quinta-feira, 7 de novembro de 2013

AQUELE SÁBADO

AQUELE SÁBADO
Tinha acabado de chegar em casa de um dia cansativo de trabalho. Nunca imaginei que trabalhar em um escritório fosse tão ruim assim. Colegas chatos, chefe chato, trânsito chato, rotina chata. Gráficos, planilhas, fluxo de caixa. Um saco.
Só aguento passar dez horas diárias em um cubículo cercado por paredes de plástico porque ainda não consegui um emprego melhor e, principalmente, porque estou atolado em dívidas.
Quase morro de raiva quando o despertador toca às 5h30 me lembrando de que mais um dia chato começou. Não reclamo por ter de acordar cedo de segunda à sexta-feira. É normal. Isso acontece com qualquer pessoa normal. O pior mesmo é ter de acordar cedo aos sábados também. A escravidão já acabou há muito tempo e parece que só o meu chefe ainda não sabe disso.
Tirei os sapatos e abri uma cerveja bem gelada que tinha colocado na geladeira no dia anterior. Tirei a meia e os sapatos pretos e liguei a TV. Estava quase na hora do meu futebol de sábado começar. Duque de Caxias contra Boa Vista. A série B costumava ser o ponto alto dos meus sábados.
A equipe do Duque de Caxias entrou em campo com o time completo. Nenhum reserva. O time estava muito bom por sinal, vários reforços. Eles estavam ocupando o terceiro lugar da segunda divisão e pretendiam permanecer na parte de cima da tabela até o fim do campeonato. O Boa Vista estava com alguns reservas em campo. Eles não precisavam – e nem queriam – tanto da vitória assim. Ganhar ou perder dava na mesma naquela altura do campeonato.
Dez minutos. Vinte minutos. Vinte e cinco minutos e nada. Jogo de merda. Queria ver meu Mengão jogar...
Quando eu estava prestes a desligar a televisão, meu telefone tocou.
-Oi João. Como você tá?
-Bem e você?
-Eu estou ótima, mas a vovó tá quase virando salame.
Eu odiava quando ela falava assim dos mortos, parecia que estava fazendo pouco caso deles. Acho que ninguém gostaria de ser chamado assim depois de morto, mas se não fosse isso seria como? Partiu dessa pra melhor; Está a sete palmos do chão; Bateu as botas; Virou presunto... Salame tá bom. Eu acho.
Do jeito que a Vanessa falou parecia ser sério mesmo. Ela gostava muito de brincar com essas coisas, mas sua voz estava trêmula como uma bandeira em um mastro durante um vendaval.
Fazia muito tempo já que a vovó não estava bem em todos os sentidos. Tanto físico quanto mental. Acho que essa piora se deu após a morte do meu avô no ano passado. Era noite de ano novo. Tínhamos acabado de ver os fogos na televisão e estávamos nos abraçando e desejando feliz ano novo uns para os outros. De repente, seu Genaro começou a sentir uma dor forte no peito, falta de ar, um formigamento no braço e caiu no chão. Tentamos reanimá-lo com massagem cardíaca, mas já era tarde demais. Chegou morto ao hospital. A partir de então, a vovó passou a dizer que morreria de infarto também para nunca esquecermos a noite trágica de ano novo. Nunca esqueceremos, vó. Nunca esqueceremos.
Sempre que a velha fazia aniversário, ela dizia que estava entrando em mais uma idade de Condor. Com dor aqui, com dor ali... Nem na casa dos filhos ela ia mais. Os motivos eram sempre os mesmos, ela não tinha nem a preocupação de pensar em algo novo. Era sempre a mesma coisa: “Tô muito bem não minha filha, tô com dor nas costas... e eu tenho que cuidar das plantas. Você sabe...”
A vovó já estava com 85 anos de condor. Eu, particularmente, achava que a velha estava caducando e ainda era repreendido por todos por causa disso.
Não sei se ela comentou isso com mais alguém, mas ela sempre dizia que tinha um duende bonito com um gorro bonito vivendo em seu quintal. O que mais me espantava era ela dizendo que era seu dever alimentá-lo. Afinal, ele estava cuidando muito bem de suas plantas. “Desde que ele chegou aqui em casa as plantas estão mais bonitas. Até essa roseira velha está florida! Não é uma beleza? Ele é supimpa mesmo!”
Certa vez fui visitá-la de surpresa. Quando cheguei lá, ela estava cortando maçãs e tinha acabado de fazer um suco de limão com couve para o duende ficar forte e saudável para continuar cuidando muito bem das suas plantas. Eu tentei ver o tal duende várias vezes, mas não consegui. Segundo ela, só conseguiria vê-lo quem fosse puro de coração. Deduzi que eu não o era e acho que continuo não sendo.
-O que ela tem?
-Não sei. Só sei que está no hospital. Bota uma roupa que em meia hora eu estou passando ai.
"Obrigado por me tirar de casa, vó. Pior do que esse jogo meu dia não fica."
Tomei um banho e quando sai do banheiro continuei suando por causa do calor de 40 graus do Rio de Janeiro. Coloquei uma camiseta azul clara e ela logo ficou com duas pizzas. Uma em cada manga. Minha avó teria dito que eu estava com uma pizza de calabresa e outra de muçarela.
Tomei mais uma cerveja enquanto esperava a Vanessa.
O telefone tocou de novo.
-Desce ai que eu já estou chegando.
A mini viagem até o hospital foi simplesmente silenciosa, ambos estávamos muito preocupados. A Vanessa estava tão no mundo da lua que nem tentei puxar conversa também.

