sexta-feira, 30 de novembro de 2012

EXISTENCIA


Há dias, talvez semanas, que K buscava reminiscências de um tempo feliz, que a vida teimava em confundir na sua memória, roubando os afectos, desnudando os dias do aconchego das lembranças de um tempo sem tempo, j...á tão distante…
Toda a mudança parece trazer uma reflexão do que já foi vivido. Isso seria uma avaliação? Um balanço? Pode ser, afinal somos voláteis e inconstantes, e o que vivemos no passado ficou estático, pelo simples facto de já ter acontecido, momentos felizes ou menos bons, todos lá à espera de um olhar. E o que vem a seguir é que nos deixa com expectativas, faz o coração pulsar, o sangue correr mais rápido em nossas veias. Tem gosto de aventura. Se jogar a caminhos novos é como nascer outra vez, só que, desta feita, com meio século de experiência.
E K, sempre que ali passava, sentia o mesmo apelo premente.
As pontes haviam sido objecto de admiração ao longo da sua vida. Umas mais belas, outras apenas passagens sólidas sem beleza aparente, umas seguramente robustas, outras de aspecto mais delicado, mas particularmente convidativo. Aquela era uma ponte sóbria, bonita, inspiradora.


Nesse dia, parou ali. Não se limitou à observação deleitada, tendo-se aventurado a atravessá-la a pé. Fê-lo na harmonia de quem cumpre o seu propósito interior.


Avançou, sentindo cada passo, da mesma forma que sentia cada inspiração. Interiorizando a paisagem que se tornava parte de si como o ar que lhe oxigenava os pulmões. De olhar estendido por todo o seu redor, percorreu os últimos metros que o separavam da outra margem e entregou-se ao vinhedo, que o acolheu em tons verdejantes, amarelos dourados e vermelhos nacarados. O tempo desfez-se enquanto tocou cada folha, acariciou cada cacho de uvas e inalou o odor inebriante da terra e da vinha.Toda aquela obra maravilhosa ao alcance dos seus sentidos era um momento, apenas isso. Não iria reter-se ali à sua espera, e ele tinha consciência disso. Deixou-se levar pelo sossego da cor, pelo sussurro da aragem, pela textura da Natureza. Folhas, bagas, terra, humidade. E ele. Por um momento, fundiram-se num instante de vida. Na paz de quem ousou ultrapassar um limite. Como num acto de amor que nunca se vive igual.


Era o retorno ao intemporal!... Fechou os olhos, e sentiu o passado distante tão real quanto o presente, repleto da certeza de que tivera uma infância feliz, uma adolescência repleta de descobertas, uma juventude vivida em plenitude... Abriu os olhos, colheu um cacho enorme de uvas, sentiu o seu aroma e meteu um bago à boca.


- Sirva-se à vontade!... São mesmo boas, não são? - disse, num fio de voz, uma velha mulher curvada pela idade, mas de olhar cintilante e halo luminoso, dirigindo-lhe um enternecedor sorriso.


- Peço desculpa pelo atrevimento... foi um impulso!... São muito boas sim! E este vinhedo tão aprazível... Há muito que não me sentia tão bem! - retorquiu K surpreso pela presença de tão etérea criatura.


“Foi um impulso!”, mas K. sabia bem que não fora um impulso o que o levara àquele lugar. E a velha mulher já habitava há muitos anos a sua memória.


- Não se desculpe, por favor. As melhores coisas da vida são feitas num impulso. - proferiu a mulher.


Foi nessa altura que K conseguiu vê-la com os olhos do coração. Não era possível! Seria aquela figura a senhora sua mãe? As raríssimas fotografias que tinha visto não eram suficientes para estabelecer comparações, e a voz já não ecoava com nenhuma memória na sua mente. Razões? Não, não queria lembrar. Mas tinham-lhe garantido que sua mãe havia morrido dez anos antes!... Até há momentos, estava a conseguir conciliar-se com toda a sua existência, mas agora, com a dúvida... o que pensar? Como reagir?


“As melhores coisas são feitas num impulso… as melhores coisas são feitas num impulso….” – E, acreditando na sabedoria de uma velha mulher, balbuciou: - Mãe!
Mãe e filho se fundiram no mesmo abraço em que o frágil corpo gelatinoso e ensanguentado do recém-nascido toca o corpo exausto da mulher que acabou de dar à luz.
Bia/Guerreira/AA/ BA

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