quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O RETORNO

Olhando em volta do castelo, Cátia percebe um cão a observa-la.
_Está tudo igual. Só eu, e este cão sarnento destoamos da paisagem aqui.
Concluiu a moça com um leve sorriso.
Cátia, tinha partido para a capital há tempos, em busca de fama e fortuna. E conseguiu.
Porém, uma força a induzia para voltar aquele lugar. Isso podia ser compreensível se tivesse alguém a espera-la, mas não, todos lhe eram estranhos agora, e tão ocupados estavam com suas vidinhas que nem a perceberam ...
Vinte anos se tinham passado e tudo realmente, era passado.
Acenou ao motorista, que prontamente abriu a porta da limousine, para que ela se acomodasse.
O cão não deixava, contudo, de fita-la, sentado sobre as duas patas traseiras, escanzelado e expectante.
_Espere. Diz a moça ao motorista. Andou na direção do cão, que ficou alerta pela  aproximação, porém não saía do lugar.Os dois, se olhavam por momentos que pareceram uma eternidade.
Como ela, este não devia ter ninguém, como que num impulso, ela tira seu casaco lentamente, enrola no animal mansamente, e o carrega para o carro.
Mais a frente, na mesma rua, param num veterinário. O cão faminto é examinado e alimentado.
Explicando que o achou abandonado e que ficara com pena do pobre coitado. Sem mencionar que achou-o parecido com ela.
A veterinária poderia ter dito que aquilo era só fome e falta de cuidados mesmo. Poderia também dizer  que , se ela estava a fim de dar-lhe comida, que desse e seguisse seu caminho, de volta para a sua confortável casa.

Mesmo sabendo que o cão não era dela, a veterinária recomendou:
_Por indicação, ele deve ficar internado até fazer todos os exames.

Que fazer agora? Cátia não queria o cão. Porque cargas d'agua foi juntar este vira-lata?
De novo, outro impulso.
_Tudo bem, no final do dia eu volto.
Ia prolongar um pouco mais sua estadia na cidade, e logo por causa de um cão sem dono!
Andando pelas ruas, Cátia entra num restaurante. Faz seu pedido e espera...
_ Porque peguei aquele cão? Se perguntava
_ Só vim dar uma passeada. e eu a logo embora. Agora sem coragem de devolve-lo à rua, a moça se obrigava a ficar o dia na cidade onde nasceu.
Cardoso (foi o nome que o cão deu a si próprio) estava feliz e ainda mal acreditando na sua sorte. Já tinha tentado este golpe várias vezes mas, finalmente, hoje tivera sucesso. Ele sabia que não tinha doença nenhuma, apenas fome. Se a sorte continuasse, talvez a busca de comida e de fêmea fosse coisa do passado.
Gustavo, o dono do restaurante, estava tendo um dia difícil. Além do calor infernal naquela cozinha, pois o sugador de ar deu defeito, dois de seus garçons resolveram tirar folga por conta própria, e agora, o salão estava lotado de clientes. E ele mesmo havia de se encarregar do atendimento as mesas.
Quando atende Cátia sente que a conhece -Caramba. pensa ele.-Que moça bonita!.
Sem se distrair muito, o dono de estabelecimento vai e vem, leva e busca. Precisava atender os demais.
_ Eu conheço esta mulher de onde!? Matutava o rapaz.
São interessantes os caminhos das pessoas. Motivações constantemente variam dentro da esfera diária de convívio dos seres. Há fatos que só um bom "olheiro" pode perceber.
Nem Gustavo, nem Cátia, nem a veterinária ou Cardoso têm ideia, mas já se cruzaram outras vezes.
O destino os coloca frente a frente, de uma tal forma, que só lhes resta um opção. A escolha.
Vejamos agora onde se "encaixam" os personagens em questão.
No caso do cãozinho, por exemplo: Este, e a veterinária já se haviam cruzado pelas ruas da cidade. E para tristeza de Cardoso,era sempre ignorado. A vida de vadio pode ter lá seus encantos, porém o vira-lata não achava de todo ruim ter um lar.Cardoso tentava com frequência este estratagema.Sempre que podia, preparava aquele"olhar". Se não der agora, quem sabe outra hora...Mas desta vez ele tinha a certeza que resultara. Era o seu dia de sorte, tinha de aproveitar! Um cão não precisa de pensar com palavras para ter a certeza de que será bem tratado por alguém que o acolhe, mas duvida sempre da sorte que tem, porque sabe que não se pode confiar nunca totalmente nos humanos. Ele confiou nela logo que ela pegou nele ao colo. Ela não me quer, foi por impulso que o fez, mas o que me interessa isso, se sei que nunca mais terá coragem de me abandonar! Era o que ele pensava enquanto esperava à porta do café pela sua recente dona. Cátia estava virada para ele, do outro lado do vidro, sempre a fixá-lo, como se tivesse medo que ele desaparecesse de repente. Isso não aconteceu.
Cátia termina seu almoço e paga o devido, agradece e se retira sem se aperceber do atendente.
Uma vez do lado fora, pega o cãozinho nos braços novamente, e se dirige para o carro e ao sentar
 pegou nele ao colo e beijou-o no focinho. O rabo dele abanava tanto, que sentiu vergonha de estar tão excitado, mas não podia evitar, estava mesmo fora de si, nunca nenhuma mulher lhe tinha beijado o focinho!
De repente, sem qualquer razão aparente a moça sente uma alegria imensa no coração.
 _ Que vira-lata lindo este!- Murmura mais para si mesma, que o motorista mal ouviu.
Beija-o como se finalmente o aceitasse como "seu".
Entra no carro e vai embora.
Hás-de pensar ,caro leitor. Só isso? Onde está a coincidência do sujeito do restaurante?
Pois eu lhe respondo de pronto, que sou destino, e não manipulador de vidas.
Tudo está a disposição de todos, neste mundo e ver, é questão crucial, para se aprender.
E no caso de Gustavo e Cátia ambos estavam por demais embrenhados em suas prioridades para repararem um no outro.
Foram colegas de escola na adolescência, e mal se cumprimentava na época.
Não foi hoje o "reconhecimento", pelo que se pode entender.
Em dois anos, eles se encontrarão de novo, na Itália. E mais uma vez, terão a opção da escolha...
Guerreira/ PaulaJ/AA/ BA

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