-Nós estamos aqui pra ver a dona Maria. Quarto 317.
-Coloquem essa identificação. – a recepcionista jogou os papéis com força em cima do balcão – O quarto é no terceiro andar e o elevador é ali.
Não consigo entender como pessoas que lidam com outras pessoas podem ser tão grossas! Vai fazer outra coisa pra não tratar ninguém mal, caramba!
Chegamos ao quarto e quase toda a família estava lá. Uma festa só. Bolo, salgadinho, refrigerante, balões de ar. Parecia até que a velha estava completando mais um ano de condor ou que estavam comemorando sua [quase] partida.
Fiquei sentado em uma cadeira gelada no corredor, apreensivo com o que o médico iria falar. O cheiro de hospital estava me deixando cada vez mais nervoso e inquieto. Quarenta minutos depois ele apareceu e disse que a dona Maria estava mal.
Muito mal.
-O que ela tem, doutor?
-Não sabemos ao certo, mas parece que ela teve um pequeno infarto e terá de ficar em observação.
-Ela vai morrer?
-Não tenho como responder a essa pergunta, meu jovem. Só posso dizer que a sua vó não tem cuidado muito bem da saúde, mas vamos fazer o possível para que ela permaneça viva.
Ótimo. Minha vó vai morrer no mês do meu aniversário. Muito bem dona Maria, muito bem! Pelo menos não vai morrer em casa, assim dá menos trabalho...
Dois dias depois ela teve um novo infarto e morreu. Todos já esperavam esse triste final, inclusive ela.
Antes de morrer ela disse:
-Eu já sei que vou morrer, então não deixem de alimentar o José.
-Quem é esse?
-O duende que cuida do meu jardim, ora! E outra coisa, eu quero ser queimada.
-Não seria cremada, vó?
-Tanto faz.
Gina ficou encarregada de alimentar o José já que ela era “pura de coração”. Eu não concordava com essa afirmação, mas fiquei quieto já que não queria ser escolhido para alimentar o tal duende.
Resolvemos que a dona Maria não seria queimada ou cremada, mas sim, enterrada. Era mais bonito assim e fim.
    No dia do enterro o céu estava muito bonito. Minha mãe disse que estava azul bebê arroxeado. Acho que era isso mesmo. E o mais importante: Não estava calor, ou seja, eu não ficaria com pizzas.
Durante o velório, o pastor falou algumas palavras, minha tia outras muitas palavras, cantamos e oramos. E lá estava ela deitada. Com um semblante sereno como se estivesse aprovando e gostando de tudo aquilo.
Quando ela foi enterrada, o caixão fechado e o buraco tapado, entendi que a vovó nunca mais estaria ali conosco. Nunca mais eu ouviria histórias sobre sua juventude passada na roça; nunca mais ouviria sua risada gostosa; nunca mais comeria o melhor macarrão com queijo que existia...
Nunca mais.
Quando dei por mim, percebi que meu rosto estava banhado em lágrimas. Lágrimas de tristeza por ela ter partido, lágrimas de alegria por tudo que ela tinha sido, lágrimas saudosas e esperançosas. Lágrimas certas de que iriam vê-la novamente.
A vovó. A minha vovó.
Todos foram embora e nós ficamos ali. Só eu e ela.
O céu começou a escurecer. O crepúsculo já havia chegado. Gaivotas rondavam o cemitério com o seu voo magnífico e singular enquanto disputavam território com urubus famintos. Cachorros corriam uns atrás dos outros como em uma brincadeira entre crianças. Formigas ajudavam-se no carregamento de folhas até o formigueiro. Fiquei com vontade de matar algumas, mas me contive.
Quando olhei novamente em direção ao local onde a velha estava enterrada, vi que a terra que estava por cima do caixão estava se mexendo. Pensei que estivesse delirando por causa da emoção proveniente do que tinha acabado de acontecer. Eu tinha uma ligação muito especial com a vovó. Depois, a terra começou a voar e a aterrissar sobre o gramado do cemitério. Era como se alguém estivesse reabrindo o buraco do salame. Fiquei ali em pé, intrigado, observando aquilo tudo.
Quinze minutos depois o buraco tinha sido reaberto e o caixão também. Olhei para todos os lados e gritei a procura de alguém, mas não havia ninguém ali.
Vi uma mão saindo do buraco reaberto. Hesitei em me aproximar, mas criei coragem e cheguei um pouco mais perto. Logo após esse acontecimento, a mão e mais dois braços também estavam para fora da cova. Alguém estava tentando sair do buraco, como se, por algum motivo, não merecesse estar ali.
Continuei encostado em uma amendoeira esperando para ver o que iria acontecer em seguida. O céu já estava totalmente escuro e as lápidas estavam recebendo somente a iluminação lunar.
Apertei os olhos e consegui ver. Era ela! Era a minha avó!
Não tive coragem de permanecer ali. Então, me escondi atrás da amendoeira. Observei por alguns minutos a inusitada e inesperada cena que estava acontecendo a poucos metros de mim.
A velha tinha saído do buraco.
Saiu e agradeceu ao José. Deu alguns passos e se perdeu na escuridão.
Mariana Marins
Pag.26 do livro CONTOS E DESENCONTROS 
http://www.livrariacultura.com.br/Produto/LIVRO/CONTOS-E-DESENCONTROS/42111042