sexta-feira, 8 de abril de 2016

Poema Infinito (293): A Flor do Desaparecimento

Imagino a graça mágica de semear versos, de tecer poemas, de adivinhar destinos, de libertar Sansão da sua força e das leis movediças da santidade. Procuro, no meio das colunas em pé, as linhas do teu corpo, o dia, a noite e o tempo mais breve com que se mede a eternidade. Alguém descreve a aparência da verdade e sorri conforme viu sorrir as estátuas sonolentas, fechadas na mudez da sua configuração de pedra. Pelos fios do luar descem duendes vestidos de melodias sombrias e param junto de um homem que se ilumina nas chamas da sua fogueira secreta. Os duendes enviam sinais que se perdem no espaço. Desta forma celebram a sua inutilidade. O poeta voa agora através da escuridão em busca da fonte de luz. O tempo por vezes para. Dentro dos templos a luz transforma-se em granito. Os deuses que erguem as mãos já não servem para nada, nem auxiliam ninguém. As almas ficam silenciosas, como os livros. A um canto, uma rosa desobediente amanhece. Dizem que é apenas um milagre vazio. A beleza é moldada em bronze. A César o que é de César. A salvação é quase eterna. A Deus o que é de Deus. Os judeus continuam a percorrer o destino das tribos perdidas. A explicação do mal de que são vítimas não tem fim. O seu rei faz os milagres com as mãos e com os pés e explica-lhes no fim o que é a verdade dividida. Toda a ilusão é trágica, a noite rouba-lhe sempre a luz. Desde que o primeiro homem desejou a primeira mulher, nasceu a lei da incerteza. Depois Deus lembrou-nos que éramos todos irmãos, mesmo aqueles que não o querem admitir. E matámo-nos uns aos outros. E lavámos as mãos. E o medo. E enfurecemo-nos. Deus disse então que toda a fúria era maldade. Que a castidade era um cinto. E que não mentia. Construiu o mundo como se fosse uma sinfonia. De boas intenções está o inferno cheio. A luz que nos guia tolda-nos a razão. Nasceu então a santidade dentro dos homens. E começaram as ressurreições. Os espíritos cobriram-se com mantos, os corpos foram possuídos por espasmos e clarões. As montanhas tocaram o céu. Os anjos ganharam asas. Os homens conquistaram o pecado. A vida ficou em silêncio, como os bichos. Apagou-se então a candeia da criação. As virgens adormeceram. Os amantes ganharam asas. Os anjos cortaram-nas. Deus colheu a luz da verdade e acendeu as estrelas na noite e incendiou os montes. E fez nascer o sol. E obrigou-nos a cantar hossanas. As dúvidas aumentaram. A realidade teceu os ciprestes no paraíso. Os homens cantaram as virtudes do seu Senhor e aceitaram a demonstração de que eram feitos de barro. Depois nasceu o mar e as ondas. A nossa angústia e as nossas emoções ficaram salgadas. O primeiro poeta morreu abraçando a primeira sombra do primeiro cipreste. Deus fechou-lhe os olhos. Iniciou-se a primeira aventura celeste. Ecce Homo botou corpo e figura. E aprendeu a ler, a escrever, a contar e a rezar. E a chorar. Fez da paciência a sua erudição. Deus transformou-se no anfitrião da sua própria ausência. O Criador criou a sua própria ilusão. Criou o tempo, o principal anjo da morte. A criação da Criação é o seu mistério mais sombrio. Nem a beleza de Deus resiste à eternidade. O movimento de tudo é o nada. O chão duro não consegue receber a semente. Os milagres apodrecem, mesmo que sejam amortalhados em véus brancos. O cântico da vida é o eterno cântico da aflição. Louvado seja o Senhor.

João Augusto Madureira Ferreira
http://jmadureira.blogs.sapo.pt/
https://www.facebook.com/joao.madureiraii
http://www.fineart-portugal.com/photo/199817/a_luz_de_paris