quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cardoso Na Itália...Conto Partilhado

Lembram de mim?
Sei que acontecem muitas histórias todos os dias por aqui.
Porém ,achei por bem voltar e narrar uma viagem que fiz com minha dona até Itália.
sou o Cardoso, o cão adotado por Cátia.
Ha lembrou então....Se sou feliz? Muito feliz e amado. Por vezes nem acredito que sou eu. Penso que morri e moro no céu agora. E Cátia é a melhor mãe do mundo. Não me falta nada. Ainda sou solteiro,acreditam?! Como pensar em casar, com minha Cátia sempre tão dependente. Não, melhor não abandona-la por enquanto.
É verdade que tentei algumas vezes arranjar-lhe um bom partido. Sempre que vamos ao parque eu namoro.
e por minha vez fico de olho a ver se tem algum macho disponível para ela. Já nos meti em cada confusão! de deitar no chão, e rir por algum tempo. Hehehe...
Lembro que uma vez vi na rua, um rapaz muito interessante. Digo isso, porque ele estava carregando três cadelas lindíssimas,quase surtei naquela hora.
Minha dona, distraída como sempre não se apercebeu do gajo. Eu sem demora, dei um puxão na corrente e me enrrosquei com aquelas cachorrinhas lindas. Foi hilário... Demoraram quase dez minutos para desenrolar as correntes todas. Aiii que coisa difícil estas fêmeas humanas, que custava dar uma chance ao moço! Não deu em nada. só rolou um pedido de desculpas e uma leve repreensão, e seguiram seus caminhos.
 Ave maria! se tivesse dado  certo, eu ia ficar muito bem com aquelas tres beldades.
Mas, voltando a nossa viagem turística. Cátia cogitara a ideia de me hospedar nalgum hotel enquanto fosse de férias. Porém, achou que ia ficar solitária e não seria tão divertido sem seu cachorro lindo do coração.
Hehehe!
Não sei o que lhe passa pela cabeça, mas de cada vez que saia sem mim trazia um homem diferente para a cama! No primeiro que ela trouxe dei-lhe uma ferradela no rabo, mesmo quando estava por cima da minha dona, que abuso! Ao segundo, comi-lhe a dentadura e depois enfiei-me debaixo do armário, onde ele nem me via nem me conseguia chegar, e ainda bem, senão tinha-me matado! Ao terceiro, mijei-lhe a roupa toda, mesmo antes de se vestir para ir embora! E o seguinte já nem o deixei entrar no quarto, agarrei-me ferozmente às calças dele e andei a balouçar no ar durante uns minutos até ele desistir da rapariga!
Eu adoro a fêmea que se apelida de minha dona. Mas a verdade é que ela não pensa em mim. Aproveita-se de qualquer macho, ou melhor, aproveitava-se porque eu não deixo mais, e sempre que vamos ao parque, não leva para o hotel macho que passeie cadelas. Eu tenho sentimentos, instintos, desejos. Até tenho um nome. Se não tenho cadela, tenho fêmea com quem durmo todas as noites.
E na realidade não preciso das cadelas para nada, sou muito sensual, só de as imaginar debaixo de mim já me venho! Primeiro começa o coração a bater rápido demais, depois os olhos saem-me das órbitas, todo o corpo palpita, parece que vou rebentar e então rebento mesmo! Mas como não sai tudo de uma vez demoro um quarto de hora, mais coisa menos coisa, para acabar de chapinhar o chão debaixo de mim. Depois fico sem força, as patas de trás escorregam mesmo todas para trás e tento erguer-me com as da frente, mas não vale a pena o esforço, não me movo mesmo! Ainda bem que isto só me acontece mais ao menos uma vez por mês, porque me transtorna tanto que ando o resto da semana completamente nas nuvens! É só por isso que a desculpo, porque ela não tem a minha imaginação e precisa mesmo dos homens debaixo dela para ficar tão aluada como eu fico nas semanas em que me excito só de imaginar a cadela dos meus sonhos!
Voltando novamente à nossa viagem turística, ainda bem que a minha caríssima dona me trouxe. Eu adoro a língua italiana! Já o ladrar italiano não me encanta por demais.
No dia da chegada, depois de aeroportos e mais transportes anexos para poisar no local que seria a nossa casa, fomos à Praça de Espanha. Cátia tinha aquela ideia metida na cabeça desde que vira aquelas coisas de moda passar na TV.
Depois de olhadelas no mapa e muitas perguntas aos transeuntes passantes pressentia-se já o lugar mítico. O coração dela era quase audível, até parecia o meu ao pensar nas cadelas. Depois de sairmos de uma das vias laterais, desembocamos junto a um pequeno chafariz e a minha dona, num ar de decepção, exclamou:
- Ah... mas é isto a Praça de Espanha?
-Sì signorina. Respondeu um jovem, que estava guiando um grupo próximo.
Cátia já havia estado aqui outras vezes em trabalho. Sempre pensava que um dia viria somente para passear. Sentir a magia que sempre se criava para os ensaios fotográficos.
Agora percebia tudo numa perspectiva diferente. Estávamos numa Babel de idiomas. Era bem confuso, com pessoas por todo lado. Sacando suas poderosas maquinas fotográficas.
-Ainda bem que manhã vamos para o campo pensava ela.
Este sim, era lindo. Nunca vi tanto verde...
