terça-feira, 22 de setembro de 2015

- fragilidade -

Tudo parece sensível demais em alguns momentos...

-Somos tão frágeis, não concorda?- ela pediu com os olhos para que eu concordasse. Talvez não intencionalmente, mas era complicado dizer não para ela.

-Acredito que sim- eu disse. – Às vezes até demais.

Era uma manhã gelada aquela. As ruas tinham as calçadas escorregadias, os gramados de frente às casas eram monotonamente brancos... assim como a maioria das coisas: telhados, copas das árvores, capôs e tetos de carros... pessoas.

-Tanto que caímos como folhas de outono... sem hesitar, em tantas situações.

-Ou como algumas folhas no inverno...- eu acrescentei.

-Verdade- ela concordou, não se importando com o fato de eu tê-la interrompido.

Correu até uma pequena árvore em um dos jardins mais próximos. Não reconheci que planta seria aquela, mas as folhas, apesar não serem tão grandes, eram amplas e estavam cristalizadas, brilhavam se bem posicionadas. Havia do sol algum esforço em se mostrar, mas as nuvens- só de olhá-las eu sentia o frio se adensar- também o faziam.

Ela arrancou uma pequena rama e colocou diante de nós. Parei ao seu lado. Estranha e acanhadamente achei que não seria bom parar a sua frente. Aqueles olhos eram persuasivos demais- pelo menos para mim... seria bom enquanto não pudesse manter o contato com eles.

-Quão frágeis?- ela questionou enquanto com a mão esquerda ela segurou o mínimo cabo da rama e com a outra, usando os costumeiros dedos polegar e indicador, provocou um impacto. Um “peteleco” que fez com uma das folhas se desprendesse do restante. Caiu ao chão, mas não se quebrou... a neve não permitiu isso.

-Talvez não tão frágeis assim- ela sorriu, quase travessa. Havia decepção na careta que fez em seguir.

Talvez...

Peguei a folha ao chão...

-Às vezes somos frios demais também- eu disse. – Queremos tanto soar fortes, mas falhamos tanto que nos vemos longe do verdadeiro objetivo, um que parece se perder e só nosso subconsciente parece se lembrar...

Levantei a folha e fiz menção de entregá-la. Ela estendeu sua mão e a recebeu.

-Acho que isso novamente nos leva ao início de tudo- ela disse, percebi em seguida que ela havia corado... mesmo no frio.

-Somos todos frágeis demais. Basta que o ferimento seja grave...

-Ou que seja em nosso ponto fraco- ela completou. Meu coração ardeu nesse momento. Como eu era frágil...

Deixamos as folhas para traz, mas na esquina seguinte...

-Folhas de outono ou de inverno?- ela questionou quando parou. Não precisei pensar para entender.

-Eu... bem... sou de inverno- eu tremia. Meu coração... um bumbo agitado dentro do meu peito. – Claramente.

-Por que acha isso?- ela não parecia esperar por aquela resposta.

-Por eu ser persistente- eu respondi. – Já caí da rama tantas vezes. Mas sou frágil demais.. o bastante para retornar a ela, mesmo que minha mente peça distância. Posso ser frio de vez em quando, mas se ela cair... acho que eu cairia junto. Não para que eu esteja com ela e sejamos fracos juntos, mas para que eu possa estar com ela caso ela precise ficar de pé novamente. Sou frágil, quebradiço como todos, mas sou bom em me curar... Há uma mão que sempre me aproxima da rama se eu precisar. E você?

Ela era ainda mais frágil...

-Sou de outono... e ela gaguejou, raramente a via sem jeito- preciso de um pouco desse inverno para mim...

Eu estendi a mão, dessa vez parado de frente a ela.

-É, eu preciso desse outono também... Na verdade, eu amo ele... aliás, há uma folha em especial.

Ela apenas segurou minha mão e voltamos a caminhar. Foi simples demais... mas as coisas nunca mais foram as mesmas... se tornaram melhores. Ali, outra vez percebi, o quão frágeis somos... mesmo quando fortes.

~Elgarion

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(Imagem por Demon mathiel/ Deviantart)