quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ACORDA CATARINA!

Era o que todos diziam.
Qual nada! Catarina nem ligava.
A moça ia todos os dias à estação para esperar, e quando lhe perguntavam:
-O que esperas Catarina? E ela de pronto respondia:
...-Uma coisa muito importante .Não sei o dia, só sei a hora.
E todos davam muita risada
Pobre Catarina! Era louca. Destrambelhada
Mas Catarina não dava grande importância ao que os outros pensavam de si ou pudessem dizer. Apenas tinha aquela intuição forte, sentia-o na pele, nas entranhas, sempre à mesma hora, todos os dias, tornava-se impossível, resistir a correr para a estação, dia após dia, sempre à mesma hora, para ver chegar os comboios. Era um frenesim... gostava de ficar na estação a ver chegar os comboios e o aglomerado de pessoas em grande rodopio. A gare enchia-se de vozes, de passos, de rostos fechados, de rostos risonhos, de gritos de crianças, da algazarra do alto-falante que anunciava uma partida ou chegada. Tudo isto, lhe enchia os sentidos como algo imperativo.
E ali Catarina ficava, desfiando o rosário dos minutos em horas, até que o corpo anunciasse cansaço. Então regressava a casa, sempre com uma ansiedade premente de que no outro dia, voltaria outra vez, à estação dos comboios. Sabia que algo, ou alguém, haveria de chegar naquela estação, num dia qualquer da sua vida.
Na cidade pacata, todos se conheciam.Viviam suas vidas numa mesmisse morna e confortável .Sem grande atribulações diárias.
Era comum Catarina ser motivo de chacota.Muito fácil rir da garota.
Quando passa correndo,só se ouve um murmurar:
-Lá vai ela, para a estação.
Quando volta sozinha e cabisbaixa.Alguém grita:
-Ainda não era hoje Catarina? Quem sabe amanhã!
Mais risos
Ao chegar a casa simples.Corria preparar o café, um pão com manteiga e geleia.
Arranjava numa bandeja para levar a mãe acamada.
-Onde andou menina!Estou morta de fome.
Era sempre a mesma coisa
-Pronto,pronto.Está do jeito que a senhora gosta mamãe.
Dizia a moça com paciencia
-Foste estação novamente, aposto.
A mãe dependia da filha para tudo.Amava -a e tinha medo de perde-la .
Se acaso um dia, alguém chegasse mesmo para a sua filha.
Ela seria abandonada.O marido se foi, faz muito tempo.
O filho se casou e só aparece no Natal.
Restavam agora somente as duas.
-Nao espere minha filha, por quem nunca vai chegar.
Dizia a mãe.
Catarina se calava.Ficava triste a pensar.
A mãe acabava seu café .Catarina recolhia a bandeja
Dava um beijo na mãe e murmurava
-Nunca vou te abandonar
Mas a vida é repleta de sonhos e ninguém deve deixar de os viver. Catarina sonhava, sonhava que um dia, um príncipe encantado chegaria. Não são os sonhos de todas as meninas até encontrarem um "sapo"? (...) e não importa que chamem louca a Catarina, porque a sua necessidade de mudar a sua monótona vida se tornara essencial.
Uma vez alguém disse que: -Realidade sem fantasia não é nada.
Pensar que vemos tudo, que só existe um caminho, que a diferença é feio.
Não é verdade.Alias,o que é mesmo a verdade?
A maioria de nós humanos, se ajusta tanto em "camisas de força",
que perdem a capacidade de imaginar.
As pessoas riam de Catarina sim porém, tinham uma vaga ideia da menina triste, que se refugiava na estação, involuntariamente em busca da mudança, tentando se aperceber do que move o mundo.
Talvez a Catarina louca fosse só ver o vai e vem de pessoas.Pessoas estas que, embora esbarrem umas das outras, nunca se olham ou se tocam.
Por mais que Catarina pensasse que todos estavam certos.
Todos os dias na mesma hora ela ia.Só para se certificar,pensava .
Em geral estava sempre atrasada.
E corria tanto que um dia ,ao atravessar a rua,foi atropelada.
Enquanto era socorrida ,Catarina só repetia: -Por favor,não me deixe morrer.Minha mãe não pode ser abandonada.
O tempo passou e Catarina não morreu,para a felicidade da mãe e do motorista que a atropelou.
A Catarina louca nunca mais foi à estação...Todos souberam do acontecido e muito comentavam
-Isso é incrível.Ela podia não saber o dia mas, com certeza sabia a hora.
E foi nesta hora em que corria para a estação , que sofreu o acidente.
Foi neste dia, que Catarina conheceu, o homem que esperava.
Se é loucura ou realidade! Não importa. É crucial que, cada um viva sua própria história.

Guerreira Xue

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