Mas não, o campo não era lindo, nem sequer assim tão verde, tivemos de ir mesmo para o Norte para começar a ver montanhas estranhas, a pique para o céu, e depois os Alpes, tanta imponência! Agora sim, isto parecia o Paraíso! Dormia aconchegado nela, tinha comida à descrição, logo que acordava, passeávamos o dia inteiro por caminhos e caminhecos, pegava em mim ao colo se aparecia outro cão, mimava-me e falava comigo como se eu fosse o maior amigo dela. E sou!
Um dia acordei a saber falar, disse o nome dela, como pensou que estava a sonhar não se apercebeu que tinha sido eu a dizê-lo. Fiquei espantado comigo próprio, eu, um cão, a falar?! O que seria de mim se descobrirem-me? Programas de televisão, cabeçalho dos jornais, entrevistas em todas as revistas, experiências em laboratório, o circo mais rico do mundo a comprar-me como artista principal, tudo isso me passou pela cabeça, não, não quero falar!
Mas não resisti. Tinha de confirmar se de facto estava a falar como os humanos. Saí da cama com cuidado para não acordar a fêmea que se julgava minha dona e fui à varanda. "Olá gente! Estão a ouvir-me?" gritei para os humanos que passavam na rua. Alguns viraram a cabeça para cima, tentando localizar de onde vinha a voz. -Ouviram-me, mas será que me entenderam?". Nesse momento Cátia acordou.
-Que foi vira-lata? Perguntou sua dona
Quer sair já seu danado. Se vestiu e saiu logo antes que o cão acordasse a vila inteira.
Cátia se perguntava da razão daquela agitação toda.
Quando saíram a rua Cardoso na sua euforia, fez Catia dar um tremendo encontrão num passante que quase caiu por cima dele.Muito contrafeita ela pediu desculpas. explicando que seu cão estava com alguma emergência.
O rapaz retruca logo.- Eu é que peço desculpas, nem vi de onde você apareceu. Espero não te-la machucado.
Porém Cátia já ia longe, quase que sendo arrastada.-Meu Deus será dor de barriga?!
Cachorro doido.
-Quero correr , quero correr até aquela montanha. Pensava Cardoso -Ande preguiçosa, dorminhoca. Preciso viver perigosamente hoje.
E Cátia só parou quando subiram a encosta toda. Agora sentada arquejante na sombra de uma oliveira aos poucos vai percebendo a visão do vale lá em baixo, curiosamente o cão sentou-se a seu lado apreciando o cenário também. E Cátia nem tinha penteado seus cabelos, nem tomado café da manhã.  Começou a rir daquela situação toda mas ria muito, agarrada ao cão. -Seu maluco querido!
E foi neste clima de alegria que fizeram o caminho de volta a vila.
O café da manhã havia acabado com certeza. Agora era se satisfazer com uma fruta e esperar o almoço.
-Ave Maria perdi minha chave vira-lata!
No caminho ela encontra o rapaz que esbarrou na saída  Ele se posta a sua frente e pergunta com bom humor. -Mais calma agora moça?
Ela risonha ainda responde sem pensar.
-Sim, me desculpe novamente por favor. Não sei o que deu em meu cão. Este danado praticamente me arrastou até aquele monte. Não lembro de um dia ter corrido tanto.
-Realmente, vocês pareciam dois maratonistas. Sorrindo também o rapaz tira do bolso umas chaves e diz -São suas estas chaves, suponho, você deixou cair quando esbarramos.
Cátia agradece aliviada. -Ainda bem que não perdi na floresta.
Cardoso se agita enrolando os dois na sua corrente.-Conheço este sujeito.Conheço este cheiro.
Pensava o cão matreiro.
Enquanto conversavam os dois achavam engraçado suas artimanhas caninas.
-Deixe olhar de perto esta "ferinha". Ele parece inquieto mesmo, eu também tenho uma vira-lata.
o rapaz se abaixou para observar o cão e um reconhecimento mútuo os identifica.-Custódio! E olhando para Cátia o rapaz pergunta:-Onde você o achou? Aiii... me desculpe, devo estar doido. Deixe apresentar-me formalmente. Sou Gustavo Correia.
A moça responde.
-Cátia Andrade, muito prazer. Agora explique, porque chama meu vira-lata de Custódio?
-Eu dei este nome a ele. Desde pequeno eu o alimentava todos os dias. Custódio sempre foi meu preferido.Um dia simplesmente ele desapareceu. Ainda o procurei pela cidade por vários dias, achei que podia estar doente ou coisa do tipo.
 -E como sabe que este é Custódio?
-Pela cicatriz que ele tem na virilha da pata direita dianteira E sem contar este olhar... é inconfundível. Heheheheh
 E Cátia insistia: _Porque não o adotou, se gostava tanto dele?
-Não podia .Quando abri meu restaurante, dormia num quartinho nos fundos e pelas normas da secretaria, não me permitiam ter animais no estabelecimento
E foi assim que a vida os colocou de novo frente a frente.
-Aquelas férias foram inesquecíveis. Conta Custodio, ou Cardoso
-O destino pode ter ajudado sim mas foi com um puxãozinho daqui, um empurrãozinho dali que eu juntei à minha volta, quem eu mais amava.
Cachorro bem esperto este.
Se se casaram, eu não sei dizer. Pergunte ao vira-lata, Custodio ou Cardoso.