sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Sonho Azul...Conto Partilhado

O pior sonho da minha vida foi ter caído na panela da canja, logo eu que sempre detestei canja! Acordei a berrar, porque não conseguia chegar à berma da panela, apesar de me esticar toda e de ganhar balanço para conseguir alcançá-la! Acordei enojada com a massinha e o cheiro nauseabundo a provocar-me vômitos impossíveis de controlar. Não sei quem se lembrou de inventar sopas com restos de animais mortos a boiarem! Semelhante a isto só a açorda alentejana, aquela do bacalhau cozido numa água lamacenta, a dar vontade de fugir e não voltar a entrar em casa de alentejanos, dos que fazem arroz de açafrão com ovos ao jantar. Eu nasci no Alentejo, mas os meus pais vieram viver para Viana antes de eu ter consciência que detestava canja e açorda aguada.

Sou eu agora, levantou o dedo a Lólinha : - O pior sonho da minha vida foi ter sido interrompido pelo cabrão do meu cão a ladrar às 2 horas da madrugada, quando eu estava a sonhar com os objectivos que me foram impostos no trabalho. Acordei assustada e fiquei mal disposta para o resto do dia. Eu nasci no Norte de Portugal mas a aprendizagem que me deram, desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos mas lá encontrei só ervas e árvores. Depois vim para a terra dos poetas, tornei-me amante do Fernandito, o tal Pessoa que me faz sonhar acordada e que me incutiu o gosto pelas tabernas e pelas punhetas de bacalhau.
A Paulinha é uma garota estranhamente divertida. Hoje veio com a novidade do sonho pesadelo ou pesadelo sonho, sei lá. Algumas pessoas tem um carácter interessantíssimo, sabes? Paulinha é daquelas portuguesas que diz tudo com todas as letras, sem ofender ninguém, claro. Pois se trata de opiniões pessoais sobre generalidades. Penso, por vezes, que quando nós os humildes mortais temos nossas dúvidas , a mocinha tem certeza absoluta.

Já a Felismina! ... Valha-me Deus! ... Cada vez que abre a boca só diz disparates. Às vezes até podia ter graça, mas aquela pose de convencida e aquele olhar vindo de cima, como se estivesse no alto da torre de Monsaraz, não conquistam ninguém; pelo menos a mim, não.
Não sei a quem é que ela puxou, mas aos pais não foi! Coitados, terem uma filha assim...
Estamos as três numa acção de formação. A Lólinha era a minha vizinha mais próxima, eu adorava-a, imitava-a em tudo e o meu desejo mais profundo era ser igual a ela! Já adulta, continuo a sentir que não há ninguém que eu gostasse mais de ser do que como ela! A Felismina, a mais nova das três, é minha irmã, mas não fala com os meus pais há três ou quatro anos, desde que lhes disse que tinha a certeza que era filha do padeiro, por causa da cor dos olhos! Eu falo com a minha mãe todas as semanas, por telefone, mas não me atrevo a ir visitá-la, tenho medo de ser castigada por usar decotes demasiado evidentes!

Minha filha, eu sei que errei ao ler o teu diário. Estavas particularmente embirrenta nesse dia e, depois de ires para a escola, li-o. Eu compreendo esse ódio de adolescente contra os pais. Mas tu também cometeste dois erros: o primeiro é o ódio contra os pais mas, ao mesmo tempo, confiar neles. Erro crasso. O segundo, foi o teu sonho transcrito para a realidade e vivido como tal. E este teve falsas consequências: é que nem mesmo depois de estarmos a viver em Viana a açorda foi essa mistela que descreves. Nunca levou bacalhau.


A sério mamãe! Disse a garota nem lembrando do aborrecimento por conta de sua mãe ler seu diário.
Aquilo fedorento não é bacalhau?! O que é então? Perguntou com um certo receio de saber a resposta.
Esse cheiro é o mundo a desfazer-se aos bocados! Cheira por todo o lado, não é só na açorda! Foi essa a resposta da mãe, e que a deixou estarrecida. Como podia ela ter uma mãe que nunca sentia o mesmo que ela e que parecia sempre estar num mundo diferente do de toda a gente? Era a açorda de bacalhau sem bacalhau, era o cheiro da açorda ser igual ao do mundo a desfazer-se, vá-se lá acreditar numa mãe destas!
Nessa noite sonhei que estava a comer açorda no céu, sentada nas nuvens, a olhar para a terra a desfazer-se cá em baixo. Mas uma açorda de camarão, acabadinha de fazer por uma mãe alentejana, que dizia a toda a gente ter nascido no Minho, numa aldeia recôndita de Castro Laboreiro.

Esses teus sonhos são as minhas açordas, filha querida. Tendo nascido em Castro Laboreiro, de uma mãe que me pariu no inverno no meio da neve, sempre desejei o calor. Por isso tenho mentido a todos dizendo que sou alentejana e nunca soube fazer uma verdadeira açorda de bacalhau. Mas penso em ti filha, tantos anos sem te ver. E agora que voltei à minha aldeia, e sem vergonha de o dizer, também te digo que agora até oiço música pop de um tal Edwyn Collins. E com o meu parco inglês acho que ele está a dizer "a garle laique iu". Quando me vens visitar filha?

Já não teve tempo de responder à mãe. Não que soubesse o que lhe responder, mas uma súbita tontura fê-la desequilibrar-se. Um tom azul celeste inundou-lhe todo o olhar, todo o pensamento, toda a acção.
O mundo ficou azul! E lá estava ela, sentada nas nuvens, com o sabor a açorda na boca, a olhar lá para baixo, a ver o mundo a desfazer-se! A música pop da mãe ainda nos ouvidos, vou ter contigo quando este sonho acabar, mas por favor não me voltes a falar de açorda! Sentiu-se flutuar, maravilhada com tantos tons de azul! Mais escuro, mais claro, finalmente estava a ter o grande sonho da sua vida, um sonho azul! Tinha de o anotar rapidamente para o contar na formação do dia seguinte! Se calhar até podia reflectir sobre ela na evidência sobre a acção de formação que tinha de colocar no relatório! É que nem todas têm sonhos azuis!


Ideia original de Paula Justiça e escrito por Paula, Betina, Augusto, Hilda e Fátima