sexta-feira, 26 de outubro de 2012

PAULO PAULADA..conto partilhado



Sabem um sujeito chato, arrogante e metido a besta? Pois é, este era Paulo e nem me pergunte seu sobrenome porque só o chamávamos  "Paulo Paulada."
O moleque era era um "pé no saco" mesmo! E o pior é que nunca nos livrávamos dele.
Era nosso vizinho, isso deve explicar o motivo de não haver como ignora-lo.
Certa vez cogitamos até mesmo a possibilidade de nos mudar, só para não ter que toparmos com ele na escola ou no shopping ou no cinema enfim... O paulo era uma "paulada".

Tudo que nós fazíamos era só com o intuito de nos divertir e o Paulo,  este era sério até na diversão.
Nossas mães eram simples donas de casa já a do Paulo, uma renomada cientista especializada em biologia marinha. Nossos pais  eram funcionários públicos o do Paulo, um diplomata reconhecidamente internacional ou seja... Isso era tremenda deslealdade  para conosco, simples mortais.
Dizer que nossa irritação com o sujeitinho podia ser pura inveja de nossa parte era exagero...
Bem...Talvez um pouco sim, eu  admito, mas que ele era emproado demais isso ele era.
Espere, que já esclareço o  por que me referir sempre a "nós".
Eramos seis inseparáveis com a mesma idade, morávamos na mesma rua e estudávamos na mesma escola.
Somente o Paulo era de fora, chegara ao bairro quando já tinha três anos de idade.
Pensando nisso agora, eu tenho mesmo que rir, o cara era um estranho por não ter nascido ali, um verdadeiro E.T entre os mortais.
O bairro era estranho. Não aceitava qualquer um, nem mesmo uma criança. Todos os fins de semana havia foguetes, que o vizinho da casa cinzenta, que ganhara dinheiro a mais, na loteria em Portugal, resolvia atirar para encher o céu de cores.
A dona Estefânia, enlouquecida por ter sido abandonada pelo marido e pelos filhos, atravessava nua a praça todas as madrugadas, a chamar pelo António.
A Felismina, com os socos de madeira a baterem na calçada, acordava toda a gente quando ia deixar a saca do pão pesa na maçaneta da porta. O marido dela costumava ser o último a deitar-se podre de bebado, a cantar o operário em construção às seis da manhã, era um intelectual e por isso todos o respeitavam. Ao meio da manhã passava a peixeira, a apregoar a frescura do peixe, com os peitos escandalosamente expostos e o buço a brilhar ao sol. O Paulo tinha um fraquinho por ela, por isso sempre que podia escapulia-se para a esplanada para a ver passar. Era assim desde miúdo e como todos o gozávamos, ele amuava constantemente, até se tornar impossível dirigir-lhe a palavra.

