosto delicado. Este sabe com certeza, que é primeiro a toca-la, e provavelmente não será o último, uma vez que ela será muito admirada e desejada por sua beleza. E com suas mãos experientes, ele tem a sensação de poder total sobre aquela criatura... Por um breve momento seus olhos unem-se, e uma certa noção de grandeza invade o homem, sentindo-se um Deus, mas o instante logo passa e ele pensa: "Ainda não está bom isso! Amanhã recomeço novamente."
Exausto o artista solta o cinzel, vai despindo seu velho avental e a seguir cobre a escultura com uma estopa, lava suas ferramentas e fecha a porta saindo do ateliê.
Quem sabe que criar é um ato de amor pode bem imaginar o deslumbre de Deus ao criar o universo e nele, todas as coisas.
E Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, no silêncio do nada

No silencio do estúdio, debaixo da velha estopa."És meu criador, e me fizeste do melhor barro, sou moldada pelas tuas mãos habilidosas dia após dia. Fui tirada dos teus pensamentos, e enquanto você dormia, sonhavas comigo, e quando acordava me trazia para a vida. Eu não era nada, e agora tenho uma alma, uma consciência. Eu sou tudo. Me amastes antes de eu existir e agora, não podes mais me destruir. Criador pretensioso arrogante! Mostro-te quem manda neste momento".

Pela manhã quando o artista abre a porta e a cena que segue, o deixa sem fala. No chão, a sua frente, está sua melhor obra aos estilhaços, e caindo de joelhos ali mesmo, o amante chora a morte da musa.
E neste momento criador e criatura são a mesma coisa "nada".

Guerreira Xue
                                                   Escultura de Cícero D'avila