sexta-feira, 11 de julho de 2014

PAPAGAIO

"Permitam-me que me apresente. Chamam-me Johnny Dente-de-Jaguar, tenho 52 anos e vivo algures nas Caraíbas. Tenho um barco no qual transporto barricas de rum e esmeraldas, e visto que considero que a minha pátria é o mar, essas cargas - convenientemente - não pagam bilhete nem pagam passagem à saída nem no porto de destino. Às vezes também carrego jovens escritores e poetas tuberculosos e estropiados de guerras coloniais em busca do bom clima para as suas convalescenças que nem sempre todos desejam, incluindo eles próprios, e que por qualquer razão misteriosa acabam por se ver desembarcados em colónias de leprosos em busca de renovação de gerações e ressabiados com a Humanidade, e em ilhas dos Índios Arahucanos, que não têm problema nenhum em comer seres humanos nos meses sem "R". E hoje tenho um encontro marcado em Port-Royal. Com um papagaio.
Entrei numa taverna que é ponto de encontro de piratas reformados, de olhos lacrimejantes devido ao fumo, que tudo o que anseiam agora é uma família de acolhimento para o Dia do Pirata, festa anual da pequena cidade de Barnegat, no Estado Americano de New Jersey.
O pirata que eu procuro é um papagaio pirata. Pergunto à velha perneta, dona da taberna, se o viu. Ela abre a boca desdentada e, soltando gotas de saliva como um navio da Royal Navy cuspia balas de canhão, aponta com o único dedo da mão esquerda. A um canto, longe da matilha de velhos lobos-do-mar, com o rosto coberto pelo chapéu sebento de sal e cera de velas que herdara do Capitão Bloody Bartolomeo, lá estava o papagaio que eu quero adoptar para me acompanhar nas minhas viagens. Estou a ficar velho e cansado e quero reformar-me e ir para o Mediterrâneo, onde praticamente não há marés, mas há muitos ricaços e políticos de esquerda bem sucedidos nas suas actividades profissionais e que gostam de brincar ao Conde de Monte Cristo.
A minha primeira desilusão foi verificar que o velho papagaio pirata, sentado à mesa, em vez de rum tinha à frente um pequeno cálice de licor de cereja. Disse-me que fazia bem à penugem, e que nos dias da sua juventude tinha uma plumagem tão exuberante que fazia inveja ao próprio Ney Mato grosso e que todas as araras da Amazônia faziam fila para ter sexo casual com ele. Depois de ir para o mar, elas queixaram-se que se calhar ele tinha uma em cada porto, o que até era verdade, e ele passou por anos de felicidade. Participou em inúmeras abordagens, dividiu incontáveis tesouros, esbanjou outras tantas riquezas, repetiu alegremente sentenças de morte e ordens para disparar sobre os mastros mais altos, onde enforcou traidores e pobres marinheiros que tinham o azar de ter mais tolerância ao álcool do que o capitão, cujo sabre de abordagem era tão afiado que cortava fatias de presunto tão finas e transparentes como radiografias. Mas o tempo foi passando e o papagaio foi envelhecendo. Foi perdendo qualidades e competências. Aos 35 anos já era velho para trabalhar no honesto negócio da pirataria, e o seu bico já não tinha força para morder dobrões para ver se o ouro era verdadeiro. Falsificou mapas de tesouro, onde o X marca mesmo o sítio, e assim ia sobrevivendo. Conseguia convencer turistas labregos e pesquisadores de tesouros crédulos e endinheirados. Foi seleccionado num casting para um filme de Hollywood, para um papel secundaríssimo, em que só dizia "Yaaarh!", cheio de clichés e olhos de vidro e pernas-de-pau. Trabalhou como segurança num bar junto à praia, onde antigas celebridades se reúnem para se ouvir em noites de recordações de sucessos discográficos. E agora, desiludido com o mundo, só deseja ir para uma loja de animais onde escute conversas de clientes e possa dizer as maiores barbaridades porque sabe que ninguém o levará a sério por ser um papagaio, e de onde possa ser resgatado a elevado preço, como César, e adoptado por uma família simpática, para cujos filhos rapazes ele possa recordar as suas aventuras. Em que ninguém vai acreditar, porque no tempo em que os animais falavam o Homem era ainda pouco mais que um animal.
JOÃO EL DESCICHADO NOBRE
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