sábado, 3 de novembro de 2012

O ANONIMO

Cara Escritora,

tomei a liberdade de lhe escrever para cumprimenta-la por suas histórias na internet. Se são totalmente reais eu não sei, o que sinto é que, tem muita vivencia em seus contos e penso cá comigo, que o demonstra de maneira muito peculiar mesmo.
Não me identifico pessoalmente por achar sem propósito, uma vez que lhe escrevo sem qualquer outro pretexto que não seja o de desabafar. Desenterrar velhos fantasmas que ainda sangram dentro de mim. Se um dia publicares por acaso, será só mais um depoimento de alguém que provavelmente deixou de existir tem muito tempo.
Eu já vivi tanto que as vezes até esqueço minha idade mas só para constar sou de 1945. É verdade que nasci depois da grande guerra, mas de qualquer forma toda guerra é uma guerra e não importa o tamanho quando se está dentro, sem nenhuma chance de escapar. Portanto sou mais um daqueles que por acaso, nasceram nos destroços de uma era...

Elza interrompe a leitura e vai até a cozinha interpelar a copeira.
-Jandira foi você que pegou a correspondência hoje?
-Sim senhora, quando cheguei vi a caixa de correio abarrotada, levei tudo para a sua escrivaninha.
Calada Elza se dirige ao banho pois tem seu dia cheio. Queria ler a carta toda, mas agora não ia dar mesmo.

Foi uma infância difícil sem pai e num país assolado pela recessão pós guerra. Minha mãe fazia o que podia para não deixar nos faltar o pão, mas o fato é que muitas vezes dormíamos sem nada para aquecer nossos estômagos, e fomos sobrevivendo.
Com frequência pensei em fugir, mas nem tinha ideia para onde, pois o mundo estava um caos e era perigoso andar sozinho nas ruas destruídas pelos bombardeios. Havia muitos mendigos, e estavam por toda parte que se olhasse, e se estes vissem alguém com trocados ou algum pedaço de pão que seja, poderiam matar fácil. A comida era escassa, e consegui-la era uma questão de barganha.
O amor de que todos falam atualmente, cantam e exaltam, não existia,  só havia o medo e o terror e uma vontade férrea de se manter vivo.
Uma noite mamãe trouxe uma menina para casa. Ela estava descalça e com a roupa toda ensanguentada, eu achei que estava ferida, mas minha mãe muito rápida carregou-a para os fundo tirou-lhe aquela sujeira e deu-lhe roupas minhas para vestir. Ela se chamava Cristine, era muito magra e tinha os olhos tão azuis que pareciam vidros,ela não estava ferida e nem me atrevia a perguntar de quem era aquele sangue todo. Naquela noite tive que dividir a pequena ração com ela, mas não me incomodei, ela não falava, e nem sequer me olhava direito.

Elza vira a folha e está vazia...
Estranhamente comovida com o conteúdo daquela carta ela vai dormir pensando
"será que vou receber outra?"
Depois de alguns dias, Elza recebe outra carta do anônimo...

... E por diversas vezes tivemos meninas e meninos em casa, eles vinham e iam. Só quando fiquei mais velho é que compreendi o que minha mãe e outros faziam, eles trazia aquelas crianças dos lixões espalhados pela cidade, os alimentavam e tratavam suas feridas do corpo e depois os levavam para quem quisesse ou pudesse cuidar.
_Eles precisam de uma oportunidade, mesmo que seja mínima." Ela dizia.
Tínhamos regras de disciplina regimentares e mamãe fazia questão de me lembrar que, qualquer descuido era morte certa.
Não tínhamos endereço fixo e era com certa frequência que acontecia de alguém bater discretamente a porta no meio da noite, e minha mãe arrastar-me com a roupa do corpo mesmo para outro local seguro.
_ Preste atenção aos sinais meu filho, pois quando eu não estiver, você tem que seguir  em frente. Eu ficava me fazendo de firme e sério, mas por dentro tremia só de pensar em perde-la...
E um dia eu a perdi...
Éramos um bando de ratos enfiados em bueiros escuros, fedidos e molhados, uma cidade subterrânea sobre escombros de uma civilização que perdeu tudo que a sustentava, e nem posso dizer que a vida corre melhor hoje, porque a impressão que tenho é que ninguém mais se importa com qualquer coisa, desde que não lhe falte nada. Me pergunto também, se foi por conta da destruição toda que nos cercava, o fato é que apareciam grupos de resgate em qualquer canto  e estes não tinham nome, dinheiro ou família, eram só pessoas fazendo alguma coisa por outras pessoas.. Pessoas que eram destratadas, acorrentadas, pequenos eram abusados das formas mais torpes e inimagináveis possíveis. Era o ser humano levado ao status de animal irracional tendo somente a perversão como distração.
A minha mãe foi morta numa noite de nevasca quando ela e seus companheiros resgatavam pessoas que nem sequer conheciam, e foi com uma faca atirada ao peito, que ela parou de correr.
Demorei muito para chorar a ausência dela, mas quando chorei nunca mais eu parei. Fui rever  a pequena Cristine em seu  enterro. Cristine como eu, era moça já, e estava muito diferente, mas os olhos ainda eram os mesmos. Me lembro só do meu sentimento de perda, raiva e solidão ...Penso que Cristine também sentiu, pois nunca mais me abandonou a partir dai.
Queria poder terminar minha narrativa aqui, dizendo que fomos felizes e que tudo de triste e mórbido ficou no esquecimento para sempre desde então, mas a vida real não é bem assim, para alguns pode até ser, porém existem lugares onde tem gente que luta ferozmente só para ver mais um dia de sol.
Até um dia escritora.
 Att. Anonimo