domingo, 3 de abril de 2016

Casa de Fazenda - do Livro Maldito Sertão

             Apoiado na espingarda, o velho já não tinha mais a força de antes: sentia como um bacurim deitado em cima do peito. Um punhado de areia soprando em seus olhos cada vez mais pesados. 
             Até que o relógio grande na cozinha badalou meia – noite. E ele deu um pulo, aconchegando a espingarda no peito como quem aninha uma criança. 
               Mas aconteceu foi nada. 
               Deu outro empurrão na cadeira e aguçou os ouvidos.
            Só ouviu a lua grande, do lado de cima, reluzindo na arma e começou a sentir, devagarinho, a esperança indo embora. 
               Agoniado, sacudiu pra bem longe aquela idéia.
               Podia pensar que tava derrotado era de jeito nenhum.
             Lembra não, da vez que a seca comeu seis meses de plantação? Que foi emboscado pelo adversário político? 
               Pois então.
              Era a voz da mulher passeando pelo vento até o seu juízo.
           Só que agora não tinha mais mulher, não tinha mais filha; nem Deus tinha mais. 
          Só a espingarda. E se quisesse ficar vivo, tinha que se valer era dela mesmo.
           Porque era velho sim senhor, mas ainda acabava com a raça daquele filho do demo. Daquela besta fera.
              Suspirou pesado. Ainda tinha tempo. 
             Se levantou da cadeira e quis tomar um café. 
            Mas se virou de repente prum uivo desesperado que rasgou o céu daquela noite tão clara. 
            O bicho. Parado em frente à varanda. 
             Apareceu em um piscar de olhos, uma cochilada de nada.
         Tava certo, finalmente. Era bicho não. Se tava em pé? Um cão ou uma raposa, ainda que fosse, não ia conseguir ficar em pé de jeito nenhum. E o uivo. Quase como uma fala de gente.  
            O velho apontou a espingarda. 
        Num deu tempo nem de piscar os olhos quando o danado correu pra escadaria da varanda, e o velho viu aquele olho vermelho tirando um fino da cara dele, sentiu o cheiro da baba prateada, escorrendo faminta no peito daquela criatura. 
            Agoniado, teve foi vontade de partir pra cima e morrer matando. De rasgar também, morder e sufocar, com mão e dente.
            Foi tanta raiva que quase não acertou o dedo no gatilho.
            Quase.
           Porque a espingarda, tinhosa que só ela, cuspiu no peito do bicho as balas derretidas no tacho de rapadura. Feitas na noite passada, com toda a baixelada da cozinha; do jeitinho que a mulher, em sonho, mandou.
          Rapazinho de novo, o velho recarregou com firmeza a arma. E disparou de novo. E de novo. 
          Com o peso das balas, o bicho voou de costas e caiu ciscando no chão, dando um uivo gemido.
          Até que se calou.
          E novamente, naquela noite de lua, só se ouvia a zuada das cigarras e o chiado das folhas do juazeiro lambendo a cancela do portão.
           Foi sentindo nas suas pernas o peso todinho da idade, que o velho desceu as escadas. 
           Agarrado no terço bento que trazia no pescoço, fez as pazes com Deus.
           E chegou perto. 
            No que sobrou do galinheiro, o galo cantou. 
        Cada uma das cruzes do quintal, agora vingadas, empurravam-se em sombras pra ver a morte do carrasco.
Márcio Benjamin in Maldito Sertão
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