Claro que as coisas foram evoluindo, crescemos  todos e, a chatisse do Paulo também, porém aconteceram coisas que foram aos poucos nos fazendo perceber o garoto solitário que simplesmente queria ser aceito pelos demais como um igual, o que acabou por ficarmos em dúvida sobre quem era de fato, desagradável  neste contexto.
Paulo paulada era filho único e seus pais viviam tão ocupados com seus trabalhos que o largavam em casa aos cuidados de uma governanta.
Acho que se contar direitinho o tempo, não chegavam a ficar juntos, ele e seus pais, dois messes em um ano. Então "ele" convivia mais conosco mesmo.
Se iamos as férias, em geral era para acampamentos, se iamos para a casa de verão da vovó, e eu levava o "praguedo" todo comigo.
Quando na casa de outro era igual. Se os pais de paulada vinham para casa nas ferias, eles viajavam para longe e ficávamos livres do emproado, sentiamos falta de ter com quem implicar. Risos...
Só Rosa não tinha casa de verão, em compensação sua mãe organizava finais de semana com pic-nics no parque com dias de sol fantásticos e muitas brincadeiras.
A vantagem de morar em cidade pequena é que todo mundo se conhece assim qualquer um podia "olhar" a garotada.
Aiiii a Rosinha era tão lindinha! Esta é minha prima.
Haviam duas meninas em nosso grupo.Uma era Rosa a outra era a Lucia, irmã caçula  do Valter.
Voltemos ao assunto em questão agora.O Paulo.
Era um sábado de chuva estávamos na casa de Toni jogando videogame, a mãe dele vem com uma bandeja enorme de bolo de fubá quetinho e umas canecas imensas de leite. Interessante  isso de adolecentes, nós parecíamos uns mortos de fome, sempre.
Incrível também e´não esquecermos o prazer que sentíamos em tudo,era muito bom aquilo. Parece que ainda sinto o gosto, até hoje.
 E bem no meio daquela comilança toda, ela entra na sala. Quando eu a vi, quase me engasguei.
Era a menina mais linda do mundo!
Todos nos apresentamos desajeitadamente, a boca ainda cheia de bolo porém, não deixei de notar que o Paulo estava mais composto que os demais e com toda a serenidade do mundo se dirigiu a ela com simpatia e elegância.
Por um instante tive a sensação que o Paulada cresceu ali, diante de nós. Ele era um adulto e nós, as crianças bobas.
Toni era o dono da casa e por isso fez aquela cara de quem estava em vantagem sobre todos os demais.
Nos apresentou a todos sua  prima recém-chegada do Brasil.
A minha surpresa foi tanta que balbuciei meu nome feito um retardado mental. Ninguém se riu de mim claro, porque todos estavam sob o mesmo impacto.  Quando me lembro do vermelho que tingiu minhas faces, me rio agora.
Na segunda -feira na escola estávamos todos eufóricos, queríamos saber mais da brasileira. Não sei porque, todos tiveram um cuidado mais que especial com a aparencia neste dia!
Toni disse que ela veio para ficar um ano, e que seus pais queriam que ela fizesse cursos preparatórios, enquanto estivesse com seus tios.
Marina, seu nome era Marina.Todos os dias inventávamos uma desculpa para irmos a casa de Toni.
Percebemos que  no entanto que o Paulo não nos acompanhava nestas excursões extraordinárias. Ela tinha cursos na segunda, quarta e sexta.
Demorou um pouco para compreendermos que o Paulada que também fazia cursos, e os tinha coicidentemente era nos mesmos dias que ela!
O desgraçado estava namorando com ela,e  bem de baixo de nossas fuças. Que raiva!?

Nos sentimos traídos afinal... Eramos amigos dele, talvez implicássemos um pouco com o garoto porém, não era para tanto, praticamente nos ignorar por causa de uma lambisgoia! Tínhamos que tomar uma atitude.E tomamos.
Fomos até a casa dele tirar-lhe uma satisfação.
Ele estava em curso. Guardamos nossa raiva misturada com mágoa para o momento apropriado.
Dois dias depois ele nos convida a todos para a sua casa, numa tarde de refresco e música.
Pensamos em não ir só por vingança, mas percebemos que a turma toda havia sido convidada e se não fossemos, íamos fazer papel de idiotas novamente.
O Paulo estava se despedindo de todos. Ficamos tão atônitos com a revelação que quase chorei.
Estávamos de mal dele, e agora...A coisa não tinha a menor importância, nem queríamos saber de ele ir embora.
Demorou para entendermos que não era por causa de Marina que ele se afastara da turma e sim por causa da mudança. Paulo já sabia que ia mudar-se  há tempos. Estava triste e não quis contar-nos.
Nos abraçamos todos, e prometemos escrever-lhe sempre.
Estamos adultos agora e cada um de nós seguiu um rumo na vida.
O Paulada na verdade, se chama Paulo de Oliveira Junior.
Aprendemos o seu nome de tanto lhe escrever cartas e ainda hoje, graças a tecnologia, pelo menos uma vez por ano nos falamos em conferencia, e de tempos em tempos  nos encontramos todos.
A amizade é um bem precioso. Então viva ela, com toda a sua intensidade

 GuerreiraX/ PaulaG.( amigas).