sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A MOÇA DAS TRUFAS


Algumas pessoas nascem com tanta sorte e facilidades na vida, que até chega a fazer raiva. Giovana era uma dessas.
Ao chegar na cidade grande, a moça se depara com disparidades sociais, que até então nunca tinha visto em sua curta vida. Não foram poucas as vezes que pensou em arrumar a mala novamente e correr para casa, onde além do aconchego do lar havia também os pais. Mas no fundo do coração ela sabia que precisava vencer mais esse primeiro desafio, a universidade. A transição em geral é dolorida, mas se faz necessária.
Já no primeiro dia um professor de sociologia pediu para cada um, da turma, que ficasse de pé e falasse um pouco de si, apresentando-se.

Você há de convir que é vergonhoso ter orgulho da riqueza já que a miséria mata até a dignidade humana. E Giovana não era orgulhosa nem nada, alias, descobriu-se uma completa alienada.
E porque todos agem normalmente, então a moça percebe que para não parecer uma retardada mental fingia a mesma naturalidade dos demais. O que a salvava era a mãe, voltando em casa um domingo por  mês. " Eu sei da pobreza do mundo, só nunca tinha visto tão de perto".
E a mãe, mulher simples que nunca tinha saído do campo, escutava cada palavra da filha.

-Conheci a Laura, a moça das trufas. A garota é a quarta numa família de seis filhos, e veio de Bom Jesus. O pai é lavrador, a mãe trabalha de lavadeira para a gente da cidade.
Ela passou no vestibular em primeiro lugar para medicina e estuda com bolsa integral. A família não tem condição alguma de custeá-la na faculdade, e mesmo assim ela está "tentando". Ela recebe todo mês seiscentos reais, do qual tem que pagar oitenta por cento de estadia, sobrando-lhe duzentos reais para se manter. Sabe o que ela faz mamãe? Usa o dinheiro restante para fazer trufas e sai a vender pelo campus. E eu sinceramente não sei que hora ela estuda, não sei que hora ela dorme. Mas a obstinação dela é tão contagiante que acabei por fazer  um acordo com a turma. Um dia na semana, ela faz duas trufas para cada um da nossa sala inteira. E ao saber disso, outras turmas resolveram aderir. Tanto que a a moça das trufas tem que recusar pedidos, pois do contrário não teria mais tempo para os estudos.

A mãe por sua vez, escondia a emoção da filha, porque aquilo era viver, sentir, e sofrer a dor alheia, mas também trazia-lhe a alternativa, o senso cooperativo. O valor da solidariedade.
Depois de cinco anos a moça das trufas se formou, e Giovana nunca mais a viu, mas também nunca mais a esqueceu.
Guerreira Xue